Por que realizar a cobertura de solo no inverno

Cobertura de solo no inverno: como escolher a melhor cultura para sua lavoura e as opções que podem ser utilizadas nas diferentes regiões agrícolas

O Brasil é o quinto maior país do mundo, com uma extensão superior a 8,5 milhões de quilômetros quadrados.

Com todo esse tamanho, o potencial agricultável do país é imenso! Mas para atingir todo esse potencial precisamos de uma série de cuidados, a começar pelo solo e pela água.

Garantir uma boa cobertura de solo permite usar toda sua capacidade de armazenamento, favorecendo a lavoura principalmente em tempos de seca.

E por que você deve fazer a cobertura de solo no inverno? Quais as melhores culturas para isso? Entenda a seguir:

Cobertura de solo no inverno: por quê?

A cobertura do solo é essencial na agricultura brasileira. Ela ajuda a diminuir as perdas de água por evaporação e também a conter a erosão, aumentando o percentual hídrico nos poros dos solos.

Mas as plantas cultivadas na safra de verão não fornecem palha em quantidade suficiente para uma cobertura efetiva. Portanto, uma ótima saída é fazer a cobertura de solo no inverno (clima subtropical) ou outono (clima tropical).

Não existe uma única cultura ou melhor espécie a ser escolhida. É preciso considerar uma série de fatores, como vou explicar mais adiante neste texto.

Mas, antes, quero que você entenda melhor alguns pontos sobre o solo e sobre a importância da água para atingir uma alta produtividade!

Solo e água

O solo é constituído de partículas de diferentes tamanhos. Nós as classificamos como:

  • argila (para as partículas pequenas);
  • silte (para as partículas médias);
  • areia (para as partículas grandes).

Essas partículas se juntam para formar o solo e os espaços entre os “aglomerados” de partículas são os chamados poros do solo.

A água fica retida exatamente nesses poros sendo que, quanto menor o poro, mais fortemente a água ficará retida e mais difícil será ela escorrer até o lençol freático.

Pois bem! A quantidade de poros grandes ou pequenos (macro e microporos) está relacionada com a quantidade de cada uma das partículas e de matéria orgânica que compõe o solo.

Tente imaginar uma caixa d’água cheia de bolas de futebol e uma cheia de bolinhas de pingue-pongue. Os espaços existentes entre as bolas de futebol são grandes enquanto que as bolinhas de pingue-pongue deixam pequenos espaços entre si.

Assim funciona nos solos arenosos, que apresentam uma grande quantidade de macroporos (grandes espaços), e nos solos argilosos, que têm uma infinidade de microporos (espaços pequenos).

Assim, fica claro o motivo de plantas cultivadas em solos arenosos sofrerem mais com o estresse hídrico. 

Esses solos perdem muita água por percolação (quando a água desce no solo até o lençol freático) se comparado a solos mais argilosos.

Agora que entendemos onde está a água do solo, vamos ver como ela se perde.

Perdas de água no solo

A água chega até o solo através das chuvas ou pela irrigação. Quando entra em contato com o solo, a água tem basicamente dois caminhos: infiltrar-se no solo ou escorrer pela superfície.

O que irá ditar quanto de água irá para cada caminho é o relevo (quanto mais inclinado, maior o escorrimento superficial) e a cobertura do solo.

Nesse primeiro momento, até 30% da água pode ser perdida por escorrimento superficial e não ficará disponível para as plantas do local.

A parcela da água que se infiltra no solo preencherá os macros e microporos (como visto antes) e estará disponível para as plantas.

Uma grande parte da água do solo (20% a 40%) é perdida por evaporação. Essa água, diferente da que é absorvida e transpirada pelas plantas, é uma perda que não gera produção.

Ilustração de sistema solo-planta-atmosfera

Sistema solo-planta-atmosfera
(Fonte: Esalq)

Como sabemos, a água é essencial para a produção agrícola e, perdê-la em vão, sem que ela sequer auxilie no ciclo da lavoura, pode ser um grande prejuízo. 

Importância de se fazer a cobertura de solo no inverno

O principal manejo que podemos adotar para impedir a perda de água por evaporação é cobrir o solo.

E como eu já expliquei anteriormente, as plantas cultivadas na safra de verão não fornecem palha nas quantidades necessárias para uma cobertura efetiva do solo.

Gráfico sobre a perda diária de água por evaporação em plantio convencional (PC) e plantio direto com 0,3 e 6 toneladas de palha por hectare (PD 0, PD 3 e PD 6 respectivamente).

Perda diária de água por evaporação em plantio convencional (PC) e plantio direto com 0,3 e 6 toneladas de palha por hectare (PD 0, PD 3 e PD 6 respectivamente).
(Fonte: Andrade, 2008)

Dessa forma, as safras de outono (clima tropical) ou de inverno (clima subtropical) são uma ótima saída para o cultivo de culturas de cobertura.

Não existe uma única cultura de cobertura que se adeque a todas as situações. A temperatura, o regime de chuvas e as culturas semeadas em sucessão determinarão a melhor espécie a ser escolhida.

Como regra geral, as culturas de cobertura devem apresentar:

  • fácil estabelecimento;
  • rápido crescimento; e 
  • proporcionar uma boa cobertura do solo. 

Outro fator a se considerar são as doenças e pragas potenciais da espécie e se elas atacam a cultura principal. 

De modo geral, o recomendado é optar por gramíneas em sucessão a leguminosas como a soja. 

Opções de culturas para cobertura do solo no inverno

Nas regiões tropicais do Centro-Oeste, a cultura do milheto é uma ótima opção, juntamente com o consórcio entre milho com forrageiras tropicais como as braquiárias.

Em regiões de maior déficit hídrico no Centro-Oeste, a cultura do sorgo pode ser uma opção mais viável para a segunda safra (consorciado ou em monocultivo).

Nas regiões subtropicais, a aveia tem sido uma das principais plantas de cobertura de inverno adotadas na região sul do Brasil, acompanhada do azevém e do centeio.

O que determina quando utilizar cada uma é a temperatura da região. 

A aveia é extremamente suscetível a geadas, enquanto o centeio é uma opção mais segura em regiões de baixas temperaturas no inverno. 

Essas plantas têm algo em comum: são todas gramíneas. Como já expliquei neste texto sobre plantio direto na palha, as gramíneas fornecem uma palha mais resistente à decomposição e que permanece por mais tempo cobrindo o solo.

Diferente das leguminosas (utilizadas na adubação verde), como o feijão guandu, a ervilhaca, etc., as gramíneas apresentam alta relação entre carbono e nitrogênio (C/N). Isso torna a decomposição do material mais lenta.

A safra de verão

No início do período das chuvas, a água volta a molhar o solo. Mas quando cai em solo descoberto, as gotas d’água irão “quebrar” os aglomerados de partículas que compõem o solo.

Quando ocorre a quebra desses aglomerados, a água que escorre leva junto com ela as partículas mais leves (argilas). E assim acontece a tão famosa erosão do solo.

A cobertura do solo com palha ajuda não só a diminuir as perdas de água por evaporação como também auxilia a conter a erosão e aumentar o percentual de água infiltrada nos poros do solo.

Na figura abaixo podemos ver como a taxa de infiltração no sistema plantio direto se mantém alta ao longo do tempo. 

Isso ocorre devido à proteção que a palha fornece contra o impacto das gotas de chuva, que perdem energia potencial, e pela infinidade de poros que as raízes das plantas de cobertura abrem no solo.

No preparo convencional há a quebra da continuidade desses poros. A camada revolvida fica mais porosa em um primeiro momento, mas, com as chuvas, a água destrói os aglomerados do solo e as partículas menores cimentam os poros.

Dessa forma, quando se utiliza o preparo convencional, está se limitando a capacidade de armazenamento de água do solo praticamente apenas à camada arável.

Imagine um perfil de um latossolo (o mais frequente no brasil) chegando facilmente entre 2 m e 3 metros de profundidade, sendo utilizado apenas nos primeiros 20 cm da camada superficial. Ou seja, um grande desperdício. 

Gráfico da taxa de infiltração de água (TI) em diferentes preparos de solo ao longo do tempo

Taxa de infiltração de água (TI) em diferentes preparos de solo ao longo do tempo
(Fonte: Leite, 2007)

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Conclusão

A cobertura do solo permite utilizar toda sua capacidade de armazenamento, o que favorece a lavoura. E essa diferença é sentida principalmente nos períodos de veranicos e de secas.

Neste artigo você viu que, antes de pensar na adubação ou em correção de solo, vale atentar-se à água. Ela é o principal fator limitante de produção, mas frequentemente é deixada de lado.

Nem sempre é preciso buscar soluções em novos produtos: adote novas práticas! A cobertura do solo é essencial na agricultura brasileira e permite aproveitar da melhor forma o ciclo das chuvas

Como muitos dizem: “uma boa safra começa na entressafra”!

>> Leia mais:

Rotação de culturas: vantagens e desvantagens dessa prática

Integração lavoura-pecuária: como implementar e tirar o melhor proveito

O que você precisa saber sobre a cobertura do solo com nabo forrageiro

Restou alguma dúvida sobre a cobertura de solo no inverno? Quais as culturas que você utiliza? Adoraria ler seu comentário!

One thought on “Por que realizar a cobertura de solo no inverno

  1. É PRECISO REVER ALGUMAS INDICAÇÕES . SOBRE DESSECAÇÃO 30 DIAS ANTES PLANTIO, AQUI SUL TOCANTINS NÃO DÁ, ENTÃO PRATICO APLIQUE DESSECANTE E PLANTO, TENHO BONS RESULTADOS, POIS CONSIGO COM MILHETO BONS RESULTADOS,TENDO EM VISTA QUE DESSECAR ANTES PROVOCA EMBUCHAMENTO PLANTADEIRA, SENDO QUE MILHETO AINDA VSERDE CORTA BEM E PLANTIO FICA MELHOR… GOSTARIA DE MAIS ESTUDOS S ISTO. CONSIDERANDO NOSSA SITUAÇÃO DE CLIMA CERRADO).

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