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Cigarrinha-do-milho: guia completo sobre seu manejo e controle

- 2 de junho de 2021

Cigarrinha-do-milho: entenda sobre o potencial de dano, quais doenças pode transmitir, sintomas e como realizar o manejo preventivo e curativo

A cigarrinha-do-milho é o inseto vetor do enfezamento do milho, que tem se destacado pelo grande potencial de dano. Ela pode causar até 100% de perdas nas áreas de produção.

Você sabe quais são as causas do aumento da ocorrência dessa praga nas áreas de produção de milho safra e safrinha? Sabe como identificar e quando controlar?

Confira a seguir alguns aspectos fundamentais da biologia da praga, como identificar os  sintomas e quais boas práticas você deve adotar para evitar perdas. Boa leitura!

Características da cigarrinha-do-milho

A cigarrinha-do-milho (Dalbulus maidis) é um inseto sugador. Pertence à ordem Hemiptera e à família Cicadellidae, com distribuição geográfica restrita à América do Norte, América Central e América do Sul.

Quando adulto, mede entre 3 mm a 4 mm e possui coloração ligeiramente esbranquiçada, branco-palha ou acinzentada. Ninfas possuem coloração amarelo-pálida.

Seus ovos são depositados dentro do tecido vegetal, na nervura central. Adultos e ninfas sugam a seiva das folhas na região do cartucho, reduzindo o desenvolvimento das plântulas, do sistema radicular e transmitindo doenças.

Dinâmica populacional e ciclo biológico da cigarrinha-do-milho

Os ovos eclodem aproximadamente 8 dias após a postura e as ninfas passam por 5 instares (fases até se tornarem adultas). A duração da fase jovem é de aproximadamente 17 dias, a depender da temperatura.

A longevidade dos adultos é de 50 a 60 dias. Da fase do ovo até a fase adulta, é em torno de 25 a 30 dias

Sob temperaturas ideais (entre 26 °C e 32 °C), o ciclo pode ser completo em 24 dias, sendo possível a deposição de até 14 ovos por dia.

Entre 75 e 90 dias, a cigarrinha-do-milho completa seu ciclo biológico. Cada fêmea pode depositar entre 400 e 600 ovos, a depender da temperatura.

Problemas maiores são observados em plantios tardios (safrinha), e em temperaturas mais elevadas (entre 21 °C e 26 °C). 

Nessas condições, a cigarrinha-do-milho pode produzir de 4 a 6 gerações de insetos, e população entre 42 milhões e 190 bilhões de indivíduos

ciclo da cigarrinha-do-milho

Ciclo biológico da cigarrinha do milho
(Fonte: Sementes Agroceres)

Como identificar  a cigarrinha-do-milho?

Existem mais de 44 espécies de cigarrinhas no Brasil. Porém, apenas uma é vetor dos enfezamentos: a Dalbulus maidis.
Ela é diferenciada das demais da espécie pelas duas manchas (pintas negras) entre os olhos.

Identificação da cigarrinha-do-milho (Dalbulus maidis) pela presença de duas pintas pretas entre os olhos, indicada pelas setas na figura

(Fonte: Charles Martins de Oliveira, 2020)

Modo de transmissão

O modo de transmissão da praga pode ser persistente ou propagativo.

No modo persistente, após a aquisição dos patógenos, o inseto permanece infectivo por toda a vida. É importante que o controle seja realizado assim que a praga for detectada na área.

No modo propagativo, os patógenos circulam e se multiplicam na cigarrinha.

Como o inseto adquire o patógeno 

O inseto se alimenta de plantas de milho infectadas, através da sucção da seiva do floema. Durante a alimentação, ele adquire os patógenos, que passam para o seu trato digestivo

Os patógenos atravessam a parede do intestino do inseto, espalhando-se. A multiplicação ocorre principalmente nas glândulas salivares.

Posteriormente, o inseto abandona a planta doente e migra para plantas sadias e mais jovens. Quando ocorre a salivação, ela inocula os patógenos na planta sadia, transmitindo a doença.

Características importantes para o manejo

Quatro períodos são considerados importantes para o manejo da cigarrinha:

O inseto sobrevive e se reproduz na entressafra em plantas hospedeiras como o milho tiguera, causando maiores problemas em plantios tardios do milho safrinha.

A cigarrinha-do-milho pode permanecer em outras espécies de gramíneas, utilizando-as como abrigo, como a aveia, trigo, plantas daninhas, triticale, cana, braquiária, milheto. O monitoramento destas espécies também deve ser realizado.

Doenças transmitidas pela cigarrinha-do-milho

Você já observou alguns dos sintomas abaixo na sua lavoura?

A foto à esquerda mostra o enfezamento pálido. A foto à direita mostra o enfezamento vermelho

(Fonte:Embrapa, 2014)

Esses sintomas são característicos das doenças conhecidas por enfezamentos, causadas por molicutes e disseminadas para áreas de cultivo de milho pela cigarrinha-do-milho.

Enfezamento pálido e vermelho

O enfezamento pálido é causado por um espiroplasma (Spiroplasma kunkelii). Ele desenvolve lesões em forma de estrias cloróticas, que percorrem a base das folhas paralelamente às nervuras.

O enfezamento vermelho é causado por um fitoplasma (Maize Bushy Stunt Phytoplasma). 

Os sintomas nas folhas são lesões avermelhadas no ápice e nas bordas, secamento da margem em direção ao centro das folhas e o desenvolvimento de brotos axilares (novas plantas).

As cultivares também podem apresentar:

  • clorose;
  • amarelecimento das folhas sem avermelhamento;
  • perfilhamento e proliferação de espigas (até seis ou mais por planta);
  • acamamento pelo desenvolvimento de poucas raízes.

Ambas as doenças são sistêmicas e vasculares. Os patógenos se alojam e colonizam os vasos condutores, circulando pelo floema da planta. 

O resultado é o “entupimento” mecânico dos vasos condutores, prejudicando o desenvolvimento da planta.

Vale destacar que no campo não é possível distinguir os dois patógenos, devido à semelhança dos sintomas provocados. Frequentemente, ambos os patógenos ocorrem simultaneamente ao longo da área de produção.

Risca: virose transmitida pela cigarrinha-do-milho

Além dos enfezamentos, a cigarrinha também pode transmitir uma virose conhecida por MRFV (Maize Rayado Fino Virus).
Os sintomas da risca incluem pequenos pontos cloróticosem formato de linhas nas folhas, ao longo das nervuras. Abortamento de gemas florais e redução do crescimento também são observadas na presença do vírus.

Folha de milho com sintomas de MRFV: riscas amareladas, paralelas às nervuras e com aparência pontilhada

(Fonte: Embrapa)

Danos causados pela cigarrinha-do-milho

Os danos são proporcionais ao número de plantas doentes e à época de infestação das plantas. Quanto mais cedo a infestação ocorrer (estádios iniciais de desenvolvimento da cultura), maiores serão danos como:

  • internódios curtos;
  • planta pequena e improdutiva;
  • espigas pequenas;
  • falhas na granação;
  • planta atacada seca precocemente;
  • grãos chochos;
  • proliferação de espigas;
  • brotamento nas axilas das folhas;
  • emissão de perfilhos na base das plantas;
  • má-formação das palhas das espigas;
  • proliferação de radículas;
  • colonização de outros patógenos, causado acamamentos;
  • perda total de produção.

Possíveis causas do aumento da ocorrência da cigarrinha-do-milho 

A oferta abundante e ininterrupta do hospedeiro pelo cultivo intensivo do milho safra e safrinha, aliado à rotação de culturas inexistente ou inadequada aumentaram a população da praga.

Temperaturas entre 26 °C e 30 °C também favoreceram a ocorrência da praga e do complexo de doenças transmitidas por ela: enfezamento pálido, vermelho e vírus da risca para novas áreas.

O não controle da cigarrinha-do-milho resulta em populações elevadas e problemas cada vez mais preocupantes.

Segundo o Cepea, o não controle desta praga pode reduzir a produção em 6,6%, impactando diretamente no aumento do preço do produto no mercado.

A identificação da praga (mesmo que em populações baixas) e dos sintomas das doenças na lavoura é fundamental, principalmente nos estádios iniciais da cultura.

Cigarrinhas em folhas jovens de milho

(Fonte: Foto de Fabiano Bastos em Embrapa)

Controle da cigarrinha-do-milho

É importante que você fique alerta, pois utilizar apenas um controle não será o suficiente em casos de altas infestações. O ideal é realizar o MIP (Manejo Integrado de Pragas).

Os manejos mais utilizados são o cultural e o químico, mas também é possível utilizar o biológico.

Vale destacar que, para as doenças, as medidas devem ser preventivas, pois não existem produtos registrados para o seu controle.

Estratégias de manejo 

  • Adeque a época de plantio;
  • evite sobreposição de ciclos da cultura;
  • evite plantios consecutivos;
  • elimine plantas hospedeiras (milho tiguera);
  • sincronize época de plantio;
  • evite semeadura próximo a áreas com plantas adultas que apresentem os sintomas dos enfezamentos ou da risca;
  • escolha híbridos com maior tolerância que seja adaptado a região de cultivo;
  • evite sementes piratas; opte pelas certificadas e com tratamento industrial;
  • faça monitoramento constante, principalmente nos estádios iniciais da cultura (VE e V8);
  • planeje a colheita do milho com regulagem minuciosa das máquinas para evitar que grãos caiam sobre a área e germinem posteriormente;
  • utilize caminhões em boas condições, para evitar a dispersão de milho na beira das estradas.

Medidas isoladas não são eficazes, e nenhuma medida é 100% efetiva. Além disso, não existe tratamento curativo para as doenças descritas, apenas é possível eliminar o inseto vetor. Medidas devem ser baseadas em prevenção!

Escolher o material mais adequado para semeadura é uma estratégia que, aliada às demais, pode reduzir as perdas na lavoura. Alguns híbridos apresentaram maior ou menor grau de suscetibilidade ao enfezamento vermelho. 

Produção de grãos (A) e notas de enfezamento (B) em genótipos de milho plantados em Sete Lagoas-MG. Genótipos com maior severidade representados pela letra D obtiveram menor produção.

(Fonte de: Cota e colaboradores, 2018. )

Controle químico

O melhor método químico é através do tratamento das sementes com inseticidas, o que vai propiciar uma maior proteção às plântulas de milho. A presença do inseto vetor requer a entrada do controle químico na área.

Neonicotinoides, dentre os químicos, possuem os melhores resultados no controle da cigarrinha.

Isso se deve a suas características de sistemicidade (mesmo quando aplicado em uma parte, é absorvido e atinge todos os tecidos da planta) e translocação translaminar (mesmo aplicado na face superior da folha, tem capacidade de penetrá-la e ter ação na face inferior). 

As ninfas se alojam principalmente no verso das folhas, exigindo produtos que possam alcançar este local. Escolha produtos com solubilidade moderada, devido ao maior tempo residual na cultura.

É indispensável rotacionar produtos químicos com modos de ação distintos (observando o número máximo e intervalo de aplicações recomendadas na bula) com produtos registrados para a cultura.

Para saber quais são os produtos químicos registrados e recomendados para a cultura, basta acessar o Agrofit.

Para consultar produtos químicos e biológicos recomendados e informações de como aplicá-los, essa planilha certamente irá te ajudar.

planilha controle da cigarrinha do milho

Controle biológico da cigarrinha do milho

Você sabia que além do controle químico, é possível utilizar o controle biológico de forma conjunta?

Ele é feito através de produtos que contenham como ingrediente ativo o fungo Beauveria bassiana. Os fungos podem penetrar na cutícula do inseto e se multiplicar no seu interior.
Veja no quadro a seguir uma síntese  das medidas que devem ser tomadas para o manejo da cigarrinha:

Conclusão

Conhecer o histórico da sua área é essencial para monitorar a presença da cigarrinha-do-milho.

Apenas o controle químico não vai resolver o problema. Adote também medidas culturais e preventivas.

Quanto antes você detectar a presença da cigarrinha-do-milho e realizar o controle com os produtos recomendados, nas doses especificadas e intervalos de aplicação adequados, menores serão as suas perdas.

Aqui você viu todos os danos que esse inseto pode causar, e como evitá-los. Agora é só não descuidar da sua lavoura de milho e adotar medidas preventivas de controle! 

Restou alguma dúvida sobre a identificação ou manejo da cigarrinha-do-milho? Tem alguma outra dica para acabar com esse problema? Adoraria ver seu comentário abaixo!

Comentários

  1. Congratulações, tú acaba de ganhar mais um fã, favitei esse website nas minha
    lista, vou ver tuas próximas postagens, mantenha
    o ritmo! Parabéns!

  2. Zenóbia Silva disse:

    Excelente!

  3. Felipe disse:

    Muito bem explicado. Obrigado

  4. Francisco Borja disse:

    O que é “sistemicidade e translocação translaminar” ?

    1. Raíssa Natasha Ciccheli disse:

      Oi, Francisco
      Sistemicidade é uma característica do produto que mesmo quando aplicado em uma parte, é absorvido e atinge todos os tecidos da planta. E translocação translaminar é que mesmo aplicado na face superior da folha, tem capacidade de penetrá-la e ter ação na face inferior.

      Esperamos ter ajudado e agradecemos por nos acompanhar,
      Abraço! 🙂

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