Qualidade do solo: entenda os indicadores de qualidade química, física e biológica que devem ser considerados.

Na última safra, o Brasil produziu cerca de 255 milhões de toneladas de grãos, um aumento de quase 5% em relação à safra passada.

Todo esse alimento, fibra e combustível produzido tem algo em comum: eles dependem do solo não apenas como como substrato, mas também como fonte de nutrientes, água e oxigênio.

Pode parecer que existe solo para “dar e vender”, mas ele é um recurso importante que é “gerado” a uma velocidade de apenas 0,01 a 0,02 milímetros ao ano, enquanto a média mundial é de perdas de 1,54 mm ao ano. Ou seja, perde-se a camada arável mais rápido do que a natureza consegue formá-la. 

Por isso, é essencial entender o que é qualidade de solo ou saúde do solo, quais os indicadores e como conseguir um solo saudável que possa entregar todo o potencial produtivo da lavoura.

Qualidade do solo

O solo é um ambiente vivo e dinâmico. A ciência ainda não conseguiu entender todos os processos que ocorrem nele, apenas indicadores relacionados a solos saudáveis e que permitem às plantas atingirem altas produtividades. De forma geral, a qualidade do solo depende de seus próprios atributos, mas também das práticas de uso e manejo, além de interações com o ecossistema.

As plantas se relacionam com os solos através das raízes e são capazes de selecionar microrganismos no entorno do sistema radicular a fim de auxiliar no seu desenvolvimento e na obtenção de nutrientes por exemplo.

Mas para as relações biológicas acontecerem, plantas e microrganismos precisam de um ambiente química e fisicamente favoráveis.

A seguir vamos falar sobre cada um desses pontos com mais detalhes. 

Qualidade química do solo

Os indicadores da qualidade química do solo são os mais frequentemente utilizados e o que você deve estar mais acostumado.

Normalmente, a atenção maior é dada ao pH do solo e ao teor de macro e micronutrientes. Entretanto, existem alguns outros indicadores extremamente importantes nas análises de solo.

Um deles é o teor de alumínio. Esse elemento é extremamente tóxico para as plantas na sua forma solúvel, inibindo o crescimento radicular. A calagem e o uso de gesso são técnicas já consolidadas para controlar o alumínio no solo.

Outro indicador importante é a CTC do solo. Ela diz qual é a capacidade de nutrientes que o solo pode reter sem sofrer perdas por lixiviação. A CTC dos solos brasileiros está intimamente ligada com outro indicador que também se relaciona com a parte física e biológica: o teor de matéria orgânica.

gráfico com a relação entre o teor de matéria orgânica do solo (MO) e a capacidade de troca de cátions do solo (CTC)

Relação entre o teor de matéria orgânica do solo (MO) e a capacidade de troca de cátions do solo (CTC)
(Fonte: Barbosa, 2017)

A matéria orgânica tem uma altíssima CTC e, quanto maior seu teor no solo, maior a capacidade desse solo reter os nutrientes aplicados. 

Para aumentar a quantidade de matéria orgânica, o jeito é só adicionando material vegetal de decomposição lenta ao solo, ou seja, culturas de cobertura e, principalmente, gramíneas.

banner da planilha de calagem com uma tela de computador e texto explicativo

Qualidade física do solo

Continuando no assunto matéria orgânica, ela influencia a qualidade física do solo também, melhorando indicadores como: densidade do solo, porosidade e estabilidade dos agregados.

Todos os indicadores da qualidade física do solo têm como objetivo garantir que a planta tenha acesso à água e oxigênio para se desenvolver.

Para crescer, as raízes precisam de um solo que apresente baixa resistência, ou seja, que não esteja compactado.

O problema da compactação

A compactação destrói os poros do solo, que é por onde a água e o ar passam. Dessa forma, um solo compactado inibe o crescimento profundo do sistema radicular, não permitindo que as plantas acessem a água contida nas camadas mais profundas.

Esse problema se torna mais visível em anos com veranicos ou secas prolongadas. As plantas com o sistema radicular profundo conseguem se sair melhor nesses períodos e têm sua produtividade menos afetada por esses eventos climáticos.

O plantio convencional (com arado e grade) parece melhorar as condições físicas do solo em um primeiro momento. 

Contudo, esses implementos quebram os agregados do solo, fazendo com que, após as primeiras chuvas, os poros do solo sejam obstruídos. Isso causa uma camada compactada abaixo de onde esses implementos passam. Essa camada de impedimento físico irá limitar a profundidade do sistema radicular.

Mas aí você pensa: é só usar um subsolador. Infelizmente essa solução é provisória.

O processo de subsolagem faz o mesmo trabalho do arado e da grade, mas em profundidade. Ele quebra a compactação, mas quebra os agregados também, fazendo com que, após alguns meses, as partículas se “assentem” novamente e formem uma nova camada de impedimento.

qualidade do solo

Resistência à penetração do solo; A) 6 meses após a implantação dos tratamentos; B) 18 meses após a implantação dos tratamentos.  DMS – diferença mínima significativa.
(Fonte: Piccin, 2020)

Para evitar esse problema, o melhor é utilizar culturas de cobertura com um sistema radicular amplo e agressivo. Dessa forma, após a subsolagem, as raízes irão estruturar o solo, impedindo que uma nova camada de compactação se forme, além de incorporar matéria orgânica ao solo.

Qualidade biológica do solo

A cobertura do solo e a matéria orgânica estão intimamente relacionadas com a qualidade biológica do solo.

Os microrganismos do solo são os responsáveis pela ciclagem de nutrientes, tornando-os disponíveis para as plantas.

Um caso muito conhecido é o da fixação biológica de nitrogênio (FBN) na soja. Os microrganismos fixadores conseguem suprir uma boa parte do nitrogênio requerido pela planta (50%-70%).

gráfico que mostra Nitrogênio derivado da atmosfera (FBN) ao longo do ciclo da soja

Nitrogênio derivado da atmosfera (FBN) ao longo do ciclo da soja
(Fonte: Zambon, 2020)

Dessa forma, principalmente em lavouras de altas produtividades (acima de 4 toneladas), quem fornece o restante de nitrogênio demandando pela planta é o solo, através dos microrganismos.

Eles irão mineralizar a matéria orgânica, fornecendo nitrogênio para o ambiente do solo. Isso mostra como é de vital importância a qualidade biológica dos solos.

Para se atentar a isso, utilizam-se alguns indicadores como:

  • presença de minhocas e insetos;
  • massa microbiana;
  • taxa de respiração do solo;
  • algumas enzimas específicas (que permitem verificar a existência de organismos que podem aumentar a disponibilidade de fósforo, por exemplo).

Outro indicador visual é a cor do solo. A matéria orgânica tende a “tingir” os solos com tons de marrom escuro, principalmente na superfície.

Conclusão

A qualidade do solo pode ser acompanhada com diversos indicadores que ajudam a escolher o manejo necessário para sanar possíveis problemas.

Você deve sempre se atentar a esses indicadores, pois eles mostram, com antecedência, de onde o prejuízo pode vir.

Acompanhar a análise química do solo é essencial, mas não é tudo! É preciso considerar os indicadores físicos e biológicos do solo.

Não pense que para isso são necessárias análises caras e complexas: o olho de quem está todo dia no campo consegue perceber esses problemas!

Não são necessárias mais que algumas “cavucadas” para notar um possível problema de compactação na subsuperfície do solo ou a falta de “vida”, como minhocas e insetos.

Então, não há desculpas! Atente-se à qualidade do solo para garantir que ele possa oferecer o ambiente ótimo para o potencial produtivo da lavoura. 

Como está a qualidade do solo em sua propriedade? Restou alguma dúvida? Deixe seu comentário!