O Blog da Aegro sobre gestão no campo e tecnologias agrícolas

O Blog da Logo da Aegro
tudo sobre o trigo

Trigo: o que você precisa saber sobre a produção da cultura

- 11 de março de 2020

Atualizado em 06 de junho de 2022.

Trigo: entenda os pontos principais da produção, sua origem, características, ciclo, classificações, diferentes tipos e mais!

O trigo (Triticum aestivum L, Triticale sp, Triticum durum) é uma gramínea pertencente à família Poaceae, sendo cultivado em todo o mundo. É a segunda maior cultura de cereais, ficando atrás do milho e à frente do arroz.

Seu grão é utilizado amplamente na alimentação humana, desde a farinha de trigo para o pão até como ingrediente na fabricação de cervejas. Além disso, também compõe a alimentação animal.

Hoje, a cultura do trigo ocupa 20% da área cultivada mundial e a produção gira em torno de 500 milhões de toneladas por ano. 

Neste artigo, entenda as classificações e tipos, além de aspectos importantes da produção desse cereal. Acompanhe!

Origem do trigo

O trigo é uma gramínea originada e domesticada no Médio Oriente, mais especificamente no “Crescente Fértil”, zona geográfica que abarca o trecho africano e asiático do local (antiga Mesopotâmia).

Essa cultura é de grande importância econômica e alimentícia, fazendo parte da dieta de grande parte da população mundial. Além de ser uma fonte de energia (carboidrato), é rica em vitaminas e minerais essenciais como do complexo B, potássio, magnésio e fósforo.

Inicialmente, era consumido em grãos, em uma espécie de papa, junto a peixe e frutas. Por volta de 4.000 a.C., o processo de fermentação do trigo foi descoberto, dando origem aos primeiros pães.

Da Mesopotâmia, espalhou-se pelo mundo, com relatos de que, por volta de 2.000 a.C, os chineses já utilizam o trigo para produção de farinha, pães, macarrão. De lá chegou à Europa e depois à América.

O trigo no Brasil chegou provavelmente em 1534, com Martim Afonso de Souza, que o introduziu em uma região que hoje é parte de São Paulo.

Produção de trigo no Brasil

Para a safra 2021/2022, a produção de trigo no Brasil está estimada em 8,1 milhões de toneladas, um aumento de 5,9% em relação à safra passada, segundo dados da Conab. Já a importação de trigo deve chegar a 6,5 milhões de toneladas.

No Brasil, as principais áreas de cultivo de trigo são o Rio Grande do Sul e o Paraná, tanto em área quanto em volume de produção. O tamanho da área plantada no país todo deve crescer em torno de 3%, com 2,8 milhões de hectares produtivos, ainda conforme a Conab. 

A produção do trigo brasileiro começou em São Paulo, mas aos poucos foi migrando para a região Sul. Atualmente, São Paulo é o terceiro maior produtor do Brasil.

Regiões produtoras de trigo no Brasil

(Fonte: Conab)

Nos últimos anos, o Cerrado vem crescendo na produção do trigo. Isso tem acontecido devido a pesquisas desenvolvidas pela Embrapa, tanto para cultivo irrigado quanto em sequeiro.

A cotação de preço do trigo, com base no Paraná e Rio Grande do Sul, pode ser acompanhada diretamente pelo site do Cepea e pela tabela abaixo:

Importação: de onde vem o trigo consumido no Brasil

A maior parte do trigo importado para o Brasil vem da Argentina, principalmente devido à melhor qualidade dos grãos produzidos. Eles são mais adequados para a fabricação de pães.

Isso acontece porque o Brasil, com toda sua extensão agrícola, não consegue produzir trigo para suprir a demanda interna. Essa incapacidade é devida a dois principais fatores: produção nacional e qualidade industrial para panificação.

A produção nacional atende apenas parte da demanda interna, cerca de 8 milhões de toneladas. Porém, o consumo nacional está acima de 12 milhões de toneladas. Por isso, o Brasil ainda importa cerca de 6,5 milhões de toneladas.

Porcentagem de trigo nacional e importado

(Fonte: Abitrigo)

A produção nacional caminha para produzir a quantidade consumida internamente. Aliada a isso, está a melhora na qualidade do trigo produzido.

Através de estudos e investimentos, a Embrapa vem desenvolvendo novas cultivares de trigo para a região do Cerrado brasileiro. Estas cultivares apresentam bom desempenho em campo.

Associadas a um ambiente de cultivo favorável, as cultivares produzem grãos com ótima qualidade industrial. Além disso, possuem grão melhorador, elevada força de glúten e estabilidade na produção. Esses são fatores importantes para a  indústria de panificação.

Acredita-se que a produtividade média de alguns materiais possa ser em média 70 sacas por hectare.

Características do trigo

As plantas de trigo têm folhas finas, planas e compridas. Elas são ligeiramente ásperas, com bainha invaginante, e sua quantidade pode variar entre 6 e 9. O fruto (ou grão) é oval, entumecido e tenro.

As raízes da planta são fasciculadas, e podem atingir até 1,5 m. Os colmos são eretos e cilíndricos, com 5 a 7 nós. Além disso, há a presença de perfilhos que nascem paralelos à base principal da planta.

A inflorescência é uma espiga composta, formada por 15 a 20 espiguetas alternadas, cada uma com 2 ou 3 grãos. Essas espiguetas são formadas por um conjunto de 3 a 5 flores. Vale lembrar que não são todas as flores que se tornam frutos.

Estrutura da planta  em ilustração.

Exemplo de uma planta de trigo

(Fonte: Adaptado de UFSM)

Benefícios do trigo

O trigo é um carboidrato altamente energético para o corpo. Proteínas, gordura, fibra e minerais também estão presentes na composição do trigo. Há minerais presentes nos grãos, como o fósforo, cálcio, ferro e vitaminas como B1 e B2.

Beneficios nutricionais do trigo (grão, germe e farinha)

(Fonte: adaptação da autora)

Existe uma série de benefícios nutricionais do trigo, e esses benefícios variam conforme a forma do cereal. Veja mais detalhes:

  • Grãos: são ricos em uma substância denominada lignana, que auxiliam no fortalecimento do sistema imunológico;
  • Gérmen: apresenta minerais como zinco, cálcio e vitaminas como ácido fólico e vitamina E, que ajudam a combater os radicais livres e na metabolizar glicose, além de auxiliar no sistema circulatório;
  • Farelo: rico em fibras que ajudam no funcionamento do intestino;
  • Farinha integral: com a presença de fibra e proteína, seu consumo auxilia na digestão e no ganho de massa muscular;
  • Farinha branca: por retirar a casca e o gérmen, é um alimento pobre em vitaminas e fibras, mas fornece energia para o corpo de forma rápida.

Tipos de trigo

O trigo pode ser classificado de acordo com 4 aspectos: espécie, época de plantio, dureza dos grãos e tipo de farinha.

Quanto à época de plantio, podemos classificar em cultivares de inverno (que necessitam de mais horas de frio) e cultivares de primavera.

Quanto à dureza, classifica-se em trigo duro (com grãos de amido que não quebram na moagem) e mole (com grãos de amido que quebram durante a moagem).

Também temos classes de trigo e farinha, que variam em sua utilização e valor nutricional. 

No Brasil, a farinha industrial é a mais vendida, principalmente para padarias e supermercados.

A qualidade do trigo e das farinhas é regulamentada pela instrução normativa nº 38 de 2010. Dentre os parâmetros avaliados estão: glúten, cor, dureza, número de queda, absorção, peso hectolítrico e tipo.

Dessa forma, o trigo é dividido em tipos para comercialização, como mostra a figura abaixo. 

Ilustração que mostra os diferentes tipos de trigo, divididos em tipos de comercialização.

Tipos de trigos – Anexo IV – IN 38

(Fonte: Adaptado da cartilha “O triticultor e o mercado”)

Existem três tipos principais de trigo: Triticum aestivum L, Triticum turgidum L e Triticum monococcum L. O nome da planta de trigo é Triticum spp. Por meio da evolução e domesticação foram surgindo outras espécies.

A hibridização e a seleção pelas pessoas originou a espécie de trigo mais utilizada hoje: Triticum aestivum L. ou trigo comum. Veja um pouco mais sobre essas espécies:

Trigo comum – Triticum aestivum L 

É a espécie mais cultivada no mundo, representando 80% da produção mundial. No Brasil não é diferente.  É utilizada, principalmente, para a fabricação de pães. 

Outra espécie bem semelhante à espécie comum é o T. compactum – ou trigo clube – bastante usado na fabricação de bolos e bolachas não crocante, pois possui menos glúten.

Para produzir o trigo mais consumido, é feito um processo de moagem. Na moagem, o endorsperma do grão é retirado, e dele é originada a farinha branca. Esse endosperma representa 75% do trigo.

Trigo Durum – Triticum turgidum L

A espécie tem alto conteúdo de glúten e por isso confere maior firmeza após o cozimento.  

É ele que dá origem à semolina (resultado da moagem incompleta de cereais).  Esse tipo é indicado para massas, triguilho e cuscuz, além de alguns pães.

Trigo Einkorn – Triticum monococcum L 

Considerado como uma espécie ancestral, pode ter dado origem às espécies cultivadas. 

Embora ainda seja cultivado em regiões específicas do mundo, essa espécie tem despertado interesse por produzir um glúten menos alergênico e seria uma alternativa para os celíacos. 

Plantio de trigo

Para a região Sul, principal produtora, o plantio deve ocorrer entre abril e agosto, dependendo do estado. Na região Sudeste, a janela é mais restrita: entre março e maio.

O plantio deve seguir as recomendações do zoneamento agroclimático para a cultura. Este zoneamento considera alguns aspectos importantes para o melhor desempenho da cultura, entre eles as condições climáticas.

As plantas de trigo, por via de regra, se desenvolvem melhor entre 15 ℃ a 20 ℃ . A umidade também é um fator importante, com disponibilidade hídrica que pode variar de 120 mm no início do desenvolvimento até 40 mm nos meses de perfilhamento e espigamento.

Vale ressaltar que as condições climáticas e tipo de solo são fatores que interferem diretamente no desenvolvimento das plantas. Por isso ocorre variação de época de plantio e de colheita.

Calendário de plantio de trigo por região do Brasil

Calendário de plantio e colheita do trigo

(Fonte: Adaptado de Conab)

Quando tempo dura o ciclo do trigo 

O ciclo de produção do trigo pode durar, em média, de 100 a 170 dias. Essa variação é devida a cultivar empregada e as condições edafoclimáticas (clima e solo).

Cada fase do desenvolvimento tem uma faixa ideal de temperatura. A variação pode definir a rapidez do ciclo, por exemplo, bem como a passagem de um estádio para outro

Além disso, durante o ciclo, a adubação é essencial. A ureia agrícola é um dos principais fertilizantes utilizados no trigo. Afinal, a ureia é um dos adubos nitrogenados disponível com menor custo.

Ilustração das fases do desenvolvimento do cereal

Estádios de desenvolvimento de cereais conforme a escala de Feekes (1940)

(Fonte: Livro “Trigo: do plantio à colheita”)

De modo geral, o ciclo de produção do trigo acontece em cinco fases:

  • Germinação e crescimento da plântula: nesta fase, a quantidade de água no solo tem que ser adequada para que a semente consiga iniciar os processos metabólicos. Esses processos darão origem à radícula, parte aérea das plantas, e primeiras folhas;
  • Afilhamento: após a abertura das folhas, começa o processo de perfilhamento. Os perfilhos/afilhos nascem em quantidade variável dentre as cultivares;
  • Alongamento: os nós dos colmos se tornam visíveis nesta fase, as plantas crescem e adquirem mais folhas (formação da folha bandeira, a última da planta). Com o final desta fase, termina o período vegetativo com o “emborrachamento”;
  • Espigamento: esta fase inicia no surgimento total da espiga até o enchimento dos grãos, passando pela floração e frutificação;
  • Maturação: a fase final se dá pela maturação dos grãos, que inicialmente estão no estado de grão leitoso, depois de grão em massa e por último grão maduro, pronto para colheita.

Colheita 

A colheita do trigo ocorre entre agosto e dezembro e pode ser feita com colheitadeiras que colhem e já descascam o grão em simultâneo, deixando-os prontos para o transporte e armazenamento. Ela acontece cerca de 110 a 120 dias após o plantio.

Para que a colheita possa acontecer, o teor de umidade dos grãos deve estar entre 15% e 13%. Além disso, a espiga deve estar dobrando, os grãos devem estar duros e as plantas, amareladas.

Conclusão

Embora não seja produzido em todo país, o trigo é consumido por quase todo território nacional, portanto, a demanda interna não é suprida pela produção. Assim, importamos boa parte do que é consumido por aqui.

Neste artigo, você entendeu melhor as especificidades da cultura e alguns cuidados relacionados à plantação de trigo.

Quanto à questão agrícola, a escolha das cultivares adequadas e um bom manejo contribuem para uma boa produção e um produto de qualidade. 

Escolha bem e faça um bom planejamento agrícola antes de iniciar esse cultivo!

>> Leia Mais:

Quais são as principais pragas do trigo e como combatê-las

Tudo que você precisa saber sobre as plantas daninhas do trigo

Restou alguma dúvida sobre o trigo? Deixe nos comentários abaixo que responderemos para você. Grande abraço!

Foto da redatora Carina, no meio de uma plantação

Atualizado em 06 de junho de 2022, por Carina Oliveira.

Carina é engenheira-agrônoma formada pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), mestre em Sistemas de Produção (Unesp), e doutora em Fitotecnia pela Esalq-USP.

Comentários

  1. Francineuza Alencar disse:

    Qual a diferença do trigo integral do outro tradicional

    1. Francineuza, a principal diferença é que o trigo integral não passa pelo refinamento que o tradicional é submetido para a obtenção da farinha. Portanto, sua farinha é mais rica em vitaminas, minerais e proteínas.
      Obrigado pelo comentário e continue nos acompanhando.

    2. Qual é o primeiro ciclo do trigo no plantio? O que acontece quando é plantado? Ele germina ou morre primeiro?

      1. Raíssa Natasha Ciccheli disse:

        Olá, Jucimara
        Sou da comunicação da Aegro.
        Veja mais artigos sobre trigo em nosso blog e tire todas suas dúvidas: https://blog.aegro.com.br/tag/trigo/

        Agradecemos por nos acompanhar,
        Abraço! 🙂

  2. Gleidson Carlos Andrade Silva disse:

    Que material fantástico parabéns excelente de fácil intendimento e esclarecedor.

  3. Maria José Rabha disse:

    Oi, João, muito obrigada por tantos esclarecimentos. Sempre pensei que o trigo do pão era da mesma espécie do cuscuz marroquino.
    Até agora, quando recebi um resultado de exame de intolerância alimentar IgG, que deu alta intolerância a trigo e baixa intolerância a cuscuz marroquino.
    São espécies tão diferentes?
    Você me indicaria uma fonte onde eu possa avaliar a composição de cada um?
    Grata, desde já.

    1. Raíssa Ciccheli disse:

      Oi, Maria José
      Sou da comunicação da Aegro.
      Os dois tipos utilizam fécula de trigo, de maneiras diferentes.
      Nosso artigos são agrícolas, então para questões nutricionais recomendamos que procure por um(a) médico(a) que possa te auxiliar da melhor maneira.

      Agradecemos por nos acompanhar,
      Abraço! 🙂

  4. Gisa disse:

    Voce sabe dizer quando comecaram a refinar o trigo ?

    1. Raíssa Ciccheli disse:

      Oi, Gisa
      Sou da comunicação da Aegro.
      Não sabemos essa informação exata, talvez tenha sido por volta de 1870. Vale verificar em portais de história.

      Agradecemos por nos acompanhar,
      Abraço! 🙂

  5. Ricardo Santiago Cintra disse:

    O trigo Einkorn é caríssimo, saudavel e procurado no mercado. Por que o Brasileiro não planta? Quais regiões do Brasil ele pode ser plantado. Sul? Nordeste?

    1. Raíssa Ciccheli disse:

      Oi, Ricardo
      Sou da comunicação da Aegro.
      O Einkorn é cultivado em maior escala na Europa devido às condições climáticas e propícias do solo.
      É um cereal de baixo rendimento com ciclo longo (11 meses), adequado para solos pobres e áridos. Além de outros fatores que devem ser tomados durante todo o manejo do grão.

      Agradecemos por nos acompanhar,
      Abraço! 🙂

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.