Trapoeraba: Saiba qual é a época certa para controle, quais herbicidas utilizar e as principais dicas para evitar prejuízos na lavoura.

Quem nunca teve dificuldades no manejo da trapoeraba?

Não é para menos, essa planta daninha tem sementes aéreas, sementes subterrâneas, se propaga por pedaços dos seus ramos e tem tolerância a alguns herbicidas.

Nem mesmo a boa e velha enxada é eficiente em resolver o problema!  

Como fazer, então, um bom manejo da trapoeraba? Qual o período ideal e os herbicidas mais indicados? Confira a seguir!  



Identificação das principais espécies de trapoeraba no Brasil

No Brasil as espécies mais comuns de trapoeraba são:

Commelina benghalensis

Está é a espécie mais frequente no Brasil, infestando lavouras anuais, perenes e hortas.

Prefere solo fértil, úmidos e sombreados.

Pode ser diferenciada das outras espécies pela pela presença de 3 pétalas nas flores, onde uma tem tamanho reduzido. E suas folhas são geralmente mais largas que as das demais espécies.

trapoeraba
Planta adulta de Commelina benghalensis; trapoeraba é uma planta anual que prefere solos argilosos
(Fonte: Popovkin, 2013)

Commelina diffusa

Espécie frequente em quase todo o país, infesta principalmente cultivos perenes.

Prefere solo fértil, com boa umidade e semi-sombreados. Folhas com lâminas que lembram uma gramínea. Rizomas ausentes.

trapoeraba
Planta adulta de Commelina diffusa
(Fonte: Meyer, 2012 – Flora Digital UFRGS)

Commelina erecta

Espécie menos frequente em nosso país, infesta cultivos perenes.

Prefere solo fértil, com boa umidade. É bastante suscetível a geadas e ao cultivo mecânico do solo.

Possui rizomas sem frutificação, flores com duas pétalas grandes azuis e uma pétala residual.

Possui como diferencial um florescimento vistoso, sendo por muitas vezes cultivada como planta ornamental.

trapoeraba
Planta adulta de Commelina erecta
(Fonte: Evangelista, 2017)

Interferência de trapoeraba em culturas

A infestação de trapoeraba em uma lavoura de milho pode interferir na sua fisiologia, diminuindo a fotossíntese e transpiração do cultivo.

Para a cultura da soja, pesquisas demonstram que a trapoeraba possui habilidade competitiva semelhante ao cultivo. A densidade de infestação é fator determinante na redução da produtividade.

Como exemplo disso, pesquisas demonstram que 58 plantas por m² reduzem a produtividade da soja em 15%, enquanto 230 plantas m² reduzem 49%.

Além da interferência direta, a trapoeraba dificulta a colheita mecânica e pode aumentar o teor de água nos grãos ou sementes colhidas.  

Mais que problemas de interferência direta, esta planta daninha pode ser hospedeira de pragas e doenças.

A trapoeraba pode ser hospedeira do percevejo marrom e nematoide das galhas.

Trapoeraba: principais pontos sobre essa daninha

É muito importante destacar que não foram registrados casos de resistência a herbicidas para as espécies de trapoeraba no Brasil!

Mundialmente, registrou-se apenas um caso nos Estados Unidos para a espécie Commelina diffusa resistente a 2,4 D.  

Deste modo, é muito importante entender a biologia desta planta daninha para realizar um manejo eficiente e não selecionar plantas resistentes.

Estima-se que uma planta da trapoeraba pode produzir 1.600 sementes!

trapoeraba
Sementes da espécie Commelina benghalensis
(Fonte: Scher, 2019)

O grande diferencial desta planta daninha é a capacidade de produzir 4 tipos de sementes, aéreas (2)  e subterrâneas (2), além da grande capacidade de pedaços de ramos formarem uma nova planta.

trapoeraba
Formação de sementes aéreas da espécie Commelina benghalensis
(Fonte: Pellegrini e Forzza)

trapoeraba
Formação de sementes subterrâneas da espécie Commelina benghalensis
(Fonte: Matos de Comer)

Como os ramos cortados em situação de boa umidade são extremamente eficientes em formar novas plantas, os métodos de capina tradicionais somente espalhariam estas plantas em uma área maior.

Entenda as particularidades que dificultam o manejo de trapoeraba

Sementes grandes e pequenas produzidas na parte aérea, auxiliam na dispersão da espécie para novas áreas.

Sementes grandes e pequenas produzidas na parte subterrânea, ou seja nos rizomas, auxiliam na perpetuação da espécie na área infestada.

Existe diferença no enterrio sobre a capacidade de emergência destas sementes. Enquanto sementes de parte aérea emergem de até 2 cm, as subterrâneas emergem de até 12 cm.

Assim, o cultivo do solo para impedir a emergência de sementes não é tão eficiente!

Além disso, a  germinação desta espécie é favorecida por temperaturas dentro da faixa de 18°C a 36°C. A luz favorece a germinação, porém não é essencial.

Outra questão importante é que as sementes de trapoeraba possuem dormência. Ou seja, mesmo com condições ideais, a germinação não ocorre devido a um impedimento natural.

E o que isso influencia no manejo?

Plantas daninhas com dormência apresentam vários fluxos de emergência, muitas vezes fora do período de aplicação de herbicidas, o que dificulta seu manejo.

Além disso, esta planta daninha possui características morfológicas que dificultam seu manejo quando estão em estágio de desenvolvimento avançado.

Quando adulta, suas folhas possuem maior acúmulo de tricomas (pelos) e ceras o que dificulta a absorção e transporte do herbicida na planta.

trapoeraba
Estruturas presentes na superfície foliar da espécie Commelina benghalensis
(Fonte: Monquero, 2005)

Por isso é importante que o controle seja feito com plantas pequenas de 2 a 4 folhas.

A seguir, mostrarei como fazer o manejo correto desta planta daninha na soja e no milho.

Manejo de trapoeraba na entressafra do sistema soja-milho

Herbicidas pós-emergentes

O principal ponto para manejo eficiente de trapoeraba em pós-emergência é a aplicação em plantas pequenas (até 4 folhas). Elas absorvem maior quantidade de herbicidas.

Outro ponto muito importante é a tecnologia de aplicação utilizada. Como são plantas que podem ter menor capacidade de absorção, é importante seguir os princípios básicos para uma aplicação eficiente.

Para controle de trapoeraba, você deve priorizar uma boa cobertura do alvo e evitar baixo volume de calda, não sendo recomendado menos que 100 L ha-1.

Glifosato

Quando em estádios iniciais (até 4 folhas),pode ser eficiente no controle desta planta daninha. Recomenda-se duas aplicações sequenciais: 1ª 2,0 L ha-1 e 2ª 1,5 L ha-1.

Carfentrazone

Oferece ótimo controle em pós-emergência desta planta daninha, principalmente em estádios iniciais (até 4 folhas), geralmente associado a outros herbicidas sistêmicos (ex: glifosato).

Recomendações de dose de 59 a 75 mL ha-1.

2,4 D

Quando em estádios iniciais (até 4 folhas), pode ser eficiente no controle desta planta daninha. Recomendações de dose de 1,0 a 1,5 L ha-1.

Chlorimuron

Utilizado na primeira aplicação do manejo sequencial sobre plantas pequenas (até 4 folhas). É geralmente associado a outros herbicidas sistêmicos (ex: glifosato) e fornece efeito residual, na dose de 60 a 80 g ha-1.

>>Leia mais: “Planta tiguera: Quais os manejos mais eficientes para sua lavoura

Herbicidas pré-emergentes

Flumioxazin

Herbicida com ação residual para controle de banco de sementes.

Utilizado na primeira aplicação do manejo outonal associado a herbicidas sistêmicos (ex: glifosato, 2,4 D) ou no sistema de aplique plante da soja. Recomendável dose de 50 g a 60 g ha-1.

Sulfentrazone

Herbicida com ação residual para controle de banco de sementes.

Utilizado na primeira aplicação do manejo outonal associado a herbicidas sistêmicos (ex: glyphosate e 2,4 D). Recomenda-se dose de até 0,5 L ha-1, pois apresenta grande variação na seletividade de cultivares de soja.

Manejo na pós-emergência das culturas de soja e milho

Soja

Na pós-emergência da soja, pode ser utilizado chlorimuron. Se a soja for RR, pode-se realizar aplicações sequenciais de glifosato.

Milho

Atrazina

Quando em estádios iniciais (até 4 folhas), pode ser eficiente no controle desta planta daninha.

Recomendações de dose de 4 a 5 L ha-1, dependendo das características do solo.

Nicosulfuron

Deve ser aplicado na pós-emergência do milho, quando as plantas estiverem com 2 a 6 folhas.

Cuidado com a diferença de suscetibilidade dos híbridos. Recomendações de dose de 1,25 a 1,5 L ha-1  + óleo mineral.

>>Leia mais: “Guanxuma: 5 maneiras de livrar sua lavoura dessa planta daninha

Conclusão

Neste artigo vimos a importância econômica que a trapoeraba possui em nosso país e como realizar um manejo eficiente em lavouras de grãos.

Entendemos a importância de conhecer a biologia da planta daninha antes de manejá-la.

Vimos que o estádio de aplicação e uso da correta tecnologia de aplicação são determinantes no controle desta daninha.

Espero que com as dicas passadas aqui você consiga realizar um manejo eficiente da trapoeraba!

>>Leia mais: “O guia do manejo eficiente da buva
>>Leia mais: “Como fazer o manejo eficiente do capim-amargoso

>> Leia mais: “Últimas notícias sobre ervas daninhas: Dicamba e Amaranthus palmeri

Você já teve problemas com infestação de trapoeraba em sua lavoura? Quais técnicas utilizar para manejá-la? Adoraria ver seu comentário abaixo!