Como produzir 211 Sacas de Milho por hectare com Gestão Agrícola

No estado de Illinois, Estados Unidos, a produtividade de 211 sacas de grãos de milho por hectare já é uma realidade desde a safra passada com o uso da gestão agrícola.

Mas será que é possível você aqui no Brasil conseguir essa produção?

Pois fique sabendo que já tem produtores agrícolas brasileiros conseguindo até mais!

Como isso é possível?

Duas palavras: Gestão Agrícola.

Illinois supera a média norte-americana de produtividade de milho

O que é gestão agrícola?

Gestão agrícola é o processo para administrar uma empresa rural de forma consciente do processo completo de produção, do manejo de solo à colheita, da compra de insumos à venda dos produtos. Ou seja, é saber de onde está saindo e para onde você quer chegar com seu negócio, sempre com o objetivo claro de fazer desenvolver, crescer, aumentar e melhorar.

 

O que plantar? Quando plantar? Como plantar? Quais insumos utilizar?

A gestão agrícola vem responder todas essas perguntas e orientar o planejamento da sua safra.

Não é fácil conduzir uma fazenda.

A quantidade de “pepinos” que um produtor tem que resolver no dia-a-dia é enorme, e tudo isso envolve diferentes habilidades e conhecimentos.

E é exatamente por isso que a gestão agrícola é tão importante e faz tanta diferença na sua propriedade.

A seguir eu te mostro como criar um sistema de gestão agrícola básico da sua propriedade, para alcançar números impressionantes ainda nessa safra!

Como Implantar Gestão Agrícola Na Sua Fazenda

A primeira etapa da gestão agrícola não poderia ser outra senão o conhecimento da sua fazenda. Saber de onde você está saindo, para depois saber onde e como chegar.

Foto: Jake Gard/Unsplash

E é claro que conhecer a sua fazenda é, primeiramente, conhecer a base essencial dela: o solo.

Alimente o solo e deixe que o solo alimente as plantas
(Professor William A. Albrecht)

Coleta de solo é algo usado por grande parte dos produtores. Fonte: Aqui

Para fazer a gestão adequada do solo, e assim dos fertilizantes e corretivos, é preciso saber o que tem nele.

Não é a toa que 83% dos produtores de agricultura convencional usam técnicas de análises de solos e 92,5% dos produtores de agricultura de precisão utilizam essas técnicas.

Afinal, como é o solo da área onde o milho será cultivado?

Faça a análise de solo no laboratório de sua preferência que esteja perto de você.

Mas é muito importante que o laboratório seja de confiança. Por isso, procure pelos laboratórios certificados PAQLF (Programa de Análise de Qualidade de Laboratórios de Fertilidade).

Os laboratórios certificados são coordenados pela Embrapa Solos e utilizam o método Embrapa de análise de solos.

Para conferir todos os laboratórios certificados PAQLF você pode ir no site da Embrapa solos e pesquisar qual o laboratório mais próximo de você.

Veja como é simples:

1° passo:

Entre aqui no site da Embrapa Solos.

2° passo:

Clique no link e baixe a planilha de contatos dos laboratórios.

Algumas unidades da Embrapa estão com as análises de solos suspensas, mas o órgão possui parceria com laboratórios privados que seguem o método e qualidade Embrapa.

No site da Embrapa Solos, além de você encontrar esses laboratórios,  também irá encontrar manuais de como fazer suas amostras  de coletas de solo e os tipos de análises existentes.

 

 

3° passo:

Você irá encontrar uma planilha parecida com esta aqui:

Na planilha você encontra o nome do parceiro, responsável técnico por fazer a análise química e física do solo, endereço do laboratório, email e telefone.

Agora é só procurar qual é o mais perto de você!

A grande maioria dos laboratórios ainda recebe as amostras por correio, na quantidade indicada pelo laboratório em embalagem limpa e identificada.

Com a análise do solo é possível calcular a quantidade exata (nem mais, nem menos) da adubação e (se precisar, já que hoje muitas lavouras de milho são em plantio direto) calagem e gessagem.

Isso vai fazer com que as plantas de milho estejam com quantidade de nutrientes certas para a produção ser a melhor possível.

Aqui você pode ver o manual completo de adubação e calagem que a Sociedade Brasileira de Ciência do Solo desenvolveu para os estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina

Para se aprofundar mais ainda no assunto, o livro abaixo é um clássico sobre adubação no Brasil.

A melhor maneira de realizar as amostragens na sua área e os cálculos e o passo-a-passo da adubação (e seu parcelamento), calagem e gessagem são assuntos longos que merecem um outro artigo aqui no blog.

Quando sua análise de solo chegar, guarde-a em local seguro e que não irá se esquecer.

Você precisa também anotar quais fertilizantes e corretivos e quais as quantidades vão ser usadas.

Tudo isso pode ser útil em futuras recomendações de correção e adubação do solo.

Agora, vamos continuar com a implantação do sistema de gestão agrícola da  da sua fazenda.

Manejo Integrado de Pragas  Também Faz Parte do Planejamento Agrícola

Quais pragas (insetos, doenças e plantas daninhas) que costumam infestar sua lavoura de milho?

Anote quais são. Vale anotar em uma folha de caderno, em uma folha do word ou em uma planilha de excel do computador.

Produtora utilizando um sistema de gestão agrícola

Anote porque são esses que, muito provavelmente, estarão na sua próxima lavoura.

Se você não acompanha de perto o manejo integrado de pragas você deve estar perdendo dinheiro.

Segundo a Empraba, o manejo integrado de pragas reduz aplicações de defensivos em quase 50%.

AplicaçõesCusto total (R$/ha)Produtividade (SAC/ha)
MIP2,6144,5750,07
Convencional4,99302,0648,67

Preços médios: Saca da soja: R$60,00
Serviços de pulverização/ha: R$24,79
Valor de inseticida/ha: R$54,10
Fonte: Embrapa

 

Os insetos e patógenos de doenças podem sobreviver no solo, nos restos de culturas, na cultura após o milho ou mesmo nas plantas ao redor do talhão (beiras de estradas, etc.).

As plantas daninhas deixam sementes no solo que podem demorar anos para não se tornarem mais viáveis, ou seja, não poderem germinar outra planta.

As daninhas também ficam ao redor dos talhões, nas áreas vizinhas, e nos maquinários que não foram bem limpos.

Aliás essa é a suspeita de como o Amaranthus palmeri veio parar aqui no Brasil.

Foto: Divulgação/AMPA

Se você acha que poucas plantas ao longe na beira da estrada não pode fazer estrago, saiba que apenas uma plantinha pode produzir MILHARES de sementes e viajar pra bem longe.

Por exemplo, uma planta de Amaranthus retroflexus (caruru gigante) pode produzir mais de 100 mil sementes

A anotação de quais insetos, doenças e plantas daninhas que infestam sua lavoura vão te ajudar em como manejar essas pragas..

Se informe sobre cada uma delas.

Às vezes você só precisa aplicar um herbicida mais cedo; às vezes é melhor trocar o inseticida, ou é melhor fazer um quebra vento para a doença não entrar na lavoura, entre todas as outras coisas simples que estão ao seu alcance.

Anotar qual produto e qual dose foram utilizados para combater o que, também é muito importante.

Caso o produto seja aplicado para um problema e não resolvê-lo você saberá exatamente a quantidade de qual produto foi utilizada.

Lembrando, é claro, que a falha do produto pode ser devido a várias coisas, como altura da barra de aplicação, dose, temperatura e umidade do ar, velocidade do vento, bico de aplicação, momento da aplicação, etc.

Por isso, se atente a todas essas coisas e tome nota delas.

As anotações são também para realizar corretamente a rotação dos produtos e evitar resistência das pragas pelo uso repetitivo deles.

O mais legal: é grátis

Além disso, as anotações vão te ajudar a decidir antecipadamente quais os melhores produtos para a próxima safra.

Para facilitar essa decisão existem vários aplicativos de celular ou mesmo no computador.

Um que eu gosto é o Izagro.

O IZagro é gratuito e tem um catálogo enorme de pragas e doenças para cada cultura. O app apresenta inclusive  produtos indicados para o controle destas contaminações com observações de usuários do app.

 

 

Monitore o clima da sua lavoura

Conhecer a sua fazenda é também conhecer onde ela se encontra, já que o desenvolvimento do milho depende da água, temperatura e radiação solar (luminosidade).

E o local da fazenda juntamente com a época de semeadura definirá esses fatores durante a safra.

Para você entender melhor sobre como os fatores climáticos afetam sua lavoura de milho clique aqui.

E é sobre isso que se trata o zoneamento agrícola de risco climático.

Zoneamento para plantio de milho em Minas Gerais. Fonte: Embrapa

 

Nele são analisados os parâmetros de clima, solo e ciclos de cultivares.

A metodologia é validada pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e adotada pelo Ministério da Agricultura.

Com o zoneamento agrícola de risco climático é possível identificar os municípios aptos e os períodos de plantio com menor risco climático para o cultivo do milho em seu estado.

Confira o zoneamento climático, e assim a época e cultivares de menores riscos de perdas, no site do Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento.

Nesse site você pode verificar o zoneamento tanto para a safra, quanto para a safrinha de milho, além de diversas outras culturas.

O monitoramento climático pode reduzir até 42% do uso de defensivos agrícolas em lavouras.  

Agora que você já conhece sua fazenda é hora de conhecer o seu negócio:

Conheça seu Negócio

A produção agrícola nada mais é que uma empresa de produção de alimentos.

Como toda empresa, ela tem custos e lucros.

Conhecer o seu negócio é saber quanto e com o que você gasta e quanto e com o que você lucra.

É assim que você sabe onde está, como vai chegar e onde quer chegar em questão de dinheiro.

Antes da safra começar você pode fazer um planejamento simples.

Você pode usar uma da planilhas que a Embrapa desenvolveu. Entre aqui e baixe o arquivo.

Você irá encontrar uma planilha assim:

Primeiro escreva quanto você pretende e pode gastar com essa safra e o total de dinheiro que você tem (muitas vezes os dois são o mesmo valor).

Escreva cada tipo de gasto da safra: adubos, fertilizantes, corretivos, defensivos, mão-de-obra, aluguel de máquinas, sementes, etc.

Em seguida, reveja suas anotações, veja seu planejamento de acordo com tudo que você conhece da sua fazenda e estime o valor de cada tipo de gasto.

Agora você já tem uma ideia do quanto em dinheiro precisa para o cultivo do milho dessa safra, se tem o total de dinheiro ou se vai ser preciso financiar algo ou renegociar alguma dívida.

Ao longo da safra é muito importante ter o controle dos seus gastos.

De novo, escreva quantia de dinheiro que tem.

Agora escreva os gastos da sua fazenda.

Você pode escrever os gastos totais ou escrever mês a mês.

Sugiro mês a mês, já que o pagamento dos funcionários, da energia elétrica, água entre tantos outros é mensal.

Além de que, quanto mais detalhado melhor será o entendimento dos gastos.

Quanto melhor o entendimento, melhor você poderá ver onde está desperdiçando e onde precisa investir mais.

 

Além disso, mensalmente você vai escrevendo e anotando quais seus gastos e quanto de dinheiro você ainda tem e quanto você tem daquele total que pretende gastar.

Após a colheita e venda das sacas de milho anote o quanto recebeu e desconte os gastos que teve na safra para conhecer o seu lucro.

Isso que acabamos de fazer nada mais é que um fluxo de caixa simples.

Você pode, e deve, cada vez mais detalhar e aperfeiçoar esse fluxo de caixa. Mas esse é um ótimo começo!

É mais controle e segurança do seu negócio.

Por fim: Tome decisões conscientes e que darão resultado

Sabendo quanto você tem para investir nessa safra procure os preços dos produtos e serviços necessários e com base nas suas anotações (sobre a fazenda e sobre seu negócio) você saberá onde e quanto deve gastar com cada coisa.

Mantenha-se Informado

Novas e melhores tecnologias são essenciais para a sua produção e seu negócio crescerem.

As vantagens do uso da tecnologia no agronegócio são grandes. Uma delas é a praticidade e facilidade de gerenciar tarefas.

Agora que você já conhece sua fazenda e sabe manter o controle dos gastos, dá para investir nessas novas tecnologias.

E, muitas vezes, nem precisa de investimento. É só informação que nos falta.

Como fazer um plantio direto melhor? Sistema Plantio Direto Com Qualidade: Uso De Plantas De Cobertura Num Planejamento Cultural Estratégico e  Fundamentos Do Plantio Direto Na Cultura De Milho.

Quais as opções de sementes e transgênicos? Levantamento das sementes de milho disponíveis na atual safra.

Qual o melhor jeito de organizar minhas contas? Como organizar as contas da fazenda.

Mantenha-se conectado, leia as notícias, acompanhe os blogs sobre o agronegócio.

Você pode nos acompanhar deixando seu email aqui e recebendo conteúdos fresquinhos direto no seu email.

Quando der por si estará se adequando e melhorando sua fazenda de forma muito mais consciente, ou seja, sabendo o que está fazendo!

Faça Anotações e as Use

Durante todo o texto eu falei sobre anotações.

Não é à toa. Manter um arquivo (seja um caderninho, uma planilha de excel ou um sistema de gestão agrícola) é essencial.

É com esse arquivo que você vai saber onde você estava e que caminho percorreu para chegar onde chegou.

O que eu quero dizer é que relendo o que você fez na safra ou na cultura passada você pode saber o que deu certo e o que deu errado.

E o mais importante: o que e como melhorar.

Ou seja, é assim que você faz a gestão agrícola acontecer.

E é assim que degrau a degrau, safra a safra, você vai melhorar e conseguir números incríveis!

 

Gostou do texto?Tem sugestões de como melhorar a produtividade do milho? ou  Você usa alguma técnica de gestão agrícola diferente do que mencionei? adoraria ver seu comentário abaixo. Dúvidas?

Maiara Franzoni

Sou Engenheira Agrônoma formada na ESALQ-USP. Atualmente, estou cursando MBA em Agronegócios e terminando o mestrado no Programa de Fitotecnia-Plantas Daninhas na ESALQ