Os herbicidas à base de glifosato têm importante papel na agricultura. Não é à toa que eles são os mais utilizados no Brasil e no mundo no manejo das plantas daninhas.
Isso se deu principalmente após o desenvolvimento de culturas resistentes aos herbicidas. Além disso, o glifosato viabilizou o crescimento das áreas com sistema de plantio direto.
Confira no texto a seguir um pouco mais sobre o herbicida mais utilizado no controle de espécies invasoras. Boa leitura!
O que é glifosato?
O glifosato é uma substância química que é ingrediente ativo de vários herbicidas e defensivos agrícolas utilizados no controle de plantas daninhas. Composto por organofosforado, existem mais de 750 agroquímicos que a utilizam.
A substância não afeta sementes no solo e é muito usada na agricultura para controlar plantas daninhas anuais, perenes e aquáticas.
Aplicado em pós-emergência, é um herbicida sistêmico, não seletivo e com alta translocação, atingindo diferentes estágios das espécies-alvo.
Sua ação ocorre via pulverização, sendo absorvido pelas folhas e distribuído por toda a planta, onde interfere em sistemas enzimáticos. Após a aplicação, as plantas daninhas morrem lentamente, com efeitos visíveis em dias ou semanas.
Herbicida sistêmico: Como funcionam?
Os herbicidas podem ser classificados de acordo com a sua translocação na planta. Assim, podem ser de contato ou sistêmicos.
Os herbicidas de contato agem no local de absorção, sem se mover internamente. Exemplos incluem diquat, paraquat e lactofen.
Já os sistêmicos se deslocam pelo xilema, floema ou ambos, atingindo diferentes partes da planta. Com isso, os exemplos de herbicidas sistêmicos incluem:
- Picloram;
- 2,4-D;
- Glifosato;
- Imazethapyr;
- Flazasulfuron;
- Nicosulfuron.
Como o glifosato funciona?
O glifosato é um herbicida sistêmico e não seletivo que atua inibindo a enzima 5-enolpiruvilshiquimato-3-fosfato sintase (EPSPs), essencial na rota do ácido chiquímico.
Essa via metabólica é exclusiva de plantas, fungos e algumas bactérias, mas não existe em animais, o que explica sua toxicidade seletiva.
O seu mecanismo de ação funciona em 4 etapas, que são classificados como:
- Absorção: É aplicado via pulverização e absorvido principalmente pelas folhas das plantas;
- Translocação: Após a absorção, se desloca pelo xilema e floema, alcançando diversas partes da planta, incluindo raízes e pontos de crescimento;
- Interferência metabólica: Inibindo a enzima EPSPs, o glifosato impede a síntese de aminoácidos essenciais (fenilalanina, tirosina e triptofano), fundamentais para o crescimento e desenvolvimento vegetal;
- Efeito na planta: Sem esses aminoácidos, a planta não consegue produzir proteínas essenciais, levando à interrupção do crescimento, amarelecimento (clorose) e morte gradual em dias ou semanas.
O glifosato é eficaz contra ervas daninhas anuais, perenes e aquáticas, sendo uma das técnicas mais usadas no manejo agrícola, especialmente em culturas transgênicas resistentes ao glifosato, como soja, milho e algodão.
Como usar o glifosato corretamente?
Para usar o glifosato é preciso estar atento às condições ambientais, como a velocidade do vento, umidade relativa do ar, formação de orvalho e temperatura influenciam na eficiência da pulverização.
Além disso, se chover nas primeiras 6 horas após a aplicação, o processo deve ser refeito. Outras condições também podem influenciar o controle de plantas daninhas, como:
- Qualidade da água
- Pressão do pulverizador
- Uso de adjuvantes
- Tipo de bico e tamanho da gota
Plantas daninhas jovens são mais fáceis de controlar do que adultas. O uso correto do herbicida exige seguir as instruções do rótulo e da bula, além do uso de EPI para segurança.
Após a aplicação, limpe o pulverizador e descarte as embalagens corretamente. Em caso de dúvidas, consulte a NR-31 ou um(a) engenheiro(a) agrônomo(a).
Quanto ao número de aplicações, na maioria dos casos, uma basta para controlar plantas daninhas. Mas, algumas espécies, como a tiririca (Cyperus rotundus), exigem pulverizações repetidas devido à sua rede de tubérculos.
Após a aplicação, os principais sintomas incluem amarelecimento, murcha e necrose, levando à morte da planta em dias ou semanas, dependendo de fatores como:
- Espécie-alvo;
- Estágio de desenvolvimento;
- Dosagem do herbicida.

Reavaliação toxicológica do herbicida sistêmico glifosato
Muito tem sido discutido sobre o impacto que agrotóxicos podem causar ao meio ambiente, à saúde humana e dos animais. A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) realizou a reclassificação toxicológica de alguns defensivos agrícolas recentemente.
A reavaliação concluiu pela manutenção do glifosato no Brasil. Não há evidências suficientes para considerar esse ingrediente ativo como sendo mutagênico, nem com potencial de causar câncer em seres humanos e animais.

(Fonte: Anvisa)
Em quais situações o glifosato pode ser utilizado?
Os produtos à base de glifosato tem seu uso aprovado em determinadas culturas e situações. Em pós-emergência das plantas daninhas, por exemplo, o glifosato pode ser utilizado para:
O glifosato também pode ser utilizado como maturador na cultura da cana-de-açúcar, promovendo a uniformização da maturação, o aumento da concentração de sacarose nos colmos e a melhoria da qualidade da colheita.
Além disso, é empregado para eliminação de soqueira no cultivo de arroz e cana-de-açúcar, no pós-emergência de plantas invasoras em florestas de eucalipto e pinus, e no controle da rebrota do eucalipto.
O glifosato atua reduzindo o crescimento vegetativo da planta, redirecionando os nutrientes para o acúmulo de açúcar. Esse efeito é especialmente útil em períodos chuvosos ou quando a cana ainda não atingiu o ponto ideal de maturação.
No entanto, o controle químico com glifosato deve ser complementado com outras práticas de manejo para garantir eficiência e sustentabilidade. Confira algumas estratégias para o manejo integrado de plantas daninhas:

(Fonte: Febrapdp)
Quais plantas são resistentes ao glifosato?
Algumas plantas daninhas desenvolveram resistência ao glifosato devido ao uso contínuo e repetitivo desse herbicida ao longo dos anos.
Essa resistência ocorre por mutações genéticas ou mecanismos que impedem a ação do produto na planta. Confira a seguir quais plantas podem ter essa modificação:
- Burruchaga (Sorghum halepense);
- Capim-amargoso (Digitaria insularis);
- Capim-pé-de-galinha (Eleusine indica);
- Buva (Conyza spp.);
- Caruru (Amaranthus spp.);
- Nabo-bravo (Raphanus raphanistrum);
- Leiteiro (Euphorbia heterophylla).
A resistência pode ser uma consequência do uso excessivo do glifosato sem rotação de herbicidas, da aplicação em doses abaixo do recomendado ou da ausência de manejo integrado, como uso de outros métodos de controle (rotação de culturas, cobertura vegetal e herbicidas com diferentes mecanismos de ação).
Qual o tipo de mato que o glifosato mata?
O glifosato é eficaz principalmente contra plantas dicotiledôneas (plantas com duas folhas iniciais) e monocotiledôneas (plantas com uma folha inicial), sendo bastante útil para o controle de diversas espécies de plantas invasoras.
Isso significa que o glifosato pode matar mato como: Plantas dicotiledôneas, plantas monocotiledôneas, plantas perenes e plantas aquáticas.
O glifosato não pode matar qualquer planta que entre em contato com ele, seja planta daninha ou cultura desejada.
A aplicação deve ser cuidadosa para evitar danos às culturas agrícolas, já que a eficácia pode variar dependendo do estágio de crescimento da planta e das condições ambientais.
Como aplicar um herbicida sistêmico?
A aplicação de um herbicida sistêmico, como o glifosato, é diferente da aplicação de um herbicida de contato.
Enquanto os de contato precisam cobrir bem a superfície foliar para serem eficazes, os sistêmicos são absorvidos pelas folhas e raízes e transportados internamente até seu local de ação.
Isso significa que os herbicidas sistêmicos não exigem cobertura total das folhas e permitem o uso de gotas maiores na pulverização. No entanto, após a aplicação, é necessário um tempo para que sejam absorvidos e translocados dentro da planta.
Como os herbicidas se movem na planta?
Os herbicidas podem ser aplicados de diferentes formas, cada uma com um mecanismo de transporte:
- Aplicação no solo: Absorvidos pelas raízes e transportados pelo xilema até as folhas;
- Aplicação nas folhas (sistêmicos, como o glifosato: Se movimentam pelo floema, alcançando regiões de crescimento.
- Aplicação nas folhas (contato): Não são translocados, agindo no local onde foram absorvidos.
Os herbicidas podem se deslocar na planta por meio do apoplasto (canais entre células), do simplasto (interior das células) ou de ambos (movimento apossimplástico).
No caso do glifosato, ele é absorvido principalmente pelas folhas e transportado via floema para pontos de crescimento, interferindo na síntese de aminoácidos essenciais e levando à morte da planta.
Por isso, sua aplicação deve ser bem planejada para garantir máxima absorção e eficiência no controle das ervas daninhas.
O que acontece quando o herbicida precisa percorrer uma longa distância na planta?
Após a absorção pelas folhas, o herbicida deve atravessar a cutícula e chegar ao xilema e floema, responsáveis por transportá-lo dentro da planta.
- Se for absorvido pelas raízes, o herbicida se move pelo xilema, seguindo o fluxo natural da água até as folhas. Esse movimento ocorre devido às diferenças de pressão geradas pela transpiração da planta.
- Se for absorvido pelas folhas, ele pode ser transportado pelo floema até regiões de crescimento ativo.
Agora, pense no que acontece quando a planta está sob estresse hídrico. Com pouca água disponível, os estômatos se fecham, reduzindo a transpiração e, consequentemente, o fluxo no xilema. Isso dificulta a movimentação do herbicida e reduz sua eficácia.
Por isso, muitos produtos trazem na bula a recomendação de não aplicar o herbicida quando a planta estiver estressada, garantindo assim melhor absorção e translocação do produto.
Por que o glifosato é tão usado na agricultura?
O glifosato é um dos herbicidas mais utilizados na agricultura pela eficiência, versatilidade e baixo custo de aplicação.
Por ser um herbicida sistêmico não seletivo, é absorvido pelas plantas e se distribui por toda a sua estrutura, atuando diretamente em suas funções vitais.
O seu diferencial é inibir uma enzima chamada EPSPS, essencial para a síntese de aminoácidos que as plantas necessitam para o crescimento e desenvolvimento, impedindo que as plantas realizem processos metabólicos importantes, levando à sua morte.
Além disso, acaba sendo uma alternativa viável pela eficiência e produtividade das operações agrícolas, capaz de oferecer:
1. Ação sistêmica
O glifosato é um herbicida sistêmico, o que significa que, uma vez absorvido pelas plantas, ele se espalha por todo o sistema da planta (inclusive raízes), atacando as funções vitais e levando à morte da planta.
Isso é especialmente útil no controle de plantas daninhas perenes, que têm sistemas radiculares extensos.
2. Amplo espectro de controle
Por ser eficaz contra uma grande variedade de plantas daninhas, tanto anuais quanto perenes, é capaz de controlar muitas espécies que dificultam o cultivo de culturas agrícolas.
Além disso, o glifosato tem aplicação eficaz em pastagens, florestas comerciais e outros ecossistemas.
3. Compatibilidade com o manejo de culturas transgênicas
O glifosato é amplamente utilizado em culturas geneticamente modificadas (GMOs), como soja, milho e algodão resistentes ao glifosato (conhecidas como culturas RR).
Isso permite o uso do herbicida para controlar plantas daninhas sem prejudicar a cultura principal, pois a planta transgênica tolera o produto, mas as daninhas não.
4. Facilidade de aplicação
O glifosato é fácil de aplicar, seja por pulverização aérea ou terrestre, em qualquer estágio do crescimento das plantas.
Uma outra vantagem do produto, é que pode ser aplicado em pré ou pós-emergência das plantas daninhas, proporcionando flexibilidade ao agricultor.
5. Baixa toxicidade para animais e humanos
Quando aplicado corretamente, o glifosato tem baixo risco de toxicidade para seres humanos, animais e o meio ambiente em comparação com outros herbicidas, tornando-o uma escolha segura para uso generalizado.
Mesmo assim, como qualquer produto químico, ele deve ser manuseado com cuidado e de acordo com as instruções.
Todos esses fatores fazem do glifosato uma ferramenta essencial para o manejo de plantas daninhas na agricultura moderna, facilitando a produção agrícola de forma eficiente, econômica e sustentável quando usado de forma responsável.
Vantagens e desvantagens do uso do glifosato
Antes de utilizar qualquer defensivo agrícola é preciso conhecer suas características e também considerar suas vantagens e desvantagens. Quando comparado a outros herbicidas, o glifosato apresenta algumas vantagens, como:
- Baixo custo;
- Fácil aplicação;
- Flexibilidade de uso;
- Amplo espectro de ação, ou seja, controla diversas espécies invasoras;
- Rapidamente degradado no solo.
Apesar disso, o glifosato é uma molécula que não atua sobre o banco de sementes. Isso pode ser considerado uma desvantagem desse herbicida.
Vale ressaltar que qualquer herbicida utilizado de forma equivocada pode levar à seleção de biótipos de plantas resistentes.
