Atualizado em 29 de julho de 2020.
Plantio direto: veja aqui como fazer, os princípios, vantagens, diferenças com o sistema convencional e outras informações fundamentais sobre esse sistema no Brasil

O Sistema de Plantio direto (SPD) já é muito adotado no Brasil.

Segundo a Febrapdp, cerca de 35 milhões de hectares estão sobre o SPD, o que corresponde a 90% das áreas ocupadas com lavouras de grãos no país.

É um desafio manter a palhada e seguir à risca as técnicas desse sistema. 

Em contrapartida, as vantagens na consolidação do sistema garante aumento da produtividade, conservação e melhoria do sistema produtivo. E também na diminuição de custos de produção.

Para tirar todas as dúvidas e conseguir aproveitar todos os benefícios do plantio direto, fizemos este artigo! Confira:

Sistema de Plantio Direto (SPD) e seus princípios

O sistema de plantio direto é fundamental para garantir as características físicas, químicas e biológicas do solo através do revolvimento mínimo, garantindo que se mantenha o máximo os resíduos das culturas anteriores.

Mas não é só isso! Veja quais são os pilares do SPD:

  • mínimo ou não revolvimento do solo;
  • manutenção da cobertura do solo (cobertura morta);
  • rotação de culturas – rotação, sucessão e/ou consórcio de outras culturas de espécies diferentes.
plantio direto

(Fonte: Plantio Direto)

Para consolidar o sistema de plantio direto e manter esses pilares é necessário um aprimoramento constante.

Em grandes áreas, é comum observarmos que somente é utilizado o conceito de palha sobre o solo, não considerando os demais pilares da prática e também não aproveitando todo o potencial da prática.

É utilizando o sistema de plantio direto completo que conseguimos melhorar o Manejo Integrado de Pragas, doenças e o controle de plantas daninhas, como veremos mais à frente.

Aliás, o plantio direto começou a ser praticado no Brasil no início da década de 1970, como uma alternativa para combater a erosão.

Seu pioneiro no Brasil foi o agricultor Herbert Bartz, de Rolândia, Paraná, que recentemente lançou o livro “O Brasil possível: a biografia de Herbert Bartz”, contando sua história.

Vamos ver agora os principais benefícios do plantio direto:

Vantagens do Sistema de Plantio Direto

Com palhada sobre o solo promovemos sua estruturação com agregados e matéria orgânica, ou seja, incrementamos a fertilidade do solo.

Outras vantagens do SPD são:

  • redução e eliminação de operações de preparo de solo;
  • diminuição da erosão do solo pela cobertura vegetal;
  • efeito positivo sobre a diminuição das plantas daninhas;
  • quebra de ciclo de insetos e doenças pela rotação de cultura;
  • aumento da matéria orgânica do solo.

Além disto, a palhada contribui com processos aleloquímicos que podem realizar o controle de doenças e favorecer os ciclos biológicos do solo.

Aleloquímicos de restos culturais

Aleloquímicos de restos culturais: processos, fatores que controlam e efeitos potenciais sobre os componentes do agrossistema
(Fonte: Adaptado de Moreira e Siqueira, 2006, p. 258)

Na fazenda em que trabalho, na safra 2017/18, identificamos um aumento considerável no Nomuraea rileyi, fungo entomopatogênico que ataca a lagarta da soja e a lagarta falsa medideira.

Nomuraea rileyi em lavoura de soja safra 2018 sobre sistema de plantio direto

Nomuraea rileyi em lavoura de soja safra 2018 sobre sistema de plantio direto
(Fonte: arquivo pessoal da autora)

Nesse sentido, existem pesquisas que afirmam que o sistema de plantio direto favorece a ocorrência natural de fungos entomopatogênicos. 

E já falamos nesses casos de fungos em controle biológico aqui no Lavoura10 também. Veja mais no post “Como utilizar defensivos naturais e diminuir custos”.

Desvantagens do Plantio Direto

No sistema de plantio direto há mais características a serem manejadas e observadas do que as aplicadas no sistema convencional, como o não revolvimento do solo, a palhada e a rotação de culturas.

Algumas desvantagens do SPD que podemos citar são:

  • mais dificuldade no controle de plantas daninhas – em um primeiro momento é possível que se invista mais em herbicidas para o controle de algumas plantas daninhas, pois o solo com palhada pode favorecer a germinação;
  • compactação do solo – se a drenagem ou descompactação do solo não for bem planejada antes da implantação do sistema, é possível que ocorram necessidades de revolvimento e nivelamento novamente; 
  • dificuldade de germinação de sementes – dependendo da época de semeadura realizada (se em momentos muito úmidos), em conjunto com a palhada no solo, é possível que ocorram alguns problemas de germinação;
  • troca de maquinário – alguns maquinários comumente utilizados, como arados e grades deixam de serem necessários no sistema produtivo. 

A implantação do SPD e sua manutenção antes, durante e depois da safra exigem mais conhecimento técnico e um planejamento agrícola maior do produtor.

Você vai precisar organizar a rotação de cultura, os manejos para a palhada, fazer melhor controle de plantas daninhas. Se possível, vai precisar de uma assistência técnica especializada para acertar no manejo. 

Para isso, conte também com ajuda da tecnologia. Aplicativos que permitem o acompanhamento das rotinas da lavoura e o planejamento das atividades agrícolas, como o Aegro, facilitam muito o dia a dia.

Mas vamos entender melhor como deve ser feito o plantio direto? Veja a seguir:

Como é feito o plantio direto

Primeiro, precisamos construir palhada e, para isso, a escolha da cobertura certa é fundamental.

É essencial que na escolha da cultura de cobertura você considere a relação de decomposição da palhada. Isso está ligado à relação carbono/nitrogênio (C/N) das plantas de cobertura.

Ainda assim, vale lembrar que não existe a melhor planta para cultura de cobertura.

O milheto, por exemplo, é uma das plantas que contribui na expansão do plantio direto pela sua grande produção de matéria seca tanto aérea como radicular. Além disso, seu uso pode chegar a incrementar o sistema com quantidades de potássio que podem substituir a adubação com cloreto de potássio em soja, por exemplo.

Porém, caso o corte seja feito depois da época ideal, pode-se acabar perdendo esse aporte nutricional.

Assim, eu recomendo conhecer as plantas de cobertura e realizar um planejamento agrícola efetivo para que tudo corra adequadamente.

Milho sob sistema de plantio direto (safra 2018)

Milho sob sistema de plantio direto (safra 2018)
(Fonte: arquivo pessoal da autora)

Assim, esse planejamento incluirá alguns passos simples:

Primeiros passos para fazer o plantio direto

  • definição das culturas de cobertura, inclusive época de plantio e corte;
  • definição das rotações de cobertura, como quais culturas e épocas do ano;
  • orçamento dos insumos para esse sistema;
  • dimensionamento da equipe de trabalho e maquinário para o sistema.

É necessário também verificar o maquinário específico para esse sistema de plantio direto. O rolo faca, por exemplo, é muito utilizado para fazer a cobertura morta. 

Se possível, faça o planejamento do sistema junto a um profissional da área, ele pode te trazer informações valiosíssimas.

banner ebook máquinas agrícolas

Agora, é importante considerar a quantidade esperada de produtividade da cultura, que é fator importante na definição de adubação.

Além de que, as culturas de cobertura podem ser atrativos de inimigos naturais de pragas, e aqui tem um guia da Embrapa para o reconhecimento destes inimigos naturais.

A tabela abaixo apresenta os recursos “ofertados” pelas plantas atrativas aos inimigos naturais e que contribuem para o aumento da eficiência dos mesmos com o controle biológico:

tabela apresenta os recursos “ofertados” pelas plantas atrativas aos inimigos naturais

(Fonte: Embrapa)

Além disso, saiba mais sobre plantio direto na cultura da soja em: “Plantio direto na soja: Como fazer ainda melhor na sua lavoura”.

Agora que sabemos mais sobre o plantio direto, vamos conferir suas principais diferenças com o plantio convencional:

Plantio direto e plantio convencional

Você sabe que os manejos que realiza devem garantir produtividade, mas também precisam manter a sustentabilidade do seu sistema produtivo.

E não estou falando somente do meio ambiente, mas também da sustentabilidade do seu negócio.

Existem grandes diferenças no manejo do plantio convencional e do plantio direto, principalmente na questão do revolvimento do solo. Vamos ver como funciona o estabelecimento de cada tipo de sistema produtivo:

Plantio Convencional

Nele se utiliza implementos como o arado e grade leve niveladora, que são originados de regiões na qual o solo se tornava congelado – e o revolvimento auxilia no descongelamento. 

Além disso, a prática é utilizada quando se necessita corrigir alguma característica do solo, pois o remoção das camadas superficiais promove:

  • redução da compactação do solo;
  • permite a incorporação de corretivos e fertilizantes;
  • aumenta a porosidade para a melhor permeabilidade;
  • promove corte e enterrio de plantas daninhas. 

As etapas seguidas, na prática, são:

Etapa 1: 

O afrouxamento do solo é realizado para a descompactação, retirada de plantas daninhas e para que ele fique em condições de receber corretivos e fertilizantes. Utilizam-se os arados escarificadores ou grades pesadas que, em geral, atuam na profundidade de até 15 cm ou 20 cm.

Etapa 2: 

É realizado o destorroamento e nivelamento da parte arada por meio da gradagem. Geralmente é feito com grades leves em duas passadas. 

Etapa 3: 

Com o solo em condições, é possível que seja feita a adubação e a semeadura da lavoura, práticas que podem ser realizadas em conjunto. 

Etapa 4: 

Segue sendo realizado o manejo de tratamento da cultura. 

Plantio Direto 

O sistema de plantio direto em comparação ao plantio convencional (preparo intensivo do solo) tem impactos inferiores.

Percebemos isso especialmente quando observamos as condições físicas e de fertilidade do solo, além do aumento das condições biológicas.

As etapas realizadas para a implantação do sistema são:

Etapa 1: 

Eliminação das camadas compactadas do solo. 

Etapa 2: 

Depois da eliminação das camadas compactadas, o objetivo é deixar a área homogênea, nivelando-a com sulcos ou valetas.

Etapa 3: 

Nessa etapa é importante realizar o manejo de adubação e correção das necessidades do solo. Caso necessário, é feita a calagem com calcário incorporado em profundidade.

Etapa 4: 

Realiza-se o controle do crescimento das plantas daninhas.

Etapa 5: 

Deve ser espalhada a palha de resto de culturas. Pode-se usar um picador de palhas.

Etapa 6: 

Deve ser feito o manejo com herbicidas para garantir o controle das plantas daninhas;

Etapa 7: 

É realizado o plantio com semeadoras que abrem o sulco e depositam as sementes. 

Impactos do SPD

O solo é o principal regulador do ciclo do carbono e o maior objetivo é buscar manejos que o tornem dreno de carbono da atmosfera e não fonte.

Você sabia que 40% de C a mais pode ser sequestrado sobre SPD do que aqueles sob cultivo convencional? Veja o estudo comparativo:

Estimativa da taxa de adição ou perda anual de C dos diferentes sistemas de manejo no Cerrado:

Estimativa da taxa de adição ou perda anual de C dos diferentes sistemas de manejo no Cerrado

(Fonte: Corraza et al.)

O sistema também contribui muito na maior mineralização do nitrogênio em solo com cultivo convencional do que com sistema de plantio direto.

Além de contribuir no aumento nos exsudatos liberados pelas raízes e da diversidade de estirpes de FBN, tem impacto positivo na diversidade de espécies de fungos micorrízicos arbusculares nativos em solo de cerrado.

Planta sem simbiose micorrízica (esquerda), planta com simbiose com fungos micorrízicos (direita) com aumento do volume do solo explorado

Planta sem simbiose micorrízica (esquerda), planta com simbiose com fungos micorrízicos (direita) com aumento do volume do solo explorado
(Fonte: Miyauchi em Elke Cardoso e Marco Nogueira)

Para ver mais detalhes sobre isso você também pode ler:  “Porque o plantio direto contribui para a fertilidade do solo?”.

Agricultura de precisão e Sistema de Plantio Direto

O desafio de manejar as variações das lavouras e a possibilidade de manejá-la visando aumentar a eficiência no uso de insumos é possível com a agricultura de precisão (AP).

A partir de amostragem de solo georreferenciada pode ser gerado o mapeamento da fertilidade e, com isso, é possível a utilização da taxa variável de corretivos e fertilizantes.

Mas é importante lembrar que nem todos os problemas da lavoura estarão resolvidos desta forma. É necessário encarar que os manejos devem ser sustentáveis para valerem a pena, com integração de todos os conceitos do plantio direto.

Ou seja: é preciso mobilizar pouco o solo, manter palhada em boa quantidade e bem distribuída, além de realizar a rotação de culturas.

Aí sim, com informações da diferenças dos atributos de solo e vegetação, você conseguirá otimizar os fertilizantes e outros insumos.

Além disso, recomendo o manual da Embrapa sobre Manejo e conservação do solo e da água em sistema de plantio direto no Cerrado.

Conclusão

O sistema de plantio direto é um caminho sem volta na agricultura, assim como os manejos mais sustentáveis tanto para o ambiente quanto para o negócio.

E esse investimento em estruturação de solo a partir de palhada ativa biologicamente o solo, que é a melhor opção para sua fertilidade.

Mas não para por aí! Você tem de fazer um bom planejamento de rotação de culturas, regular bem a máquina para a distribuição da palhada na hora da colheita e outros detalhes de gestão agrícola.

Tudo isso vai permitir que você, de fato, obtenha melhoras nas condições físicas, químicas e biológicas do solo e, consequentemente, da produtividade.

>> Leia mais:

Plantio direto na palha: As melhores dicas para torná-lo efetivo em sua propriedade

4 cuidados que você precisa ter no plantio direto de milho

Como você faz o plantio direto hoje? Tem mais dicas sobre o tema? Deixe seu comentário!