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Classificação da soja: a atenção ao padrão exigido por indústria e tradings e o diagnóstico correto na hora da colheita são fundamentais para o aumento da sua renda

A colheita é um dos momentos mais aguardados pelo produtor, mas após essa etapa ainda há toda uma cadeia produtiva pela frente.

Afinal, quando se produz soja, estamos tratando de uma matéria-prima com destino diverso, desde exportação do grão in natura até produção de óleo ou utilização na indústria cosmética.

Seja qual for o destino, para adentrar na indústria/trading é preciso haver uma classificação da soja, um padrão de entrada, para assim haver a comercialização de produtos de qualidade.

Essa classificação física de soja é feita com base em leis e instruções normativas. 

Neste artigo, vamos mostrar tudo isso e dar dicas do que fazer para garantir mais lucratividade na comercialização da commodity. Confira a seguir!

Classificação da soja: o que diz a legislação

A classificação física de produtos vegetais foi instituída pela Lei n.º 9.972, de 25 de maio de 2000 e regulamentada pelo Decreto n.º 6.268, de 22 de novembro de 2007. Mais especificamente para a soja usamos a IN (Instrução Normativa) 11 de 2007.

Toda a classificação de soja que ocorre em território nacional usa como base essa IN. 

Mas ela é apenas uma base mesmo, pois nenhuma instituição com fim comercial necessita segui-la, desde que a classificação seja explicada ao produtor e esteja em contrato assinado por ambas as partes.

Na IN temos dois grandes grupos de soja (I e II), como você pode ver na tabela abaixo: 

Variáveis analisadas e os limites na classificação de soja especificadas na IN 11 de 2007

Variáveis analisadas e os limites na classificação de soja especificadas na IN 11 de 2007
(Fonte: Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento)

Como você pode notar, a tabela acima não delimita a umidade do grão, não sendo considerada para efeito de enquadramento nos grupos. É recomendado o percentual máximo de 14% (IN 11 de 2007) e, acima deste valor, descontos são aplicados. 

O padrão de 14% é seguido por todas as indústrias, ao menos nunca vi negociações com esse números diferentes no parâmetro.   

Processo de classificação de soja em 7 passos

Depois de colhida na lavoura, a soja será encaminhada para uma indústria, trading ou estrutura própria. Independente do destino, as operações a seguir são fundamentais para um correto armazenamento do grão

Nesta ordem ocorrem os processos: calagem (caminhão ou graneleiro), quarteamento, retirada de impurezas, medição da umidade, avaliação de grãos avariados, esverdeados e grãos partidos e amassados (dentro do laboratório de classificação). 

Vou explicar melhor cada uma delas a seguir:

1 – Calagem

Consiste em retiradas de subamostras do caminhão, segundo peso do caminhão (tabela abaixo), para se formar a amostra, segundo a IN:

tabela com número de pontos a se retirar para formar a amostra de trabalho - classificação da soja

Número de pontos a se retirar para formar a amostra de trabalho
(Fonte:  Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento)

2 – Quarteamento

Consiste na mistura e redução da amostra, para se formar a amostra de trabalho homogênea (+- 250 g). Na figura abaixo, vemos um quarteador em cascata: 

foto de  quarteador em cascata

 Quarteador em cascata 
(Fonte: Eagri)

3 – Retirada de matérias estranhas e impurezas

A retirada de matérias estranhas e impurezas é feita com o uso de peneiras de (3 mm e 9 mm). O percentual aceitável é de 1%. Tudo acima desse valor é descontado proporcionalmente.

fotos de matérias estranhas e impurezas com uso de peneira de 3,00 mm

Matérias estranhas e impurezas
(Fonte: Referencial fotográfico da soja)

4 – Determinação da umidade do grão

A determinação da umidade do grão é feita com uso de máquinas próprias para a atividade. O percentual aceitável é de 14% e tudo acima deste valor é descontado.

5 – Determinação dos grãos avariados

A determinação dos grãos avariados deve ser feita com um olhar minucioso. O percentual aceitável é de 8% e, como nos outros casos, tudo acima deste valor é descontado proporcionalmente. 

Estes defeitos implicam na perda direta de qualidade do óleo de soja e teor proteínas presentes.

Abaixo você pode ver diversos exemplos de defeitos:   

fotos de grãos com defeitos, queimados no secador
Grãos mofados causados pelo atraso na colheita

Grãos mofados causados pelo atraso na colheita
(Fonte: Referencial fotográfico da soja)

Comparação entre grãos imaturos e chochos - classificação da soja

Comparação entre grãos imaturos e chochos 
(Fonte: Referencial fotográfico da soja)

Os maiores causadores de grãos avariados são os percevejos barriga-verde e o percevejo marrom.

Esses insetos, após sugarem a seiva dos grãos, deixam um canal de passagem aberto para micro-organismos que acabam por consumir o conteúdo do grão, fermentando-o até chegar ao estágio de grão ardido.

Além deles, a chuva na fase da colheita também é uma grande vilã, pois atrasa esse processo e, com isso, o grão pode “passar do ponto”.

6 – Determinação de grãos esverdeados

São grãos que não alcançaram a maturidade fisiológica por algum motivo (seca, pragas agrícolas, entre outros). 

Essa classificação só é realizada caso seja constatada, a olho nu, a presença de um grande número de grãos esverdeados. O percentual aceitável é de 8% e tudo acima deste valor é descontado proporcionalmente.

Exemplo de grãos esverdeados - classificação da soja

Exemplo de grãos esverdeados
(Fonte: Referencial fotográfico da soja)

7 – Determinação de grãos partidos e amassados

A determinação de grãos partidos e/ou amassados também só é feita caso seja constatada uma grande presença de grãos assim na visualização a olho nu. O percentual aceitável é 30% – acima deste valor é descontado proporcionalmente.

Exemplo de grãos de soja partidos e quebrados

Exemplo de grãos partidos e quebrados
(Fonte: Referencial fotográfico da soja)

Como utilizar os conhecimentos da classificação para aumentar a rentabilidade

Analisando a classificação do local de destino e tendo a devida estrutura, como silos, secadores, peneiras, sistemas de termometria, espalhadores entre outros equipamentos, podemos previamente armazenar o grão em silos próprios. 

Claro que é necessário se organizar na propriedade para ter uma classificação prévia no graneleiro ou no caminhão que vai descarregar (antes de ir para o silo), das variáveis (umidade do grão, avariados e impurezas, principalmente). 

A partir da classificação e com o processo definido do destino da soja, segundo a sua classificação, podemos alocar o grão nos silos. 

Tendo o processo de recepção e manejo definido na propriedade, é preciso conhecer outra técnica conhecida pelas indústrias e tradings chamado de  “blend” (ou mistura, em português).

O blend consiste em misturar a soja com variáveis diferentes, mas mantendo o padrão da classificação da indústria/trading. 

Ou seja, aloca-se a soja com variáveis semelhantes juntas e, ao final, podemos fazer misturas ganhando em peso, poupando em gastos com operações de secagem ou descontos no destino.

Opções de blend

Para que você entenda melhor esse processo de blend, abaixo deixo uma tabela onde faço uma simulação de um produtor de 30 mil sacos de soja que conseguiria armazenar toda a sua produção e fazer o manejo correto dos grãos para possível mistura. 

tabela com simulação de um produtor de 30 mil sacos de soja, com armazenamento total e manejo correto.

Com os dados da colheita em mãos, vemos que João conseguiria misturar a soja do tipo 1 com o tipo 2 ganhando em peso de umidade, evitando descontos.

Outra opção seria misturar soja do tipo 3 com o tipo 2, ganhando em peso de grãos avariados. 

Os processos citados acima envolvem técnicas de conservação, resfriamento e secagem nos silos conforme o tempo decorre e a necessidade de venda do produto surge. Os exemplos acima poderiam ser aplicados principalmente no sul do Brasil.

Abaixo trago uma tabela onde comparo os ganhos do manejo “blendando”, ou seja, misturando diferentes tipos de soja com os da entrega direta para a indústria.

tabela com comparação dos ganhos dos manejo blendando, com vários tipos de soja com os da entrega direta para a indústria.

Quanto maior a área semeada, maiores as possibilidades de maximizar os lucros. 

Não existem respostas certeiras para o manejo do blend, mas ele é um aliado para maximizar os ganhos com a soja e outras culturas, como milho. 

Conclusão

A classificação de grãos padroniza as commodities, facilitando o comércio nacional e internacional para sempre termos produtos de qualidade. 

Neste artigo você viu as legislações referentes à classificação física da soja e as etapas de classificação em 7 passos principais.

Conhecer esses processos que envolvem a classificação e o manejo do grão no pós-colheita pode maximizar seus lucros!

Restou alguma dúvida sobre o processo de classificação da soja? Você já tentou fazer algum blend em seus grãos? Assista também nosso webinar “Soja: da classificação à comercialização”!