Tudo sobre a produção de laranja Pêra

Produção de laranja Pêra: plantio, adubação, doenças e outros manejos da cultivar mais querida da citricultura brasileira.

A laranja Pêra é uma das laranjas mais importantes na citricultura brasileira. Dos quase 400 mil hectares de laranjas plantadas, ela sozinha representa 35% do total de árvores.

A produção de laranja Pêra estimada na safra 2020/21 equivale a um total de 87 milhões de caixas (40,8 kg cada).

Segundo dados do Fundo de Defesa da Citricultura (Fundecitrus), nos últimos 10 anos, a participação da laranja Pêra em plantios novos foi, em média, de 45%.

A busca elevada pela produção ocorre principalmente por sua dupla aptidão: atende tanto à indústria de processamento para suco quanto o mercado de consumo in natura.

Quer saber um pouco mais sobre a laranja Pêra? Confira a seguir!

Laranja Pêra, a cultivar da meia estação

A laranja Pêra Rio – ou simplesmente laranja Pêra – (Citrus sinensis L. Osbeck), assim como a Valência e a Hamlin, pertence ao grupo das laranjas doces comuns.

Isso significa que o nível de acidez dos seus frutos está em torno de 1%.

Seus frutos têm um formato elíptico, por serem um pouco mais alongados do que os de outras cultivares.

A casca dessa laranja é lisa, fina e de coloração laranja a amarelada, com polpa suculenta e de coloração alaranjada.

Apesar de pertencerem ao mesmo grupo das laranjas doces comuns, a laranja Pêra se diferencia da Hamlin e da Valência pela época de maturação de seus frutos.

Quando falamos em maturação dos frutos de laranjas, podemos separar as cultivares em quatro grupos diferentes:

  • maturação precoce;
  • precoce a meia-estação;
  • meia-estação; e
  • tardia.

Enquanto a Hamlin é uma cultivar precoce e a Valência tardia, a laranja Pêra tem maturação típica de meia-estação.

A produção da laranja Pêra fica concentrada nos meses de julho a outubro. E, além disso, representa cerca de 22% da produção de laranjas do estado de São Paulo.

Confira no gráfico a seguir:

Tempo de colheita da laranja pêra

Período de colheita por grupo de maturação e porcentagem da produção em São Paulo
(Fonte: Markstrat – CitrusBR)

A origem da cultivar

Por ser produzida em grande escala apenas no Brasil, ela é considerada uma cultivar brasileira por excelência, mas pouco se sabe de suas origens.

Apesar de sua grande importância para a citricultura, a origem da laranja Pêra permanece desconhecida.

Diferente de outras cultivares comerciais importantes, como a laranja Valência, e tangerinas Ponkan e Murcott, não foram encontrados possíveis progenitores da laranja Pêra na região de origem desta espécie (no Sudeste Asiático).

Sabe-se que o cultivo e a produção de laranja Pêra se concentravam na Baixada Fluminense e que, no início do século 20, foi trazida para o estado de São Paulo.

A partir daí, seu cultivo se popularizou por todo o cinturão citrícola brasileiro, com os nomes de Pêra Rio, Pêra Coroa ou somente Pêra.

Apesar de não se ter completa certeza, existem suspeitas de que a laranja Pêra está diretamente relacionada a cultivares da Espanha e Portugal. Isso, graças às similaridades existentes entre essas cultivares.

Clones de laranja Pêra

Quando comparada com outras cultivares, a laranja Pêra apresenta uma grande quantidade de clones selecionados e cultivados.

O fato da produção de laranja Pêra ser bem consolidado e espalhado pelo país explica o aparecimento dessa elevada quantidade de novos clones e seleções.

Esses novos clones surgem, em sua maioria, por variações que ocorrem nas gemas das plantas matrizes (borbulheiras).

A ‘Pêra IAC 2000’, ‘Pêra Bianchi’, ‘Pêra Olímpia’, ‘Pêra Mel’ e ‘Pêra Rio’ são algumas cujas borbulhas podem ser encontradas no Centro de Citricultura Sylvio Moreira (IAC).

Plantio e tratos culturais da laranja Pêra 

Plantio

A implantação do pomar de citros não varia muito de uma cultivar para outra, apresentando muitos pontos em comum.

Por exemplo, toda implantação começa bem antes do plantio propriamente dito, que deve ser antecedido da análise e correção do solo.

O planejamento do plantio e a diversificação das cultivares no pomar é essencial para garantir a produção durante o ano todo.

Recomenda-se que cerca de 30% da área de plantio dos pomares de citros esteja destinada à produção de laranja Pêra (meia-estação). 

Em seguida, a correta escolha do porta-enxerto e aquisição de mudas de qualidade são pontos essenciais para a longevidade do pomar.

Para o plantio em si, é importante nos atentarmos ao espaçamento utilizado.

Como o porte da laranjeira Pêra é médio, um espaçamento interessante para essa cultivar é de 6,0 m x 4,0 m.

Mas tudo isso pode variar de acordo com o porta-enxerto e região de cultivo. Portanto, devemos estar sempre atentos e planejar com cautela.

Adubação

Via de regra, a adubação dos pomares cítricos pode ser feita de duas principais formas: via solo ou foliar

A escolha de uma técnica em detrimento da outra depende do nutriente que se deseja fornecer às plantas e do estágio fenológico da planta.

Vale ressaltar que os nutrientes apresentam particularidades, fazendo com que sejam melhor aproveitados pelas plantas por uma via ou outra.

Os nutrientes devem ser fornecidos às plantas nas épocas de maiores exigências da planta (fases críticas).

No estado de São Paulo, isso ocorre de setembro a março e coincide com a estação das chuvas, outro fator essencial para o sucesso da adubação.

Confira aqui 3 dicas para ser ainda mais eficiente na adubação em citros!

Particularidades da produção de laranja Pêra

A produção de laranja Pêra apresenta algumas restrições, principalmente relacionadas ao uso de alguns porta-enxertos e também ao vírus da tristeza dos citros.

Incompatibilidade de enxertia

Apesar de muito desejada e cultivada, a laranja Pêra apresenta incompatibilidade com uma série de porta-enxertos existentes, dentre eles podemos citar:

  • o limão ‘Rugoso da Flórida’ e ‘Volkameriano’;
  • as tangerinas ‘Sunki tropical’ e ‘Sunki maravilha’;
  • o Poncirus trifoliata;
  • alguns citrumelos e citrangeiros.

Atualmente, para que seja possível trabalharmos com esses porta-enxertos, é necessária a utilização de um interenxerto como a laranja Hamlin ou limoeiro cravo, por exemplo.

Além disso, a diversificação dos porta-enxertos tem sido amplamente estudada, buscando novos porta-enxertos para a citricultura.

Suscetibilidade ao vírus da tristeza

São diversas as doenças que acometem os citros. A laranja Pêra, em especial, apresenta elevada suscetibilidade ao vírus da tristeza dos citros.

Esse vírus se desenvolve nos tecidos da planta prejudicando seu metabolismo, reduzindo o vigor, crescimento, tamanho de folhas e frutos.

O principal sintoma que ocorre nas plantas doentes é chamado canelura ou ‘pitting’, como na figura a seguir:

Foto de pé de laranja com tristeza do citrus

Sintoma clássico do vírus da tristeza dos citros em cultivares suscetíveis
(Fonte: M. Manners,FSC)

Para reduzir sua incidência, o ideal é manter o Pulgão preto (Toxoptera citricidus), inseto transmissor, controlado.

Além disso, a obtenção e plantio de mudas pré-imunizadas, ou seja, que foram inoculadas com estirpes fracas do vírus, pode ajudar.

Conclusão

A produção de laranja Pêra tem papel fundamental na citricultura brasileira graças à versatilidade dessa cultivar.

Apesar de não sabermos ao certo sua origem, hoje é a cultivar mais plantada no Brasil.

Alguns cuidados têm de ser tomados na implantação do pomar, especialmente na busca por mudas de qualidade.

É preciso estarmos sempre atentos à ocorrência do vírus da tristeza do citros e de seu vetor em nossos pomares de laranja Pêra.

>> Leia mais:

Florada do citros: 3 manejos essenciais para garantir uma boa produção

E você, como vai a sua produção de laranja Pêra? Conte pra gente nos comentários mais detalhes sobre seus pomares!

Como ter uma produção de mudas cítricas de boa qualidade

Produção de mudas cítricas: Saiba mais sobre as etapas de produção, instalação do viveiro, normas e legislações envolvidas.

A muda cítrica se tornou o principal insumo da citricultura atual. Sua qualidade pode garantir o sucesso da implantação e a longevidade dos pomares comerciais.

Mas o processo de produção envolve várias etapas, além de precisar seguir legislações específicas.

Neste artigo vou explicar melhor o que envolve a produção de mudas cítricas e outras informações que você precisa saber antes de implantar seu pomar. Confira a seguir!

Produção de mudas cítricas

A história da citricultura brasileira iniciou nos tempos em que o país ainda era colônia portuguesa. Os primeiros pomares cítricos em São Paulo e Bahia remontam ao século 16, nos anos de 1540 e 1567.

Nessa época, a produção das mudas cítricas era baseada apenas no uso de sementes, o que dava origem aos chamados pés-francos – plantas grandes, muitas vezes repletas de espinhos e que demoravam anos para produzir.

O cenário começou a mudar no início do século 20, quando foram percebidas vantagens do uso da propagação vegetativa através da técnica de enxertia. Isso possibilitou a formação de pomares mais homogêneos, com produção precoce, plantas menores e menos espinhos. 

A seleção e o uso de diferentes copas e porta-enxertos no decorrer dos anos seguintes possibilitou aos citricultores perceber as diferentes características e adaptabilidade de cada um deles.

produção de mudas cítricas

Uniformidade dos pomares de citros graças ao uso da propagação vegetativa
(Fonte: Fundecitrus)

Assim, a técnica de enxertia de borbulhas de variedades comerciais em porta-enxertos selecionados se consolidou como o principal método para a multiplicação de citros.

Mas, as borbulhas e porta-enxertos podem atuar como fonte de disseminação de patógenos como fungos, vírus, bactérias e nematóides causadores de doenças nos citros.

Para evitar que isso aconteça, algumas medidas de prevenção precisaram ser tomadas. Uso de substrato no lugar da terra e a produção das matrizes e mudas em ambiente protegido foram algumas delas.

Para garantir a fidelidade sanitária e genética, além de padronizar a produção de mudas cítricas, leis e normas foram implantadas no país e nos estados produtores. Vou explicar melhor sobre isso a seguir:

Leis e normas na produção de mudas cítricas

Como sabemos, a legislação pode ser algo complicado e burocrático, mas serve de norte para elaborar o projeto técnico do viveiro.

Devemos estar atentos às exigências para que, nas auditorias, os viveiros de produção de mudas cítricas sejam aprovados.

Dessa forma, todo viveiro deve ser inscrito junto ao Registro Nacional de Sementes e Mudas (RENASEM) do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa).

RENASEM

(Fonte: RENASEM)

As cultivares utilizadas devem ser habilitadas no Registro Nacional de Cultivares (RNC).

Outro ponto importante diz respeito à Instrução Normativa 48 do Mapa, que estabelece normas de produção e comercialização de material propagativo de citros.

Tudo isso é válido nacionalmente. Além disso, outras normas podem existir de acordo com o estado onde o viveiro será instalado.

Em São Paulo, por exemplo, além da inscrição no Mapa, produtor, viveiro e borbulheiras (matrizes) precisam ser cadastrados na Coordenadoria de Defesa Agropecuária da Secretaria de Agricultura e Abastecimento (CDA).

Esse cadastro garante informações de fiscalização, infraestrutura e a emissão da Guia de Permissão de Trânsito Vegetal (PTV), que permite a comercialização das mudas.

Isso precisa ser realizado por um Engenheiro Agrônomo vinculado ao CREA e credenciado no Mapa.

Durante o processo de produção de mudas cítricas, três laudos precisam ser emitidos: após a semeadura, após a enxertia e antes da liberação das mudas.

Os lotes de mudas produzidas devem ser testados em laboratórios especializados, reconhecidos pelo Mapa e CDA, para diversas doenças como CVC, Phytophthora, HLB e nematóides.

Isso tudo para garantir a origem e qualidade do material vegetal.

Sei que é muito para entender de uma vez. Mas, aos que pretendem iniciar um viveiro de produção de mudas cítricas, todas as informações podem ser encontradas nos sites oficiais.

Leis, decretos, instruções e portarias referentes à produção de mudas cítricas

Leis, decretos, instruções e portarias referentes à produção de mudas cítricas
(Fonte: RENASEM, Mapa, RNC e CDA)

Instalação do viveiro

Para a instalação do viveiro de mudas cítricas precisamos nos atentar a dois principais aspectos: o local e a infraestrutura necessária.

Local

Quanto ao local de instalação do viveiro, alguns cuidados básicos devem ser tomados com relação ao relevo e solo, que devem favorecer a drenagem da água das chuvas.

É importante conhecer os aspectos climáticos da região como a temperatura e precipitação média e sua distribuição no ano. Isso influenciará no dimensionamento do projeto quanto à necessidade de instalação de telas termorefletoras, ventiladores ou ainda cortinas laterais.

Por último, mas não menos importante, a portaria Nº 5 da CDA (SP) recomenda a instalação de viveiros no mínimo a 20 m de distância de pomares cítricas ou até a 1.200 m caso existam relatos de cancro cítrico.

Existem também regulamentações quanto ao uso da murta (Murraya paniculata) como quebra-vento, que pode servir como hospedeiro alternativo a doenças dos citros.

Infraestrutura

A mesma portaria define os requisitos mínimos que as estufas devem apresentar para serem utilizadas nos viveiros.

Podemos destacar alguns deles:

  • uso obrigatório de tela antiafídica (malha 0,87 mm x 0,30 mm);
  • cobertura plástica impermeável;
  • antecâmara com mínimo de 4 m² contendo pedilúvio e recipientes para desinfecção das mãos;
  • uso preferencialmente de pavimentos de concreto;
  • bancadas elevadas a no mínimo 40 cm;
  • ambiente cercado por muretas para contenção de água externa.

Algumas diferenças podem ser encontradas entre a legislação das estufas de mudas e das borbulheiras – e tudo isso está descrito nos sites oficiais.

Etapas da produção de mudas cítricas

Produção dos porta-enxertos

A produção de porta-enxertos de citros é realizada através da sementes dos porta-enxertos em tubetes com substrato.

Vale lembrar que as sementes de citros apresentam algumas peculiaridades importantíssimas.

Além de serem poliembriônicas, ou seja, apresentarem mais de um embrião por semente, alguns desses embriões são apomíticos.

Embriões apomíticos são formados a partir do tecido nucelar da planta-mãe e, portanto, são clones da planta matriz.

Por isso as matrizes de porta-enxertos que fornecem os frutos para esse processo precisam ser registradas.

Nos tubetes, os embriões apomíticos são mantidos e os demais são retirados e, ao atingir o porte adequado, são transplantado para as sacolas plásticas convencionais.

porta-enxertos

Porta-enxertos semeados em tubetes no início de seu desenvolvimento
(Fonte: Marcelo B. Santoro)

Produção, coleta e processamento dos enxertos

Em citros, o enxerto é formado por uma única gema e, por isso, recebe o nome de borbulha. As plantas matrizes registradas que produzem as borbulhas são chamadas borbulheiras.

Para obtenção da borbulha, o viveirista pode optar por manter em sua propriedade borbulheiras destinadas exclusivamente para a produção de enxertos ou pode comprá-las de outros viveiristas.

As borbulheiras devem ser mantidas em estufas separadas das demais mudas, sendo de uso exclusivo para essa finalidade.

As borbulhas, após colhidas, devem ser utilizadas imediatamente, porém, suportam o armazenamento por até 2 meses, desde que mantidas em sacos plásticos e refrigeradas (5℃ – 10℃).

produção de mudas cítricas

Banco de matrizes de cultivares copa de citros para formação de borbulheiras
(Fonte: O Agronômico)

Produção da muda cítrica: enxertia

A época apropriada para a realização da enxertia é definida pelo porta-enxerto.

O “ponto de enxertia” ocorre cerca de 3 a 5 meses do transplantio dos porta-enxertos, quando estes estão com 0,5 mm a 0,8 mm de diâmetro de caule.

Para a produção de mudas cítricas, a técnica de enxertia mais adequada, e utilizada, é a borbulhia do tipo “T” invertido.

Esse nome diz respeito ao tipo de corte, ou incisão, feito no porta-enxerto para inserção da borbulha, como no esquema a seguir:

Esquema representativo da borbulhia do tipo “T” invertido

Esquema representativo da borbulhia do tipo “T” invertido. Abertura do ‘T’ invertido, retirada da borbulha, inserção e amarração
(Fonte: Fachinello et al., 2005)

Uma vez inserida, a borbulha deve ser amarrada com um fitilho plástico que poderá ser retirado 15 dias após a enxertia ou após a fixação do enxerto.

A parte aérea do porta-enxerto acima da borbulha deve ser “enrolada”, como nas fotos a seguir, para estimular a brotação da borbulha.

E poderá ser cortada 50 dias após a enxertia ou quando o enxerto atingir de 20 cm a 30 cm, o que ocorrer primeiro.

produção de mudas cítricas

Mudas recém-enxertadas (esq.) e mudas com brotação da borbulha (dir.) após a enxertia
(Fonte: Marcelo B. Santoro)

Muda pronta para a comercialização

Muda pronta para a comercialização
(Fonte: Teófilo Citros)

Conclusão

A muda cítrica é considerada o insumo mais importante da citricultura hoje. Portanto, garantir mudas de qualidade é garantir o sucesso da implantação dos pomares.

A produção de mudas cítricas no Brasil e principalmente no Estado de São Paulo é cercada de regras e legislações que garantem a qualidade delas.

O processo de produção de mudas cítricas não é simples, porém, quando feito corretamente, vemos o bom resultado no campo!

Você já sabia tudo sobre a produção de mudas cítricas? Quais as principais combinações que você tem em sua lavoura? Conta pra gente nos comentários!

Importância dos porta-enxertos na citricultura

Porta-enxertos na citricultura: as mudas cítricas, a importância dos porta-enxertos e como eles influenciam no manejo do pomar.

Segundos dados recentes do Fundo de Defesa da Citricultura, a estimativa da safra de laranjas (2020/21) para o cinturão citrícola de São Paulo, Sudeste e Triângulo Mineiro é de 287,76 milhões de caixas de 40,8 kg.

O sucesso da citricultura brasileira se deve ao excelente trabalho realizado na produção de mudas, manejo e condução dos pomares cítricos.

Dentre as características mais importantes para acertar na produção de citros, a escolha e uso correto dos porta-enxertos com certeza merecem destaque.

Quer entender um pouco mais sobre os porta-enxertos na citricultura? Confira comigo a seguir!

As mudas cítricas

A implantação dos pomares cítricos é uma das fases mais críticas da cultura, fazendo das mudas o insumo mais importante.

Por ser um cultivo perene, as plantas podem permanecer em campo por longos períodos de tempo, entre 15 e 20 anos.

Assim, as mudas cítricas são produzidas graças à técnica de enxertia, mais especificamente a borbulhia do tipo “T invertido” que permite a apresentação de duas partes: o enxerto e o porta-enxerto.

O enxerto é a parte que formará a copa da planta, ou seja, a parte que nós vemos: as folhas e os ramos que formarão os frutos.

Já o porta-enxerto formará o sistema radicular da planta que nós não vemos e fica sob o solo.

Graças a essa técnica da enxertia, essas duas partes de plantas se unem e se desenvolvem como uma.

porta-enxertos na citricultura

Diferentes partes de uma muda cítrica
(Fonte: Imagem de Teófilo Citrus)

Com isso, as plantas cítricas conseguem atender as exigências do mercado consumidor, ao mesmo tempo em que o porta-enxerto proporciona melhoras nesse desempenho.

Como as mudas são a base da citricultura, é necessário que haja garantia genética e que estejam livres de pragas e doenças.

Por isso, estados como São Paulo e o Rio Grande do Sul estabeleceram normas e procedimentos para produção de mudas cítricas.

Aliado ao acompanhamento de um(a) engenheiro(a) agrônomo(a), isso garante a certificação das mudas quanto à origem e qualidade e o não cumprimento dessa legislação inviabiliza a comercialização deste material.

Importância e características dos porta-enxertos

Os porta-enxertos na citricultura são uma ferramenta essencial para o manejo dos pomares.

Existe uma quantidade considerável de diferentes variedades e cultivares de porta-enxertos que podem ser utilizados na citricultura.

Cada uma deles apresentam diferentes características, as quais podem influenciar e alterar positivamente as características da copa.

Mudanças no vigor, na produtividade, na precocidade de produção, na absorção de nutrientes, na água e nos aspectos pós-colheita, podem, principalmente, conferir tolerância ou resistência a fatores bióticos e abióticos.

Porta-enxertos na citricultura: fatores bióticos e abióticos

Quando pensamos em fatores abióticos estamos falando a respeito da tolerância à salinidade do solo, à resistência à seca ou até mesmo a geadas.

São fatores importantes para serem pensados principalmente em regiões mais frias ou de cultivos no seco (sem irrigação).

porta-enxertos na citricultura

Porta-enxertos usados na citricultura e suas características perante à geada, seca e encharcamento do solo
(Fonte: Embrapa, 2009)

Já os fatores bióticos estão relacionados à susceptibilidade dos porta-enxertos a doenças dos citros – que são muitas!

Características de resistência

Características de resistência dos porta-enxertos de citros quanto a algumas das principais doenças
(Fonte: Embrapa, 2009)

Vigor e precocidade de produção

Quando pensamos em vigor estamos pensando na velocidade de crescimento da copa e desenvolvimento vegetativo das plantas.

Porta-enxertos vigorosos são aqueles cuja planta se desenvolve e estabiliza mais rapidamente no campo.

E isso é importante, pois quando jovens, as mudas cítricas são mais sensíveis às intempéries do campo: como as pragas, as doenças e a seca.

Além disso, alguns porta-enxertos cítricos apresentam característica ananicante, isso significa que plantas enxertadas sobre eles terão um tamanho menor que o normal.

Um exemplo clássico de porta-enxerto ananicante na citricultura é o ‘Trifoliata Flying Dragon’.

Contar com plantas menores em nossos pomares favorece os manejos fitossanitários e a colheita, além de aumentar a produtividade.

Produtividade (t/ha) de lima ácida Tahiti em diferentes níveis de adensamento

Produtividade (t/ha) de lima ácida Tahiti em diferentes níveis de adensamento
(Fonte: Donadio & Stuchi, 2001)

O aumento da produtividade se dá graças à possibilidade do adensamento dos plantios, ou seja, de ter mais plantas por área.

Efeito dos porta-enxertos na qualidade dos frutos

O tamanho e peso dos frutos, cor e espessura da casca, conteúdo de suco, teor de sólidos solúveis, etc., são aspectos intimamente relacionados às variedades.

Entretanto, apesar de ainda não sabermos ao certo como isso ocorre nas plantas, sabemos que os porta-enxertos alteram as características dos frutos.

Por isso, é importante pensar também no destino de nossa produção na escolha dos porta-enxertos.

O Poncirus trifoliata, por exemplo, garante a produção de frutos mais doces e com acidez moderada, porém, sua produção total por planta é inferior.

Ao passo que os limoeiros ‘cravo’ e ‘rugoso’ são excelentes extratores de água do solo e formam frutos de casca grossa e com menor concentração de açúcares.

Essas características conferem aos frutos melhor aptidão para diferentes mercados: o processamento (indústria) ou a venda in natura (varejo).

Dessa forma, citricultores que produzem para indústria preferem limoeiros como porta-enxertos e os que produzem para o varejo preferem o Trifoliata.

Porta-enxertos na citricultura: incompatibilidade

Apesar de ser uma excelente ferramenta, a técnica da enxertia apresenta algumas limitações.

O sucesso dessa técnica depende, sobretudo, da proximidade genética entre os materiais e outros fatores fisiológicos.

A principal delas está relacionada às diferentes combinações de porta-enxerto e copa, em outras palavras, algumas combinações não são viáveis.

Quando as características do porta-enxerto e do enxerto não permitem que se desenvolvam como um, dizemos que são incompatíveis.

porta-enxertos na citricultura

Principais incompatibilidades relatadas na citricultura
(Fonte: Embrapa, 2008)

Uma alternativa para contornar a incompatibilidade é a realização da técnica da interenxertia.

Essa técnica permite que cultivares incompatíveis sejam utilizadas juntas com auxílio de um intermediário (o interenxerto) que atua como um filtro.

Interenxertia

Interenxertia de laranja pêra, limoeiro cravo e citrumelo swingle
(Fonte: Denilson de Oliveira Guilherme, 2013)

Na imagem, temos o citrumelo ‘swingle’, sendo utilizado como porta-enxerto para a laranjeira ‘pêra’, mas para que isso aconteça, repare que o limão ‘cravo’ atua como uma espécie de filtro entre os dois.

Portanto, temos uma muda cujo enxerto é laranja pêra, o porta-enxerto é citrumelo swingle e o limoeiro cravo é o interenxerto.

Tenha em mente que é uma alternativa que aumenta o preço da muda e necessita de mão de obra especializada.

Tendo visto tudo isso, é importante lembrar que não existe um porta-enxerto perfeito, todos apresentam alguns pontos positivos e negativos.

Veja o limoeiro cravo (Citrus limonia Osbeck.), por exemplo: é um dos porta-enxertos mais utilizados na citricultura brasileira, isso graças à sua grande resistência a secas e pelo vigor de crescimento que promove na copa.

Porém, é suscetível ao exocorte e à morte súbita dos citros (MSC).

Portanto, cabe ao produtor com auxílio de um(a) engenheiro(a) agrônomo(a) escolher aquele que melhor se enquadra às suas necessidades.

Conclusão

Os porta-enxertos na citricultura são pontos-chave na produção de mudas cítricas e fator determinante para o sucesso da lavoura.

Além disso, é uma das principais ferramentas que o citricultor tem para facilitar e otimizar o seu manejo.

Também traz benefícios para as plantas enxertadas sobre eles, como mudanças no vigor e resistência a fatores bióticos e abióticos.

Lembre-se: o melhor porta-enxerto é aquele que melhor satisfaz suas necessidades, por isso é importante um bom planejamento e estudo na hora de sua escolha.

>> Leia Mais: 

Tudo sobre o manejo da Laranja Hamlin

Florada do citros: 3 manejos essenciais para garantir uma boa produção

Adubação em citros: 3 dicas para ser ainda mais eficiente

E você, quais porta-enxertos usa em seus pomares e por que optou por eles? Conta pra gente nos comentários!

Principais doenças dos citros e como tratá-las

Doenças dos citros: prevenção e correto diagnóstico são as chaves para um pomar saudável. Confira e saiba mais!

A citricultura é um setor de grande importância para o agronegócio brasileiro e principalmente para o cinturão citrícola de São Paulo, Triângulo/Sudoeste Mineiro.

Dados do Fundo de Defesa da Citricultura (Fundecitrus) mostram o fechamento da safra de laranja 2019/20 da região em 386,79 milhões de caixas de 40,8 kg.

Essa safra foi 35% maior que a anterior (2018/19) e com uma produtividade recorde, de 1.045 caixas por hectare.

Apesar de ser uma cultura altamente produtiva, baixas produtividades podem ser observadas quando o manejo nutricional e/ou fitossanitário não estão adequados.

Assim, as doenças dos citros afetam não somente na produção das plantas, mas também na qualidade dos frutos.

Ficou interessado? Confira a seguir sobre as principais doenças dos citros e como tratá-las!

Quais são as principais doenças dos citros?

As doenças de plantas, não só as doenças dos citros, são atividades fisiológicas anormais e injuriosas resultantes da interação dos agentes patogênicos com as plantas e o ambiente.

Portanto, é essencial saber identificá-las para que as medidas necessárias de controle sejam tomadas corretamente.

Como existem muitos agentes patogênicos que atacam as plantas cítricas, abordarei as principais, dividindo-as em quatro grupos de acordo com seus agentes patogênicos.

1. Doenças causadas por fungos

Gomose 

A gomose, ou gomose de Phytophthora, é causada pelos fungos Phytophthora parasitica e P. citrophthora.

Estes são microorganismos que habitam naturalmente o solo e penetram nas plantas através das raízes ou pela base do tronco (colo).

Em campo os principais sintomas são lesões na base do tronco com exsudação de goma. 

Desta forma, a copa apresenta um amarelecimento (clorose) intenso nas folhas podendo levar à seca completa das plantas. 

doenças dos citros

Lesão de gomose na base do tronco (A) e seca completa da parte aérea (B)
(Fonte: Citrus Diseases)

O controle da gomose deve ser preventivo, para isso é recomendado o uso de porta-enxertos resistentes como a tangerina Cleópatra, o Poncirus trifoliata e o Citrumelo swingle.

Além disso, evitar o plantio em áreas com drenagem deficitária e o acúmulo de solo ou esterco no colo das plantas são alguns cuidados que devem ser tomados.

Melanose

A melanose em citros é uma doença de grande importância para pomares em que a produção é destinada para mesa, ou seja, consumo in natura.

Causada pelo fungo Phomopsis citri leva ao aparecimento de pequenas lesões escuras na superfície dos frutos que podem evoluir formando pústulas.

As folhas também podem ser afetadas com pequenos pontos marrons, formando pústulas com halo amarelado ao redor.

melanose

Sintomas de melanose em folhas (A) e em frutos de laranjas (B)
(Fonte: Citrus Diseases)

O controle pode ser realizado com hidróxido de cobre associado com a poda e retirada de ramos secos do pomar, que podem atuar como fonte de inóculo.

Pinta preta dos citros

Causada pelo fungo Guignardia citricarpa, gerando problemas em folhas e principalmente nos frutos.

Esse patógeno pode causar manchas de diferentes tipos e isso varia de acordo com a cultivar plantada, as condições ambientais e a época de infecção.

Para o controle da pinta preta são recomendados fungicidas do grupo das estrobilurinas e cúpricos pertencentes à lista PIC (Produção Integrada de Citros).

A poda de limpeza e realização da roçagem ecológica são manejos que também podem auxiliar na redução da quantidade de inóculo nos pomares.

doenças dos citros

Diferentes sintomas de pinta preta: mancha preta (ou dura) (A), mancha sardenta (B), mancha virulenta (C), falsa melanose (D), mancha trincada (E) e mancha rendilhada (F)
(Fonte: Fundecitrus)

Podridão floral dos citros (“estrelinha”)

A podridão floral, popularmente conhecida por estrelinha, é causada pelo fungo Colletotrichum acutatum que afeta os tecidos das flores e de frutos jovens.

Assim, ao atingir esses tecidos provoca a queda dos frutos deixando apenas os cálices que tem aparência de estrelas.

Os sintomas aparecem de forma alaranjada nas pétalas das flores e dos frutos jovens, enquanto no estigma e estilete são formadas manchas enegrecidas.

Podridão floral dos citros

Podridão floral dos citros, lesões alaranjadas (A), lesões enegrecidas (B) e cálices após queda dos frutos (C)
(Fonte: Fundecitrus)

O período mais crítico para ocorrência deste patógeno é o florescimento, principalmente quando coincide com o período chuvoso que pode levar a surtos de infecção.

Como solução, o controle pode ser realizado com base em fungicidas do grupo dos triazóis e estrobilurinas, associado à manutenção da adubação e retirada de plantas debilitadas.

2. Doenças causadas por bactérias

Cancro cítrico

Causador de grandes prejuízos nos pomares cítricos por levar a desfolha das plantas, queda prematura e depreciação dos frutos.

Causado pela bactéria Xanthomonas citri subsp. citri, seus sintomas podem ser encontrados em folhas, ramos e frutos.

doenças dos citros

Sintomas de cancro cítrico em ramos (A), folhas e frutos (B e C)
(Fonte: Citrus Diseases & Fundecitrus)

As lesões salientes e marrons de cancro cítrico são características nas diferentes partes da planta e normalmente são acompanhadas de um halo amarelado.

Além de fácil disseminada em maquinário, vestuário e materiais de colheita, existe uma relação do cancro cítrico com a lagarta minadora.

Entretanto, a lagarta minadora não é vetor do cancro cítrico, mas ao se alimentar – abrindo galerias nas folhas das plantas, torna-se um agente facilitador à contaminação pela bactéria.

A principal estratégia para o controle do cancro cítrico é a erradicação.

Quando não eliminadas, as principais recomendações são quebra-ventos, pulverizações com cobre, cultivares mais resistentes e, principalmente, o controle da lagarta minadora.

danos lagarta minadora

Galerias abertas pela lagarta minadora dos citros (Phyllocnistis citrella)
(Fonte: acervo pessoal do autor)

Clorose variegada dos citros (CVC)

A CVC, ou “amarelinho”, é causada pela bactéria Xylella fastidiosa e pode afetar todas as cultivares comerciais de citros.

A bactéria causadora da CVC é transmitida por cigarrinhas e se aloja no tecido xilemático das plantas causando interrupção do fluxo de água e nutrientes.

Essa interrupção causa uma clorose foliar, similar à deficiência de Zn, mas cuja parte de trás tem pontuações marrons.

clorose variegada dos citros (CVC)

Sintomas de clorose variegada dos citros (CVC) causada pela bactéria Xylella fastidiosa
(Fonte: Citrus Diseases)

Com o avanço da clorose, os frutos passam a apresentar um desenvolvimento irregular, tamanho reduzido e alguns casos rachaduras.

Não existe controle para este patógeno, mas são recomendadas três práticas de manejo que reduzem os danos e evitam a disseminação:

  • Obtenção de mudas sadias
  • Poda dos ramos afetados;
  • Controle das cigarrinhas (vetores).

Greening ou Huanglongbing (HLB)

O greening é hoje a doença de maior importância para a citricultura, com incidência e severidade acompanhada de perto por todos os produtores e órgãos reguladores.

A doença é causada pela bactéria Candidatus liberibacter que é transmitida através do inseto psilídeo (Diaphorina citri).

Uma vez na planta não há cura, a bactéria se aloja no floema e rapidamente se espalha.

Desta forma, as folhas apresentam um amarelecimento mosqueado, ou seja, irregular e sem simetria.

Os frutos ficam com o amadurecimento irregular e apresentam deformações e assimetria em relação à columela.

O manejo do greening é realizado por meio do controle do psilídeo, inspeção e monitoramento constante além da erradicação de plantas contaminadas.

doenças dos citros

Clorose assimétrica em folhas de citros (A) e formação de frutos assimétricos (B) decorrentes do greening
(Fonte: Citrus Diseases)

3. Doenças causadas por vírus

Morte súbita dos citros (MSC)

Apesar de não ser totalmente confirmada, suspeita-se que variantes do vírus da tristeza dos citros (CTV) sejam o agente causador dessa doença.

Este vírus é transmitido para, e entre, as plantas através de insetos vetores: os pulgões, especificamente o Toxoptera citricidus.

A MSC é especialmente importante para os pomares em que plantas são enxertadas sobre porta-enxertos intolerantes: os limoeiros Cravo e Volkameriano e Rugoso.

Como o próprio nome diz, a morte ocorre de maneira súbita. Mas em alguns casos causa definhamento, reduzindo porte da planta e dos frutos produzidos.

Para controlar a incidência da doença é essencial o controle do vetor, ou ainda, a técnica da subenxertia para substituição dos porta-enxertos.

Planta atingida pela morte súbita dos citros

Planta atingida pela morte súbita dos citros
(Fonte: Fundecitrus)

Leprose dos citros

É uma doença causada pelo vírus da leprose dos citros (CiLV), transmitida pelo ácaro da leprose (Brevipalpus phoenicis).

O vírus não se espalha pela planta, ficando restrito apenas às regiões atacadas pelo ácaro. 

Os sintomas são similares aos do cancro cítrico e as lesões conforme se desenvolvem podem ocasionar a queda dos frutos e das folhas e, até mesmo, a morte de ramos.

Mas as lesões podem ser diferenciadas, pois as da leprose são deprimidas enquanto as do cancro são salientes.

doenças dos citros

Lesões deprimidas em frutos (A) e nos ramos (B) decorrentes da leprose
(Fonte: Citrus Diseases)

4. Doenças de causas desconhecidas

Declínio dos citros

É uma anormalidade observada nas plantas cítricas, em que as plantas afetadas cessam o crescimento e apresentam um definhamento seguido de murcha e morte.

Acredita-se que isto acontece devido à interrupção do fluxo de seiva das plantas, mas ainda não se sabe qual a causa.

Planta atingida pelo declínio dos citros

Planta atingida pelo declínio dos citros
(Fonte: Bossanezi e Jesus Júnior)

A principal recomendação é o arranquio e destruição das plantas afetadas. Outra alternativa é o uso de variedades mais resistentes (laranja Caipira e as tangerinas Sunki e Cleópatra).

Conclusão

Conhecer, monitorar e fazer a correta identificação são os pontos-chave do controle das doenças dos citros.

Lembre-se que muitas delas dependem do manejo regional! Converse com seus vizinhos para programar e alinhar suas pulverizações.

As doenças dos citros são muitas e podem levar a prejuízos muito significativos, por isso a prevenção é a melhor solução!

E você, qual destas doenças tem maior incidência em seus pomares? Como faz o controle? Conte pra gente nos comentários!

Citros/Citrus: Importância e principais dicas para essa cultura

Citros/Citrus: Diferenças, implantação do pomar, espaçamento e outras orientações sobre essa cultura.

Certamente você já se deparou com essas duas palavras, citros e citrus. Mas afinal, existe diferença entre elas? 

A resposta é sim! E com certeza você já sabe que ambas estão relacionadas com laranjas, mas também com as frutas cítricas.

Enquanto uma delas é mais generalista, a outra representa um nível específico dentro da classificação botânica. Ficou curioso? 

Então confira a seguir mais a respeito das frutas cítricas (citros/citrus), quais as principais cultivares, implantação de pomar cítrico, fisiologia e os principais desafios dessa cultura.

Citros e Citrus: Quais as diferenças?

Quando pensamos na classificação biológica, todas as espécies estão enquadradas em reino, filo, classe, ordem, família, gênero e espécie.

Ao falarmos citros, ou plantas cítricas, estamos referindo a espécies vegetais que pertencem à família Rutaceae em três gêneros: Citrus, Poncirus e Fortunella.

ReinoPlantae
FiloMagnoliophyta
ClasseMagnoliopsida
OrdemSapindales
FamíliaRutaceae
GênerosCitrusPoncirusFortunella

Classificação botânica dos Citros
(Fonte: Swingle, 1967)

Portanto, o termo citros se refere ao grande grupo composto das espécies desses três gêneros.

citros e citrus

Esquema representado Citros x Citrus
(Fonte: elaborado pelo autor)

Já o termo citrus é referente às espécies do gênero Citrus, excluindo as espécies dos demais gêneros. 

Esse grupo engloba as laranjas doces e azedas tais como tangerinas, mexericas, limões e limas, pomelos, toranjas, cidras e seus híbridos.

Grupo Exemplo Nome científico
1) Laranjas doces  
a)     Comuns Hamlin, Pêra e Valência  
b)     Baixa Acidez Lima Sorocaba e verde Citrus sinensis L. (Osbeck)
c)     De umbigo Laranja Bahia  
d)     Sanguíneas Moro e Sanguinello  
2) Laranja azeda Seville Citrus aurantium L.
3) Tangerinas    
a)     Comuns Ponkan e Clementina Citrus reticulata Blanco
b)     Satsumas Satsuma e satsuma owari Citrus unshiu Marchovitch
4) Mexericas IAC-606 e IAC-589. Citrus deliciosa Tenore
5) Limão verdadeiro Feminello, Lisboa e Verna. Citrus limon Lush.
6) Limas    
a)     Ácidas Tahiti e Galego Citrus latifolia Tanaka e Citrus aurantifolia Tanaka
b)     Doces Lima da pérsia e de umbigo Citrus limettioides Tanaka
7) Pomelos    
a)     Pigmentados Ruby e Star Ruby Citrus paradisi, MacFadyen
b)     Não pigmentados Duncan e Marsh
8) Toranjas Oroblanco e IAC-357 Citrus grandis
9) Cidras Etrog e Mão-de-buda Citrus medica
10) Kunquats Nagami, Marumi e Meiwa. Fortunella margarita, Híbrido e F. japonica

Principais grupos hortícolas dos citros, exemplos de cultivares e nomes científicos
(Fonte: Adaptado de Mourão Filho e Mattos Junior)

Implantação de pomar de citros

A fase de implantação do pomar é umas das etapas mais importantes para os cultivos perenes, sejam eles de espécies frutíferas ou florestais.

No caso do pomar cítrico isso não é diferente.

Para os citros, precisamos dar atenção especial para cinco pontos diferentes e você pode conferir o artigo completo sobre como não errar na implantação de pomar aqui!

Algumas dúvidas são mais frequentes que outras, portanto, abordarei duas das mais comuns a seguir.

Qual a distância de uma laranjeira para outra?

A distância entre as laranjeiras, ou o espaçamento, é definido por cinco fatores principais: 

  • A cultivar copa; 
  • O porta-enxerto;
  • O clima; 
  • O solo; 
  • E o manejo utilizado. 

Desde o início da citricultura, muito tem sido feito no sentido de aumentar a densidade dos plantios.

Isso significa ter mais plantas por área, ou seja, adensar. Para isso é necessário reduzirmos o espaçamento.

O adensamento pode trazer vantagens como o aumento da produtividade e rendimento de máquinas.

Entretanto, também pode trazer desvantagens como aumento da incidência de doenças fúngicas e necessidade de aumento da frequência de podas.

Por este motivo, cada cultivar copa apresenta um espaçamento recomendado, mas que pode variar de acordo com os fatores citados.

espaçamentos recomendados

Principais espaçamentos recomendados para as diferentes cultivares de citros
(Fonte: Embrapa Informação Tecnológica, 2005)

Como preparar a cova de mudas cítricas?

As covas para o plantio das mudas cítricas em campo normalmente apresentam as seguintes dimensões: 0,40 x 0,40 x 0,40 m.

Durante o processo de abertura das covas é interessante separar a terra da superfície (0 a 20 cm) da terra situada em maior profundidade (20 a 40 cm).

citros e citrus

Esquema de preparo das covas para o plantio
(Fonte: Embrapa Informação Tecnológica, 2005)

A terra da superfície deve ser enriquecida com adubo orgânico (esterco bovino) e fósforo e ser colocada em profundidade.

Por sua vez, a terra mais profunda não recebe os fertilizantes e é colocada na superfície, podendo ser utilizada para realizar o coroamento pós-plantio.

No caso de grandes áreas, esse preparo é normalmente realizado nos sulcos de plantio, traçados após o preparo das áreas.

>> Leia mais: para saber a respeito da fisiologia geral e do florescimento dos citros, confira o artigo que eu fiz sobre o assunto – Florada do Citros: 3 manejos essenciais para garantir uma boa produção. 

Principais desafios: passado e futuro

Os principais desafios encontrados pela citricultura no Brasil estão relacionados aos aspectos fitossanitários.

As plantas de citros são alvo de uma ampla gama de insetos e patógenos dos mais diversos tipos (como por exemplo, o cancro cítrico).

O histórico do uso de porta-enxertos na citricultura brasileira é um bom exemplo de como as doenças podem interferir negativamente no cultivo.

No início do século XX, a laranja caipira (Citrus sinensis L. Osbeck) era o principal porta-enxerto utilizado. 

Entretanto, sua sensibilidade patógeno Phytophthora spp. obrigou os produtores a utilizarem a laranja azeda (Citrus aurantium L.).

Esta por sua vez, em meados da década de 40, mostrou-se suscetível ao vírus da tristeza dos citros, disseminado por pulgões e que obrigou a migração para o limoeiro cravo.

Porta-enxerto AnoFator limitanteSolução
Laranja capiraInício séc. 20Phytophthora spp.Laranja azeda
Laranja azedaAnos 40Vírus da tristezaLimoeiro cravo
Limoeiro cravoAnos 70Declinio‘Cleópatra’ e ‘Volkameriano’
Limoeiro cravoAnos 2000Morte súbita‘Cleópatra’, ‘Swingle’ e ‘Sunki’

Histórico do uso de porta-enxertos na citricultura
(Fonte: Adaptado de Oliveira et al. (2008), Embrapa)

O limoeiro cravo apresenta a vantagem de ser resistente a estresses hídricos, porém, nos anos 70 e anos 2000, mostrou-se suscetível ao declínio e à morte súbita.

Esses eventos levaram à diversificação dos porta-enxertos e dentre outros, a tangerina cleópatra, o limão volkameriano, o citrumelo swingle e a tangerina sunki passaram a ser amplamente utilizados.

Esse processo de evolução da citricultura em conjunto com as plantas daninhas, pragas e doenças garantiu o desenvolvimento de protocolos e legislações específicas.

Graças à essa legislação, o setor citrícola do estado de São Paulo é um dos mais organizados no que se diz respeito à produção de mudas e controle fitossanitário.

Conclusão

Vimos que as frutas cítricas com destaque para as laranjas, limões, tangerinas e mexericas, têm um enorme peso no agronegócio, gerando empregos diretos e indiretos.

Grande parte das regiões produtoras são tradicionais no cultivo dessas espécies, entretanto novas tecnologias de produção e manejo surgem a cada ano.

Precisamos estar atentos às inovações e trabalhar em conjunto, buscando sempre uma citricultura cada vez mais sustentável e produtiva.

>> Leia mais:

Tudo sobre a produção de laranja pêra

E você já conhecia essas particularidades das plantas cítricas (citros/citrus)? Quais os principais desafios que você enfrenta em sua região? Conte nos comentários abaixo!