Armazenamento de trigo: confira os principais manejos que você deve adotar na pós-colheita para evitar as perdas e a desvalorização dos grãos.
O cuidado na pós-colheita do trigo é fundamental para garantir a manutenção da qualidade dos grãos e evitar perdas no seu preço de venda.
Mas você sabe quais fatores devem ser observados durante a secagem do trigo e como manejá-los?
Sabe quais manejos devem ser adotados na armazenagem do trigo para minimizar as perdas e evitar pragas?
Sabe quais são os principais contaminantes do trigo na pós-colheita e como monitorá-los?
Confira essas e outras recomendações a seguir!
Índice do Conteúdo
A pós-colheita do trigo
A pós-colheita do trigo compreende a limpeza, a secagem e o armazenamento dos grãos.
A limpeza geralmente não ocasiona danos à qualidade dos grãos de trigo, pelo contrário, pode melhorar a qualidade do lote pela retirada das sujidades e de grãos chochos e quebrados.
Já na secagem e no armazenamento, os grãos de trigo podem sofrer danos se não forem adotados os manejos corretos.
Portanto, como você verá a seguir, cuidados devem ser tomados para que a qualidade dos grãos seja mantida nas operações após a colheita do trigo.
Secagem de trigo
Antes da secagem, os grãos devem passar pela pré-limpeza realizada por uma máquina de ar e peneiras. O objetivo é retirar restos culturais e materiais estranhos como pedras, terra, etc., da massa de grãos.
Essa limpeza facilita a secagem e permite o armazenamento com melhor qualidade.
A secagem dos grãos de trigo serve para reduzir o teor de água, permitindo o armazenamento seguro por maior tempo.
Esse processo pode ser realizado com ar aquecido ou com ar natural (sem aquecimento). Vou explicar cada um deles a seguir.
Secagem com ar aquecido
O principal aspecto relacionado à secagem de grãos de trigo com ar aquecido é a temperatura do ar de secagem, que vai depender do tipo de secador (estacionário ou intermitente) e do teor de água inicial dos grãos.
Para que a qualidade tecnológica dos grãos de trigo não seja prejudicada, a temperatura da massa de grãos não deve ultrapassar 60 ℃.
Na secagem estacionária, pelo fato de ser realizada em camadas fixas, pode haver super secagem e aquecimento excessivo da camada inferior. Portanto, é recomendada a utilização de temperaturas mais baixas (45 ℃ a 50 ℃).
Já em secadores intermitentes, em que os grãos não permanecem o tempo todo em contato com o ar aquecido, a temperaturas deve ficar em torno de 70 ℃.
Quanto ao teor de água inicial, é recomendado que grãos com teor mais elevado (em torno de 20%) sejam secos com temperaturas mais baixas.
Por outro lado, grãos com teor de água mais baixo (em torno de 15%) podem ser submetidos a temperaturas mais próximas da máxima indicada.
Essa recomendação é importante, visto que a retirada de água dos grãos de forma muito abrupta pode ocasionar fissuras e quebras. Isso reduz a qualidade, o potencial de conservação e o valor comercial dos grãos.
Secagem com ar natural
A secagem com ar natural é realizada em secadores estacionários ou em silos-secadores, sem o aquecimento do ar.
Neste tipo de secagem, os principais parâmetros a serem observados são:
- temperatura e umidade relativa do ar;
- teor de água da massa de grãos.
A secagem com ar natural é mais barata e os danos pela temperatura do ar de secagem são inexistentes.
Por outro lado, é mais demorada e, dependendo das condições do ar e do teor de água inicial dos grãos, o produto pode demorar demais para secar e, consequentemente, sofrer deterioração.
Sendo assim, para regiões com histórico de altas umidades relativas do ar, não é indicado realizar este tipo de secagem.
Já em regiões de clima mais seco, a secagem com ar natural funciona muito bem.
Principais cuidados no armazenamento de trigo
Os principais fatores que precisam ser observados durante o armazenamento de trigo são o teor de água e a temperatura da massa de grãos.
Grãos armazenados com elevado teor de água e em alta temperatura aumentam suas taxas respiratórias e se deterioram com maior velocidade.
Desta forma, os grãos devem ser armazenados secos (teor de água inferior a 13%) e em temperaturas da massa de grãos baixas (em torno de 18 ℃).
O monitoramento do teor de água dos grãos pode ser realizado por amostragens sistemáticas.
Já a temperatura da massa de grãos pode ser monitorada com o auxílio de termopares, que são sensores instalados em meio aos grãos e fazem a medição da temperatura em tempo real.

Sistema de monitoramento da temperatura da massa de grãos por termopares
(Fonte: Fockink)
É importante que os silos destinados à armazenagem de grãos de trigo a granel sejam equipados com ventiladores, visando a aeração.
A aeração proporciona a uniformização da temperatura e do teor de água dos grãos, além de promover a renovação do ar intergranular.
Para realizar a aeração dos grãos, são necessários cuidados quanto às condições de temperatura e umidade relativa do ar.
Pragas do armazenamento de trigo
Durante o armazenamento, os grãos de trigo podem ser atacados por pragas, principalmente fungos e insetos, denominadas pragas de armazenagem.
Estas pragas podem ocasionar perdas significativas. Por isso, é importante conhecê-las, monitorá-las e controlá-las.
Fungos
Os fungos encontrados em grãos de trigo no armazenamento são principalmente a giberela (Fusarium graminearum), os mofos e bolores (Aspergillus spp. e Penicillium spp).

Grãos de trigo contaminados pela giberela (Fusarium graminearum)
(Fonte: O Presente Rural)
Os fungos de armazenamento são os principais produtores de micotoxinas, que são toxinas produzidas pelo seu metabolismo secundário e que podem causar doenças e a morte de humanos e animais.
O controle de fungos deve ser realizado de forma preventiva. Portanto, recomenda-se que os grãos de trigo sejam armazenados com baixos teores de água (<13%) e a baixas temperaturas (em torno de 18%).
Além disso, o processo de limpeza e higienização das estruturas de armazenagem e dos grãos antes de serem estocados é indispensável, pois restos culturais e sujeiras podem ser fonte de inóculo para os fungos.
Insetos
As principais espécies de pragas de grãos de trigo no armazenamento são o besourinho dos cereais (Rhyzopertha dominica) e o gorgulho (Sitophilus sp.).

Grãos de trigo atacados por insetos de R. dominica e Sitophilus sp.
(Fonte: Grupo Líder e Minden Pictures)
Para fazer o controle de insetos em grãos de trigo armazenados, utilize as práticas do MIP (Manejo Integrado de Pragas).
Algumas medidas de controle são:
- limpeza, higienização e tratamento com inseticidas protetores nas estruturas do armazém (a mais importante);
- limpeza e secagem adequada dos grãos;
- armazenamento de grãos secos (<13%) e a baixas temperaturas (18 ℃);
- monitoramento da presença das pragas ao longo do armazenamento;
- tratamento dos grãos com inseticidas recomendados no enchimento do silo;
- expurgo com fosfina (medida corretiva).
Em silos equipados com sistema de termometria, é possível realizar o monitoramento da presença de insetos pelo surgimento de pontos localizados de aquecimento na massa de grãos, típicos da presença destas pragas.
Monitoramento de contaminantes
Devido à importância da cultura do trigo e da forma de consumo, principalmente para os produtos integrais, é importante que se faça o monitoramento dos contaminantes durante o armazenamento, buscando a identificação e as soluções a serem tomadas.
Micotoxinas, fragmentos de insetos e resíduos de agrotóxicos são os principais contaminantes que devem ser monitorados.
O monitoramento da contaminação por micotoxinas pode ser realizado de forma rápida e ágil. Já existem no mercado várias opções de monitoramento com testes rápidos para a detecção de diferentes micotoxinas e concentrações.

Equipamentos utilizados para a detecção de micotoxinas em trigo
(Fonte: Vicam)
O limite de fragmentos de insetos em farinha de trigo está disposto na RDC N° 14 da Anvisa. O limite máximo considerado é de 75 fragmentos para cada 50 g de farinha.
Já o monitoramento da presença de resíduos de agrotóxicos nos grãos é dificultado devido à necessidade de equipamentos específicos.
Assim, é necessário respeitar o período de carência do agrotóxico e utilizar apenas produtos indicados para a aplicação em grãos armazenados.
Conclusão
As etapas de pós-colheita do trigo são fundamentais para que o grão não perca qualidade e sofra desvalorização, o que prejudica sua lucratividade.
Vimos que, na secagem, o principal fator a ser considerado é a temperatura, que depende do teor de água inicial dos grãos e do tipo de secador.
Também falamos sobre os cuidados na etapa de armazenamento de trigo e sobre a importância do monitoramento de contaminantes, que deve ser frequente, principalmente com relação às micotoxinas. Assim, é possível identificar rapidamente as alterações e minimizar perdas.
Espero que, com essas informações, você tenha uma excelente pós-colheita do trigo!
Restou alguma dúvida sobre os processos relacionados ao armazenamento de trigo? Deixe seu comentário abaixo!
Gostei. Muito obrigada Maurício.
Vou enviar um convite para você provar a minha sopa de trigo e os cuscus ?
Maurício, obrigado por compartilhar informações!
Tenho panificação por Hobbie e tenho enfrentado problemas com carochinha no armazenamento. Eu posso embalar a farinha a vácuo?
Secador intermitente?