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Glifosato: diferenças entre as formulações, principais características e curiosidades, sintomas e a resistência de plantas daninhas ao produto.

Dentre os ingredientes ativos mais vendidos no Brasil, o glifosato está em primeiro lugar com 185,6 mil toneladas.

Como sua utilização é tão comum, é normal que alguns fatos e características “passem batido”.

Além disso, as diversas marcas, nomes e formulações pode tornar sua utilização confusa.

Tudo isso pode fazer com que a eficácia em campo não seja tão boa quanto deveria, além de gerar excessos e desequilíbrios.

Por isso, aqui vamos nos atentar para as principais informações que nos fazem utilizar esse produto da melhor forma possível.

Se você quer saber mais sobre este herbicida e fazer o seu melhor uso, acompanhe o texto!

Como surgiu o herbicida Roundup a base de glifosato

O glifosato é um herbicida inventado pelo químico suíço Dr. Henri Martin em 1950. O Dr. Henri Martin trabalhava na companhia farmacêutica Cilag.

Entretanto, como o glifosato não tinha aplicação na indústria farmacêutica, ele nunca foi reportado na literatura.

Em 1959, a Johnson e Johnson adquiriu a Cilag e vendeu as amostras de pesquisa, incluindo o glifosato, para a Aldrich Chemical.

Mas foi só quando a Monsanto desenvolveu um programa para encontrar um herbicida que fosse sistêmico é que se descobriu a atividade herbicida do glifosato.

Os responsáveis por descobrir a propriedade herbicida do glifosato foram o Dr. Phil Hamm e o Dr. Franz nos Estados Unidos.

glifosato

O químico John Franz, que havia sido transferido para a divisão de agricultura da Monsanto e começou a trabalhar com outro cientista, o Dr. Phil Hamm.  Hamm estava se questionando sobre o uso de alguns compostos como herbicidas e pediu a Franz para estudá-los.
(Fonte: Roundup Ready Plus)

Mas não foi tão simples assim convencer a todos da importância dessa molécula.

Pensem que naquela época não havia as culturas geneticamente modificadas com tolerância ao herbicida glifosato.

Ou seja, ele matava todas as plantas, não havia seletividade e, ainda por cima, sua atividade era lenta.

Isso porque o glifosato demora em torno de 15 dias para vermos os sintomas no campo.

Mas alguns fatores dessa nova molécula não podiam passar despercebidas:

Os 3 principais fatores que chamaram a atenção à molécula de glifosato

  • Forte adsorção ao solo;
  • Baixa toxicidade;
  • Elevada eficácia.

Assim, em 1974 o glifosato foi lançado em 3 países: Estados Unidos, Reino Unido e Malásia.

Nos EUA para uso industrial, sendo que somente em 1976 teve seu rótulo para uso agrícola.

Inicialmente o uso do glifosato foi direcionado para vinhedos, florestas e seringueiras, que eram mercados novos.

De meados dos anos 80 em diante já havia sucesso na introdução de genes, e em 1996 a Monsanto lançou a soja tolerante ao glifosato (soja Roundup Ready).

Dessa forma, iniciou-se uma nova era para o controle de plantas daninhas, mas isso é assunto para um próximo artigo.

Hoje os produtos com glifosato são registrados em mais de 130 países, para controle de mais de 300 espécies de plantas daninhas, em mais de 100 culturas.

No entanto, o produto está envolvido com algumas polêmicas devido a possibilidade de sua proibição no Brasil, veja um pouco sobre isso a seguir:

Glifosato e sua suspensão no Brasil

Foi requisitada a reavaliação toxicológica do herbicida devido a novos estudos, inclusive da Organização Mundial da Saúde (OMS),  envolvendo a saúde humana.

Como essa reavaliação toxicológica pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) atrasou muito, o tribunal regional federal decidiu suspender o registro de produtos a base de glifosato, além de suspender também sua comercialização.

Você pode ver toda a história da suspensão do glifosato, liminar concedida pela juíza Luciana Raquel Tolentino de Moura, neste artigo.

Além disso, o ministro da agricultura Blairo Maggi confirmou que o recurso contra a decisão liminar segue em análise no Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1), em Brasília (DF).

Enquanto isso, devemos saber quais as melhores estratégias para o melhor uso do glifosato.

Assim, vamos agora como as formulações do glifosato podem influenciar no manejo:

Formulações do glifosato e suas diferenças

Você sabia que a formulação do produto é muito importante?

Para herbicidas como o glifosato, que são absorvidos pelas folhas, o uso de adjuvantes agrícolas presentes nas formulações podem aumentar a eficácia do produto.

2-glifosato-formulações

As formulações Roundup Transorb e Zap Qi se diferenciam das demais por apresentar penetração foliar mais rápida do que as demais existentes no mercado brasileiro.

Isso porque, o sal de potássio dessas formulações danifica levemente a cutícula e epiderme das folhas, facilitando a entrada do glifosato.

Dessa forma, como temos o efeito de chuva e orvalho no campo, é interessante a absorção mais rápida para o melhor efeito do produto nessas condições.

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Eficiência de formulações de glifosato em diversos períodos de simulação de chuva após a aplicação do defensivo
(Fonte: Jakelaitis, A. et al.,2001)

Além disso, ainda sobre formulações, recomendo a leitura do artigo “Defensivos agrícolas genéricos ou de marca: o que usar na sua propriedade

Além de que, no texto “ O que você precisa saber sobre mistura de defensivos agrícolas”, você vê mais dicas sobre mistura de defensivos, inclusive o glifosato.

16 características sobre o glifosato que você precisa saber

1. O glifosato inibe uma enzima conhecida por EPSP sintase, fazendo com que não haja a formação de 3 aminoácidos aromáticos essenciais para as plantas, levando-as à morte;

2.É classificado como não seletivo, ou seja, pode matar praticamente todas as plantas;

3.Por isso, ele tem amplo espectro de controle: controla diversas plantas daninhas;

4.A morte da planta ocorre lentamente entre 7 a 14 dias após a aplicação;

5.É um herbicida sistêmico, ou seja, se move dentro da planta;

6.Não apresenta atividade no solo, por isso é usado somente em pós-emergência das plantas daninhas;

7.Águas de pulverização com muito Ca e Mg reduzem a atividade do glifosato;

8. Quanto a classificação toxicológica, vai depender muito de qual produto você vai estar utilizando:

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(Fonte: Rodrigues e Almeida, 2018)

9.Em outros países, também é utilizado para controle de plantas daninhas em áreas não-cultivadas como rodovias, ferrovias, parque de indústria, etc.

10.O glifosato é o principal facilitador do plantio direto: ele desseca as plantas para a implantação do sistema;

11.Muito usado na renovação de pastagens;

12.Em culturas perenes, como café, frutíferas e reflorestamento as aplicações são dirigidas: somente é pulverizado na entrelinha para não atrapalhar o desenvolvimento das culturas;

13.Devido ao fato do glifosato não ser seletivo, o produto só pode ser aplicado em culturas quando estas são geneticamente modificadas para tolerar a molécula;

14.Pode ser utilizado como maturador em cana-de-açúcar;

15.Pouco volátil, ou seja, dificilmente haverá problemas com deriva;

16.Altamente solúvel em água.

Sintomas de danos nas plantas por glifosato

O glifosato provoca amarelecimento progressivo das folhas, murcha e posteriormente necrose e morte das plantas.

A morte da planta pode levar de 4 a 20 dias, dependendo das condições climáticas, de aplicação e da planta.

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Sintomas de glifosato em soja convencional
(Fonte: Phytusclub)

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Sintomas de injúrias causadas pelo glifosato em Brachiaria brizantha (A) e Sida cordifolia (malva-branca) (B)
(Fonte: Embrapa)

Embora o glifosato seja não seletivo, como já vimos, há algumas espécies mais tolerantes ao produto, como veremos a seguir:

Plantas tolerantes ao glifosato

Algumas plantas daninhas são tolerantes ao glifosato, ou seja, são de difícil controle.

É diferente de resistência, pois a tolerância ao herbicida ocorre sem que a planta nunca tenha entrado em contato com o produto.

Diferente de resistência, na qual biótipos de plantas daninhas resistentes ao herbicida são selecionados.

Lembrando que biótipos são um grupo de indivíduos com genética parecida, mas um pouco diferenciada da maioria dos indivíduos da população de plantas.

Ou seja, a tolerância é uma característica natural da espécie.

Alguns exemplos de espécies tolerantes ao glifosato são:

  • Trapoeraba;
  • Corda-de-viola;
  • Erva-quente;
  • Poaia-branca.

>>Leia mais: “Guia do manejo eficiente da buva”
>>Leia mais: “Como fazer o manejo eficiente do capim amargoso”

Resistência de plantas daninhas ao glifosato

Mundialmente o glifosato fica em quarto lugar quando falamos de casos de plantas daninhas resistentes a sítios de ação.

Dessa forma, em 1° lugar estão os herbicidas Inibidores da ALS, seguidos do grupo químico das triazinas (Inibidores do Fotossistema II) e Inibidores da ACCase (graminicidas).

(Fonte: International Survey of Herbicide Resistant Weeds)

Além disso, a maioria dos casos de plantas daninhas resistentes aos Inibidores da EPSPs (grupo do glifosato), estão relacionados à cultura da soja, seguido do milho.

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(Fonte: International Survey of Herbicide Resistant Weeds)

Isso está diretamente ligado ao fato de que essas culturas podem possuir transgenia que permite sua aplicação em área total durante o ciclo das culturas.

Somado ao fato de que o glifosato é um produto barato, devido a patente caída e seu baixo custo de produção, o produto químico é muito utilizado.

E esse “muito” acaba sendo prejudicial à diversos fatores, como ao meio ambiente e ao desenvolvimento de plantas daninhas resistentes.

É claro que o glifosato é extremamente importante na agricultura mundial, especialmente por viabilizar o plantio direto.

No entanto, precisamos nos conscientizar sobre o manejo integrado de plantas daninhas, de modo a prevenir casos de resistência e ainda ter mais eficiência no controle.

>>Leia mais: “O guia completo para controle de capim-pé-de-galinha

Glifosato e o manejo integrado de plantas daninhas

Primeiramente, devemos fazer a rotação dos mecanismos de ação, ou seja, não utilizar somente o glifosato na lavoura.

Com a rotação dos produtos você garante o manejo eficaz de invasoras e previne o desenvolvimento de resistência.

Especialmente porque, uma vez com plantas daninhas resistentes na área, o custo de produção aumenta e fica mais fácil as infestantes prejudicarem as culturas.

Ademais, infelizmente, são muitas as plantas daninhas resistentes ao herbicida glifosato: 42 espécies, para ser mais exata.

No mundo a primeira espécie foi o Lolium rigidum em 1996.

Enquanto que, no Brasil, o primeiro caso foi em 2003, na espécie Lolium perenne ssp. multiflorum (azevém) , no Rio Grande do Sul, em lavouras de soja e pomares.

Além disso, veja algumas dicas para o manejo integrado de plantas daninhas:

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(Fonte: Fórum sobre manejo de resistência de ervas daninhas a herbicidas)

Esse manejo funciona tanto para áreas que ainda não possuem plantas resistentes, como prevenção, quanto para áreas que já apresentam resistência.

Mas como saber se você já tem biótipos resistentes na sua área? Veja a seguir:

Identificando a existência de plantas daninhas resistentes na sua área

Fique atento à esses três sinais que indicam a existência de biótipos resistentes na sua propriedade:

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(Fonte: Take Action e WSSA – Traduzido por Aegro)

Mais sobre resistência à herbicidas você pode ver nestes artigos:
9 fatos primordiais para o manejo de plantas daninhas resistentes ao glifosato
Como fazer o controle da buva resistente a glifosato

Bibliografia Consultada

Kruse, N.D. et al.. Herbicidas inibidores da EPSPs: revisão de literatura. Revista Brasileira de Herbicidas, v. 1, n. 2, 2000.
Velini, E.D. et al. Glyphosate. Botucatu: Fepaf, 2009.
Oliveira Jr. R.S. et al. Biologia e manejo de plantas daninhas. Curitiba: Omnipax, 2011.
Silva, A.A. et al. Proteção de plantas – manejo de plantas daninhas. Viçosa: Cead, 2010.
Rodrigues, B.N.; Almeida, F.S. Guia de Herbicidas. Londrina: edição dos autores, 2018.
Heap, I.  The International Survey of Herbicide Resistant Weeds. Online. Internet. Disponível:  www.weedscience.org.

Conclusão

Aqui nós vimos como o herbicida glifosato surgiu, além de suas principais características e fatos.

Fica claro que o glifosato é muito importante, senão essencial, para a agricultura atual, especialmente no Brasil devido à importância do plantio direto.

No entanto, é necessário que nós estejamos atentos à sua utilização: usar somente quando necessário, conhecendo a formulação e dose correta e com rotação de outros herbicidas.

Agora que você tem todas essas informações, com certeza seu manejo de plantas daninhas com glifosato será muito mais eficiente!

>>Leia mais:

“Os 5 melhores aplicativos de identificação de plantas daninhas”

Como funciona o novo herbicida Luximo para controle de plantas daninhas resistentes

“Como reduzir os custos da gestão de herbicidas e tornar o manejo mais eficiente”

Gostou do artigo? Tem mais dúvidas sobre o glifosato? Gostaria de saber mais sobre algum tema? Adoraria ver seu comentário!