Mulheres na agricultura: Conheça as principais personalidades que evoluíram o agronegócio brasileiro e quem o está fazendo hoje.
Hoje, 8 de Março, é o Dia Internacional da Mulher. A data simbólica lembra e reconhece a importância da mulher na sociedade.
Dentro de casa, da camionete, atrás da bancada do laboratório ou da mesa de um escritório: Todas as mulheres ajudam no crescimento da agricultura brasileira.
Mas quais foram aquelas que revolucionaram o agro? Quais estão revolucionando?
Para homenagear e celebrar essa data, separamos as principais mulheres que já fizeram, e ainda fazem, muito pela evolução da agricultura. Confira:
O protagonismo feminino também refletiu no Censo Agropecuário de 2017
(Fonte: IBGE)
Índice do Conteúdo
- 1 Mulheres na agricultura: Agradeça à Johanna Döbereiner por não ter que adubar sua soja com nitrogênio
- 2 Mulheres que assumem a fazenda: As irmãs Gangini
- 3 Mulheres fundamentais no manejo fitossanitário: Veridiana Victoria Rossetti
- 4 Mulheres na agricultura que lutam por outras mulheres: Ticiane Figueirêdo
- 5 Mulheres na agricultura essenciais para a biotecnologia: Leila Macedo
- 6 Mulheres nos negócios: Celi Webber Mattei
- 7 A nós e a todas as mulheres que vieram antes de nós
Mulheres na agricultura: Agradeça à Johanna Döbereiner por não ter que adubar sua soja com nitrogênio
Johanna Döbereiner nasceu em 1924 na Tchecoslováquia, estudando Agronomia na Universidade de Munique (Alemanha) e chegando ao Brasil em 1951.
Não foi ela que descobriu a fixação de nitrogênio na soja, mas é por causa dela que não adubamos essa cultura com fertilizantes minerais aqui no Brasil.
Isso porque, após 1964, o objetivo era transformar o Brasil em potência. Para isso, a ocupação do Centro-Oeste era necessária, com maior produção de alimentos e favorecimento da indústria.
A soja se encaixava perfeitamente nessa estratégia agroindustrial idealizada na “revolução verde”.
Com esse objetivo foi feita em 1963 a Comissão Nacional da Soja, em que Johanna integrou e foi peça fundamental.
Foi nela em que os pesquisadores decidiram como seria a pesquisa para aclimatar a soja às condições de solo e clima brasileiros. E foi onde começou um embate entre Johanna e os colegas.
Todos os pesquisadores da comissão possuíam formação norte-americana, não acreditavam que, na prática, a fixação biológica de nitrogênio (FBN) iria funcionar.
Sobre isso Johanna certa vez comentou:
“(…) eu reagi. Nas reuniões, tivemos uma discussão muito forte tentando convencê-los a fazer o melhoramento da soja sem adubo nitrogenado – que era muito caro para o Brasil – e com a aplicação de bactérias, o que conseguimos”.
Dessa maneira, devido à Johanna, a soja aclimatada ao Brasil foi selecionada e melhorada para produzir muito sem adubo nitrogenado, apenas com a simbiose entre bactérias e plantas.
Com isso, economizamos anualmente cerca de 1 bilhão de dólares. A economia fez com que a soja brasileira ficasse mais barata e competitiva no mercado internacional.
Além de visionária, Johanna era uma pesquisadora excepcional
A pesquisadora se tornou cidadã brasileira em 1956, completando sua pós-graduação na Universidade de Wisconsin, em 1963.
Dedicou toda sua carreira na compreensão da fixação biológica de nitrogênio nas plantas, sempre com o objetivo de contribuir para práticas mais sustentáveis na agricultura.
Johanna descobriu bactérias fixadoras de nitrogênio em plantas de grande importância econômica para o Brasil, como milho e a cana-de-açúcar.
Ela se tornou reconhecida mundialmente como autoridade no assunto, ganhando diversos prêmios por suas pesquisas, inclusive uma indicação ao Nobel de Química.
Johanna viveu do salário de pesquisadora da Embrapa e na mesma casa durante 48 anos, até o ano de sua morte, em 2000.
Mulheres que assumem a fazenda: As irmãs Gangini
Cristiane e a irmã Mara trabalham na fazenda de 300 hectares em Minas Gerais, a qual assumiram há 9 anos, após o falecimento do pai.
As sucessoras são 3 irmãs. A mais nova é fisioterapeuta e, mesmo que não diretamente, ainda assim está envolvida no processo de produção.
Cristiane fica mais com a parte administrativa, enquanto que a Mara fica com a parte operacional.
As duas são formadas em administração, sendo que Mara também é formada em direito. Não há agrônomo(a) na fazenda, mas sim consultores. Quem controla mesmo cada detalhe do processo produtivo são elas.

Cristiane relata que o pai não tinha a visão de que elas fossem para a fazenda, especialmente pela experiência mais trabalhosa do campo.
No entanto, após seu falecimento, elas decidiram assumir o comando da fazenda. A maior das transformações foi na gestão agrícola.
A necessidade de uma gestão financeira e operacional mais detalhada e com maior controle foi se mostrando ao decorrer dos anos.
Com o software agrícola Aegro tal gestão foi facilitada e agilizada. Soma-se a isso o conhecimento e a experiência das irmãs, e temos uma gestão exemplar na fazenda de Minas Gerais.
Mas nem tudo são flores. Cristiane relata algum preconceito por parte dos funcionários , mas com jeito e muito trabalho isso mudou:
“Antes nós éramos conhecidas por filhas do Zé. Hoje nós somos conhecidas pelas irmãs Gangini, ou seja, conseguimos conquistar o respeito do pessoal”.
Cristiane também pondera que as coisas estão mudando. Se antes as irmãs que gostariam de estudar agronomia não foram incentivadas a isso, hoje elas vêem que muitos dão apoio às mulheres da família para seguirem a profissão.
Nós agradecemos às irmãs pela confiança e pela entrevista, representando todas as mulheres que tiveram a coragem de assumir o comando da fazenda e o fazem tão bem.
Mulheres fundamentais no manejo fitossanitário: Veridiana Victoria Rossetti
Victória Rossetti (1917- 2010), como conhecida, foi pioneira desde sua formação, se tornando a primeira Engenheira Agrônoma do Estado de São Paulo, e a segunda de todo país.
Em 1937, concluiu o curso na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (ESALQ/USP), em Piracicaba (SP), e já em 1940, ingressou como estagiária no Instituto Biológico do Estado de São Paulo.

No instituto desenvolveu toda a sua carreira, estudando especificamente doenças da citricultura brasileira.
Ela foi fundamental para a construção de manejos eficientes no combate a leprose do citros, cancro cítrico, clorose variegada, e outros.
Dessa maneira, Victoria Rossetti se tornou uma das maiores pesquisadoras no mundo em doenças que atingem a citricultura.
Foi chefe da Seção de Fitopatologia Geral do Instituto, depois diretora da Divisão de Patologia Vegetal, se aposentando em 1987, mas continuou trabalhando até 2003.
Victoria também era Membro da Academia Brasileira de Ciências e foi condecorada com a Grã-Cruz da Ordem Nacional do Mérito Científico em 2004.
Um dos aspectos mais interessantes da pesquisadora foi que ela conseguiu levar os conhecimentos da pesquisa científica para os produtores rurais e assistência técnica, colocando esses estudos na prática do campo.
Mulheres na agricultura que lutam por outras mulheres: Ticiane Figueirêdo
Embora seja advogada (Universidade São Francisco, 2012), Ticiane Figueirêdo é especialista em agronegócio e tem papel fundamental acerca das mulheres na agricultura de hoje.
Ela é a idealizadora e organizadora do “Núcleo São Paulo das Mulheres do Agronegócio”, se tornando uma liderança feminina do setor.
O evento sempre traz palestras e temas interessantes do agronegócio, levando conhecimento e favorecendo a troca de experiências entre as mulheres.
O objetivo sempre é o de fortalecer a relevância da mulher no agronegócio.
Além disso, Ticiane é membro efetivo da Comissão Especial de Agronegócios e de Relações Agrárias da OAB/SP ( desde 2016).
A advogada também gerencia brilhantemente equipes de advogadas e estagiárias que atendem empresas nacionais e multinacionais do Agronegócio, nos mais diversos segmentos e ramos de atuação.
Mulheres na agricultura essenciais para a biotecnologia: Leila Macedo
Leila Macedo possui Ph.D. em Microbiologia e Imunologia, sendo uma das maiores responsáveis pelo avanço biotecnológico no Brasil recentemente.
A cientista foi fundamental na elaboração da Lei de Biossegurança, sendo a primeira mulher a presidir a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), entre 1999 e 2001.
“Em um ambiente predominantemente masculino, usei o rigor científico para trazer o foco em segurança, performance e entrega de resultados”.
Leila estabeleceu normas que norteiam os profissionais da área de biotecnologia, influenciando políticas públicas e impactando positivamente a agricultura brasileira.
Por essas contribuições, recebeu o prêmio o Prêmio Norman Borlaug Sustentabilidade em 2018 no Congresso Brasileiro do Agronegócio.
Mulheres nos negócios: Celi Webber Mattei
A Sementes Webber, localizada em Coxilha (Rio Grande do Sul) é um grande negócio. Produz e comercializa sementes para empresas parceiras como Pionner e Ambev.
A empresa rural também produz grãos em larga escala, com uma estrutura incrível de armazenamento.
E quem está a frente desse negócio é uma agrônoma: Celi Webber Mattei.

Celi Webber Mattei, uma das líderes da Sementes Webber
A empresária chefia uma equipe grande de funcionários, atuando diretamente na lavoura. É ela a responsável técnica dos produtos, enquanto que sua irmã fica na área administrativa e social.
Celi comenta sobre a dificuldade no relacionamento profissional com alguns homens, ressaltando que os mais velhos são os mais resistentes à liderança feminina.
Especialmente nesses casos, a agrônoma prefere falar com jeito e valorizar as pessoas, mostrando como ela pode ser melhor naquilo que faz:
“Não é preciso ser enérgica ou gritar para ser um bom gestor”.
Ela foi uma das primeiras mulheres a participar do sindicato rural da região, sendo que hoje faz parte da diretoria da entidade.
Como reconhecimento do seu trabalho, Celi recebeu no último ano o 1º Prêmio Mulheres do Agro durante o 3º Congresso Nacional das Mulheres do Agronegócio, na categoria de grande propriedade.
A produtora rural e empresária acredita que o conhecimento fez a presença feminina ganhar espaço:
“Ser mulher é uma luta constante. E sempre será”.
A nós e a todas as mulheres que vieram antes de nós
Fica aqui meu reconhecimento e gratidão àquelas que vieram antes de nós. Que enfrentam batalhas em épocas mais difíceis que a nossa.
A todas aquelas que acordaram, e aquelas que ainda acordam, de madrugada para preparar a marmita do marido e dos filhos.
Àquelas que cuidaram e cuidam da casa e das finanças da propriedade enquanto todos estão na lida do campo.
Às mulheres que desbravaram outros estados de fronteira agrícola, como foi no Centro-Oeste e como ocorre agora no Norte e Nordeste.
Agradeço a coragem de todas as mulheres por mudarem de vida para seguirem o agro, e consequentemente, por revolucionarem a agricultura brasileira.
Só foi mais recentemente que a mulher “assumiu” o protagonismo na agricultura, mas sem todas essas mulheres ante de nós (e muitas ainda nesse papel honrado, porém não muito visto), não seríamos nada.
Hoje somos donas de casa, empresárias, mães, pesquisadoras, chefes… Hoje assumimos diversos papéis. Afinal, lugar de mulher é onde ela quiser.
Ressalto a importância de nós, profissionais do agro, no dia a dia do campo, na bancada do laboratório, de dentro da camionete ou atrás da mesa de um escritório, revolucionando todos os dias a agricultura brasileira.
>> Leia mais: “
Quem trabalha no campo, trabalha para todos: Celebre o Dia do Agricultor“
“Dia do engenheiro agrônomo: Desafios da profissão e motivos para comemorar“