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Jessica Scarpin - 8 de junho de 2018
Atualizado em 7 de janeiro de 2025
Ervas daninhas resistentes a glifosato: entenda como são selecionadas, quais as principais ervas daninhas resistentes, manejo e muito mais.
Nos últimos 10 anos, todos nós observamos o surgimento de ervas daninhas resistentes a glifosato e a diversos herbicidas.
Estima-se que a resistência de plantas daninhas no Brasil somente para a cultura da soja custe impressionantes 9 bilhões de reais. Esse número mostra a importância de se realizar um bom controle de ervas daninhas.
Com o surgimento da resistência, surgem também outras alternativas de controle, que podem ser a chave para uma alta produtividade.
Veja a seguir as principais maneiras para manejar sua lavoura quando aparecem ervas daninhas resistentes a glifosato.
Índice do Conteúdo
As ervas daninhas, evolutivamente, já apresentam uma variabilidade genética natural. Ou seja, dentro de uma uma mesma espécie de plantas daninhas há diferenças genéticas entre cada indivíduo.
Os herbicidas selecionam aqueles indivíduos que apresentam genes que resultam em resistência. Portanto, aplicações de herbicidas não criam um indivíduo resistente, apenas selecionam.
E essa seleção não é de um dia para outro.
A seleção de biótipos resistentes ocorre através da aplicação de um mesmo herbicida repetidas vezes na mesma área.
Por exemplo, nas culturas transgênicas com tecnologia RR, todo o manejo de plantas daninhas era realizado com glifosato, aplicado sequencialmente ao longo de muitas safras.
Sendo assim, este indivíduo selecionado não morre após a aplicação do produto e produz sementes, ocupando mais facilmente a área que antes era ocupada, em sua maioria, por plantas suscetíveis.
Por isso, o uso massivo de somente um tipo de herbicida auxilia no desenvolvimento da resistência na sua propriedade, seja em lavouras de soja ou qualquer outra cultura.
A figura abaixo ilustra facilmente como isto pode acontecer:
Seleção de resistência em uma nova área
(Fonte: adaptado de Manejo de Resistência)
Vamos ver agora as principais ervas daninhas resistentes a glifosato em nosso país, para você ficar de olho nelas na sua fazenda:
No Brasil, foram identificados biótipos resistentes ao glifosato das seguintes espécies:
Vou explicar melhor cada uma delas!
Dentre todas essas plantas daninhas resistentes ao glifosato, o capim-amargoso e a buva estão disseminados por todo o Brasil, sendo encontrados em quase todas as lavouras de soja, por exemplo.
Essas plantas demandam maior esforço e atenção do produtor. O manejo deve integrar vários métodos de controle para impedir a seleção de resistência para novos mecanismo de ação, o que infelizmente aconteceu nos últimos anos.
O azevém é predominante na região sul do Brasil, pois está mais adaptado a regiões frias, sendo um grande problema nas culturas do arroz e do trigo. Essa planta daninha é uma das que mais possuem histórico de desenvolver resistência no mundo, por isso, muito cuidado no manejo!
Mesmo estando presente em muitas lavouras do Brasil, o capim-pé-de-galinha, tem apresentado resistência a glifosato em poucas regiões, como no Centro-Oeste do Paraná.
O importante neste momento é realizar o controle desta planta daninha em estádio inicial (onde é mais suscetível), monitorando a eficiência do glifosato e graminicidas.
Esta realmente é uma planta daninha para se acompanhar de perto, pois já existem casos no país de plantas com resistência múltipla a glifosato e graminicidas (haloxyfop e fenoxaprop), o que dificulta muito seu manejo.
O capim-branco é um planta daninha presente em muitas áreas do país, principalmente em beiras de estradas e carreadores.
Porém, não há relatos de que populações resistentes estejam se disseminando no país. Hoje, ele está presente principalmente no centro do estado de São Paulo.
Como essa planta daninha não apresenta resistência a graminicidas, provavelmente sua disseminação está sendo contida pelo manejo do capim-amargoso resistente a glifosato, realizado na maioria das áreas de grãos.
Mas é muito importante saber identificá-la e controlá-la em estádios iniciais, quando é muito suscetível a vários herbicidas.
O caruru-palmeri, devido a um grande esforço do Mapa (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento) em conjunto com outras instituições de pesquisa, está sendo contido em algumas regiões do Mato Grosso.
Por isso, neste momento, a principal preocupação de produtores fora desta região está em saber como identificar esta planta daninha caso apareça em sua propriedade.
Acredita-se que esta planta foi inserida no Brasil por transporte de colhedoras sem a devida higienização.
Por isso, produtores que possuírem propriedades próximas à área de ocorrência desta planta e em outras regiões deve tomar muito cuidado com a limpeza de seus maquinários e implementos para transporte.
Caruru-palmeri é preocupação no MT
(Fonte: Embrapa)
O caruru-roxo foi a penúltima planta daninha registrada como resistente a glifosato no Brasil.
A população registrada ocorre na região sul do Rio Grande do Sul. Acredita-se que essa população tenha sido introduzida no Brasil a partir de um dos países vizinhos que já tinham registro de resistência, como Argentina ou Uruguai.
Como as espécies de caruru possuem sementes muito pequenas a higienização de máquinas precisa ser muito cuidadosa.
Por enquanto não há registro de falhas de controle desta espécie em outras regiões do país, porém o maior medo dos pesquisadores é de que o caruru-roxo se dissemine e cruze com populações de caruru-palmeri.
Isso poderia gerar populações híbridas com grande potencial de crescimento e desenvolvimento, mais adaptadas ao clima local e resistente a vários herbicidas.
O último caso de resistência a glifosato registrado no Brasil foi de leiteiro, com ocorrência na região Centro-Norte do Paraná.
Como este espécie tinha grande importância econômica antes das culturas RR, por já possuir resistência a inibidores da ALS e da PROTOX, é importante que essa população não seja disseminada a outras regiões do país.
Por isso, a Cocari em parceria com a Embrapa Soja e Universidade Estadual de Maringá tem realizado planos de contenção desta espécie, prestando assistência aos produtores da região.
Além das espécies que citamos, o que vem preocupando os agricultores agora é a presença de picão-preto resistente a glifosato no Paraguai, país que possui grande fluxo de transporte de máquinas e equipamento agrícolas com o Brasil.
Assim como o leiteiro, a maior preocupação quanto a essa planta daninha está no histórico de resistência aos mecanismo de ação ALS e Fotossistema II, que já causou muitos problemas aos agricultores antes das culturas RR.
Por isso, se você possui propriedades no Paraguai, tome muito cuidado com a higiene de suas máquinas e implementos para trazê-los para o Brasil.
Para te ajudar a evitar a perda de rentabilidade com a infestação de plantas daninhas, baixe o e-book gratuito de Manejo de Plantas Daninhas.
Entender a biologia destas ervas daninhas é muito importante para manejá-las e saber qual ferramenta é a mais eficaz.
Por isso, confira algumas características dessas plantas daninhas!
A buva é uma planta fotoblástica positiva, o que significa que suas sementes somente germinam na presença de luz. Sendo assim, o uso de palhada no solo pode ser uma alternativa efetiva ao uso de herbicidas.
Além da necessidade de luz para germinar, o tamanho das sementes influencia sobre sua capacidade de emergir no solo!
Por isso, geralmente semente pequenas (como de caruru e capim-branco), quando enterradas abaixo de 2 cm no solo, diminuem muito a taxa de emergência. E, quando emergem, produzem plântulas muito fracas e mais suscetíveis ao controle.
Como muitas plantas daninhas são muito tolerantes a herbicidas fora dos estádios iniciais, é de suma importância saber identificá-las em estádios iniciais.
Outro ponto importante é saber diferenciar espécies do mesmo gênero, pois o manejo pode ser totalmente diferente. O manejo de caruru-palmeri, por exemplo, é muito mais complexo que o do caruru-de-mancha.
Outro ponto importante é entender as características de crescimento e desenvolvimento das plantas.
Algumas plantas como o caruru-palmeri tem uma taxa de crescimento muito elevada, chegando a crescer de 4 cm a 6 cm por dia por isso. Por isso, a janela de aplicação em planta pequenas é muito curta.
Além disso, plantas como capim-amargoso a partir de 45 após a emergência produzem estruturas de reserva (rizomas) que conferem uma grande habilidade à planta para se recuperar de dados ocasionados por herbicidas.
Mesmo não possuindo estruturas de reserva como o capim-amargoso o capim-branco, em estádios de desenvolvimento avançados acumula cera e desenvolve estruturas na superfície da folha que reduzem a eficiência de vários herbicidas.
Ter esses conhecimentos pode auxiliar na decisão de manejo, por exemplo, realizar uma roçada antes da aplicação de herbicidas, que poderá facilitar muito o controle de plantas como capim-amargoso e capim-branco.
Para realização de um manejo sustentável de plantas daninhas, é preciso fazer mais que apenas o controle.
A prevenção é importantíssima para evitar, ao máximo, o surgimento de espécies resistentes na sua propriedade.
Dessa forma, é necessário reduzir a pressão de seleção na população por meio de práticas do manejo integrado de plantas daninhas:
(Fonte: Fórum sobre manejo de resistência de ervas daninhas a herbicidas)
Você pode adotar técnicas culturais e mecânicas, além do manejo químico, para atingir alta eficácia no controle da sua área.
As principais para o manejo de invasoras são:
Atualmente, a chave para o controle de plantas daninhas resistentes ao glifosato e a outros herbicidas está no período de entressafra das culturas.
Neste período existe a possibilidade de se utilizar uma diversidade de ferramentas.
Por isso recomenda-se que inicie o manejo nas fases iniciais das plantas daninhas, associando herbicidas de diferentes mecanismos de ação e utilizando aplicações sequenciais.
Uma técnica utilizada no passado e que tem sido recomendada pela maioria das empresas no manejo de plantas daninhas resistentes é o uso de herbicidas pré-emergentes.
Além de possuírem pouquíssimos casos de resistência no mundo, esses herbicidas aumentam o intervalo entre aplicação e contribuem para rotação de mecanismos de ação.
Além dos herbicidas presentes no mercado, alguns princípios ativos já utilizados em outros países serão lançado no mercado brasileiro como pyroxasulfone, tiafenacil e trifludimoxazin.
Como grande novidade, temos o lançamento de um herbicida com um princípio ativo novo, diferente de todos que já estão no mercado, cinmethylin (herbicida Luximo).
Além do novos herbicidas, nos próximos anos, existe previsão da liberação comercial de novos “traits” de resistência a herbicidas para as culturas da soja e milho. Confira:
Rotação de mecanismo de ação
(Fonte: Fórum sobre manejo de resistência de ervas daninhas a herbicidas)
Nem sempre o escape de plantas após aplicação de herbicidas significa que a sua área está infestada com ervas daninhas resistentes.
Esta figura abaixo ilustra bem o que quero dizer:
(Fonte: traduzido de Take Action on Weeds)
Assim, é preciso verificar diversas outras causas antes de considerar a resistência, como:
Tecnologia de aplicação do herbicida
Solo ou condições climáticas
A resistência causou e vem causando muitos impactos econômicos no setor agro. A Embrapa, por exemplo, fez uma análise geral da economia nacionalmente.
De modo geral, o custo para controle de ervas daninhas em uma área com problema de resistência sobe de 40% para 200% em relação a uma área “suscetível”. A variação aumenta conforme aumentam o número de espécies resistentes.
Esta matéria mostra que alguns produtores do Paraná conseguiram economizar até R$ 138 por hectare ao diminuírem o uso de herbicidas graças ao manejo integrado.
Por isso, conhecer o custo do manejo de plantas daninhas por hectare e da sua fazenda como um todo é fundamental. Assim você saberá o que está compensando fazer e qual é a melhor medida de controle em termos produtivos e financeiros.
A suscetibilidade de uma certa de planta daninha é uma característica natural de cada espécie.
É a mortalidade ou danos que ocorrem em uma planta após a aplicação do herbicida, resultado da incapacidade de suportar a ação do produto.
Plantas tolerantes apresentam naturalmente a característica de sobreviver e se reproduzir, mesmo após a aplicação de um herbicida na dose recomendada, desde a primeira aplicação.
Por exemplo: 2,4-D controla plantas de caruru (Amaranthus spp.) mas não controla capim-colchão (Digitaria ciliaris), pois esta espécie é tolerante a este herbicida.
Ervas daninhas resistentes são aquelas que anteriormente eram suscetíveis ao herbicida em questão, mas agora conseguem sobreviver e completarem seu ciclo de vida após a aplicação deste produto.
Para que essa ervas daninhas sejam realmente tidas como resistentes, a aplicação do herbicida deve ser na dose recomendada e em condições de campo.
Assim, temos a seleção de biótipos resistentes. Aliás esse é o termo academicamente correto quando falamos nesse assunto.
Esse termo é definido como um grupo de indivíduos com genética semelhante, porém pouco diferenciado da maioria dos indivíduos da população.
Ou seja, dentro de uma mesma espécie com genética semelhante, alguns grupos de indivíduos possuem diferenças.
No caso das ervas daninhas, a caracterização genética é feita apenas pela diferenciação em plantas resistentes e suscetíveis.
Se na sua propriedade apareceram plantas de capim-amargoso resistentes ao glifosato, por exemplo, isso quer dizer que houve seleção de biótipos resistentes.
Existe uma organização internacional, envolvendo 80 países, responsável por discutir e gerar novas alternativas de manejo para o combate a resistência de plantas daninhas. Esta organização se chama “International Survey of Herbicide Resistant Weeds”.
Sempre que um novo caso de resistência é comprovado, pesquisadores e especialistas da área o adicionam ao site, obtendo um banco de dados mundial.
No site da organização consta que no Brasil há 50 casos de resistência. Também há referência ao ano em que foi descoberto esses biótipos resistentes e quais os mecanismos de ação.
Você pode ver que muitos apresentam resistência múltipla (quando são resistentes a mais de um mecanismo de ação), como a buva resistente a inibidores da EPSPs (ex: glifosato), inibidores da PPO (ex: saflufenacil), auxinas sintéticas (ex: 2,4D), fotossistema I (paraquat) e II (ex:diuron).
Buva (Conyza sumatrensis) tem resistência registrada a 5 mecanismos de ação diferentes
(Fonte: Weed Science)
O site está em inglês, mas na listagem aparecem os nomes científicos e mecanismos de ação. Além de ser super informativo, a observação do que está acontecendo no Brasil e no mundo, com certeza, vai te ajudar a tomar decisões melhores dentro da porteira.
No Brasil também temos o HRAC-Brasil (Comitê de Ação à Resistência aos Herbicidas). A associação promove o gerenciamento e acompanhamento de casos de resistência com intuito de promover o manejo sustentável das ervas daninhas e o ciclo de vida dos herbicidas.
O HRAC atua no entendimento, cooperação técnica, educação, informação e comunicação entre indústrias, pesquisadores, governo, órgãos de pesquisa, universidade e produtores.
Recomendo a leitura do livro “Aspecto de resistência de ervas daninhas a herbicidas”, que explica de modo simples e fácil o manejo de ervas daninhas resistentes aos herbicidas.
No site você pode ficar por dentro de novidades do setor e ver mais materiais relacionados ao tema.
Ervas daninhas resistentes a glifosato são um grande problema na agricultura brasileira pelo impacto financeiro que isso causa para todos os agricultores e para a cadeia.
E é por isso que as questões levantadas neste texto são importantes para seu processo produtivo, entendendo o que é a resistência e como manejá-la adequadamente.
Também vale ressaltar que, no final das contas, os custos do manejo e sua produção final são essenciais para definir qual a melhor maneira de fazer seu controle de plantas daninhas.
Você já teve problemas com ervas daninhas resistentes a glifosato e a outros herbicidas na sua área? Restou alguma dúvida sobre o melhor manejo? Deixe seu comentário.
Atualizado em 22 de julho de 2020 por Henrique Fabrício Placido
Engenheiro agrônomo pela UFPR, mestre pela Esalq-USP e especialista em gestão de projetos. Atualmente, doutorando pela UEM na linha de pesquisa de plantas daninhas.