Grãos ardidos: saiba como fazer a identificação correta e quais cuidados tomar a campo, secagem e armazenagem da sua produção!
Os grãos ardidos são um dos principais defeitos na classificação de grãos de milho e soja.
Eles estão relacionados à contaminação por micotoxinas, o que pode inviabilizar a sua utilização, gerar perda de valor comercial e causar prejuízos na lavoura
Você sabe identificar os grãos ardidos e como diferenciá-los dos demais defeitos?
Sabe quais manejos adotar para evitar a incidência deste problema na sua produção? Eu conto para você!
Índice do Conteúdo
Classificação de grãos de milho e soja
A classificação de milho e soja tem o objetivo de caracterizar o lote de grãos para a comercialização.
A classificação do milho é normatizada pela Instrução Normativa 60/2011. Já as regras para a classificação da soja são dadas pela Instrução Normativa 11/2007.
Dentre os defeitos analisados estão os grãos ardidos, um dos principais problemas porque, além de reduzirem a qualidade do lote, podem estar contaminados com micotoxinas.
O que são grãos ardidos e como identificá-los
Na legislação, o enquadramento dos grãos ardidos de milho e soja é diferente. Portanto, o manejo visando a redução deste defeito também pode ser um pouco diferente. Vejamos:
No caso do milho, são considerados grãos ardidos aqueles “que apresentam escurecimento total, por ação do calor, umidade ou fermentação avançada atingindo a totalidade da massa do grão, sendo também considerados como ardidos, devido à semelhança de aspecto, os grãos totalmente queimados” (IN n.º 60/2011).
No caso da soja, são considerados ardidos aqueles “grãos ou pedaços de grãos que se apresentam visivelmente fermentados em sua totalidade e com coloração marrom escura acentuada, afetando o cotilédone” (IN n.º 11/2007).
Desta forma, para milho, enquadram-se defeitos que podem ocorrer no campo, na secagem e no armazenamento.
Já para soja, por tratar somente como fermentados, separando os grãos danificados por calor em “queimados”, os cuidados devem ser tomados, principalmente, no campo e no armazenamento.
Outro aspecto importante a ser destacado é que, para o milho, os grãos somente serão considerados ardidos se a sua totalidade estiver fermentada. Caso contrário, serão classificados fermentados.

Diferenças entre grãos de milho ardidos (esquerda) e fermentados (direita)
(Fonte: adaptado de Aiba)
Para a soja, essa diferenciação está relacionada à coloração. Os grãos que sofreram fermentação com alteração da cor dos cotilédones, desde que não seja a definida para ardidos (marrom escuro acentuado), serão considerados fermentados.

(Fonte: Referencial fotográfico dos defeitos da soja)
Estratégias de manejo para evitar os grãos ardidos em milho e soja
Os principais momentos para o manejo de grãos ardidos em milho e soja são no campo, na secagem (no caso do milho) e no armazenamento.
Portanto, vamos ver quais cuidados devem ser tomados em cada uma destas etapas, visando a reduzir a incidência de grãos ardidos na sua produção.
1. Manejo a campo
O manejo a campo deve ser realizado para reduzir a incidência de patógenos que ocasionam doenças nos grãos, principalmente para o milho.
Além disso, deve ser dada atenção à colheita, pois ela deve ser planejada adequadamente.
Controle de doenças
O controle de doenças que causam grãos ardidos é importante para o milho devido às podridões de espiga, suas principais causadoras na cultura. Estes cuidados também podem ser tomados em relação à soja.
Os principais agentes causadores de grãos ardidos em milho pertencem às espécies Stenocarpela maydis, Stenocarpela macrospora, Fusarium verticillioides, Fusarium subglutinans e Gibberella zeae (Fusarium graminearum).

Podridão rosada da ponta da espiga (Gibberella zeae), podridão branca da espiga (Stenocarpella maydis) e podridão rosada da espiga (Fusarium verticilleoides)
(Fonte: adaptado de Embrapa e Pioneer)
O manejo destes patógenos a campo deve ser realizado através de várias estratégias diferentes:
- escolher híbridos e cultivares resistentes;
- realizar a rotação de culturas;
- semear na época e na densidade recomendada;
- realizar a análise do solo, visando equilíbrio da adubação;
- realizar a aplicação de fungicidas, tomando cuidado com a escolha do produto e com o momento e a qualidade da aplicação.
Os cuidados com a sanidade da planta devem ser tomados desde a semeadura, partindo do tratamento adequado de sementes.
No entanto, o momento mais crítico para a infecção destes patógenos é durante a fase reprodutiva, em que há a formação do pendão e dos estigmas. Aplicações de fungicidas são recomendadas nesta fase.
Gerenciamento da colheita
O planejamento adequado da colheita pode fazer a diferença na redução de grãos ardidos, principalmente em relação ao momento da sua realização.
O retardo na colheita poderá impactar no percentual de grãos ardidos na sua produção, principalmente se neste período ocorrerem chuvas.
A manutenção dos grãos úmidos no campo por muito tempo acelera a perda de qualidade, aumenta o ataque dos patógenos e o percentual de ardidos.
Recomenda-se a retirada dos grãos da lavoura o quanto antes, os encaminhando diretamente para a secagem.
2. Manejo na secagem
O manejo da secagem deve ser observado principalmente para o milho, já que para essa cultura os grãos danificados pelo calor estão inclusos como ardidos na legislação.
O principal fator a ser manejado deve ser a temperatura do ar de secagem.
Temperaturas elevadas podem ocasionar o escurecimento e a queima dos grãos, o que aumenta o percentual de ardidos. Além disso, ocasionam vários danos aos grãos, principalmente físicos, como trincas e fissuras que podem ser porta de entrada para fungos no armazenamento.
A temperatura adequada para a secagem do milho depende da sua finalidade. Para a semente, recomenda-se que a temperatura da massa de grãos não ultrapasse 40°C.
Já para consumo humano, não deve ultrapassar 55°C. Para ração, a temperatura deve ser no máximo 82°C.
E para secagem com ar natural em silo-secador, os cuidados devem ser quanto à demora no processo. Quanto mais tempo os grãos permanecerem úmidos, maior a probabilidade de sofrerem fermentação. Essa recomendação serve também para soja.
A secagem com ar natural só deve ser realizada em grãos com teor de água inicial de no máximo 20% e em locais que possibilitem condições de umidade relativa adequadas para este tipo de secagem.
3. Manejo no armazenamento
Os grãos devem ser armazenados limpos, frios e secos, visando a redução da degradação e a proliferação de fungos.
Os principais fatores a serem observados são a temperatura e o teor de água da massa de grãos.
O teor de água indicado para o armazenamento de milho é no máximo 14%. Para ter mais segurança, opte por secar mais, até no máximo 13%.
Para a soja, devido ao maior percentual de óleo, recomenda-se teores de água mais baixos no armazenamento, em torno de 11% a 12%.
A temperatura de armazenamento recomendada deve ser a mais baixa possível: em torno de 15°C. Para isso, o silo deve estar equipado com sistema de aeração.
Estes manejos visam a reduzir a proliferação de fungos, principalmente os mofos e bolores (Penicillium spp. e Aspergillus spp.). Eles são os principais responsáveis pelo aparecimento de grãos ardidos no armazenamento e, também, os principais produtores de micotoxinas em grãos.
Conclusão
Como vimos, os grãos ardidos são um dos principais problemas na classificação de soja e milho.
O manejo para evitar ou reduzir o percentual deles nestas culturas deve ser realizado a campo, na secagem e no armazenamento.
No campo, os cuidados devem acontecer para evitar as doenças que atacam os grãos, principalmente para o milho. Além disso, a colheita deve ser planejada, visando a retirada dos grãos do campo o quanto antes possível.
Na secagem, o cuidado deve ser com a temperatura, que não pode ser elevada demais.
Já no armazenamento, os grãos devem ser conservados limpos, frios e secos para evitar a deterioração e a contaminação por fungos.
Espero que essas informações te ajudem a realizar o manejo adequado desses grãos e, assim, você consiga evitar futuros problemas.
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