O Blog da Aegro sobre gestão no campo e tecnologias agrícolas

O Blog da Logo da Aegro
glifosato

Glifosato: fatos e curiosidades sobre o mais usado herbicida

- 3 de outubro de 2018

Alterado em 12 de julho de 2021.
Glifosato: características e curiosidades, vantagens e desvantagens, sintomas e a resistência de plantas daninhas

O glifosato é o ingrediente ativo mais vendido no Brasil e no mundo.

Como sua utilização é comum, é normal que haja dúvidas, curiosidades e desconfianças sobre o produto.

Às vezes o resultado no campo parece não ser tão eficiente. Isso acontece muitas vezes pelos excessos e desequilíbrios do uso.

Neste artigo, você terá as principais informações que te ajudarão a utilizar o glifosato da melhor forma possível. Acompanhe o texto!

O que é o glifosato? Conheça a história do herbicida

O glifosato é um herbicida inventado pelo químico suíço Dr. Henri Martin em 1950 dentro da companhia farmacêutica Cilag. Na indústria farmacêutica não teve uso.

Em 1959, a Johnson e Johnson adquiriu a Cilag e vendeu as pesquisas, incluindo o glifosato, para a Aldrich Chemical.

Mas foi só quando a Monsanto – hoje pertencente à Bayer – desenvolveu um programa para encontrar um herbicida que fosse sistêmico é que se descobriu a atividade herbicida do glifosato. Um mérito dos pesquisadores Dr. Phil Hamm e Dr. Franz nos Estados Unidos.

foto em preto e branco do John Franz de terno e óculos de grau, químico da divisão agrícola da Monsanto

John Franz, químico da divisão agrícola da Monsanto
(Fonte: Genetic Literacy Project)

O sucesso do herbicida não foi instantâneo, pois na época não havia plantas geneticamente modificadas e resistentes à ação do glifosato.

Ou seja, o glifosato matava todas as plantas sem seletividade, e sua ação era lenta, demorando em torno de 15 dias para demonstrar os sintomas no campo.

Mas alguns fatores dessa nova molécula interessaram:

  • Forte adsorção ao solo;
  • Baixa toxicidade;
  • Elevada eficácia.

Em 1974, o herbicida foi lançado em 3 países: Estados Unidos, Reino Unido e Malásia. Inicialmente foi direcionado para vinhedos, florestas e seringueiras, considerados novos mercados.

Em 1996, a Monsanto lançou a soja transgênica tolerante ao glifosato (RoundupReady). Esse acontecimento marcou uma nova era no controle de plantas daninhas: usar um herbicida eficiente e de amplo espectro na lavoura emergida.

Em 2000, a patente da Monsanto expirou e hoje mais de 100 agroquímicos no Brasil contêm glifosato.

Esses produtos são registrados para mais de 100 culturas, em mais de 130 países, para controlar centenas de espécies de plantas daninhas.

O glifosato agride a saúde e o meio ambiente?

Em 2018, houve reavaliação toxicológica do glifosato. Isso ocorreu devido a novos estudos, inclusive da OMS (Organização Mundial da Saúde), envolvendo a saúde humana.

A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) atrasou a reavaliação. O tribunal regional federal suspendeu o registro de produtos à base de glifosato, além da comercialização em todo Brasil.

Agências internacionais respeitadas concluíram que os herbicidas à base de glifosato são seguros para a saúde humana, desde que os resíduos em alimentos sejam baixos.

A Anvisa admitiu em 2019 que ele “não apresenta características mutagênicas e carcinogênicas”, liberando a molécula até hoje.

Para avaliar o seu efeito no ambiente, deve-se considerar a ação na água, ar, solo e organismos associados.

A maior parte do herbicida fica nas plantas e é absorvido por elas. O que não é interceptado vai ao solo. Ali, fica disponível a reações químicas e degradação pelos organismos.

Estudos sugerem que o glifosato adere-se ao solo rapidamente, ficando praticamente imóvel. Portanto, é pouco suscetível a contaminar os corpos d’água

O resíduo fica no solo até degradar completamente em dias ou meses.

Os microrganismos são os principais responsáveis pela degradação do glifosato. Em aproximadamente um mês, metade da molécula é metabolizada. Não é comprovado efeito adverso a estes organismos.

A presença de glifosato no ar é quase nula, pois os sais dificilmente volatilizam para a atmosfera. Em áreas tratadas constantemente, gotículas podem estar presentes no ar.

Portanto, deve-se respeitar o intervalo de 24 horas para a reentrada de pessoas nas áreas em que o herbicida foi aplicado.

Esteja por dentro das melhores estratégias de uso do glifosato na proteção de sua lavoura, do ambiente e de sua saúde.

15 características do glifosato que você precisa compreender

  1. é classificado como não seletivo, ou seja, mata praticamente todas as plantas;
  2. tem amplo espectro de controle: controla diversas plantas daninhas;
  3. as formulações Roundup Transorb e Zap Qi apresentam penetração foliar mais rápida do que as demais existentes no mercado brasileiro;
  4. a morte da planta ocorre lentamente, entre 7 a 14 dias após a aplicação;
  5. é um herbicida sistêmico, ou seja, se move dentro da planta;
  6. não apresenta atividade no solo, por isso é usado somente em pós-emergência das plantas daninhas;
  7. água de pulverização com muito cálcio e magnésio reduz a atividade do glifosato;
  8. a classificação toxicológica varia de acordo com a composição do produto utilizado. Veja uma relação abaixo:
tabela com classificação de herbicidas glifosato

Classificação de herbicidas glifosato
(Fonte: Rodrigues e Almeida, 2018)

  1. também é utilizado para controle de plantas daninhas em áreas não-cultivadas como rodovias, ferrovias, parques industriais, etc;
  2. o glifosato é o principal facilitador do plantio direto;
  3. em culturas perenes, como café, frutíferas e reflorestamento as aplicações são dirigidas: somente é pulverizado na entrelinha para não atrapalhar o desenvolvimento das culturas;
  4. porque não é seletivo, só pode ser aplicado em culturas geneticamente modificadas para tolerar a molécula;
  5. pode ser utilizado como maturador em cana-de-açúcar;
  6. pouco volátil, ou seja, dificilmente haverá problemas com deriva;
  7. altamente solúvel em água.

Sintomas de danos nas plantas por glifosato

O glifosato provoca amarelecimento progressivo das folhas, murcha e posteriormente necrose e morte das plantas. 

Esses sintomas aparecem entre 4 a 20 dias, e variam conforme a condição de aplicação, clima e planta.

Sintomas de glifosato em soja convencional

Sintomas de glifosato em soja convencional
(Fonte: Phytusclub)

Sintomas de injúrias do glifosato em capim-arroz

Sintomas de injúrias do glifosato em capim-arroz
(Fonte: WeedOut)

Tolerância e resistência

Algumas plantas daninhas são tolerantes ao glifosato, ou seja, são de difícil controle.

Tolerância é uma condição natural, ocorre sem que a planta tenha entrado em contato com o produto. É diferente de resistência, em que as plantas daninhas resistentes aos herbicidas são selecionadas.

Alguns exemplos de espécies tolerantes são:

Mundialmente, o glifosato fica em terceiro lugar em casos de plantas daninhas resistentes.

Em 1° lugar estão os herbicidas inibidores da ALS. Em segundo, o grupo químico das triazinas (Inibidores do Fotossistema II). 

Glifosato e inibidores de ACCase estão juntos em terceiro.

gráfico com evolução da resistência a diferentes mecanismos de ação

Evolução da resistência a diferentes mecanismos de ação
(Fonte: SENAR)

A maioria dos casos de plantas daninhas resistentes aos inibidores da EPSPs (grupo do glifosato), estão relacionados à soja e milho. Isso é o que causa maior preocupação.

Confira 42 espécies resistentes ao glifosato.

gráfico de barras verde de daninhas resistentes ao glifosato relacionadas por cultura

Daninhas resistentes ao glifosato relacionadas por cultura
(Fonte: International Survey of Herbicide Resistant Weeds)

Isso está diretamente ligado ao uso intensivo da molécula nas lavouras com cultivares transgênicas.

Esse uso intensivo se dá pelo fato de ser um produto barato, de baixo risco e alta eficiência. Mas, em consequência, ocorre a pressão de seleção de plantas resistentes.

O glifosato é extremamente importante na agricultura, especialmente por viabilizar o plantio direto. 

No entanto, é necessário gerir e planejar as aplicações, fazer rotação de modos de ação e usar outros métodos de controle.

Para te ajudar no planejamento das aplicações, preparamos uma planilha para você. Baixe gratuitamente clicando abaixo!

planilha de cálculo de pulverização Aegro, baixe agora

Glifosato e o manejo integrado de plantas daninhas

Faça a rotação dos mecanismos de ação, ou seja, não utilize somente o glifosato na lavoura. Assim você garante o controle eficiente e previne o desenvolvimento de resistência.

Utilize o manejo na dessecação pré-plantio como aliado. Uma vez com plantas daninhas resistentes na área, o custo de controle aumenta e a produção reduz.

Veja algumas dicas para o manejo integrado de plantas daninhas:

Técnicas do manejo integrado de daninhas

Técnicas do manejo integrado de daninhas
(Fonte: Febrapdp)

Fique atento a esses três sinais que indicam a existência de biótipos resistentes na sua propriedade:

infográfico de três Indícios de plantas resistentes a herbicidas na lavoura

Indícios de plantas resistentes a herbicidas na lavoura
(Fonte: Take Action e WSSA – Traduzido por Aegro)

Clique na figura a seguir para acessar um guia completo de manejo de plantas daninhas, inclusive resistentes ao glifosato.

ebook com guia para manejo de plantas daninhas Aegro, baixe agora

Vantagens e desvantagens do uso do glifosato

Antes de utilizar qualquer produto, é importante considerar seus pontos positivos e negativos. O glifosato apresenta vantagens, como:

  • possui baixo teor de agentes químicos;
  • controla diversas espécies em tempo curto;
  • não é volátil e é pouco móvel no solo;
  • possui baixo custo e fácil aplicação.

No entanto, seu uso também pode ser desvantajoso em alguns aspectos:

  • não é completamente ecológico;
  • seu uso em excesso e errado causa danos ao ambiente e à saúde;
  • provoca seleção de plantas daninhas resistentes.

Cuidados na aplicação do glifosato

Ao utilizar qualquer produto químico, siga as recomendações de segurança da Norma Regulamentadora 31 para trabalho do agro (NR 31.8).

Aplique na forma pulverizada, diluído em tanques com água. Utilize água de boa qualidade, limpa e cristalina, isenta de sujeiras.

Dilua o glifosato de acordo ao informado no rótulo e no receituário agronômico. Evite super ou sub doses.

Atente-se às condições ambientais (vento, umidade e temperatura) e ao estádio de desenvolvimento da cultura. Utilize pontas adequadas para essas condições.

Ao finalizar a aplicação, faça a limpeza do pulverizador e descarte das embalagens.

Intervalo recomendado entre a aplicação do glifosato e a ocorrência de chuva

Caso haja ameaça de chuva, a aplicação do herbicida deve ser evitada.

A ocorrência de chuva nas primeiras 4 horas após a aplicação pode comprometer a eficácia do herbicida.

Respeite esse intervalo para ocorrer a absorção e translocação suficiente do produto nas plantas daninhas, para um controle satisfatório. Fique sempre de olho nesse intervalo.

Conclusão

Neste artigo, você viu a importância desse herbicida na agricultura atual. Ele é importante especialmente no Brasil, devido à sua relevância no plantio direto.

No entanto, esteja sempre de olho na utilização. Use somente quando necessário, conheça a formulação e dose correta e faça rotação de outros herbicidas de diferentes mecanismos de ação.

Agora que você tem todas essas informações, com certeza seu manejo de plantas daninhas com glifosato será muito mais eficiente!

>>Leia mais:

“Como funciona o novo herbicida Luximo para controle de plantas daninhas resistentes”

Gostou do artigo? Tem mais dúvidas sobre o glifosato? Gostaria de saber mais sobre algum tema? Adoraria ver seu comentário!

redator Jadiel Andognini

Atualizado em 12 de julho de 2021 por Jadiel Andognini
Agrônomo, formado no Centro de Ciências Agroveterinárias da Universidade do Estado de Santa Catarina, CAV-UDESC. Com mestrado em ciência do solo e doutorando no programa de pós-graduação em ciência do solo da mesma instituição.

Comentários

  1. Victor Sommer disse:

    Gostaria de mais informações técnicas sobre os efeitos danosos do glifosato sobre as cultivares de soja geneticamente modificadas para tolerarem este herbicida. Muito Obrigado

  2. ANA LIGIA GIRALDELI disse:

    Olá Victor, tudo bem?
    Tem estudos que mostram resultados na redução da germinação e viabilidade de sementes ou até mesmo na composição química das sementes.
    Também tem estudos em relação ao yellow flashing, que é o amarelecimento das folhas superiores.
    Entretanto, estes sintomas que relatei são observados quando usamos doses acima do recomendado ou aplicação em estádios mais avançados de desenvolvimento da planta.
    Você pode encontrar estudos científicos no Google Acadêmico, tem vários estudos com este tema.

  3. Silas disse:

    Olá tudo bem?
    Preciso acabar com mato e grama em torno de mudas frutíferas. Poso utilizar o glifosato? Não ir matar minhas mudas?

  4. Jadiel disse:

    Olá Silas.

    Se suas mudas estão no início do desenvolvimento, você deve manter a linha de plantio livre, ou com a grama controlada. Utilize o controle químico nas entre linhas das mudas (pode utilizar o glifosato numa dose recomendada para a espécie que você está combatendo, e tome cuidado para não atingir suas mudas). Na linha de plantio utilize o controle mecânico, arrancando manualmente ou com maquinário, a exemplo da roçadeira.
    Este trabalho da Embrapa pode lhe ajudar: https://ainfo.cnptia.embrapa.br/digital/bitstream/item/101605/1/MANEJO-E-CONTROLE-DE-PLANTAS-INFESTANTES-EM-FRUTEIRAS-TROPICAIS.pdf

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.