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Resistência de plantas daninhas a herbicidas: o que é, quais os principais mecanismo e como evitar esse problema em sua lavoura. 

Atualmente, o Brasil apresenta 28 espécies de plantas daninhas com resistência simples ou múltipla a vários herbicidas.

E, novos casos surgem todos os anos, enquanto pouquíssimos herbicidas novos entram no mercado.   

Por isso, é essencial saber identificar e manejar plantas daninhas resistentes em sua lavoura, pois sua presença pode diminuir a produtividade da cultura e aumentar o custo de manejo em mais de 200%.

Pensando nisso, separei algumas informações sobre resistência de plantas daninhas. Confira!

O que é resistência de plantas daninhas? 

A resistência de plantas daninhas a herbicidas pode ser definida como habilidade hereditária de uma planta sobreviver e se reproduzir após a exposição a uma dose de herbicida normalmente letal para o biótipo selvagem da planta.

Isso ocorre devido a mutações que aumentam a variabilidade genética das plantas daninhas, tratando-se de um processo natural para assegurar a sobrevivência da espécie. 

Na prática, podemos pensar que, de maneira natural, surgiu em sua lavoura uma planta daninha com uma mutação, tornando-se resistente a um herbicida.

Assim, conforme esse herbicida é utilizado em sua lavoura, as plantas suscetíveis morrem e as resistentes sobrevivem e geram descendentes. 

Com o passar dos anos utilizando esse mesmo manejo, baseado em apenas um determinado herbicida, o produto perderá a eficiência. 

Esse fenômeno foi facilmente observado com o uso intensivo do glifosato em sistema RR, em que plantas como a buva desenvolveram resistência e se espalharam pelo Brasil inteiro pela falta de manejos alternativos. 

Agora vamos entender melhor como funcionam essas mutações e porque possibilitam que uma planta daninha sobreviva ao herbicida. 

O que é mecanismo de resistência de plantas daninhas a herbicidas?

Antes de falarmos sobre como as plantas sobrevivem a um herbicida, precisamos entender primeiro por que um herbicida mata uma planta.

Cada herbicida possui um modo de ação que determina como ele vai atuar na planta e quais injúrias irá causar. 

O mecanismo de ação do herbicida é o primeiro passo bioquímico ou biofísico no interior celular a ser inibido pela atividade herbicida.

Somente esse processo pode ser suficiente para matar plantas daninhas suscetíveis. Entretanto, geralmente são necessárias diversas outras reações ou processos para matar uma planta, cujo somatório é denominado modo de ação

Os mecanismos de ação geralmente estão associados à inibição de uma rota metabólica vital para as plantas ou à produção de espécies reativas tóxicas que degradam as células da planta. 

Por isso, para entendermos o mecanismo que torna uma planta daninha resistente a um herbicida é importante conhecer o modo de ação daquele herbicida. Assim, podemos compreender quais alterações poderiam impedir que o herbicida atue na planta.  

Essas alterações fisiológicas e/ou morfológicas que impedem que o herbicida controle uma planta daninha naturalmente suscetível são denominadas mecanismo de resistência de plantas daninhas a herbicidas. Eles podem ser classificados em dois grupos:

Mecanismos de resistência no sítio de ação ou específicos 

São mecanismos que estão ligados diretamente com o local de ação do herbicida, por exemplo, uma alteração na enzima que impede sua inibição.  

Mecanismos de resistência fora do sítio de ação ou não específicos

São mecanismos que não estão ligados diretamente ao sítio de ação, mas interferem no modo de ação do herbicida, impedindo sua atividade no local alvo, por exemplo, metabolização do herbicida.  

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Principais mecanismos de resistência de plantas daninhas a herbicidas

Atualmente existem pelo menos seis mecanismos que conferem a plantas daninhas resistência a herbicidas. 

Contudo, é importante entender que, em uma mesma planta, podem ocorrer mais de um destes mecanismos, proporcionando resistência a herbicidas de um ou mais modos de ação.   

Mecanismos de resistência no sítio de ação

Alteração no sítio de ação do herbicida

Esse mecanismo altera a conformação ou forma do sítio de ação (geralmente uma enzima ou proteína) de modo que a molécula herbicida fica incapaz de se ligar apropriadamente ao local onde atua como agente inibidor. 

Desta forma, a rota metabólica segue seu curso natural e a planta não é mais afetada pelo herbicida. 

Este tem sido o mecanismo de resistência que ocorre com maior frequência nas populações resistentes de plantas daninhas. 

Amplificação gênica

Esse mecanismo ocorre devido a uma alteração genética que aumenta significativamente o número de cópias da sequência de DNA que codifica a expressão gênica de síntese da enzima relacionada à ação do herbicida. 

Assim, as plantas daninhas com esse mecanismo sintetizam inúmeras cópias da enzima alvo do herbicida, o que torna a dose utilizada ineficiente para inibir todas as cópias.

Devido à quantidade muito maior de cópias, geralmente, o aumento de dose do produto fica inviável do ponto de vista econômico e ambiental, inviabilizando o herbicida. 

Metabolização ou desintoxicação do herbicida

Esse mecanismo ocorre devido ao metabolismo da molécula herbicida a compostos não tóxicos. As principais enzimas envolvidas neste mecanismo são as mono-oxigenases do citocromo P450 e a glutationa.  

Absorção foliar e translocação diferencial do herbicida

Esse mecanismo promove menor absorção e translocação do herbicida na planta, retendo o máximo possível do produto nas folhas tratadas. 

Esse processo se dá muitas vezes por alterações morfológicas na superfície foliar (espessamento de cutícula, maior acúmulo de cera, maior número de tricomas e menor número de estômatos), que prejudicam a absorção do herbicida. 

Devido a essas barreiras desenvolvidas pela planta, a quantidade de herbicida que chega no sítio de ação não é suficiente para ocasionar sua morte. 

Translocação diferencial de herbicida de biótipos de azevém resistente (R) e suscetível (S) a glifosato - resistência de plantas daninhas a herbicidas

Translocação diferencial de herbicida de biótipos de azevém resistente (R) e suscetível (S) a glifosato
(Fonte: Fernández-Moreno et al, 2017)

Sequestro ou compartimentalização do herbicida

A base deste mecanismo é aprisionar as moléculas de herbicida em locais onde não tenham contato com o sítio de ação. Assim, as plantas sequestram o herbicida e acumulam em organelas onde não têm atividade, geralmente os vacúolos.  

Rápida necrose 

Esse mecanismo de resistência foi registrado recentemente no Brasil para um biótipo de buva. Como estratégia de defesa, a planta necrosa os tecidos que tiveram contato com o herbicida rapidamente, impedindo que o mesmo transloque pela planta. 

Devido à grande capacidade de rebrota da buva, poucas semanas após tratamentos, as plantas recuperaram os tecidos necrosados pelos herbicidas. 

Como identificar a ocorrência de plantas resistentes em sua lavoura

Sempre que houver a suspeita de um novo caso de resistência em uma lavoura, é importante descartar totalmente a possibilidade de falhas no controle. 

Por isso, ao identificar um possível caso de resistência de um planta daninha, é preciso se fazer as seguintes perguntas: 

  • Os herbicidas e doses recomendados tem um bom histórico de controle daquela planta daninha? 
  • O produto foi aplicado no estádio ideal de controle?
  • A tecnologia de aplicação utilizada proporcionou uma boa cobertura do alvo? 
  • A calda de aplicação não teve problemas com incompatibilidade de produtos, dureza da água ou pH?
  • As falhas de controle ocorreram apenas para uma espécie de planta daninha?
  • Em anos anteriores, já vinha notando escape de algumas plantas da espécie ou escutava reclamações de controle em áreas vizinhas? 

Caso a resposta para todas essas perguntas seja afirmativa, é interessante que você contate uma instituição de pesquisa próxima de sua região para obter mais informações sobre possíveis casos de resistência. 

Confirmado o caso de resistência, esse contato rápido acelera os estudos de combate à resistência e facilita a contenção e manejo deste novo problema.  

9 dicas para evitar novos casos de resistência 

Para garantir que não haja seleção de resistência para novos herbicidas ou disseminação de populações resistentes para novas áreas, é muito importante que o você siga estas dicas:    

  1. Conheça o histórico de resistência da área e região;  
  2. Realize rotação de mecanismo de ação de herbicidas;
  3. Inclua herbicidas pré-emergentes no manejo;
  4. Siga os princípios básicos da tecnologia de aplicação;
  5. Realize aplicações em pós-emergência sobre plantas pequenas;
  6. Realize corretamente aplicações sequenciais;
  7. Priorize controle na entressafra;
  8. Realize rotação de culturas e adubação verde;
  9. Realize limpeza correta de máquinas ou implementos antes de utilizá-los em novas áreas.

Conclusão

Neste artigo vimos o que é a resistência de plantas daninhas a herbicidas e conceitos importantes desta área.

Também vimos os principais mecanismos que ocasionam resistência e entendemos quais as principais perguntas para saber se há um novo caso de resistência na lavoura. 

Além disso, acompanhamos as principais dicas para manejar plantas daninhas resistentes e evitar o surgimento de novos casos. 

>> Leia mais:

“Como funciona o novo herbicida Luximo para controle de plantas daninhas resistentes”

“Como reduzir os custos da gestão de herbicidas e tornar o manejo mais eficiente”

Você enfrenta ou enfrentou casos de resistência de plantas daninhas a herbicidas em sua lavoura? Quais as mais problemáticas? Adoraria ver seu comentário abaixo!