Áreas de refúgio para plantas com tecnologia Bt tem sido bastante discutido atualmente, tanto devido às boas práticas agronômicas quanto às questões políticas.

O Ministério da Agricultura (Mapa) já até chegou a avaliar a liberação de crédito para custeio de lavouras Bt de soja, milho e algodão apenas com comprovação da adoção de refúgio, como uma forma de incentivo a adoção.

Isso ainda não ocorre, mas sinaliza a importância que a área de refúgio representa.

Por isso, não fique por fora: se você não sabe bem o que é área de refúgio para plantas com tecnologia Bt, pra que serve e como fazer, é só acompanhar o texto:

O que é área de refúgio para plantas com tecnologia Bt?

A área de refúgio é o cultivo de uma porção de plantas não Bt dentro da lavoura Bt, com igual porte e ciclo, da lavoura Bt.

Essa área tem como objetivo evitar o desenvolvimento de insetos resistentes a tecnologia Bt, e para isso realmente funcionar a área deve seguir algumas regras.

 

Como fazer área de refúgio para plantas Bt?

tecnologia bt

Como você pode ver no infográfico acima, a área de refúgio não deve estar a mais de 800 m de distância das plantas transgênicas.

Esta é a distância máxima verificada pela dispersão dos adultos de insetos no campo, para que se tenha os cruzamentos de adultos sobreviventes da lavoura Bt com insetos da área de refúgio.

Assim, as áreas de refúgio servem como reservatório de insetos suscetíveis a tecnologia Bt.

Nas áreas de refúgio, é permitida o controle de pragas por vários métodos, exceto a utilização de bioinseticidas à base de Bt.

Desse modo, as áreas de refúgio devem ser conduzidas como toda a lavoura, como o uso de fertilizantes, pulverizações de herbicidas, fungicidas e inseticidas, etc.

No entanto, quanto maior o número de aplicações de inseticidas em áreas de refúgio, menor sua efetividade para evitar o desenvolvimento de resistência dos insetos. Assim, tente reduzir as aplicações de inseticidas no refúgio.

Quer mais dicas sobre aplicações? Leia então: 5 dicas infalíveis para uma aplicação de defensivos agrícolas mais eficaz

Plantas transgênicas

Se você nunca usou uma semente transgênica, já ouviu falar.

Agora se você é produtor de milho ou soja, tenho bastante certeza que você utiliza ou já utilizou essa tecnologia, especialmente resistente a insetos.

Segundo Céleres, na safra 2016/17 da área total cultivada com milho, 88,4% foram transgênicos, e destes, cerca de 80% foram resistentes a insetos.

Para soja, 96,5% da área plantada foi com transgênicos, sendo quase 60% resistente a insetos.

Já o algodão, pouco mais de 50% da área plantada com transgênicos foi com resistência a insetos.

Essa alta adesão das variedades transgênicas é devido aos benefício de seu uso, como maior eficiência, facilidade, otimização de operações e do uso de defensivos agrícolas, entre outros que você conhece bem.

Dentre essas tecnologias, as plantas Bt conferem resistência a insetos. No Brasil, temos as culturas do milho, soja e algodão Bt, mas a cultura do milho Bt é a mais utilizada se comparada as outras no país.

Sobre resistência Leia mais: Tudo o que você precisa saber sobre resistências a defensivos agrícolas

Plantas Bt

As principais pragas agrícolas controladas pelas plantas Bt de soja, milho e algodão:

  • Lagarta-da-soja (Anticarsia gemmatalis);
  • Falsa medideira (Chrysodeixis includens, Rachiplusia nu, Trichaplusia ni);
  • Vaquinha (Diabrotica speciosa);
  • Broca-das-axilas (Crocidosema aporema);
  • Lagarta-das-maçãs (Heliothis virescens)
  • Lagarta-elasmo (Elasmopalpus lignosellus)
  • Helicoverpa (Helicoverpa spp., incluindo a lagarta-da-espiga H. zea)
  • Lagarta-rosca (Agrotis ipsilon);
  • Lagarta-do-cartucho (Spodoptera frugiperda);
  • Lagarta curuquerê (Alabama argilacea);
  • Lagarta rosada (Pectinophara gossypiella);
  • Spodoptera (Spodoptera eridania e  Spodoptera cosmioides);
  • Broca-do-colmo (Diatrea saccharalis);

O primeiro evento de milho transgênico resistente a insetos foi aprovado no Brasil em 2007, o qual expressa a proteína CryAb de Baccillus thuringiensis Berliner, devido a isso o nome “Bt”.

Hoje já foram aprovados outros eventos que expressam outras proteínas de Bt, como Cry1F e Vip34, e até mesmo eventos que expressam mais de uma proteína.

Calma aí, esses termos parecem meio confusos não é mesmo? Vamos explicar:

O termo “evento” significa  evento de transformação genética e vem do processo de obtenção de uma planta transgênica.

Nesse processo, cada planta produzida é denominada “evento de transformação genética” e é o resultado de uma única célula vegetal, na qual ocorreu a inserção do gene de interesse.

A partir do evento selecionado, é feita a multiplicação das plantas transformadas e, depois, suas sementes transgênicas são comercializadas.

Essas siglas (como  Cry1F, Cry1Ab, etc.) podem parecer estranhas em um primeiro momento, mas é apenas o nome do gene inserido na planta, que expressa (produz) uma  proteína com o mesmo nome.

É esse gene que é introduzido  na planta, e é a proteína que tem ação inseticida. Assim, os insetos morrem ao comer as plantas Bt que expressam essas proteínas inseticidas.

Resistência de insetos à tecnologia Bt

Devido à alta adoção dessa tecnologia, a resistência que os insetos podem desenvolver à ela é uma possibilidade alta, e é o principal risco para a tecnologia.

Algumas práticas para que a resistência não se desenvolva já vêm ocorrendo por parte do melhoramento genético, como expressão de altas doses dessas proteínas inseticidas e a incorporação de mais de um gene que expressa mais de uma proteína inseticida na planta (estratégia de “pirâmide de genes”).

Mas essas estratégias só vão dar resultado se o produtor também fizer sua parte adotando as áreas de refúgio.

Na condição de cultivo em um país tropical como o Brasil, é possível plantar o ano inteiro. Isso faz com que exista alimento para os insetos o ano todo, possibilitando seu desenvolvimento contínuo.

Para piorar, as altas temperaturas possibilitam várias gerações ao ano, o que torna mais rápido o aparecimento de insetos resistentes.

S. frugiperda é o inseto com maior potencial para desenvolver resistência às toxinas Cry1Ab e Cry1F expressas em milho Bt; e Cry1Ac, Cry2Ab2 e Cry1F, expressas em algodão Bt. Uma das razões é devido a sua alta taxa de reprodução.

Para ter ideia de perigo, foi relatado em Porto Rico resistência de lagarta-do-cartucho (Spodoptera frugiperda)  ao milho Bt Cry1F, apenas 4 anos após liberação da comercialização desse milho transgênico.

Também foram encontradas populações resistentes dessa lagarta nos Estados Unidos, África do Sul e Índia.

Recentemente no Brasil, pesquisadores da ESALQ/USP e UFV comprovaram o potencial de evolução da resistência da lagarta-do-cartucho ao milho Yieldgard VT PRO.

Portanto, se nenhuma estratégia para o manejo da resistência for adotada, a seleção persistente de insetos resistentes será inevitável, podendo ser possível tenhamos a perda da eficiência dessa tecnologia.

Pesquisadores mostram a eficiência das áreas de refúgio para isso em um exemplo real:

Nas lavouras de algodão dos Estados Unidos, os produtores adotaram massivamente a prática de áreas de refúgio, não havendo ocorrência de resistência.

No entanto, na Índia essa prática não é comum, sendo relatado resistência da lagarta rosada no algodoeiro em apenas 6 anos de uso da tecnologia.

Por isso: se você usa tecnologia Bt coloque a realização de áreas de refúgio em seu planejamento agrícola.

Precisamos tomar todas as medidas para que a resistência não ocorra, ou que pelo menos demore a acontecer.

Nesse contexto, entra o conceito de MIP (Manejo Integrado de Pragas) que utiliza vários métodos de controle além de variedades resistentes e controle químico.

Leia mais sobre MIP: As perguntas (e respostas!) mais frequentes sobre manejo integrado de pragas

Conclusão

Lembre-se que apesar do processo de seleção de populações resistentes ocorrer dentro de cada propriedade, os insetos se dispersam por toda a região, fazendo com que os prejuízos sejam em toda a região.

Assim, mesmo que na sua fazenda você tenha implantado áreas de refúgio e realizado o MIP, se os seus vizinhos ainda não estão fazendo isso você também poderá ter problemas.

Por isso, é preciso da compreensão de todos e a ação conjunta!

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