Blog da Aegro sobre gestão no campo e tecnologias agrícolas

Cafezal: esqueletamento, decote e outras… Saiba quando é melhor fazer e qual tipo de poda é mais adequado para alcançar ganhos de produtividade.

Na cafeicultura moderna, as podas são essenciais para um bom manejo do cafezal.

São vários tipos de podas possíveis e a mais adequada para cada talhão pode ser diferente.

É preciso conhecer detalhadamente seu cafezal para escolher a poda correta e não sair “quebrando galho por aí”.

A seguir, confira algumas dicas de como realizar as podas no seu cafezal e mantê-lo produtivo por mais tempo!

Tipos de podas: como escolher a melhor para a lavoura

Podas como decote e desponte são consideradas leves, enquanto o esqueletamento e a recepa são mais drásticas.

O ideal é que se comece pelas podas mais leves, progredindo até podas mais drásticas, conforme a necessidade da lavoura.  

Mas cada caso é específico. Dependendo da situação do cafezal, medidas mais drásticas devem tomadas imediatamente.

Vou falar mais sobre as indicações e como fazer cada uma dessas podas:

Decote

O decote é uma “poda alta” e leve, onde os cortes são feitos na parte superior da copa da planta.

A altura de corte depende do estado da lavoura e da cultivar utilizada, mas geralmente é feita entre 1,2 m e 2 m de altura.

Quanto mais alto o corte, maior será a produção no ano seguinte.

O decote é utilizado principalmente reduzir a altura da planta e facilitar a mecanização, além de corrigir deformações e diminuir o fechamento.

Dependendo do decote executado, a produção seguinte será mais baixa e, portanto, o custo de colheita relativo a esses frutos será alto. O produtor deve se atentar.

Caso as plantas estejam com produção apenas nas pontas dos ramos laterais, o decote não terá bom resultado.

Nesse caso, é necessário partir para outro tipo de poda: esqueletamento/desponte.

cafezal
Cafeeiro decotado (A) e cafeeiro decotado com condução dos brotos (B)
(Fonte: Boletim Técnico Cati em Esalq/USP)

Esqueletamento/Desponte

Ambos consistem no corte dos ramos plagiotrópicos em direção ao ortotrópico (tronco).

Enquanto no esqueletamento o corte é mais drástico, feito a cerca de 30 cm de distância, no desponte ele é mais leve, feito a cerca de 60 cm.

A finalidade dessa poda é renovar os ramos produtivos e diminuir o fechamento da rua no caso de lavouras mais adensadas.

A dica é associar essas podas a um decote. Assim, quebra-se a dominância apical da planta e estimula-se brotações laterais.

Após um ano de safra alta, realiza-se esqueletamento/desponte.

No primeiro ano, a safra será zerada e o cafezal terá apenas seu crescimento vegetativo.

cafezal

Cafeeiro após esqueletamento (A) e cafeeiro após brotação (B)
(Fonte: Boletim Técnico Cati em Esalq/USP)

No segundo ano, devido a todo esse crescimento, o cafezal irá produzir uma safra alta.

Essa combinação: safra zero, seguida de safra alta reduz as operações de colheita pela metade e, consequentemente, os custos dessa operação.

Ao mesmo tempo, ela mantém uma média de produtividade elevada para os dois anos, o que pode compensar financeiramente.

Isso porque colheita e mão de obra podem representar mais de 30% dos custos anuais de uma lavoura.

Esse comportamento é a base do chamado “Sistema Safra Zero ou Safra Cem”, adotado por muitos produtores. Vou falar especificamente sobre isso mais a frente!

Recepa

A recepa é uma poda drástica e consiste no corte do tronco próximo ao solo para renovar toda a copa do cafeeiro.

Na recepa baixa, corta-se a 30 cm a 40 cm do solo; na alta, a 60 cm.

Ela deve ser utilizada somente quando o cafezal estiver com poucos ramos produtivos da saia ou danos severos de geada.

A recepa bem-feita garante bom rebrote do café, sem morte de plantas.

Recomenda-se a realização do corte inclinado, para que não acumule água no tronco, o que pode ser porta de entrada para patógenos.

O cafezal só voltará a produzir no segundo ano após a realização da recepa, portanto deve-se avaliar muito bem a necessidade dessa poda, talhão a talhão.

A recepa é o último recurso do cafeicultor antes da renovação do cafezal.

Em casos onde a lavoura é velha ou tem histórico de baixa produtividade, a renovação terá melhor custo-benefício.

cafezal
Primeira produção após a recepa
(Fonte: Humberto Filho, Aiba)

Sistema safra zero

Esse sistema consiste na utilização da prática do esqueletamento periódica, a cada dois anos, como forma de manejo.

Para evitar ficar um ano sem produzir na propriedade, a dica é escalonar a poda nos talhões para que se tenha uma parte da propriedade em alta e outra na safra zero.

Desse modo, colhemos café todo ano e ainda temos os benefícios do sistema safra zero.

A adoção do safra zero deve ser avaliada caso a caso, pois nem sempre ele será vantajoso.

Depende de cada sistema de produção, por isso é necessário conhecer bem seu cafezal.

cafezal

Florada no segundo ano do cafezal submetido ao sistema safra zero
(Foto: Giovani Voltolini, em Revista Agronegócios)

Quando optar pela poda do cafezal

As podas não podem ser realizadas ao acaso. No planejamento, alguns pontos devem ser observados para se obter o resultado esperado.

Lavouras velhas não respondem bem às podas, portanto, a idade da lavoura de café deve ser considerada.

Cultivares mais vigorosas exigem podas mais frequentes e se recuperam melhor de podas mais drásticas.

Também temos que observar a sanidade da lavoura.

O ataque de pragas, doenças, a presença de plantas daninhas e o depauperamento  (enfraquecimento) podem prejudicar a recuperação do cafezal após a poda.

No caso de lavouras antigas ou onde já existem falhas e a população de plantas é baixa, provavelmente a renovação do cafezal será o melhor caminho.

E qual a melhor época do calendário agrícola para fazer a poda do cafezal?

As podas do cafezal devem ser realizadas preferencialmente em anos de alta produção, logo após o fim da colheita.

Quanto mais cedo elas forem realizadas, mais tempo o café tem para se recuperar, crescer e produzir.

Em locais onde há risco de geada, indica-se a realização das podas no mês de maior risco, para evitar perdas.

cafezal

Época ideal para poda esqueletamento + decote
(Fonte: Garcia, 2007, em Epamig)

Além da melhor época, algumas outras práticas são necessárias para o sucesso da poda do cafezal:

Desbrota: prática fundamental para o sucesso das podas

A desbrota deve ser realizada desde o início da lavoura, com a retirada de ramos ladrões.

Ela também garante o sucesso das podas, eliminando as brotações excessivas que possam aparecer.

A desbrota deve ser realizada com as brotações ainda jovens, deixando-se apenas o número adequado de hastes por planta.

Geralmente conduz-se apenas uma haste, mas esse número pode variar com espaçamento.

Um caso à parte: Poda no café conilon

Por ser uma planta multicaule, não há emprego da desbrota e, embora as finalidades das podas possam ser as mesmas, o café conilon tem podas distintas das do arábica.

Isso seria um tema para outro texto!

Para mais informações sobre poda em café conilon você pode acessar aqui a publicação da Embrapa sobre o assunto.

Atenção após a poda do cafezal

A poda, apesar de ser uma ferramenta de manejo, também causar estresse ao cafeeiro.

A planta tem que mobilizar suas reservas para retomar o crescimento das partes podadas, o que acarreta na morte de raízes e até de plantas, se já estiverem depauperadas.

Isso é tanto pior, quanto mais drástica for a poda.

Cafezais podados recentemente devem ter cuidado especial quanto à nutrição e controle fitossanitário.

cafezal
(Foto: Claudio Bezerra Mello em Embrapa)

Importância da poda para seu cafezal

A cafeicultura passou por um processo de modernização a partir dos anos 1970/80.

Foram introduzidas variedades mais vigorosas e produtivas e o cafezal passou a ser cultivado em renques.

Isso gerou um grande aumento na população de plantas e na produtividade.

Contudo, alguns problemas que não ocorriam com frequência começaram a aparecer: perda dos ramos produtivos inferiores, exaustão das plantas devido à alta produção, fechamento da lavoura, entre outros.

Nesse cenário, a técnica da poda passou a ser uma importante aliada do produtor.

Se no início de sua adoção a finalidade era apenas corrigir o erro de manejo, hoje ela já é incorporada ao planejamento do cafezal.

Ela ajuda a corrigir os problemas, mas principalmente, auxilia na condução e renovação da lavoura como forma de prevenção.

cafezal
Poda do cafezal é estratégica para alcançar melhor produtividade
(Fonte: Revista Globo Rural)

Finalidade das podas do cafezal

O uso das podas como ferramenta de manejo tem várias finalidades:

  • Renovar os ramos produtivos;
  • Adequar a arquitetura da planta para tratos culturais;
  • Atenuar a bienalidade;
  • Reduzir os danos causados por eventos climáticos (geadas, vento, etc), pragas agrícolas e doenças;
  • Alterar o microclima (luminosidade, aeração);
  • Revigorar plantas debilitadas.

Cada tipo de poda irá atuar em alguns desses pontos. A escolha do tipo de poda correta para o cafezal é fundamental! Mais adiante, vou explicar melhor cada uma delas.

Peça auxílio a um consultor agrícola de sua confiança a fim realizar as podas corretamente e alcançar o objetivo desejado.

planilha adubação de café

Conclusão

Como pudemos conferir, cada tipo de poda representa uma ferramenta com finalidade distinta.

A ferramenta correta deve ser utilizada para alcançar o objetivo do trabalho.

Por isso, o cafeicultor deve conhecer cada um dos tipos de poda, sua finalidade e a utilizá-la na época correta. Assim, obtemos os melhores resultados.

Vimos aqui que o manejo correto das podas promove a renovação do cafezal, ganhos em vida útil e até melhorias na produtividade do cafezal!

>> Leia mais:

Acerte no adubo líquido para café e não jogue dinheiro fora

Pós colheita do café: Tendências e perspectivas para cafés de qualidade (+ cuidados com a lavoura)

“Como o uso de drones na pulverização do cafeeiro pode trazer economia e eficiência nas aplicações”


Restou alguma dúvida sobre as podas do cafezal? Conte pra nós nos comentários abaixo! Forte abraço e até a próxima.