Imagem de folhas de soja com aparente doença.

Como o Manejo Integrado de Doenças pode reduzir custos e aplicações no seu cultivo

- 13 de setembro de 2021

Manejo Integrado de Doenças: entenda o que é, quais práticas adotar e como ele pode te ajudar no manejo de resistência 

As culturas de interesse agrícola são alvo de grande variedade de doenças. 

O controle delas não deve ser encarado isoladamente. Afinal, pode haver perda de sensibilidade e até mesmo resistência de patógenos a moléculas químicas. 

Na ferrugem asiática da soja, por exemplo, já existem relatos de resistência aos fungicidas disponíveis no mercado. 

Fazer o manejo integrado é fundamental para evitar casos como esse.

Neste artigo, você lerá tudo sobre o Manejo Integrado de Doenças e sobre como ele pode ser seu aliado. Boa leitura! 

O que é o Manejo Integrado de Doenças

O Manejo Integrado de Doenças, ou MID, surgiu das bases do Manejo Integrado de Pragas

Ele é a combinação de diferentes estratégias de controle/redução dos danos causados por doenças.

O manejo usa todas as técnicas disponíveis para manter os organismos nocivos abaixo do LDE (Limiar de Dano Econômico). Ele minimiza seus efeitos no meio ambiente. 

O MID usa técnicas e medidas ecológicas e sustentáveis nos cultivos agrícolas. As estratégias incluem:

  • planejamento da lavoura;
  • época mais adequada, considerando o clima da região e as lavouras próximas;
  • histórico da área em relação à ocorrência de pragas e doenças;
  • rotação de culturas que podem reduzir as populações de patógenos;
  • escolha de materiais genéticos mais indicados para a região de cultivo, que apresentem resistência às principais doenças;
  • rotação de princípios ativos, evitando o uso seguido do mesmo produto. Vale utilizar combinações que tenham mecanismos de ação diferentes.
  • uso de sementes certificadas, de boa procedência e sadias;
  • eliminação de plantas voluntárias, como no caso da ferrugem asiática. As folhas poderão servir de inóculo para a próxima safra. Assim, a doença se manifesta já nos estádios iniciais de desenvolvimento da cultura;

Veja a seguir os cinco métodos associados ao Manejo Integrado de Doenças e seus respectivos manejos!

Métodos de controle associados ao MID 

  1. Biológico

O controle biológico reduz inóculos ou atividades de determinadas doenças através da introdução de organismos

Esse controle já acontece naturalmente na natureza. Porém, pode ser intensificado pela adição de organismos em maiores populações.

É possível fazer o controle com fungos benéficos e bactérias. Por exemplo, o controle biológico com fungos Trichoderma ou com bactérias do gênero Bacillus

Ambos são muito utilizados no controle de diversas doenças, conforme a tabela a seguir.

Produtos registrados no Mapa (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento), para controle biológico de doenças de plantas.

(Fonte: Agrofit)

Consulte as indicações de uso/doses dos formulados. Afinal, um mesmo agente biológico pode controlar diferentes doenças.

Os mecanismos de controle biológico de doenças incluem:

  • antibiose: produção de substâncias tóxicas capazes de inibir o crescimento dos organismos causadores de doenças em plantas;
  • competição: crescimento rápido e predominante. Há competição por nutrientes e espaço;
  • parasitismo: habilidade em parasitar e degradar fungos (através da produção de enzimas degradadoras de parede celular);
  • indução de mecanismos de resistência: sinais bioquímicos que se espalham por todos os tecidos da planta, ativando genes de resistência. Por isso, há reação mais rápida das defesas da planta quando em contato com patógenos.
  1. Químico

O controle químico é uma alternativa de ação imediata, rápida e mais simples. Porém, deve ser planejado e usado de forma correta.

O controle é realizado por uma série de produtos, os agroquímicos

Os agroquímicos são todos os produtos de processos físicos, químicos ou biológicos utilizados na proteção de cultivos. Também são utilizados durante o armazenamento e beneficiamento de produtos agrícolas.

Vale lembrar que os produtos biológicos são considerados agrotóxicos segundo a legislação. A diferença está na classificação toxicológica e ambiental

As moléculas químicas têm efeito sobre o ambiente e solo, podem contaminar cursos de água e causar danos à saúde humana.

No MID, o controle químico  deve ser utilizado em conjunto com as demais medidas disponíveis. 

  1. Genético

O controle genético é baseado no emprego de variedades resistentes. É aplicável em grandes áreas, e causa baixo impacto ambiental.

Para algumas doenças, é o único método de controle disponível.

Esse tipo de controle merece atenção, afinal, a quebra de resistência de materiais ocorre com frequência. Esse é o caso da brusone do arroz.

A depender da cultura a ser cultivada, basta que o técnico consulte a disponibilidade de materiais genéticos resistentes às principais doenças na região de cultivo.

  1. Cultural

As práticas culturais agem no hospedeiro (planta de interesse agrícola) e na população dos patógenos.

O objetivo do controle cultural é desfavorecer o patógeno. Assim, você minimiza os efeitos das doenças sobre a cultura.

Veja as estratégias que podem ser utilizadas no controle cultural:

  1. Rotação de culturas: avalie quais as culturas podem diminuir a população dos patógenos. Por exemplo, a crotalária controla alguns nematoides;
  2. Sementes, mudas, e órgãos de propagação vegetativa sadios: use materiais certificados e de procedência;
  3. Elimine plantas doentes da própria cultura. Esse método é importante em doenças causadas por vírus, bactérias e fitoplasmas transmitidos por insetos vetores;
  4. Elimine plantas voluntárias: por exemplo, o vazio sanitário da soja;
  5. Elimine hospedeiros alternativos: por exemplo, o complexo de enfezamentos da cigarrinha-do-milho, em que gramíneas podem ser hospedeiras alternativas;
  6. Elimine restos de cultura: assim, você estimula a decomposição mais rápida deste material;
  7. Prepare o solo adequadamente: revolva quando necessário para expor estruturas de resistência de patógenos ao sol e temperaturas mais elevadas;
  8. Incorpore matéria orgânica ao solo: material orgânico estimula o aumento dos microrganismos que agem contra os patógenos;
  9. Época de plantio adequada: planeje a semeadura, verificando as indicações técnicas e estudando as condições climáticas na região de cultivo. Fique por dentro das épocas de maior ocorrência dos patógenos;
  10. Use a densidade de plantio adequadamente: respeite o espaçamento entre linhas para garantir que a eficiência do uso da radiação solar seja máxima;
  11. Cuide da irrigação e da drenagem: estresses hídricos podem predispor as plantas às doenças;
  12. Nutrição mineral: realize análise de solo para aplicação correta de fertilizantes;
  13. Corrija o pH do solo: a faixa de pH pode interferir na absorção de nutrientes, tornando a planta fraca e sem defesas;
  14. Profundidade de semeadura adequada: semeaduras muito profundas deixam o ambiente propício ao ataque.

5. Físico

Esse tipo de controle faz uso de fatores físicos, como temperatura e radiação

As sementes podem ser armazenadas em temperaturas baixas e controladas. Assim, há  redução do seu metabolismo, o que evita a deterioração natural induzida por patógenos.

No caso de frutas e hortaliças, temperaturas baixas agem da mesma maneira, as protegendo de novas infecções por patógenos presentes. 

Infecções vindas do campo também não se desenvolvem ou são retardadas nestas condições.

O tratamento térmico pode ser aplicado em frutas, legumes, hortaliças e em órgãos de propagação. Esse tratamento reduz ou elimina os patógenos.

Em frutos, por exemplo, é possível utilizar a imersão de órgãos em temperaturas quentes para redução de danos.

É importante pesquisar antes de aplicar esse método. Afinal, em determinadas temperaturas, a germinação e vigor podem reduzir.

Outras medidas incluídas no controle cultural são:

  • solarização do solo em canteiros;
  • uso de radiação ultravioleta germicida em doenças de frutos na pós-colheita;
  • uso de radiação ionizante na preservação de alimentos processados e também de produtos agrícolas;
  • armazenamento em atmosfera controlada e modificada: controle da temperatura e dos níveis de oxigênio e dióxido de carbono.

Quando começar o Manejo Integrado de Doenças? 

O manejo deve começar no planejamento da lavoura, e na avaliação das condições ambientais durante todo o cultivo.

Observe também se as condições ambientais da estação do ano são apropriadas para aumentar o inóculo (isso depende do tipo de patógeno).

Na ferrugem da soja, em anos com inverno quente, a doença tende a surgir antecipadamente.  

As temperaturas frias não são capazes de eliminar as plantas hospedeiras, e consequentemente, o inóculo inicial da doença.

Observar as moléculas utilizadas antes e quais misturas e métodos serão utilizados ao longo do cultivo também é importante.

Lembre-se: a eficiência dos fungicidas e de sua vida útil também dependem do seu planejamento. Por isso, os utilize de forma consciente e na dúvida, procure um engenheiro-agrônomo para te ajudar.

checklist planejamento agrícola Aegro

Como calcular o nível de dano econômico

Outro fator utilizado na aplicação ou não de produtos no controle de doenças é o Limiar de Dano Econômico (LDE)

Ele é um critério racional da aplicação de fungicidas, e é utilizado para diversas doenças em diferentes culturas.

No cálculo do LDE,  a intensidade da doença e o benefício do seu controle são considerados. De forma prática, você deve avaliar o quanto perderia se o controle não fosse realizado, e se o custo é maior ou menor do que a perda.

Considere também que os fungicidas não devem ser aplicados de forma preventiva ou tardia. Aplique sempre que a incidência da doença atingir o LDE, quando o custo do controle for menor que as perdas.

Mais detalhes do cálculo podem ser consultados de forma exemplificada no trabalho realizado por Reis e colaboradores, em 2008.

Imagem com exemplo do cálculo do LDE para ferrugem da aveia

Exemplo do cálculo do LDE para ferrugem da aveia

(Fonte: Reis e colaboradores., 2008)

Eficiência de moléculas químicas do mercado 

Conhecer o manejo integrado de doenças é essencial. Mas você também precisa saber da importância no futuro da eficiência das moléculas químicas disponíveis no mercado.

Além de demorada, a elaboração de novas moléculas é cara. Atualmente, não se espera que novas alternativas de produtos sejam lançadas a curto prazo. 

O manejo e uso racional são fundamentais para atrasar a seleção de patógenos resistentes. E qual seria o custo deste controle?

Segundo o Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada da Esalq/USP), na safra 2016/2017, apenas no Brasil, o custo de controle foi de 8,3 bilhões de reais. Desses custos, 96% foram destinados ao controle da ferrugem asiática. 

Produtos para o controle de pragas e doenças já vêm sendo utilizados há milhares de anos. Porém, fungicidas e outros produtos foram utilizados com maior frequência a partir dos anos 60.

Ainda no século 19, diferentes substâncias para o controle químico de doenças começaram a ser usadas. Exemplos são o cobre e o hidróxido de cálcio.

Há um problema no uso exagerado, sem planejamento adequado e contínuo dessas moléculas. Esse uso causa seleção de populações de patógenos, principalmente fungos, que ficam resistentes.

Tabela que mostra a evolução do uso de princípios ativos para controle de pragas e doenças. Na coluna C, há aumento do custo de controle para as principais culturas: milho, soja e trigo.

Evolução do uso de princípios ativos para controle de pragas e doenças. Na coluna C, há aumento do custo de controle para as principais culturas: milho, soja e trigo

(Fonte: Oliveira e Silva e Magalhães da Costa, 2012)

Como ocorrem e quais são as causas da resistência? 

Quando você utiliza continuamente fungicidas sistêmicos, principalmente isolados (sem misturas de ingredientes ativos), a seleção de populações resistentes aumenta.

Esquema que mostra como acontece a pressão de seleção

Pressão de seleção

(Fonte: Zambolim, 2010)

Esquema que mostra estágios de como uma população de patógenos consegue se tornar resistente aos fungicidas sistêmicos

Estágios de como uma população de patógenos torna-se resistente aos fungicidas sistêmicos

(Fonte: Zambolim, 2010)

Quando o fungicida é utilizado em uma grande população de fungos, a tendência é que ocorram “escapes” de controle de alguns indivíduos

Isso acontece especialmente quando o ingrediente ativo é utilizado repetidas vezes ou de forma individual, em apenas um local de ação.

Essa população resistente se reproduz e se dissemina na área, tornando-se um problema.

Lista de fungos que apresentam potencial ou já possuem relatos de resistência aos fungicidas sistêmicos

Fungos que apresentam potencial ou já possuem relatos de resistência a fungicidas sistêmicos no país

(Fonte: Zambolim, 2010)

Relatos de ocorrência de resistência de fungos e bactérias a fungicidas no país.

(Fonte: Zambolim, 2010, atualizado de Ghini et al., 2000)

O futuro do controle de doenças, do sucesso efetivo e da vida útil das moléculas disponíveis depende do uso consciente e racional

Também depende da adoção de medidas complementares, como o MID (Manejo Integrado de Doenças).

Tecnologias que podem ajudar no Manejo Integrado de Doenças

O agro sofreu grandes avanços nos últimos dez anos. Agora, muitas ferramentas tecnológicas otimizam o monitoramento dos cultivos agrícolas.

No manejo integrado de controle de doenças, há:

  • utilização de drones para pulverizações localizadas de produtos;
  • mapeamento das doenças ao longo das áreas, com aplicação localizada, considerando o LDE;
  • Utilização de imagens de satélites, de câmeras móveis ou acopladas em Vants (Veículos Aéreos não Tripulados) para a detecção de doenças e cálculos de índices de vegetação;
  • modelos matemáticos de estimativa de ocorrência de doenças, considerando as variáveis climáticas, por exemplo;
  • softwares de gestão agrícola que facilitam o planejamento da rotação de moléculas químicas;
  • bancos de dados de agroquímicos que facilitam a localização de ingredientes ativos mais recomendados para o controle de determinadas doenças;
  • previsões baseadas no aprendizado de máquinas e inteligência artificial;
  • uso do coletor de esporos para monitoramento, como no caso da ferrugem asiática. Afinal,  os esporos do patógeno podem ser detectados antes mesmo dos sinais e sintomas serem manifestados nas plantas;
  • Desenvolvimento de plataformas de amplificação de ácido nucleico de microagulha, integradas a smartphones que diagnosticam a doença no campo.

Novas tecnologias vêm sendo disponibilizadas de forma rápida, mas nada pode substituir o pensamento humano.

Desta forma, técnicos e engenheiros-agrônomos são fundamentais para o controle de doenças. Então, em caso de dúvidas, não deixe de consultá-los.

Exemplo de controle de aplicações possível com uso do Aegro

Conclusão

Neste artigo, você conferiu tudo sobre o Manejo Integrado de Doenças.

Utilize todas as ferramentas do planejamento da semeadura até as operações de pós-colheita. Lembre-se que existem tecnologias e ferramentas já desenvolvidas que podem te ajudar nesse processo.

Para o sucesso do manejo, é necessário que diferentes métodos de controle sejam adotados de forma conjunta.

Você poderá reduzir custos de produção e problemas em resistência de moléculas químicas, além da quebra de resistência dos materiais genéticos já disponíveis no mercado.

Não deixe de consultar um engenheiro-agrônomo em caso de dúvidas.

Você já utiliza o Manejo Integrado de Doenças na sua fazenda? Ficou com alguma dúvida? Deixe um comentário aqui!

Comentários

  1. Benedito Moisés de lima albuquerque disse:

    Bom dia
    E muinto prazer ter essas informações a disposição no cotidiano
    E muinto boa essa iniciativa de vcs
    Dispor aí publicamente
    Obrigado

  2. referido neves disse:

    Bom dia caro Pedro Disso!
    Adorei este material sobre Manejo Integrado de de Doenças e desde já manifesto a minha satisfação.
    Gostaria de fazer recordar, de, que eu sou agrônomo e gestor. Entretanto para mim é importante que me enviem temas relacionados com o meu perfil técnico e que possa aplica-los no país de acordo com a nossa realidade.
    Sempre a considerar, muito obrigado pelo vosso trabalho.
    Rogério

  3. JOSIMAR BENTO SIMPLÍCIO disse:

    BOM DIA BRUNA ROHRIG.
    SOU ENGENHEIRO AGRÔNOMO, DR. EM PRODUÇÃO VEGETAL PELA UNESP JABOTICABAL E PROFESSOR NA UFRPE.
    TENHO ACOMPANHADO OS ARTIGOS DO LAVOURA 10 OS QUAIS TÊM ME AJUDADO BASTANTE EM MINHAS AULAS.
    O ARTIGO DE HOJE ESTÁ MUITO BOM,
    PARABÉNS,

    ATT.

    PROF. JOSIMAR BENTO SIMPLÍCIO

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