Perda de grãos por geada: saiba como se planejar, como obter o histórico climático da sua área e acertar a janela de plantio.

Todo ano, as geadas tiram o sono de muitos produtores. Embora esse fenômeno seja mais comum na região Sul, São Paulo, sul de Minas Gerais e Mato Grosso do Sul também sofrem com geadas.

Existe mais de um tipo de geada e seus danos dependem da região, relevo e cultura em questão. 

Mas existem medidas que podem ser tomar e, quando usadas em conjunto, ajudam na prevenção e redução de danos nas lavouras.

Reuni alguns pontos que devemos considerar quando o assunto é prevenção das perdas de grãos por geada. Confira!

O que é a geada?

A geada é um fenômeno meteorológico que ocorre quando a temperatura atinge 0℃ e há umidade no ar. Os danos podem ser causados por ventos frios soprando por várias horas ou mesmo pelo acúmulo de ar frio. 

Por esse motivo, conforme se caminha para o inverno, maiores são as chances de ocorrência de geada. 

Do ponto de vista da produção vegetal, considera-se que ocorreu geada quando a temperatura no abrigo meteorológico fica abaixo de 2℃ e representa morte da planta ou de suas partes devido ao congelamento. 

Tipos de geada

As geadas podem ser classificadas quanto à sua formação:

  • advecção;
  • radiação;
  • mista; 
  • de canela. 

ou por seu aspecto visual: 

  • geada branca; 
  • geada negra. 

No Brasil, o mais comum é que ocorram geadas brancas de radiação, em geral, menos severas. 

duas fotos ilustrativas de geada negra e geada branca em lavouras

Geada negra e geada branca
(Fonte: adaptado de Marco Hisatomi e Gaúcha Zh)

3 passos para prevenir a perda de grãos por geada

Os danos causados pela geada podem ser minimizados ou prevenidos com um bom planejamento, escolha de variedades e manejo adequado:

1- Observe o histórico de geadas da região

Para um bom planejamento visando minimizar a perda de grão por geada é necessário conhecer o histórico de ocorrência desse fenômeno no seu local. Existe mais de uma base de dados que fornece essas informações.

Veja abaixo três exemplos de onde você pode acessar informações sobre geadas e se planejar.

Na primeira imagem, há o mapa de previsão de geadas do Sisdagro, do Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia). Note que ele informa um maior risco de geada no Rio Grande do Sul e parte de Santa Catarina, enquanto o Paraná tem menos riscos.

Ilustração com exemplo de mapa de risco de geada no Brasil

Exemplo de mapa de risco de geada no Brasil
(Inmet)

O Cptec/Inpe também tem um sistema de previsão de geadas que gera um mapa mostrando as condições de ocorrência. Os pontos vermelhos indicam maior probabilidade de ocorrência de geada.

Mapa de ocorrência de geada, no exemplo para a madrugada do dia 30 de julho de 2020 com pontos vermelhos na região Sul e azul na região Sudeste.

Mapa de ocorrência de geada 
(Cptec/Inpe)

Mais especificamente para o estado do Paraná, o Iapar disponibiliza um histórico de geadas e gera mapas como o abaixo:

Mapa de geada no estado do Paraná, no exemplo temperatura mínima no abrigo em 08 de julho de 2019.

Mapa de geada no estado do Paraná
(Fonte: Iapar)

Independentemente da base de dados utilizada, essas informações são úteis para o planejamento do plantio de culturas de inverno. Outro fator a se levar em conta, são as espécies de planta.

2- Escolha cultivares adequadamente

As perdas nas lavouras por geada dependem da espécie e cultivar, estádio de desenvolvimento, fitossanidade e estado nutricional da plantação. 

A tabela abaixo mostra a temperatura letal para diferentes culturas. Observe:

Tabela com a temperatura letal de culturas anuais sendo trigo, aveia, feijão, soja, milho, sorgo e arroz.

Temperatura letal de culturas graníferas 
(Fonte: adaptado de Sentelhas e Angelocci)

Veja que trigo e aveia têm mais tolerância à geada. Mas isso não quer dizer que uma lavoura de trigo não sofra perdas por geada! Elas só “aguentam mais o tranco”.

Mas isso também depende da cultivar, pois dentro de uma mesma espécie existem cultivares mais ou menos resistentes ao frio. 

Milho e soja, culturas tipicamente de verão, são menos tolerantes às baixas temperaturas e não dispõem de cultivares que sejam resistentes à geada. 

Para o trigo, existem opções de cultivares mais resistentes ao frio. 

Em locais onde o risco de geada é maior, opte por variedades mais resistentes.

Note também, que mesmo para trigo e aveia, a fase de floração e enchimento de grãos é crítica, pois as plantas são menos tolerantes ao frio. Por isso, para evitar dor de cabeça, outro fator é importante de se levar em conta: a data de semeadura.

3- Não erre na data (nem no local) de semeadura

Data de semeadura

Baseado no histórico de ocorrência de geadas, mês a mês, e no ciclo da cultivar, é possível escalonar o plantio para que a fase reprodutiva não caia na época de maior ocorrência de geadas do local. 

O governo disponibiliza o Zoneamento agrícola de risco climático (Zarc), onde é possível encontrar a janela de plantio ideal para minimizar os riscos da cultura e região em que se deseja plantar. O aplicativo desenvolvido pela Embrapa facilita a visualização dessas informações do Zarc.

Plantar na janela ideal é primordial para obtenção de crédito rural e seguro agrícola também. Fique atento!

Topoclima e relevo

A intensidade e frequência de geadas também está relacionada às condições do topoclima ou relevo. As geadas são mais intensas e frequentes em locais onde há pouca circulação da massa de ar frio, como nas baixadas

Ilustração sobre problema do acúmulo de ar frio de acordo com relevo e vegetação

O problema do acúmulo de ar frio de acordo com relevo e vegetação 
(Fonte: Sentelhas e Angelocci)

Além disso, quando a face Sul/Sudoeste dos terrenos está menos exposta à luz do sol no inverno, os riscos são maiores!

Considerando a combinação de fatores – relevo, data de semeadura e cultivar – o ideal é que se deixe as cultivares menos resistentes para o fim da  janela de plantio e para as partes mais altas do relevo, reduzindo, assim, a perda de grãos por geada. 

Como alternativa de manejo na lavoura já instalada, a irrigação por aspersão durante a noite da geada ajudar a minimizar os danos.

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Conclusão

Como acompanhamos no texto, a geada é um fenômeno meteorológico como qualquer outro e, como tal, sua ocorrência está fora do alcance do produtor. 

Mas existem “cartas na manga” que, quando utilizadas em conjunto, podem facilitar o convívio com esse fenômeno

Dentre as possibilidades, o maior impacto na redução da perda de grãos por geada vem do bom planejamento na instalação da lavoura. É preciso evitar áreas de baixada – onde o ar frio se acumula –  e plantar na época correta do zoneamento de risco climático

Além disso, recomenda-se escolher cultivares que tenham maior tolerância nas áreas onde o histórico de ocorrência de geada for maior. A cultura do trigo dispõe de várias alternativas. Já milho e soja, não. Fique atento! 

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Qual a relação entre clima e agricultura?

Como você se previne da perda de grãos por geada na sua propriedade? Deixe suas dúvidas ou comentários no espaço abaixo. Grande abraço, se cuide e até a próxima!