Tecnologia de aplicação: escolha de bicos, redução da deriva e outras dicas importantes para ter mais eficiência em suas aplicações.
Não adianta comprar a melhor semente do mercado ou o produto mais caro se você não tomar alguns cuidados no momento da aplicação.
Muitas vezes, cometemos erros ou esquecimentos na hora de aplicar os defensivos agrícolas, diminuindo a eficácia da aplicação e aumentando os efeitos negativos ao ambiente.
A simples mudança da ponta de pulverização, por exemplo, pode alterar completamente o tamanho de gotas da aplicação e aumentar a deriva.
Então, é necessário que algumas técnicas sejam realizadas e, dentre elas, o estudo da Tecnologia de Aplicação de Defensivos Agrícolas.
Neste artigo, vamos abordar alguns assuntos sobre essa tecnologia de aplicação. Confira!
Índice do Conteúdo
O que é tecnologia de aplicação?
A tecnologia de aplicação pode ser definida como o emprego dos conhecimentos científicos para que o produto utilizado atinja o seu alvo (seja uma planta ou insetos).
A aplicação do produto deve ser na quantidade necessária, com o mínimo de gastos extras e contaminação de áreas vizinhas.
Além disso, antes de tudo, é muito importante que o responsável seja devidamente equipado com os EPIs (Equipamentos de Proteção Individual) a cada aplicação, para que a exposição do aplicador ao defensivo agrícola utilizado seja a menor possível.

(Fonte: Rehagro Blog)
Outros dois conceitos que podemos definir para compreender melhor a tecnologia de aplicação de defensivos agrícolas são pulverização e aplicação.
Pulverização e aplicação
A pulverização é a transformação de uma substância líquida em gotas. Já a aplicação é a deposição dessas gotas sobre o alvo.
As gotas precisam estar no tamanho e densidade adequados ao objetivo da aplicação.
Para que isso aconteça, é necessário o conhecimento correto da tecnologia de aplicação.


Tipos de bico de aplicação (Fonte: Agrozapp)
Observe na figura abaixo como uma mudança na ponta de pulverização muda o tamanho das gotas de aplicação:

(Fonte: Rodrigues et al., 2011)
Regulagem e calibração
Regular um equipamento significa ajustar os componentes da máquina de acordo com a cultura e os produtos que serão utilizados.
Por exemplo: tipos de pontas mais adequados, velocidade de aplicação, altura da barra em relação ao alvo e espaçamento entre os bicos.
Já calibrar um equipamento é verificar qual será o volume de aplicação, a quantidade de produto que será utilizada e a vazão das pontas.
Sabendo desses conceitos, alguns riscos podem ser evitados, como a deriva. Mas o que seria isso?
O que é deriva de agrotóxicos?
Deriva é definida como o deslocamento da calda do produto para fora do alvo.
A deriva pode ter três causas:
- Ação do vento
- Escorrimentos
- Volatilização

(Fonte: Química Nova)
A deriva pode ainda ser classificada em:
- Endoderiva
- Exoderiva
Na endoderiva, as perdas são internas, ou seja, dentro da área. Geralmente, a endoderiva está relacionada a altos volumes de calda e gotas grandes. Neste processo, ultrapassa-se a capacidade das folhas em reter o produto.
Na exoderiva, ocorre o deslocamento das gotas para fora da área da cultura. A exoderiva é causada pela ação do vento e evaporação da água utilizada no preparo da calda e está associada a gotas pequenas.

(Fonte: Cultivar)
As gotas menores têm maior capacidade de cobertura do alvo, ou seja, maior número de gotas por cm².
Gotas menores são recomendadas quando é necessária uma boa cobertura e penetração.
Porém, quando utilizamos gotas pequenas, temos que levar em conta que elas são mais propensas à evaporação e, consequentemente, a sofrerem o processo de deriva — principalmente quando aliada a alta temperatura e baixa umidade relativa do ar.

(Fonte: Jacto)
Quais fatores influenciam a deriva?
A deriva pode ocorrer devido a alguns fatores, como:
- Tipo de ponta
- Condições climáticas durante a aplicação
- Velocidade de aplicação
- Altura de aplicação
- Composição da calda de aplicação
Esses fatores necessitam de uma atenção especial, pois pequenos detalhes podem contribuir para a redução da deriva.

(Fonte: Sabri)
Devido a alguns problemas em relação ao tipo de ponta (ou bico hidráulico), gota e deriva, atualmente existe “pontas de baixa deriva” ou “bico com injeção de ar”, que produzem gotas relativamente grandes, mas como uma cobertura adequada.
Isso porque aqueles conhecidos como cone cheio de grande abertura angular são menos propensos a ter deriva do que cone vazio ou jato leque convencional. Porém, o cone cheio não permite bom controle ao se utilizar herbicidas de contato, inseticida e/ou fungicida.

(Fonte: EMBRAPA)
Tecnologia de aplicação: o que fazer para reduzir a deriva
As condições climáticas no momento da aplicação são fundamentais para se obter eficácia do produto.
Você se lembra quais são elas?
- Temperatura inferior a 30°C
- Umidade relativa do ar acima de 60%
- Ventos na faixa de 3 km/h a 6,5 km/h, não ultrapassando os 10 km/h

(Fonte: Syngenta)
É importante ressaltar que essas condições geralmente são observadas antes das 10 horas e após as 16 horas.
Um outro fator é o tamanho das gotas, pois isso está diretamente relacionado ao vento. Observe na figura abaixo — com ventos de 5 km/h, as gotas mais leves percorrem 321 metros do local aplicado. Caso haja aumento da velocidade do vento, essa distância possivelmente aumentará.

(Fonte: Iniciativa 2,4-D)
O tamanho das gotas também depende de outros fatores, como:
- Tipo de ponta
- Vazão
- Pressão
- Ângulo do jato
- Propriedade do líquido pulverizado
Em relação ao tipo de ponta, como dito anteriormente, existem no mercado pontas antideriva ou pontas com indução de ar.
Em relação ao tipo de ponta, como dito anteriormente, existem no mercado pontas de baixa deriva ou pontas com indução de ar.
Algumas características destas pontas são:
- Tamanho das gotas não aumenta muito com o aumento da pressão de trabalho
- Espectro de gotas homogêneo
- Pode superar rajadas de vento entre 15 km/h e 20 km/h
- Recomendadas para condições meteorológicas extremamente adversas
Além dessa, existem outros tipos, como leque, cone/cônico vazio e cone/cônico cheio:
Essas pontas proporcionam gotas maiores e são conhecidas como pontas de pulverização venturi. Elas produzem gotas com bolhas de ar “misturadas” no líquido pulverizado.

(Fonte: Agronomico)
Fatores que influenciam a tecnologia de aplicação
Em relação aos produtos, por exemplo, você deve atentar para as características físico-químicas.
Um produto que possua uma elevada pressão de vapor tem um maior risco de sofrer volatilização e é, consequentemente, maior a chance de ocorrer a deriva.
Outro importante fator a ser observado é em relação à formulação do produto, pois a pressão de vapor pode ser alterada com a formulação.
Alguns exemplos são:
- 2,4-D amina;
- Clomazone (Gamit 360 SC);
- Trifuralina gold

(Fonte: Iniciativa 2,4-D)
Esses três ingredientes ativos fazem referência a novas formulações de herbicidas, os quais possuem uma menor pressão de vapor.
Portanto, podemos chegar à conclusão de que existem três principais maneiras de reduzir o risco da deriva:
- Calibrar a pressão do pulverizador
- Características físico-químicas das caldas (formulação dos produtos e tipos de adjuvantes)
- Escolha de pontas de pulverização adequadas
Lembre-se sempre de que o sucesso de uma pulverização depende de:
- Pulverizador de boa qualidade
- Calibração e regulagem do equipamento
- Água de boa qualidade
- Produto de boa qualidade
- Condições climáticas favoráveis
- pH ideal
- Operador treinado
É importante também que o produtor tenha conhecimento dos tipos de pulverizadores que podem ser utilizados: hidráulicos, autopropelidos, hidropneumáticos e eletrostáticos.
Pulverizadores hidráulicos
Fragmentam o líquido em gotas, pela pressão exercida sobre a mistura (água + produto) decorrente de uma bomba hidráulica. Como pulverizador costal manual e de barra.
Pulverizadores autopropelidos
Possuem grande capacidade de carga e contem motor, cabine e sistema de pulverização (bombas, barras e bicos).
Pulverizadores hidropneumáticos
Conhecidos como atomizadores tipo cortina de ar. Utilizado em culturas perenes.
Pulverizadores eletrostáticos
Transferência de cargas elétricas às gotas.
Além de condições climáticas, tipos de pulverizadores, bicos e outros, existe um detalhe importante a ser considerado: o fato de que a planta apresenta uma barreira natural para a penetração de líquidos, conhecida como cutícula.
Então, para que o defensivo agrícola consiga realizar sua função, é utilizada uma substância inerte chamada de aditivo ou adjuvante, que apresenta a capacidade de modificar a atividade dos produtos e as características da pulverização.
O aditivo pode alterar o depósito do ingrediente ativo na superfície da folha, causar efeito na difusão transcuticular e interferir na permeabilidade da membrana plasmática.
Esses adjuvantes podem apresentar outras funções, como:

(Fonte: Rehagro Blog)
O mercado cresce e a demanda por novas tecnologias também. Por isso, existem algumas tendências com resultados positivos, que são:
- Eletrovortex: pulverização com uma taxa de aplicação menor, por meio de carregamento eletrostático de gotas com assistência do ar atmosférico
- Telemetria: coleta e compartilhamento remoto de informações
- Spot Spray: presença de sensores que possibilitam a identificação de plantas que necessitam de aplicação de defensivos

Conclusão
A aplicação de defensivos agrícolas de maneira correta permite o devido controle de pragas, doenças e plantas daninhas.
Neste artigo, vimos como a tecnologia de aplicação nos ajuda a obter uma maior eficiência nesse controle.
Também conseguimos entender como alguns fatores interferem no sucesso da pulverização e como a tecnologia de aplicação pode nos ajudar a reduzir esses problemas.
O principal ponto tratado aqui foi a deriva, que está entre as principais perdas de defensivos que temos na agricultura hoje.
Assim, vimos que calibração, características da calda e escolha de pontas de pulverização adequadas são maneiras de reduzir essas perdas.
Com essas práticas, espero que você tenha sucesso na aplicação dos defensivos em sua lavoura!
>> Leia mais:
“Passo a passo de como fazer a limpeza de pulverizador agrícola com segurança”
“Aplicação noturna de defensivos agrícolas: quando vale a pena?”
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Atualizado em 16 de junho de 2023 por Alasse Oliveira.
Alasse é Engenheiro-Agrônomo (UFRA/Pará), Técnico em Agronegócio (Senar/Pará), especialista em Agronomia (Produção Vegetal) e mestrando em Fitotecnia pela (Esalq/USP).
Importantes comentários mas requer experiências na prática. Pois mecanização agrícola na minha experiência é muito cheia de detalhes .
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