Potássio para a soja: cuidados para não faltar

A adequada nutrição das culturas é um fator importante para maximizar o retorno econômico da cultura da soja. O valor investido em fertilizantes dá resposta não só na produtividade da área aplicada, como é um fator de destaque para a diminuição de outros custos de produção por unidade de área. Desta forma, quando empregada a adequada adubação da soja, ela impacta positivamente na utilização das máquinas e implementos, mão-de-obra, defensivos, sementes, equipamentos de secagem e armazenagem, entre outros.

Adubação potássica para soja

A deficiência de potássio causa a redução da taxa de crescimento das plantas, o que se manifesta ainda antes do aparecimento de sintomas visuais (Wendling, 2004), que surgem apenas em casos de deficiência mais severo. Esses sintomas são predominantemente manchas amarelas (cloróticas) a partir das bordas das folhas mais velhas, chegando à necrose, maturação desuniforme, retenção foliar, legumes verdes e chochos e grãos pequenos, enrugados e deformados (Borkert et al., 1994; Vedelago, 2014).

O potássio é um elemento muito exportado nos grãos de soja (20 kg de K2O por tonelada) e um alto potencial produtivo contribui para a redução dos estoques deste nutriente no solo, se não for realizada a adubação e o manejo adequado. A limitação de rendimento de grãos ocasionada pela deficiência de potássio é mais acentuada em situações onde é empregado um adequado manejo da cultura, especialmente quando não há restrição hídrica. Isso proporciona às plantas uma grande capacidade de fixar legumes, que demandam maior quantidade de potássio para o enchimento dos grãos.

Plantas de soja com sintomas de deficiência de potássio: Clorose na borda dos folíolos.
Foto: Anderson Vedelago
Plantas de soja com sintomas de deficiência de potássio: Legumes secos no terço superior.
Foto: Cláudia Lange
Plantas de soja com sintomas de deficiência de potássio: Retenção foliar.  
Foto: Anderson Vedelago

As consequências da limitação nutricional de potássio se manifestam principalmente no terço superior das plantas e mais evidentemente em cultivares de soja com tipo de crescimento indeterminado. Nestas cultivares, os nutrientes são demandados em maiores quantidades inicialmente na formação dos grãos do terço inferior e médio, provocando o aparecimento da deficiência no terço superior das plantas.

Nas Terras Baixas Gaúchas

A resposta da soja à adubação potássica em solos de terras baixas no Rio Grande do Sul é pouco conhecida. Os experimentos que subsidiaram o surgimento e os avanços nas recomendações de adubação para a soja foram realizados em terras altas, principalmente na metade Norte do Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, sendo estes solos distintos daqueles das terras baixas (CQFS RS/SC, 2004).

As terras baixas do Rio Grande do sul apresentam grandes variações regionais na disponibilidade de potássio (K) para a soja (Vedelago et al., 2012). Mais especificamente, as regiões arrozeiras da Fronteira Oeste e as Planícies Costeira apresentam frequentemente amostras de solo com disponibilidade do elemento Baixa ou Muito Baixa, conforme CQFS RS/SC (2004). Nesses locais, a soja apresenta alta resposta à adição de potássio na semeadura, como mostram os gráficos abaixo.

Rendimento de grãos de soja em terras baixas em função de doses de potássio na semeadura
Cachoeirinha*Significativo (p<0,05). Fonte: Vedelago, (2014)
Rendimento de grãos de soja em terras baixas em função de doses de potássio na semeadura.
Capivari do Sul. *Significativo (p<0,05). Fonte: Vedelago, (2014)
Rendimento de grãos de soja em terras baixas em função de doses de potássio na semeadura.
São Gabriel. *Significativo (p<0,05). Fonte: Vedelago, (2014)
Rendimento de grãos de soja em terras baixas em função de doses de potássio na semeadura.
Cachoeira do Sul. *Significativo (p<0,05). Fonte: Vedelago, (2014)

Como mostra o quadro abaixo, a máxima eficiência econômica encontrada nos experimentos foi de aproximadamente 120kg de K2O por hectare, diferente da máxima eficiência técnica, que ficou pouco acima dos 130kg. Por isso, a tomada da decisão de quanto potássio aplicar nas lavouras de soja deve considerar a gestão da propriedade como um todo, englobando a capacidade financeira, o domínio do manejo da cultura, a expectativa de colheita, o preço do fertilizante e o preço da soja.

LocalDMETRend. DMETDMEEAumento do rendimento de grãos
kg ha-1Mg ha-1kg ha-1Mg ha-1
Cachoeirinha1274,851191,23
Capivari do Sul1384,501311,68
Cachoeira do Sul1353,901261,36
São Gabriel1303,501110,56
MÉDIA1324,191221,21
Dose de máxima eficiência técnica (DMET), rendimento de grãos de soja obtido com a dose de máxima eficiência técnica (Rend DMET), dose de K2O de máxima eficiência econômica (DMEE) e incremento no rendimento de grãos de soja pela adição de potássio – Safra 2012/13. Fonte: Vedelago, (2014)

É importante notar que nem todos os genótipos de soja têm essa magnitude de resposta à adubação potássica e produtividade de grãos. Tais resultados têm mais chance de acontecer nos genótipos com baixa estatura, entrenós curtos e com baixo índice de área foliar. Caso contrário, o aumento da adubação não se traduz em aumento no rendimento de grãos, impactando negativamente no índice de colheita pelo acamamento e pelo excesso de área foliar (Lange et al., 2014).

Balanço de potássio no solo

Devido a sua carga e ao raio iônico, o potássio é um elemento bastante móvel no solo, com alto risco de lixiviação e perda por escorrimento superficial em solos de Baixa ou Média Capacidade de Troca de Cátions (CTC). Além disso, a alta exportação deste nutriente nos grãos de soja contribui para elevar constantemente o risco de balanço negativo no solo. Por isto, o dimensionamento de seus estoques no solo, a quantificação de sua suplementação pela fertilização, a definição quanto às épocas de aplicação do fertilizante e o seu gerenciamento no sistema através de captura e ciclagem pelo uso de um sistema de sucessão de culturas, reduzindo as perdas do sistema, constituem peças chaves no manejo da adubação potássica na cultura da soja. No quadro abaixo consta o balanço de potássio no solo após a colheita da soja.

LocalEstoque inicialK2O aplicado (kg ha-1)
03060120180
K no solo (kg ha-1)
Cachoeirinha1404851546680
Capivari do Sul984248506575
Cachoeira do Sul9875747799144
São Gabriel128105126124130165
Estoque inicial e final de K no solo (camada 0 – 20 cm) após cultivo de soja em função de doses de potássio na adubação de semeadura nos diferentes locais – safra 2012/13. Fonte: Vedelago, (2014)

Fonte: Vedelago, (2014)

Esses dados evidenciam que há perdas de K durante o cultivo de soja motivado, possivelmente, pela baixa CTCpH 7,0 de três dos quatro solos utilizados, pela drenagem da água após as chuvas e pela falta de uma planta recicladora implantada na sequência. As perdas desse nutriente podem ser minimizadas com o parcelamento da adubação e com a adoção de sistemas conservacionistas do solo que agreguem carbono e, por consequência, aumentem a CTC do solo.

O parcelamento do potássio nas lavouras de soja é uma medida que reduz as perdas principalmente em solos com baixa e média. O parcelamento pode ser 30 a 40% próximo da semeadura (imediatamente antes ou após) e 60 a 70% antecedendo o início da floração. Em anos de maior precipitação pluviométrica, como quando acontece o El Niño, é alto o incremento no rendimento de grãos com o parcelamento da adubação potássica. Já em anos de La Niña, deve-se ter o cuidado para que chova após a aplicação da segunda dose de potássio para dissolver e incorporar o nutriente no solo, favorecendo a absorção pelas plantas.


Referências:

BORKERT, C. M.; YORINORI, J. T.; CORRÊA-FERREIRA, B. S.; ALMEIDA, A. M. R.; FERREIRA, L. P. & SFREDO, G. J. Seja o doutor da sua soja. Inf. Agron., 66: 1-6, 1994.

COMISSÃO DE QUÍMICA E FERTILIDADE DO SOLO – CQFS RS/SC. Manual de Adubação e de Calagem para os Estados do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina. 10 ed. Porto Alegre, Evangraf, 2004. 400p.

LANGE, C. E.; VEDELAGO, A. & THOMAS, A. L. Potencial de rendimento de grãos de soja em solos de várzea do Rio Grande do Sul. In: THOMAS, A. L. & LANGE, C. E., orgs. Soja em solos de várzea do Sul do Brasil. Porto Alegre, Evangraf, 2014. p.83-127.

VEDELAGO, A.; CARMONA, F. C.; BOENI, M.; LANGE, C. E. & ANGHINONI, I. Fertilidade e aptidão de uso dos solos para o cultivo da soja nas regiões arrozeiras do Rio Grande do Sul. Cachoeirinha, IRGA. Divisão de Pesquisa, 2012. 46 p. (Boletim Técnico, 12)

VEDELAGO, A. Adubação Para a Soja em Terras Baixas Drenadas no Rio Grande do Sul. Porto Alegre. Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2014. 83p. (Dissertação de Mestrado).

WENDLING, A. Recomendação de nitrogênio e potássio para trigo, milho e soja sob sistema plantio direto no Paraguai. Santa Maria, Universidade Federal de Santa Maria, 2005. 160p. (Dissertação de Mestrado).


Anderson Vedelago é engenheiro agrônomo, mestre em Ciência do Solo, sócio da Oryza & Soy Pesquisa e Consultoria Agronômica Ltda. e escreve eventualmente para o Lavoura10. Inscreva-se em nossa newsletter e não perca os próximos posts.

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Comentários

5 Comments

  1. Marcelo

    Obrigado por me enviar o artigo, um artigo de fácil entendimento e muito importante para agregar valor no meu trabalho, por eu estar iniciando na minha área de atuação.

    • Aegro

      Oi, Marcelo, tudo bem?
      Que bom que você gostou do texto!
      Nós, da AEGRO, trabalhamos para uma gestão mais inteligente e eficiente do campo, e por isso, criamos este blog, em que temos escrito pelo menos quinzenalmente algum post sobre o assunto.
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