Gestão logística: Entenda qual o peso do frete, se vale a pena armazenar a produção e como obter mais eficiência e lucratividade com uma logística melhor.
Na hora de transportar a mercadoria da fazenda, o que vale mais a pena: um caminhão maior, que exige mais tempo de carregamento, ou menor e com frete mais caro?
Compensa mesmo armazenar a produção e vender depois?
Frequentemente, uma série de decisões precisa ser tomada com relação à gestão logística. Mas como tomar a melhor possível?
Reunimos aqui importantes pontos sobre os desafios do transporte e gestão logística apresentados pelo coordenador técnico da Esalq-Log, Thiago Péra, durante a Semana da Pré-Safra.
O webinar completo você confere aqui. Os principais assuntos abordados na palestra você confere a seguir!
Índice do Conteúdo
Os desafios de logística enfrentados pelo agronegócio
Quando falamos em logística, logo lembramos do transporte de mercadorias – mas não é só isso.
A logística compreende uma série de atividades da fazenda como gestão de estoque, manuseio dos produtos agrícolas, armazenagem, e por aí vai…
Ela faz parte da estrutura de custos da sua empresa rural.
E, dentro dessa estrutura, há uma série de gargalos que podem prejudicar a competitividade, encarecendo a produção e impactando a lucratividade.
“O sistema de produção é totalmente dependente da logística. Nós temos aumentado nossa produtividade, utilizando novos pacotes tecnológicos, mas muito dessa competitividade acaba sendo perdida nas atividades logísticas devido, principalmente, à falta de estrutura de transporte adequado”, reforça Péra.
Ele ressalta que o impacto dos custos logísticos no agro é proporcionalmente maior que o de setores como a indústria devido ao baixo valor agregado dos produtos agrícolas.
Em alguns casos, o preço do item é inferior ao do frete.
Além disso, apesar da demanda constante pelos produtos agro, há uma janela específica de produção, evidenciando a importância da gestão do estoque.
“Nós temos um mercado altamente concorrencial, em que os preços muitas vezes são dados em dólares. E como podemos aumentar nossa lucratividade? Precisamos melhorar nossa gestão de custos, aumentar a produtividade e trabalhar com redução dos custos para aumentar nossa competitividade”, diz Péra.
Os impactos do frete na logística
A produção agrícola demanda infraestruturas diferentes de transporte e armazenagem da cadeia logística industrial, por exemplo.
E o preço do frete no agronegócio, quando falamos em grãos, como soja e milho, tem alta sazonalidade.
Durante a safra, eles tendem a ficar ainda mais caros devido à demanda aquecida, como você pode observar no gráfico abaixo:

Variação dos fretes de 2010 a 2017 nas culturas de soja e milho
(Fonte: Esalq-Log)
Observe que, em 2017, o impacto médio do frete para o milho, de Sorriso (MT) até o porto de Santos (SP), foi de quase 60%.
No caso da soja, o valor do frete no custo total foi de quase um quarto do preço final, considerando o transporte de Sorriso até Paranaguá (PR).
Thiago Péra enfatiza que temos no Brasil uma grande dependência do modal rodoviário hoje.
Cerca de 60% do escoamento de toda a produção é feita através de caminhões, devido à flexibilidade no transporte de “porta a porta”.
O modal, porém, é de baixa eficiência energética, o que acaba encarecendo muito os custos logísticos, principalmente em viagens longas. E isso é muito comum no Brasil.
“A distância média de transporte de grãos no país é de 1.300 quilômetros. O rendimento de combustível é de 2/km por litro em um caminhão. Ou seja, se consome muito e estamos em um momento de alta nos preços do óleo”, afirma.
Outro problema é a falta de qualidade das rodovias. Muitas estão esburacadas e outras tantas sofrem até com falta de pavimentação, afetando fortemente a competitividade.
“Países de dimensões continentais como China, Canadá, Estados Unidos e Rússia têm maior dependência de outros modais alternativos ao rodoviário. É necessário nos aproximarmos dessa situação”, diz.
Gestão logística: Custo de exportação da soja
O custo de produção da soja é bastante similar entre o Brasil e outros países produtores, segundo Péra. Os custos logísticos, no entanto, pesam muito contra a produção brasileira.
Como você pode ver no gráfico abaixo, o custo logístico de exportar soja brasileira para a China, em 2017, foi de US$ 92,12 por tonelada.
Deste total, mais de US$ 75 foram gastos com transporte interno até a chegada da mercadoria ao porto. O restante, US$ 16 em média, foram custos marítimos.
Para comparação, nos Estados Unidos, o custo total de exportação da soja para a China (no mesmo período), foi de menos de US$ 65 por tonelada. Os custos com transporte interno foram inferiores a US$ 38/t.
“Ou seja, perdemos muita competitividade no transporte rodoviário. É um ponto bastante significativo”.

(Fonte: USDA e Esalq-Log)
Gestão do transporte dentro de um plano logístico
Na hora de transportar a mercadoria da fazenda, o que vale mais a pena: escolher caminhões maiores e que exigem mais tempo de carregamento ou caminhões menores com frete mais caro proporcionalmente?
Compensa optar por um caminhão mais velho, que tem bom custo de oportunidade, mas risco de quebra maior?
E quanto ao modal? O transporte rodoviário é mais caro, mas é mais rápido e gera menos perdas…
Frequentemente, uma série de decisões precisa ser tomada com relação ao transporte de mercadorias de determinado produto da fazenda. E precisamos, então, ter uma série de ferramentas para isso.
Como, então, tomar a melhor decisão possível?
Alguns modelos matemáticos de otimização podem ser implementados para auxiliar essa tomada de decisão. Mas tudo começa na estruturação de custos.
O custo de transporte de uma rota depende de dois grandes fatores, informa Péra:
- custo fixo (deterioração, seguro, etc)
- custo variável (pneu, óleo, manutenção, etc)
Além disso, temos um parâmetro de produtividade que está relacionado às características daquela rota específica – rendimento do combustível, velocidade, distância e etc.
Veja no gráfico um exemplo de composição de custos do transporte rodoviário:

(Fonte: Esalq-Log)
O combustível representa por volta de 30% desses custos e, quanto maior a distância, maior o custo variável.
Para cada R$ 0,10 de redução por litro no óleo diesel, pode haver uma economia anual de até R$ 84 mil, considerando as condições estudadas, conforme o gráfico.

Análise de sensibilidade de produtividade: transporte de cana (Rodotrem, 48t), raio médio de 20 km para 1 milhão de toneladas
(Fonte: Esalq-Log)
“Há uma série de ações que podem ser empregadas para melhorar esses indicadores. É extremamente importante mensuramos uma série de indicadores-chave dentro do transporte, fazer o acompanhamento devido, para ter melhor gestão”.
E o que pode ser feito para reduzir custos?
No caso dos combustíveis, uma opção pode ser a compra direta, com economia de escala.
Para melhorar o rendimento, uma alternativa é aumentar o treinamento dos motoristas.
Quanto aos centros de carregamento, podem ser feitos investimentos em novas tecnologias para carregamento/descarregamento dos grãos.
Já na questão da velocidade, a melhoria nas condições de transporte, com reforma de estradas estratégicas (principalmente na saída da fazenda) são pontos de atenção.
Outra tendência no transporte rodoviário de carga é a busca de economia de escala. E isso tem muito a ver com aumentar a produção e ter redução do custo médio do transporte.
O gráfico abaixo mostra o custo do transporte, em reais por tonelada em km, em função da distância por diferentes tipos de equipamentos:

(Fonte: Esalq-Log)
Se selecionarmos para uma determinada faixa de distância (1.500 km, por exemplo), uma carreta de 27 toneladas tem custo muito maior que um bitrem 37t basculante ou graneleiro.
“Quanto maior capacidade de transporte, maior economia de escala, ou seja menor seu custo unitário de transporte. É algo bastante interessante e tem sido bastante empregado com utilização de caminhões cada vez maiores”, diz Péra.
No caso do transporte ferroviário, isso se aplica utilizando um maior número de vagões e/ou vagões de maior tamanho.
Por isso, cada caso é um caso. É importante que você tenha todas essas informações de sua logística na ponta do lápis e ir verificando quais são suas opções, com prós e contras de cada uma.
Armazenagem
A armazenagem tem função de compensar algum problema espacial ou temporal entre oferta e demanda.
Ela garante equilíbrio nos estoques ao longo do tempo e pode ser usada de forma estratégica na comercialização.
“Com armazenagem, você pode aproveitar oportunidades tanto no preço de comercialização quanto no frete em épocas fora do período da colheita. Você pode guardar o produto e negociar na hora em que bem entender: quando o preço está mais favorável, quando o frete está mais baixo, obtendo ganhos econômicos”, reforça o coordenador da Esalq-Log.
O gráfico abaixo mostra que, conforme há o avanço da colheita, há queda de preços. Além disso, o aumento de preços no frete durante a safra chega a ser de 50% a 60% maior se comparado à entressafra.

Mas a estrutura de armazenamento no Brasil tem sido deficitária em relação ao aumento da produção.
E esse desequilíbrio pode ser visto na formação de longas filas de caminhões próximos aos portos, um exemplo do “estoque sobre rodas” que ocorre no país.
Segundo Péra, enquanto a produção cresce 5,8% ao ano, em média, a capacidade de armazenamento aumenta menos de 4,5%.
Em 2007, a capacidade de estocagem no país era de 85% da produção. Em 2015, esse índice passou para 75%. Para comparação, nos Estados Unidos, essa capacidade é de 150% da produção.

Evolução da armazenagem x produção no Brasil
(Fonte: elaborado por Thiago Péra a partir de dados do IBGE, 2016)
“Temos um baixo nível de possibilidade de armazenagem e menos de 18% dessa capacidade está nas propriedades agrícolas, ou seja, cujos produtores são donos. Aumentar essa capacidade dentro da fazenda acaba aumentando poder de barganha do produtor, que vai decidir quando vender. Isso muda até o perfil da estrutura de comercialização desses produtos”, diz Péra.
Ele reforça que é muito importante buscar ferramentas econômicas para viabilizar esse tipo de investimento na propriedade rural.
Gestão de perdas na logística
Problemas na gestão logística resultaram na perda aproximada de 2,3 milhões de toneladas de grãos (soja e milho) no Brasil em 2015.
Esse volume representa 1,3% da produção nacional, somando perdas de R$ 2 bilhões.
“As perdas podem até ser pequenas em relação a produto, mas muito significativas em termos econômicos”, reforça Péra.
A maior parte das perdas está na armazenagem (45,5%) e descarregamento da carga (21,5%).

(Fonte: Thiago Péra)
O coordenador comenta que é muito comum perder horas no carregamento e descarregamento das cargas, o que impacta muito o custo da produção.
Mas como melhorar a eficiência operacional?
Possíveis caminhos são:
- Melhorar a organização para tomada de decisão;
- Ferramentas de previsão de frete (O Sifreca, da Esalq-Log permite acompanhar o frete em diversas regiões do país e é gratuito);
- Investimento em pessoas (treinamento, plano de carreira);
- Comunicação (integração entre diversos setores agrícolas);
- Acessar indicadores de desempenho e benchmarking;
- Soluções tecnológicas.
Buscar economias de escala e incrementar a qualidade do serviço de transporte também são pontos importantes levantados pelo coordenador.
Conclusão
O impacto dos custos logísticos na cadeia do agronegócio é maior do que em outros setores da economia e isso impacta a lucratividade do seu negócio rural.
Fazer a melhor gestão logística na sua propriedade, desde o planejamento até o escoamento da produção, permite ganhos de eficiência e mais rentabilidade.
O investimento em armazenagem, principalmente dentro da fazenda, pode viabilizar a venda da produção no melhor momento e entregá-la com melhor custo-benefício.
Investimento em pessoas, melhoria da comunicação, organização de dados e ferramentas do frete também contribuem neste sentido.
Como já comentamos, o levantamento de todas as informações e custos de cada opção devem ser analisadas para a melhor decisão para o seu negócio.
Com todas as informações reunidas aqui temos certeza que você terá sucesso na sua gestão logística!
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