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Bruna Rohrig - 17 de março de 2021
Atualizado em 18 de maio de 2023
Fungicidas multissítios na cultura da soja: como eles podem ser importantes aliados no controle e manejo de resistência de doenças.
O Brasil é o maior produtor de soja no mundo. Mas você sabia que a produtividade poderia ser 42% superior com manejos adequados da lavoura?
O controle de doenças é um dos pontos que mais interferem nos resultados da sua safra. Por isso, conhecer as estratégias mais eficientes e fazer a utilização racional de produtos para evitar casos de resistência é fundamental!
Já utilizados com sucesso em diversas culturas, os fungicidas multissítios vêm sendo uma ferramenta importante no manejo de doenças fúngicas, especialmente em soja.
A seguir, conheça melhor esses fungicidas e saiba por que eles podem fazer uma grande diferença nos resultados da sua próxima safra!
Índice do Conteúdo
Os fungicidas podem ser classificados de acordo com o seu espectro de ação em sítio-específicos ou multissítios.
Os fungicidas de sítio-específico atuam sobre um único ponto da via metabólica de um patógeno fúngico ou ainda sobre uma única proteína ou enzima necessária para a sua sobrevivência.
São mais propensos a apresentarem resistência. São absorvidos pelas plantas, e geralmente possuem atuação sistêmica, ou seja, são transportados para outras partes da planta.
Em contrapartida, os fungicidas multissítios atuam sobre diferentes pontos do metabolismo dos fungos e, devido às suas características, apresentam baixo risco de resistência, geralmente com ação de contato.
Necessitam permanecer sobre a superfície das folhas como camada de proteção contra a germinação dos esporos fúngicos. Logo, normalmente são aplicados de forma preventiva.
Essa característica dos fungicidas multissítios faz com que eles estejam suscetíveis à remoção pela água da chuva, especialmente logo após a aplicação e até mesmo pela degradação causada pela luz solar. Assim, pode conferir menor proteção ao longo do tempo e, por isso, são empregados em associação.
Os fungicidas multissítios apresentam capacidade de controlar vários patógenos, como demonstrado na tabela que você confere mais à frente no texto.
Por ter uma atuação de modo não específico, dificulta a pressão de seleção de patógenos resistentes. Se um local de atuação for burlado pelo patógeno, de modo que ele possa sobreviver, outros ainda estarão atuando no seu controle.
Podem ser utilizados em misturas com fungicidas de sítio específico a fim de retardar ou evitar o surgimento de resistência, garantindo níveis de controle satisfatórios e prolongando sua vida útil.
Considerando os relatos de menor sensibilidade dos principais grupos de fungicidas (triazois, estrobilurinas e carboxamidas) no manejo da ferrugem asiática da soja no Brasil, alternativas que diminuam a severidade dessa doença devem ser utilizadas.
Resultados de pesquisa indicaram maior controle da severidade da ferrugem com a associação de picoxistrobina+ciproconazol e oxicloreto de cobre, com severidades próximas a 20%, enquanto o tratamento testemunha, sem aplicação, apresentou 73%.
A utilização de picoxistrobina+ciproconazol e clorotalonil reduziu em aproximadamente 60% a severidade da ferrugem em experimentos de campo.
Clorotalonil e mancozebe também apresentaram reduções na severidade da ferrugem em experimentos na safra 2019/20, de valores entre 40% e 50% em comparação ao tratamento controle, demonstrando potencial de utilização.
O Frac (Comitê de Ação a Resistência a Fungicidas do Brasil) indica que as recomendações de fungicidas sejam baseadas em produtos registrados para o controle da ferrugem asiática.
Você pode consultar a lista de produtos registrados no Sistema de Agrotóxicos Fitossanitários (Agrofit).
Alguns fungicidas de sítio específico, quando aplicados de forma conjunta, conferem maior proteção e podem se tornar uma opção interessante.
Estrobilurinas devem ser aplicadas combinadas com triazóis, triazolinthione e ou/carboxamidas.
Triazóis e triazolinthione não devem ser utilizados de forma isolada por apresentarem níveis de resistência.
Carboxamidas devem ser utilizadas sempre em combinações com estrobilurinas.
O controle deve ser iniciado preventivamente, evitando assim a exposição dos produtos a altas populações dos patógenos.
Novas tecnologias, combinando a aplicação de carboxamidas (sítio específico) e multissítio como oxicloreto de cobre foram disponibilizadas recentemente para o manejo da ferrugem asiática.
A lista completa dos grupos de fungicidas e seus respectivos modos de ação, pode ser consultada na Frac.
Lembre-se que todos esses produtos devem ser utilizados conforme recomendação do fabricante quanto a doses, épocas e intervalos de aplicação.
Combinações de fungicidas de diferentes sítios de ação (sítio específico e multissítio) no controle de diferentes patógenos causadores de doenças na cultura da soja
(Fonte: adaptado de Agrofit)
A resistência ocorre principalmente devido à grande variabilidade de microrganismos existentes, aliada à sua capacidade de multiplicação rápida.
Dessa forma, ao aplicarmos um fungicida de sítio específico de ação, repetidas vezes e sem utilizar táticas de manejo integrado de doenças (MID), estamos realizando uma pressão de seleção.
Alguns microrganismos desenvolvem estratégias de sobrevivência à aplicação dos ingredientes ativos, que são passadas de geração para geração.
A Frac recomenda algumas estratégias para evitar a resistência dos fungos aos fungicidas, incluindo:
A avaliação da necessidade de aplicação e momento (preventivo para algumas doenças) também torna-se importante para reduzir o número de tratamentos durante a safra.
Para evitar a resistência, planeje a utilização de produtos em misturas e com diferentes mecanismos de ação.
Programa de aplicação de fungicidas, estratégia e risco de resistência. A – fungicida com alto risco de resistência; B – fungicida com baixo risco de resistência.
(Fonte: adaptado de Zambolim, 2008)
As falhas no controle químico de doenças geralmente são atribuídas aos fungicidas… mas você já pensou que outros fatores podem estar relacionados?
Veja os principais a seguir:
Neste artigo vimos as diferenças entre os espectros de ação sítio-específicos e multissítios, bem como a forma que protege os cultivos. E pudemos entender como eles se tornam aliados quando utilizados em conjunto.
Vimos também as principais causas de resistência dos fungos aos fungicidas e as formas de manejo recomendadas para evitar com que elas ocorram.
Vale lembrar que um bom monitoramento da lavoura, com diagnóstico correto e precoce das doenças, bem como planejamento da utilização de produtos são fatores que determinam o sucesso no controle de doenças.
>> Leia mais:
“Lavoura saudável: como combater as doenças da soja (+ nematoides)”
“Biofungicidas: quando vale a pena usá-los para o controle de doenças na lavoura?”
Restou alguma dúvida sobre como atuam os fungicidas multissítios e por que são importantes no controle de doenças da cultura da soja? Deixe seu comentário!