Brachiaria: Saiba quando semear a forrageira, como fazer consórcio e quais espécies são mais indicadas para proteção do solo, palhada ou alimento para gado.

A brachiaria já foi sinônimo somente de alimentação para o gado. Mas o papel dessa gramínea vai muito além de oferecer só forragem aos rebanhos. 

Ela melhora a sanidade do solo e traz ganho de produtividade para outras culturas, principalmente grãos.

Mas quando é a melhor época para semear a forrageira? Quais espécies são as mais indicadas para proteção do solo, palhada ou alimento para o gado?

Confira esses e outros pontos no artigo a seguir!


Importância da Brachiaria para o agro

Introduzidas nas décadas de 1950 e 60, as espécies do gênero Brachiaria são as principais plantas forrageira utilizadas no Brasil atualmente. 

Com alta persistência em solos ácidos, a introdução do braquiarão (Brachiaria brizantha cv. Marandu) em 1965 foi a responsável por intensificar a bovinocultura de corte no país.

As espécies do gênero Brachiaria são nativas do continente africano e, salvo algumas diferenças que veremos a seguir, são todas originárias das savanas. 

Isso mostra seu enorme potencial e adaptabilidade ao nosso clima tropical e ao nosso cerradão.

A intensificação que esse gênero causou na nossa pecuária de corte se deve a sua maiores produtividade e capacidade de suporte, que elevaram a taxa de lotação de 0,3 UA/ha, dos saudosos capins Jaraguá e Gordura para 1,5 UA/ha.

Esse salto de produtividade permitiu que o Brasil se enquadrasse como maior produtor de carne bovina do mundo. Hoje, esse capim está espalhado por 80% das pastagens do nosso país.

Dada a merecida importância à brachiaria, veremos adiante como esse gênero se tornou importante para a agricultura e como escolher entre as diversas espécies.

Principais espécies de brachiaria e cultivares

Entre as principais espécies do gênero Brachiaria se destacam a B. brizantha, a B. decumbens, B. ruziziensis e a B. humidicola.

Apesar das mais de 80 espécies do gênero, focaremos nessas quatro. Elas têm a maior importância econômica no Brasil e representam 80% das pastagens cultivadas no país.

A B. brizantha é de longe a mais utilizada, correspondendo por 50% das pastagens brasileiras atualmente.

Essa espécie apresenta três cultivares bem consolidados:

  • Cv. Marandu, famoso Braquiarão;
  • Cv. Piatã, lançado pela Embrapa em 2007;
  • Cv. Xaraés, lançado pela mesma empresa no ano de 2003.

Já com as espécies de Brachiaria decumbens temos a famosa braquiarinha cultivar Basilisk. Importada da Austrália na década de 60, dominou as pastagens brasileiras até a chegada do cv. Marandu. Alcançam até 70 cm de altura.

A espécie B. humidicola se divide em três cultivares: o cv. Lianero, o cv. Comum e o cv. Tupi. 

Enquanto a B. ruziziensis apresenta um cultivar de maior importância, o cv. Kennedy e um híbrido entre B. decumbens e B. ruziziensis muito utilizado atualmente, o cv. Mulato 2.

Importância da Brachiaria para o Plantio Direto

Diante do nosso clima tropical, a brachiaria tem um papel fundamental para a adoção do sistema de plantio direto

Apesar de não ser a única alternativa para a produção de palha, ela se destaca pelas características rústicas e pela alta produção de biomassa, com relação C/N mais adequada para a persistência no solo.

A gramínea pode entrar de duas formas no sistema de produção:

  • Semeada em monocultivo após a primeira safra;
  • Consorciada na segunda safra.

Em ambos os casos, a semeadura da brachiaria deve ser realizada durante o período da segunda safra. Isso porque, pelas características do gênero, ela não apresenta crescimento expressivo em baixas temperaturas.

Entre as duas maneiras de incluir a brachiaria no SPD, o consórcio é o mais técnico, mas divide opiniões. Diante disso, trataremos dessa técnica um pouco mais a fundo.

Consórcio com brachiaria

O consórcio de forrageiras, como a brachiaria, com culturas graníferas teve início com o Sistema Barreirão da Embrapa. O sistema consistia no cultivo de arroz de sequeiro consorciado com a forrageira, buscando amenizar custos de renovação da pastagem.

Nessa técnica, o solo passava por um preparo pesado, sem o uso do plantio direto. A ideia era corrigir o perfil do solo em profundidade, reformando a pastagem degradada, sem a intenção de rotacionar a área com agricultura.

Anos depois, a Embrapa lançou o Sistema Santa Fé. Ele incluiu os princípios do plantio direto ao consórcio e preconizou a rotação entre pastagem e agricultura na área.

brachiaria

(Fonte: Embrapa)

A partir disso, o uso de culturas como milho e sorgo no consórcio com brachiaria cresceu exponencialmente, pois muitos experimentos mostravam a manutenção da produtividade dessas culturas na presença da brachiaria.

Chegavam então outras questões aos produtores e técnicos como quando semear a forrageira? Qual a espécies utilizar?

Infelizmente, mesmo após inúmeros trabalhos científicos, a resposta para essas questões ainda é: depende.

Mas não se frustre! Falarei de algumas dicas que devem ser levadas em conta na hora de tomar essas decisões. 

Mas, antes, mostrarei outro uso que a brachiaria pode ter no sistema, fora a produção de palha.

Integração Lavoura-Pecuária

O uso da integração entre lavoura e pecuária vem aumentando no Brasil nos últimos anos. 

Assim, os pecuaristas buscam reduzir os custos de renovação da pastagem. Já agricultores visam a diversificação da propriedade e até a renda de uma terceira safra!

Sim, essa técnica torna possível ter uma terceira safra para o produtor, sem a necessidade de irrigação, “colhendo” carne do pasto!

milho e sorgo consorciados à brachiaria

Milho e Sorgo consorciados à brachiaria

(Fonte: Arquivo do autor)

Mas como isso funciona? Bom, basicamente o produtor terá uma safra de verão com soja, por exemplo, uma safrinha de milho ou sorgo consorciado à brachiaria e, após a colheita da safrinha, o gado entra na jogada até o plantio da próxima safra.

Nesse caso, a utilização de capins mais rústicos e produtivos, como o capim Marandu ou Piatã, são as melhores opções.

No entanto a “safrinha de boi”, como ficou conhecida pelos divulgadores da técnica, não é obrigatória. O produtor pode também rotacionar as áreas da fazenda entre agricultura e pasto.
Além disso, a forrageira pode entrar de outra maneira no sistema de produção, com a técnica da sobressemeadura da brachiaria na soja. Ela é realizada entre a fase de enchimento de grãos e o início da maturação (R5 a R7).

Estabelecimento da forrageira após a sobressemeadura, ainda em consórcio com a soja

(Fonte: Embrapa)

Características das brachiarias e manejo dos sistemas

Brachiaria brizantha

As cultivares de B. brizantha (Marandu, Xaraés e Piatã), em geral, têm rápido estabelecimento na área aliada à alta produtividade e ao porte ereto. Entretanto, apresentam baixa adaptação a solos mal drenados e à baixa fertilidade.

A Marandu é uma cultivar que tem baixa rebrota, mas apresenta bom desenvolvimento sob a sombra. Por isso, se adapta bem ao consórcio com outras culturas.

Já a Xaraés apresenta alta rebrota e sua tolerância à cigarrinha das pastagens é menor quando comparada às cultivares Marandu e Piatã.

Brachiaria decumbens

A B. decumbens cv. Basilisk apresenta hábito de crescimento prostrado, apesar do fácil estabelecimento e boa adaptação a solos pobres e ácidos.

Por outro lado, apresenta suscetibilidade às cigarrinhas das pastagens e é de difícil erradicação, pois apresenta grande acúmulo de sementes viáveis no solo.

Brachiaria humidicola

Para terrenos mal drenados, a principal indicação são as cultivares da B. humidicola. Elas apresentam crescimento estolonífero e boa adaptação a solos com baixa fertilidade. 

Mas apenas a cultivar. comum apresenta tolerância às cigarrinhas das pastagens. Em geral, todas as cultivares têm um estabelecimento lento devido ao menor enraizamento dos estolões.  

Brachiaria ruziziensis

A B. ruziziensis é a espécie mais utilizada no sistema de plantio direto na palha. Ela tem rápido estabelecimento e fácil dessecação e controle. 

Porém, possui baixa adaptação a solos ácidos e de baixa fertilidade, alta suscetibilidade às cigarrinhas das pastagens e baixa competição com as invasoras. Tudo isso limita sua escolha na hora de implantar o sistema.

Semeadura da brachiaria

Sabendo todas essas informações, você deve ainda definir como e quando será semeada a forrageira.

A semeadura da forrageira em consórcio com milho ou sorgo pode ser tardia, na adubação de cobertura (V3-V5). Isso diminui a competição com a cultura principal e, consequentemente, a produção de forragem.

A semeadura da forrageira pode ser feita também junto com o plantio do milho, a lanço, na entrelinha da cultura ou na linha, semeada em maior profundidade. 

Esse tipo de estabelecimento aumenta a produção de forragem e pode ser uma escolha mais interessante quando a forrageira for utilizada para recria e engorda do gado de corte.

brachiaria

*DAC = Dias após a colheita do milho

(Fonte: Adaptado de Tsumanuma, 2004 e Pantano, 2003)

Para diminuir a competição na semeadura conjunta das duas espécies, você pode lançar mão da utilização de graminicidas em subdosagem aliados à atrazina.

O herbicida atrazine deve ser usado na dose de 1500 g i.a./ha (3 L p.c./ha) para o controle de plantas daninhas dicotiledôneas. 

Já nicosulfuron é recomendado na dose de 4 a 8 g i.a./ha (0,1 a 0,2 L p.c./ha), visando o controle das invasoras de folha larga e a diminuição do crescimento da forrageira, sem matá-la.

brachiaria

Brachiaria a lanço (superior esquerda), brachiaria na entrelinha (superior direita), brachiaria na linha do milho mais funda (inferior esquerda) e brachiaria semeada na entrelinha do milho em V4 (inferior direita)

(Fonte: Almeida, 2014)

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Conclusão

O uso de forrageiras nos sistemas de produção de grãos vem aumentando. E o primeiro passo deve ser escolher qual função terá a brachiaria na lavoura: proteção do solo, produção de palhada ou alimento para o gado.

No caso de produção apenas de palha, o uso de B. ruziziensis pode ser mais interessante, pois ela apresenta fácil controle.

Por outro lado, no sistema de integração lavoura-pecuária, forrageiras mais produtivas e resistente a pragas podem ser uma escolha mais acertada.

O que não faltam são opções para que você introduza a brachiaria em seu sistema de produção e colha os benefícios dessa forrageira.

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Você já teve alguma experiência com o uso da brachiaria? Restou alguma dúvida? Deixe seu comentário!