A ferrugem asiática da soja é uma das doenças mais severas e preocupantes da cultura no Brasil.
Considerada uma doença foliar, pode reduzir a produtividade da lavoura em até 90%, gerando impactos econômicos expressivos e prejuízos difíceis de reverter.
Segundo a Embrapa, os custos com o manejo da ferrugem da soja ultrapassam US$ 2,8 bilhões por safra no Brasil.
Isso mostra que identificar rapidamente os sintomas, conhecer o ciclo da doença e aplicar o manejo correto é indispensável para manter a lavoura sadia e produtiva.
Neste artigo, vou te explicar de forma simples e direta tudo o que você precisa saber sobre a ferrugem asiática da soja no Brasil, respondendo às principais dúvidas dos produtores.
O que causa a ferrugem asiática da soja?
A ferrugem asiática é uma doença foliar causada pelo fungo Phakopsora pachyrhizi. Esse patógeno se desenvolve nas folhas da planta e pode atingir qualquer ciclo da cultura, desde a emergência até a fase final de desenvolvimento.
O fungo se espalha pelo vento e precisa de umidade e temperaturas amenas para infectar a planta. Com condições favoráveis, o ciclo do patógeno é rápido, com repetições a cada 6 a 9 dias.
Além disso ela, tem diversos hospedeiros. São cerca de 150 espécies de leguminosas, incluindo o feijão-comum e a soja-perene em todas as regiões do país, da família Fabaceae.
Algumas plantas daninhas podem serhospedeiras alternativas da ferrugem asiática na entressafra, exigindo monitoramento e controle para evitar a sobrevivência do fungo.
Há relatos que indicam a ocorrência em espécies como corda-de-viola, leiteira, kudzu e beiço-de-boi, especialmente nas regiões Sul e Centro-Oeste do Brasil.
A doença surgiu na América em 2001, no Paraguai, chegando ao Brasil meses depois, no Paraná, e hoje está presente em todas as regiões produtoras do país.
Qual é a causa da ferrugem asiática da soja?
A doença é causada pelo fungo Phakopsora pachyrhizi, que só consegue sobreviver em tecidos vivos.
O patógeno se aloja em plantas da soja e outras leguminosas, inclusive daninhas, que funcionam como hospedeiras alternativas.
Durante a entressafra, se houver presença de tigueras ou plantas como corda-de-viola, kudzu e leiteira, o fungo permanece ativo e pronto para se espalhar assim que as condições climáticas forem favoráveis.
Quais são os sintomas da ferrugem asiática?
Os sintomas da ferrugem asiática da soja surgem nas folhas inferiores das plantas, com pontos escuros que se tornam pequenas lesões com aspecto de pústulas (urédias).
Com o tempo, os sintomas se espalham pelas folhas superiores, e as urédias liberam esporos em forma de pó alaranjado.
As folhas infectadas perdem o vigor, ficam amareladas e caem precocemente, reduzindo o enchimento de grãos e, consequentemente, a produtividade.
Para identificar os sintomas, é preciso monitorar e prestar atenção se a planta apresentar as seguintes características:
- Folhas do terço inferior e médio com pontos escuros;
- Pústulas na parte de baixo da folha (face abaxial);
- Presença de esporos alaranjados ao toque;
- Desfolha precoce e redução no vigor das plantas.
Se você perceber que as folhas estão amareladas e com pontos castanhos-claros, pode ser um sinal de que a ferrugem já está na lavoura a mais de 30 dias. Esse tempo dificulta o controle químico eficaz e causa prejuízos.

Como ocorre o ciclo da ferrugem da soja?
O ciclo da ferrugem da soja começa com a liberação de urediniósporos (esporos) pelas urédias, que são levados pelo vento e se depositam nas folhas sadias. Para que a infecção aconteça, é necessário:
- Molhamento foliar de pelo menos 6 horas;
- Temperaturas entre 15 °C e 25 °C;
- Alta umidade relativa do ar.
Com essas condições, o fungo penetra diretamente pela cutícula da folha e, em poucos dias, os primeiros sintomas surgem. O ciclo se repete rapidamente, ampliando a infecção na lavoura.
A ferrugem da soja precisa de mínimo seis horas de umidade na folha e temperaturas entre 15°C e 25°C para infectar a planta.
As chuvas prolongam a umidade e favorecem a doença e em temperaturas extremas (abaixo de 10 °C ou acima de 27 °C), são necessárias oito horas de molhamento foliar.
Se houver plantas hospedeiras na área, a infecção pode começar mais cedo e, mesmo sem sintomas aparentes, a infecção pode estar avançada no terço médio da planta.

Como combater a ferrugem asiática?
O combate à ferrugem asiática exige um manejo integrado e a combinação de diversas estratégias, já que nenhuma estratégia isolada é capaz de controlar a doença completamente.
Para ajudar nisso, separamos abaixo as principais práticas para reduzir os danos da doença. Veja:
1. Vazio sanitário
Vazio sanitário é o período de 60 a 90 dias sem presença de soja ou tigueras no campo, que reduz a população do fungo na entressafra.
O objetivo da técnica é reduzir o número de esporos do fungo, atrasando a ocorrência da doença na safra.
A partir disso, você também consegue diminuir o uso de aplicações de fungicidas, evitando o surgimento da resistência de populações de patógenos.
2. Calendarização da semeadura
Consiste em estabelecer datas-limite para o plantio de soja, evitando semeaduras tardias que favorecem a infecção precoce da cultura.
Semear a soja no início da época recomendada reduzir os danos causados pela doença, evitando que a soja receba o inóculo nos estádios iniciais de desenvolvimento da planta.

3. Uso de cultivares resistentes ou precoces
As variedades resistentes são uma opção para reduzir a necessidade de aplicações e o risco de danos graves. A Embrapa lançou cultivares como a BRS 511 e BRS 539, com bom nível de resistência, que apresentam bom nível de resistência à ferrugem asiática
Essas variedades também demonstram boa adaptação às condições climáticas brasileiras, o que contribui para uma maior produtividade e sustentabilidade no cultivo da soja.
4. Monitoramento da lavoura
Monitore a sua lavoura para definir o momento ideal de controle. Olhe as folhas na parte superior e observe se há pontos escuros. Depois, utilize uma lupa e observe a parte inferior das folhas.
Você deve se atentar se houver a presença de saliências, com aspecto de “vulcão”. O consórcio antiferrugem é uma ótima estratégia para monitorar em tempo real os focos da doença próximos à região de cultivo.
Você pode acessá-lo para registrar a ocorrência da doença em sua propriedade, ajudando outros produtores. Assim, produtores da região e proximidades devem permanecer em alerta e monitoramento das lavouras.
5. Controle químico ferrugem asiática soja
O controle químico da ferrugem asiática da soja é feito com a aplicação de fungicidas preventivos ou no início dos primeiros sintomas da doença.
Segundo a Embrapa, mais de 68 produtos estão registrados para o controle da ferrugem, distribuídos entre os seguintes grupos químicos:
- Carboxamidas
- Estrobilurinas
- Triazóis
A utilização desses fungicidas previne a pressão de seleção do fungo, evitando o desenvolvimento de resistência. Para otimizar os resultados e prevenir a resistência, algumas práticas recomendadas incluem:
- Uso de fungicidas com diferentes modos de ação e em rotação, para evitar a aplicação sucessiva do mesmo princípio ativo;
- Redução das aplicações excessivas de fungicidas, aliada a outras estratégias de controle, como a eliminação de plantas hospedeiras alternativas e o uso de cultivares resistentes;
- Calendarização da semeadura para evitar o desenvolvimento da doença em períodos de alta pressão.
De acordo com as recomendações do FRAC (Comitê de Ação a Resistência a Fungicidas do Brasil), as orientações para a utilização de fungicidas são:
- Estrobilurinas: devem ser aplicadas sempre combinadas com triazóis, triazolintione A e/ou carboxamidas. O controle deve ser iniciado de forma preventiva;
- Triazóis e Triazolintione: indicados para associação com estrobilurinas;
- Carboxamidas: devem ser sempre aplicadas em combinação com fungicidas do grupo das estrobilurinas.
Essas estratégias, quando seguidas corretamente, podem maximizar a eficiência do controle químico e reduzir o risco de resistência do fungo à aplicação de fungicidas.
Checklist para manejo da ferrugem asiática da soja
- Faça um planejamento agrícola bem feito, com todas as medidas de controle possíveis. Planeje a época de semeadura, monitoramento, tipos de fungicidas com diferentes mecanismos de ação, e outros;
- Sempre monitore a lavoura a procura da ferrugem asiática da soja. Se necessário, peça auxílio de um profissional;
- Cumpra o vazio sanitário de acordo com o seu estado;
- Identifique se sua região tem o período de calendarização da semeadura e realize o plantio de variedades precoces;
- Identifique quais fungicidas você pode utilizar. Faça isso de acordo com dados de redução da severidade da doença, produtividade da cultura e custo;
- Avalie a possibilidade de utilizar variedades resistentes ou tolerantes na instalação da cultura;
- Anote as suas atividades, custos e a produtividade da sua lavoura, para te auxiliar na gestão da sua propriedade.
Qual o melhor fungicida para a ferrugem asiática?
Não existe um fungicida isolado considerado o melhor. O ideal é usar produtos com diferentes mecanismos de ação, sempre em misturas e rotações, como recomenda o FRAC Brasil.
Estudos recentes da Embrapa apontam que combinações entre estrobilurinas + triazóis + carboxamidas apresentaram maior eficiência no controle da doença e melhor produtividade.
O que você mais deve levar em consideração, é o uso incorreto dos fungicidas, com repetição de princípios ativos e aplicações em momento inadequado.
Práticas desse tipo tem levado à redução da eficiência desses produtos, tornando a resistência do fungo é uma realidade cada vez maior. Por isso, sempre considere:
- Rotacionar grupos químicos;
- Evitar aplicações sucessivas de um mesmo ingrediente ativo;
- Utilizar sempre nas doses e intervalos recomendados.
Novidades e tecnologias no combate à ferrugem
Estudos indicam que o uso de peróxido de hidrogênio (H2O2) em caldas com fungicidas pode aumentar a eficiência da aplicação, reduzindo em até 44% a severidade da doença.
Outra novidade é o uso de proteínas Harpin, com função de “vacina vegetal”. Estudos mostram incrementos de 3 a 5 sacas por hectare com essa tecnologia.
O uso de software de gestão agrícola também se destaca por oferecer um controle mais preciso da doença, a partir de funcionalidades como:
- Mapeamento de áreas com focos;
- Acompanhamento NDVI por satélite;
- Alertas para aplicações no momento certo;
- Caderno de campo;
- Planejamento de safra.
O software de gestão agrícola não apenas otimiza o controle da saúde das lavouras, mas também oferece uma visão mais detalhada e estratégica das operações.
A tecnologia chegou para ser uma aliada, minimizar os riscos e maximizar a eficiência, para melhores resultados para o negócio agrícola.
