Inoculação: entenda seus benefícios e como fazer

Inoculação de sementes: entenda o processo, os benefícios, quais os tipos de inoculantes e conheça os cuidados necessários para obter sucesso nesta prática!

Um dos nutrientes mais demandados pelas culturas, é o nitrogênio (N). Ele é necessário para o desenvolvimento vegetativo das plantas e para suprir o teor de proteínas que os grãos precisam. Logo, uma quantidade adequada de N garante altas produções.

Uma prática simples que incrementa o teor de N de forma biológica, é a inoculação de sementes. Isso é possível graças à descoberta de algumas bactérias capazes de fixar N e deixá-lo prontamente disponível para as plantas.

Dessa forma, a inoculação elimina ou dispensa a necessidade de uso de adubos nitrogenados, proporcionando economia, além de promover ganhos de rendimento na lavoura.

Agora, vamos entender tudo sobre inoculação de sementes, quais os tipos de inoculantes e como fazer essa prática. Confira!

O que é inoculação?

Antes de falar sobre inoculação, vamos entender o que é a fixação biológica de nitrogênio (FBN). Neste processo, o nitrogênio (N2) presente na atmosfera é convertido em formas que podem ser utilizadas pelas plantas. 

O que acontece, é que as bactérias fixadoras de nitrogênio, denominadas rizóbios, possuem enzimas nitrogenases, que fazem essa reação em simbiose com algumas plantas leguminosas (família da soja, do feijão, da ervilha, entre outras).

Infelizmente, a simbiose não ocorre em todas as espécies, a principal cultura é a soja. Ela resulta na formação de estruturas especializadas nas raízes, que são os nódulos. É dentro deles que ocorre o processo de fixação do N.

Raiz de soja com a presença de nódulos, por efeito da inoculação com Bradyrhizobium sp.
(Fonte: Embrapa)

Outras espécies de bactérias capazes de fixar o N2 atmosférico já foram encontradas em associação com gramíneas como o milho, o trigo e a cana-de-açúcar

Porém, nessas plantas, não ocorre a formação de nódulos nas raízes e as quantidades de N são muito baixas. Por isso, não é possível dispensar a utilização de adubos nitrogenados na lavoura. 

Podemos entender a inoculação como o processo em que as bactérias fixadoras de nitrogênio, que são selecionadas pela pesquisa, são adicionadas às sementes antes da semeadura. O produto utilizado na inoculação é chamado de inoculante ou biofertilizante.

Os inoculantes são formulados com base biológica, ou seja, são insumos biológicos!

Eles são produzidos de acordo com protocolos estabelecidos pela Relare (Rede de Laboratórios para Recomendação, Padronização e Difusão de Tecnologia de Inoculantes Microbiológicos de Interesse Agrícola), e registrados pelo MAPA (Ministério da Agricultura e Pecuária).

Vamos conhecer os tipos de inoculantes utilizados para a inoculação? Acompanhe!

Principais tipos de inoculantes

Os inoculantes são insumos baratos e fáceis de serem encontrados. 

Para um microrganismo ser registrado, primeiro ele é estudado e selecionado por cientistas. Para ser usado em um inoculante comercial, a empresa deve obter a cepa registrada e recomendada a partir de um banco de germoplasma homologado.

O MAPA disponibiliza uma lista com microrganismos e cepas registrados e autorizados para produção de inoculantes para cada cultura. Esta lista é atualizada periodicamente. A seguir, vamos ver algumas espécies autorizadas:

  • Soja: Bradyrhizobium japonicum e Bradyrhizobium elkanii;
  • Feijão: Rhizobium tropici;
  • Ervilha e lentilha: Rhizobium leguminosarum bv. viceae;
  • Trigo, milho e arroz: Azospirillum brasilense;

Bradyrhizobium sp., Rhizobium sp. e Azospirillum:

Bradyrhizobium é o gênero de bactéria mais utilizado em inoculação. Cerca de 80% dos inoculantes utilizados na agricultura brasileira são à base de espécies de Bradyrhizobium

Como vimos na lista acima, é amplamente utilizada na cultura da soja, mas também pode ser usada para feijão-caupi.

Já as bactérias do gênero Azospirillum são menos empregadas, representando 10% dos inoculantes produzidos. Elas fazem a  fixação biológica do nitrogênio em gramíneas (embora em baixas quantidades), como milho, trigo, arroz e também cana-de-açúcar.

Além de fixar nitrogênio, os Azospirillum também são conhecidos por produzirem hormônios vegetais que estimulam o crescimento das raízes de diversas espécies de plantas. 

As demais espécies e cepas disponíveis, como Sinorhizobium sp., Mesorhizobium sp., Nitrospirillum amazonense e Rhizobium sp., correspondem a 10% dos inoculantes produzidos. 

O gênero Rhizobium sp. é amplamente utilizado em feijão, mas também pode ser empregado em outras culturas, como lentilha e ervilha.

Benefícios da inoculação

A utilização de inoculantes melhora o desempenho da cultura em associação. Por isso, além do incremento no rendimento, está associado com os seguintes aspectos:

  • Produção de hormônios promotores de crescimento das plantas;
  • maior resistência aos estresses ambientais (planta mais vigorosa e saudável);
  • maior eficiência na absorção de água e nutrientes;
  • redução do custo de produção (menor necessidade de adubação nitrogenada).

Em algumas culturas como o milho, a inoculação por Azospirillum brasiliensis não é capaz de suprir toda a demanda de nitrogênio, sendo necessário realizar adubação nitrogenada na semeadura e na cobertura para garantir o sucesso na produção.

Inoculação na soja: por que utilizar?

A bactéria que fixa o N não ocorre naturalmente nos solos brasileiros. Por isso, fique atento, principalmente se a área nunca foi cultivada com soja antes. É indispensável que se faça a inoculação nessas condições para garantir altos rendimentos.

Realizar a inoculação na soja anualmente pode trazer um aumento de rentabilidade superior a 8%.

A coinoculação, uma formulação com as bactérias Bradyrhizobium + Azospirillum, pode potencializar os benefícios da inoculação, proporcionando um incremento de até 6 sacas/ha na produtividade

Na soja, o N é o macronutriente que a planta precisa em maior quantidade, devido ao fato de seu grão ser composto por alto teor de proteínas, e a inoculação realizada pelas bactérias fixadoras é capaz de suprir toda essa demanda!

Porém, tenha cuidado! Maiores rendimentos são alcançados desde que as boas práticas de inoculação sejam respeitadas. Realizando o manejo adequado, nenhuma complementação com adubo nitrogenado se faz necessária em qualquer estágio da cultura.

Como é feita a inoculação?

Os inoculantes estão disponíveis na forma líquida, em gel, ou sólida (turfa). Cada tipo de inoculante tem forma de aplicação específica. É importante seguir rigorosamente as orientações de inoculação descritas pelos fabricantes.

  1. Inoculação da semente com inoculante turfoso:

O inoculante deve ser preparado com solução açucarada ou outra substância adesiva. Em seguida deve-se adicionar o inoculante, homogeneizar e deixar secar à sombra. Este tipo de inoculante só pode ser aplicado via semente.

  1. Inoculação com inoculante líquido:

O inoculante deve ser aplicado nas sementes, em seguida deve-se homogeneizar e deixar secar a sombra.

  1. Inoculação com inoculante líquido no sulco de semeadura:

Deve-se aplicar o inoculante diluído em água (aproximadamente 50 L/ha) no sulco da semeadura. A dose deve ser seis vezes superior à dose indicada para semente.

Este método traz a vantagem de evitar o contato direto das bactérias com fungicidas e micronutrientes, e reduzir seus efeitos tóxicos. Isso reduz a mortalidade das bactérias, que são organismos vivos!

Boas práticas de inoculação: dicas para obter sucesso

Para que a inoculação traga os benefícios que promete, alguns cuidados básicos devem ser tomados. Vamos entender melhor a seguir:

1ª dica – Produto

Observe se o produto escolhido realmente tem registro no Ministério da Agricultura. Fique atento à data de vencimento indicada no rótulo.

É importante, também, ter certeza de que o inoculante foi transportado e conservado de maneira correta. Afinal, as bactérias são organismos vivos,e  não devem ficar expostas ao sol ou temperaturas muito altas (superior a 30°C).

Essa dica também serve para você: armazene o inoculante em local adequado ou pode perder o produto!

2ª dica – Momento da inoculação

Cuidado com as condições climáticas no dia da inoculação. Realiza sempre na sombra e mantenha sua semente pós inoculação longe do sol e do calor, sempre com o intuito de não “matar” o inoculante.

3ª dica – Dose de aplicação

Para realizar o cálculo da dose, siga as instruções fornecidas pelo fabricante. Mas lembre-se: aplique no mínimo 1,2 milhões de células por semente.

Se a formulação for líquida, a dose não deve ser menor que 100 ml de inoculante para cada 50 Kg de sementes.

Se o produto for turfoso, recomenda-se que as sementes sejam umedecidas com água açucarada a 10%.

4ª dica – Combinação de inoculantes com outros produtos

Se você deseja aplicar algum produto químico junto com a inoculação no tratamento de sementes, não realize no mesmo momento.

O segredo é aplicar o produto químico, esperar secar e somente depois aplicar o inoculante. Lembre-se: são microrganismos vivos!

Outra opção é a inoculação no sulco. Nesse caso, o mercado até disponibiliza alguns kits que podem auxiliar.

Antes de iniciar o processo, observe as recomendações prescritas na bula.

5ª dica – Inoculação na caixa semeadora

Evite a utilização de inoculante direto na caixa semeadora, pois esse manejo dificulta a aderência das bactérias à semente, e interfere na eficiência da prática.

6ª dica – Semeadura x Inoculação

Após a inoculação, quanto tempo posso esperar para realizar a semeadura?

Inúmeros estudos indicam que o maior sucesso da lavoura se dá quando a semeadura é realizada no mesmo dia da inoculação, especialmente se a semente for tratada.

Caso isso não seja possível, o indicado é realizar a semeadura em, no máximo, 24 horas após a inoculação.

Além disso, fique atento à temperatura no momento da semeadura!

Altas temperaturas no depósito de sementes podem ser prejudiciais, do mesmo modo que semear “no pó”. Os microrganismos são sensíveis ao dessecamento.

Planilha de cálculo do funrural ao fundo uma foto com uma mão segurando moedas

Conclusão

As bactérias fixadoras de nitrogênio são fortes aliadas do produtor no aumento do rendimento da lavoura, e também na redução de custos com fertilizantes nitrogenados.

Como elas normalmente não estão presentes no solo na quantidade ideal, podem ser adicionadas através do uso dos inoculantes.

Na soja, elas são capazes de suprir toda a necessidade de nitrogênio da cultura. Mas em outras culturas gramíneas, como o milho, é necessário complementação.

Para que a inoculação tenha sucesso, devem ser seguidas as boas práticas de inoculação. Atente para os cuidados principais e tire o melhor rendimento da sua lavoura, além de economizar recursos!

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Redatora Priscila Marchi

Atualizado em 25 de agosto de 2023 por Priscila Marchi.

Priscila é engenheira agrônoma formada pela Universidade Federal de Santa Maria, Mestra em Ciências (Fruticultura) e Doutora em Ciências (Fitomelhoramento), ambos pela Universidade Federal de Pelotas.

3 thoughts on “Inoculação: entenda seus benefícios e como fazer

  1. Posso realizar a coinoculação em sementes de soja TSI (tratamento de semente industrial), sendo que o Azospirillum se apresenta na forma líquida?
    Como é feita a inoculação do Bradyrhizobium+Azospirillum em Sementes TSI sem o uso da pulverização no sulco?
    Desde já agradeço.

  2. Há necessidade de inocular sementes de feijão de porco (Canavalia ensiformis), crotalária (Crotalaria ochroleuca) e mucuna (Mucuna pruriens)? Existem inoculantes para essas sementes?

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