Ter o controle da Spodoptera furgiperda é um sonho de 10 a cada 10 produtores rurais. Neste artigo iremos abordar tecnologias que ajudam no controle desta praga agrícola.

Velha conhecida das lavouras, a Spodoptera frugiperda é causa de dores de cabeça dos produtores ainda hoje!

Em 2017 ela voltou a alertar o mundo quando causou  enormes prejuízos nas lavouras da África .

A FAO estima que só o Brasil gasta US $ 600 milhões a cada ano para controlar as infestações.

Como controlar eficientemente uma praga tão destrutiva?

controle da Spodoptera furgiperda

(Fonte: Revista Globo Rural)

O conhecimento sempre é a solução!

Conhecer sobre as principais tecnologias, além das mais novas alternativas de controle, é o diferencial de um controle extremamente eficaz.

Neste texto vamos dividir informações sobre controle químico, biológico e demais tecnologias que você pode utilizar para combater a Spodoptera frugiperda. Confira:

O primeiro passo do controle eficiente: conhecer o ciclo da Spodoptera frugiperda

A Spodoptera frugiperda possui tempo de geração de aproximadamente 30 dias.

A postura de ovos é realizada em massa, sendo que de 3 a 5 dias dias eclodem as lagartas que se alimentam das folhas.

Além disso, a lagarta Spodoptera frugiperda possui hábitos noturnos.

Ela pode ser diferenciada das demais lagartas por um Y invertido na cabeça e pelos 4 pontos preto em relevo que formam um quadrado:

controle da Spodoptera furgiperda

(Fonte: Adaptado de CABI – PlantWise)

Se atente para o fato de que é na fase de ovo, e nos primeiros ínstares 1º ao 3º, que a Spodoptera frugiperda é mais fácil de ser controlada.

Agora que você já sabe as principais características do ciclo dessa lagarta, podemos começar com as tecnologias de controle:

Tecnologia de inseticidas biológicos para controle da Spodoptera frugiperda

As coisas estão mudando e os agentes biológicos garantem menor agressão ambiental e segurança do trabalho!

Com eficiência garantida, se feito corretamente, esses organismos vivos são introduzidos no ambiente para o controle de uma população ou de atividades biológicas de outro organismo considerado nocivo.

Esses produtos promovem controle de alvos específicos, preservam os inimigos naturais e diminuem os custos com químicos.

Eles chegaram para ficar e vem com mais tecnologia, como aplicação por drones e aplicação a taxa variável aumentando a sustentabilidade das lavouras.

Vamos aos principais produtos biológicos disponíveis no mercado:

Bacillus thuringiensis

Bacillus thuringiensis é uma bactéria de solos, que é utilizada também na transgenia das plantas (plantas Bt).

Essa bactéria, tanto durante a sua fase vegetativa quanto de esporulação, produz proteínas que tem efeito de inseticida.

As proteínas cristais Cry, produzidas durante a esporulação da bactéria, são as mais conhecidas.

Estudos indicam que mesmo que lagartas que sobrevivem aos tratamentos com Bt, 90% não chegam ao estágio de pupa, ou seja, não se tornam adultas.

bacillus-thuringiensis

Algumas lagarta mortas por ação de Bacillus thuringiensis podem ficar com esse aspecto de murcha

(Fonte: Ted Radovich)

Ela ainda promove resultado de efeitos subletais.

Isso quer dizer que algumas lagartas podem permanecer vivas após o tratamento, mas o efeito sobre seu desenvolvimento é comprometido de tal maneira que a capacidade de causar danos é quase inexistente.

Caso sua cultivar não possua a tecnologia Bt, entrar com o controle com este microrganismo é uma boa opção!

No entanto, se sua lavoura for Bt não indicamos o uso desse produto.

Isso porque serão dois produtos diferentes com a mesma ação, favorecendo o desenvolvimento de resistência a essa tecnologia.

Veja a bula de um dos produtos registrados para a cultura de milho aqui.

Vírus

O recém lançado CartuchoVIT, a base do famoso Baculovírus spodoptera promete controle de cerca de 95% das lagartas até 1 cm.

Fruto de pesquisa de anos da Embrapa Milho e Sorgo e da empresa Grupo Vitae Rural, o produto apresenta as vantagens de baixa necessidade de entrada e um formulado de fácil aplicação.

Veja aqui a bula aqui.

Mini vespas

Trichogramma pretiosum é uma mini vespa que pode controlar Spodoptera frugiperda ainda na fase de ovo, evitando e reduzindo os danos na lavoura.

São distribuídas pela lavoura ovos de Trichogramma pretiosum parasitados previamente, que após eclodidos irão colonizar os ovos de Spodoptera frugiperda.

A recomendação é a liberação de cerca de 100 mil parasitóides por hectare, com duas a três aplicações em intervalo de dez dias.

O controle é de mais 60% na lagarta-do-cartucho nas lavouras.

trichogramma-spodoptera-frugiperda

T .pretiosum parasitando ovos de S. frugiperda e ovos parasitados

(Fonte: Ivan Cruz em Embrapa)  

Algumas das empresas que comercializam estas vespas são a Koppert, Promip e Abr controles biológicos

Além disso, temos outras tecnologias que você precisa conhecer para te ajudar no controle da Spodoptera frugiperda:

banner planilha manejo integrado de pragas

Tecnologias inovadoras no auxílio do controle de Spodoptera frugiperda

Drones

O uso de drones na agricultura é cada vez mais consolidado!

Segundo o Professor Alexandre de Sene Pinto, do Centro Universitário Moura Lacerda, dos 2,3 milhões de hectares tratados vespinhas Trichogramma atualmente nas lavouras brasileiras:

  • 35% já são realizadas com drones;
  • 50% com avião agrícola;
  • 12% manualmente;
  • 3% com moto.

Os drones também podem fazer aplicações de defensivos agrícolas, como inseticidas, de forma muito mais ágil.

Esses equipamentos aproximam ainda mais a agricultura da exatidão, fazendo também com que as operações sejam mais rápidas e, por vezes, mais econômicas.

Além do uso para a distribuição e aplicações de parasitóides, esses equipamentos por sua resistência a condições climáticas, permitem monitoramento em tempo real das lavouras através de câmeras.

Você pode saber mais sobre isso na Horus.

Além disso, já tem empresa realizando o serviço de aplicações em lavouras como a Arpac e Xfly.

Os drones ainda podem ser associados a aplicação a taxa variável, outra tecnologia de extrema importância:

Aplicação a taxa variável

O controle com sensores, criação de mapas de fertilidade são uma das propostas da agricultura de precisão que vem trazendo economia para o campo.

A possibilidade de reconhecer os atributos de cada subárea e prescrever os insumos de forma específica é uma das grandes vantagens!

Por isto a necessidade de um sistema de monitoramento que possa indicar os índices de infestação de insetos através de mapas de áreas é um avanço.

Mapas que se conectam a máquina por componentes eletrônicos para direcionar o operador a regular o pulverizador de acordo com a necessidade da área seguindo as orientações agronômicas, já é possível!

Maquinários agrícolas com um simples GPS são compatíveis com essa inovações.

Além disso temos drones com câmeras e softwares que captam imagens das lavouras, identificando as partes mais danificadas por pragas e aplicando ali os inseticidas

As vantagens da aplicação a taxa variada são:

1)    Maior qualidade operacional dos equipamentos;

2)    Eficiência no uso dos insumos;

3)    Promoção uma agricultura mais sustentável;

4)    Rastreabilidade das atividades.

Você pode notar que a fazenda inteligente é cada vez mais necessária.

Assim é possível conectar os dados da necessidade de diferentes das áreas a partir de sensores, das condições climáticas, promovendo um melhor planejamentos das lavouras e da gestão da fazenda.

Outras tecnologias “não convencionais” de manejo da Spodoptera frugiperda que você deve conhecer

A nutrição de uma lavoura faz toda a diferença por isso separei duas “novidades” que tem tido resultado em conjunto com controle biológico ou químico para Spodoptera frugiperda:

Sílício

Tem sido observado que plantas com suprimento adequados de silício apresentam resistência e tolerância a insetos e doenças.

A ação deste elemento sobre as folhas é a formação de uma camada protetora sobre a epiderme.

Os principais efeitos desta camada em relação aos insetos são a ação direta no desgaste das mandíbulas e pela atração de inimigos naturais podendo atuar até sobre o terceiro nível trófico.

Muitos estudos tem sido feito em relação a ação deste nutriente sobre insetos e doenças.

Confira abaixo o efeito do silício na supressão de diversas pragas em diferentes culturas conforme o IPNI:

silicio

(Fonte: Informação agronômica nº134, IPNI)

Para Spodoptera frugiperda, se observou aumentos significativos de mortalidade e canibalismos conforme a imagem em relação a plantas de milho que possuam esse tipo de “cobertura”.  

silicio-mortalidade-spodoptera-frugiperda

(Fonte: Informação agronômica nº134, IPNI)

O silício é absorvido na forma de ácido monossilícico (H4SiO4) em conjunto com água pela planta. Por ser um elemento pouco móvel, a aplicação foliar é uma boa opção.

É interessante ressaltar que o silício contribui também na dinâmica do fósforo pois compete pelos mesmo sítios que este, reduzindo sua fixação.

Desta forma também reduz o efeito tóxico do alumínio e manganês, aumentando a saturação por base no solo.

Segundo estudos , o silício pode ser também uma boa opção na mistura com inseticidas para o controle da Spodoptera frugiperda.

Fosfitos

Os fosfitos já são conhecidos nas lavouras brasileiras.

Essa forma de fósforo é mais facilmente translocada e metabolizada do que o fosfato, sendo persistente nos tecidos vegetais.

Além disso, o fosfito possui:

  • Ação fúngica;
  • Ativa mecanismos de defesa como fitoalexinas;
  • Colabora na reposição de aminoácidos aromáticos (fenilalanina, triptofano e tirosina) inibidos pela utilização de glifosato.

Atualmente estudos têm demonstrado a atuação do fosfito sobre artrópodes também, e a vantagem é que podem ser administrados  em conjunto com o controle químico e biológico.

Em testes na UNB com Spodoptera frugiperda, a partir de fosfito de potássio, foi observado mortalidade de lagartas de segundo instar além de mudança na reprodução das lagartas.

Óleo de Nim

O controle alternativo de Spodoptera frugiperda com óleo de nim já foi pesquisado, sendo relatado eficiência no manejo em tais pesquisas (veja mais aqui e aqui).

O nim tem como principal ingrediente o limonóide azadiractina. Essa substância provoca toxicidade, repelência, redução do crescimento, da oviposição, da viabilidade de ovos e deterrência alimentar sobre os insetos.

A vantagem é que essa substância baixa toxicidade ao homem e animais, com rápida degradação no meio ambiente.

Fungo Beauveria bassiana

Beauveria bassiana é um fungo que causa uma doença nos insetos, levando-os a morte.

beauveria-bassiana-spodoptera-frugiperda

Spodoptera frugiperda atacada por Beauveria bassiana
(Fonte: Entopcastillo)

Os esporos desse fungo entram em contato com insetos suscetíveis, germinando e crescendo diretamente através da cutícula para o interior do corpo do hospedeiro.

Assim, o fungo prolifera por todo inseto, produzindo toxinas e utilizando seus nutrientes.

Por isso, ao contrário da bactéria Bacillus thuringiensis, esse fungo não precisa ser ingerido para combater as pragas.

O Beauveria bassiana é parasito de um grande número de artrópodes, como algumas espécies de Spodoptera spp.

Algumas pesquisas já foram feitas no Brasil sobre o fungo no combate a S. frugiperda,  veja duas delas aqui e aqui.

>>Leia mais: “Controle biológico das lagartas da soja”.

Depois de todas essas novidades, podemos conversar sobre tecnologias mais conhecidas:

Tecnologia de Cultivares  

A escolha da melhor cultivar seja convencional ou transgênica de ciclo superprecoce, média ou tardia, deve ser aquela mais adaptada a sua região!

No entanto, a tecnologia Bt é uma opção eficiente de controle.

Isso ocorre principalmente nas cultivares com mais de uma proteína inseticidas,os chamados “piramidados”.

Mas é importante que adotemos as áreas de refúgio para a eficiência da tecnologia, de modo a não selecionar indivíduos resistentes, já que Spodoptera frugiperda tem potencial comprovado de evolução para isso.

Nesse sentido, o IRAC faz as seguintes recomendações:

Spodoptera furgiperda

(Fonte: IRAC)

Você pode ver mais sobre refúgio e sua importância no artigo “Tudo o que você precisa saber sobre área de refúgio para plantas Bt [Infográfico].”

Tecnologia de tratamento de sementes

A realização de tratamento de sementes deve ser incluída na janela de aplicação de inseticida, que é a cada 30 dias.

Isso contribuirá para diminuir a possibilidade de resistência da lagarta aos inseticidas, e realizar a rotação dos princípios ativos utilizados.

Produtos com residual são uma boa opção.

Algumas cultivares já vem tratadas, resultando vantagem por precisar de menos operações e, algumas vezes, ser melhor economicamente.

Falando em inseticidas, vamos ver agora como utilizá-los mais eficientemente na lavoura:

Tecnologia de controle químico: inseticidas

É claro que você já utiliza os inseticidas há muito tempo.

Mas aqui vou dar algumas dicas para que essas aplicações sejam ainda mais eficientes.

Para começar, temos algumas ótimas recomendações do IRAC que também evitam a resistência a inseticidas:

  • Somente aplicar inseticidas quando atingir o limite de dano econômico para pragas;
  • Use eficientemente as janelas de aplicação de inseticida. Para isso é essencial um bom planejamento agrícola;
  • Alterne inseticidas com diferentes modos de ação, sendo importante ter o histórico das safras anteriores;
  • Tratamento de sementes com inseticidas;
  • Preservar organismos não-alvo e organismos benéficos utilizando métodos de controle menos prejudiciais aos mesmos;
  • Misturas de inseticidas;
  • Evitar inseticidas que já apresentam problemas de resistência;
  • Gerenciar restos de cultura pós-colheita e plantas voluntárias;
  • Fazer rotação de culturas.

Além disso, a lista de inseticidas registrados para o controle da Spodoptera furgiperda para a cultura do milho você encontra aqui.

Não se esqueça que o monitoramento da lavoura é o principal para a eficiência de qualquer tecnologia!

A dificuldade de identificar o nível de dano para entrada na lavoura é um dos grandes desafios que ainda temos.

Por isso monitoramento e planejamento são fundamentais!

Você ainda pode fazer isso muito mais rápido e fácil:

monitoramento-helicoverpa-armigera

Mapa de calor gerado com o Aegro conforme incidência de pragas verificada em campo

Veja também este artigo que  te ajudará a esclarecer sobre o nível de dano de econômico:

8 fundamentos sobre Manejo Integrado de Pragas que você ainda não aprendeu”

Conclusão

O diferencial para o sucesso de qualquer tecnologia é acompanhar e sistematizar informação.

A sacada é utilizar soluções integradas, como tecnologias convencionais ou não, para aproveitar melhor o potencial das culturas.  

Só assim conseguimos ver a resposta dos manejos, comparar resultados de produtos utilizados, condições climáticas de cada talhão e a influência sobre a produtividade!

Adquirir a melhor cultivar, os produtos fitossanitários e biológicos “top” do mercado, é sim a melhor opção para obter produtividade.

Mas resultados só são reais quando mensurados, quando são considerados pelos custos de produção e produtividade.          

Não temos que fazer só mais, mas temos que fazer melhor em nossas lavouras, e isso a gente consegue com conhecimento dos nossos processos e tecnologias!

>> Leia mais:

“Principais pragas agrícolas: Como se preparar”
“Como fazer um manejo efetivo de pragas do algodão”
Principais pragas do algodão e as estratégias para seu controle

Gostou do texto? Sabia de todas essas tecnologias? Conhece mais alguma que não citei aqui? Adoraria ver seu comentário abaixo!