Tudo o que você precisa saber sobre tecnologia Bt e área de refúgio

Atualizado em 07 de outubro de 2020.
Tecnologia Bt: entenda sua importância e a resistência a insetos, saiba como implementar a área de refúgio em sua fazenda e outras dicas de manejo.

As áreas de refúgio são fundamentais caso você utilize a tecnologia Bt.

Essa prática, inclusive, é obrigatória por lei, como medida fitossanitária para o manejo da resistência de insetos.

Mas o que é exatamente a tecnologia Bt e como funciona a seleção de resistência de pragas a ela?

Você sabe por que é preciso fazer uma área de refúgio e como implantá-la na sua fazenda? Confira essas e outras informações a seguir:

Tecnologia Bt: plantas transgênicas

A tecnologia Bt confere às plantas a capacidade de resistir a determinados insetos-praga. Isso é feito por meio da biotecnologia, com inserção de genes da bactéria Bacillus thuringiensis, que produz uma proteína tóxica para alguns insetos.

A adoção de plantas transgênicas em culturas de interesse agronômico, como milho, soja e algodão, vem ganhando mercado dia a dia, principalmente pela praticidade em seu manejo. 

De acordo com a Céleres, a taxa de adoção de organismos geneticamente modificados passou de 9,2 milhões de hectares na safra 2005/06 para 53,1 mi/ha na safra 2019/200. 

gráfico de adoção da biotecnologia agrícola no Brasil por cultura/milhões de hectares (algodão, milho e soja)

Adoção da biotecnologia agrícola no Brasil por cultura/milhões de hectares
(Fonte: Céleres)

Para o milho, por exemplo, a projeção de uso de plantas transgênicas é de 88,9%, a maioria resistentes a insetos. 

Essa alta adesão das variedades transgênicas se deve à maior eficiência, facilidade, otimização de operações, entre outros que você já conhece.

As plantas com tecnologia Bt conferem resistência a insetos. No Brasil, temos sementes Bt para milho, soja e algodão, sendo a cultura do milho Bt a mais utilizada se comparada a outros países.

As tecnologias Xtend® e Enlist®, que devem chegar ao campo nas próximas safras, trarão novas proteínas de resistência a insetos.

Isso irá expandir a variedade de pragas e lagartas controladas pela tecnologia Bt, tanto em milho quanto em soja.

Principais pragas controladas pela tecnologia Bt

As principais pragas agrícolas controladas pelas plantas Bt de soja, milho e algodão são:

  • Lagarta-da-soja (Anticarsia gemmatalis);
  • Falsa-medideira (Chrysodeixis includens, Rachiplusia nu, Trichaplusia ni);
  • Vaquinha (Diabrotica speciosa);
  • Broca-das-axilas (Crocidosema aporema);
  • Lagarta-das-maçãs (Heliothis virescens); 
  • Lagarta-elasmo (Elasmopalpus lignosellus); 
  • Helicoverpa (Helicoverpa spp., incluindo a lagarta-da-espiga H. zea);
  • Lagarta-rosca (Agrotis ipsilon);
  • Lagarta-do-cartucho (Spodoptera frugiperda);
  • Lagarta curuquerê (Alabama argilacea);
  • Lagarta-rosada (Pectinophara gossypiella);
  • Spodoptera (Spodoptera eridania Spodoptera cosmioides);
  • Broca-do-colmo (Diatrea saccharalis).

O primeiro evento de milho transgênico resistente a insetos foi aprovado no Brasil em 2007, o qual expressa a proteína CryAb de Baccillus thuringiensis Berliner. Devido a isso, o nome “Bt”.

De lá para cá, outros eventos foram lançados e alguns devem sair nos próximos meses.

Para quem não se recorda, o termo “evento” significa  evento de transformação genética e vem do processo de obtenção de uma planta transgênica.

Nesse processo, cada planta produzida é denominada “evento de transformação genética” e é o resultado de uma única célula vegetal, na qual ocorreu a inserção do gene de interesse.

O gene que é introduzido na planta, produz a proteína com ação inseticida. Assim, os insetos morrem ao comer as plantas Bt que expressam essas proteínas inseticidas.

A partir do evento selecionado, é feita a multiplicação das plantas transformadas e, depois, suas sementes transgênicas são comercializadas.

Resistência de insetos à tecnologia Bt

Devido à alta adoção dessa tecnologia, muitas vezes sem as regras de segurança, pode haver resistência de pragas. Esse é o principal risco para a tecnologia.

Algumas práticas para que a resistência não se desenvolva já vêm ocorrendo por parte do melhoramento genético, como expressão de altas doses dessas proteínas inseticidas. 

Também há a incorporação de mais de um gene que expressa mais de uma proteína inseticida na planta (estratégia de “pirâmide de genes”).

Mas essas estratégias só vão dar resultado se o produtor também fizer sua parte, adotando as áreas de refúgio.

Na condição de cultivo em um país tropical como o Brasil, é possível plantar o ano inteiro. Isso faz com que exista alimento para os insetos o ano todo, possibilitando seu desenvolvimento contínuo.

Para piorar, as altas temperaturas possibilitam várias gerações ao ano, o que torna mais rápido o aparecimento de insetos resistentes.

S. frugiperda é o inseto com maior potencial para desenvolver resistência às toxinas Cry1Ab e Cry1F expressas em milho Bt; e Cry1Ac, Cry2Ab2 e Cry1F, expressas em algodão Bt. Uma das razões é sua alta taxa de reprodução.

Inúmeros estudos buscam entender a seleção de resistência das pragas a organismos geneticamente modificados.

Conforme pesquisa da Universidade Federal de Lavras, o processo de transmissão da proteína Bt pode ocorrer ainda nos ovos dos insetos. Pesquisadores da Esalq/USP e UFV, também comprovaram o potencial de evolução da resistência da lagarta-do-cartucho ao milho Yieldgard VT PRO.

Portanto, se nenhuma estratégia para manejo da resistência for adotada na lavoura, a seleção persistente de insetos resistentes será inevitável.

Se você usa tecnologia Bt, coloque a realização de áreas de refúgio em seu planejamento agrícola. Oriente seus vizinhos a utilizar a área de refúgio também, pois caso ele não utilize, pragas resistentes podem entrar em sua propriedade.

checklist planejamento agrícola Aegro

O que é área de refúgio para plantas com tecnologia Bt?

A área de refúgio nada mais é que o plantio de uma área da lavoura sem a tecnologia Bt. Na prática, você deve dividir sua lavoura em uma parte com tecnologia Bt e outra sem tecnologia.

Contudo, os dois híbridos devem apresentar o mesmo porte e ciclo vegetativo.

Essa área tem como objetivo evitar o desenvolvimento de insetos resistentes à tecnologia Bt – e para isso realmente funcionar a área deve seguir algumas regras.

Por isso, separei algumas informações para a implantação da área de refúgio em sua fazenda.

Como implementar uma área de refúgio?

Quando você utiliza uma tecnologia Bt, a área de refúgio é fundamental. Inclusive, essa prática é regulamentada pela Instrução Normativa nº 59, de 19 de dezembro de 2018.

Caso você não utilize o refúgio, pode ser penalizado, pois é medida fitossanitária para evitar o manejo da resistência de pragas.

Por isso, tenha cuidado na escolha do híbrido que vai utilizar com e sem tecnologia. Como já citei, eles devem apresentar algumas características semelhantes.

Outro ponto importante é a distância, pois a área de refúgio não deve estar a mais de 800 m de distância das plantas transgênicas.

Esta é a distância máxima verificada pela dispersão dos adultos de insetos no campo para que se tenha os cruzamentos de adultos sobreviventes da lavoura Bt com insetos da área de refúgio.

Para obedecer à regra, você pode realizar o plantio dos híbridos sem a tecnologia de duas maneiras:

imagem que mostra a implantação da tecnologia bt sendo A) Plantio realizado em faixas ou no perímetro da lavoura; B) Em áreas irrigadas com pivô, o plantio pode ser realizado em faixas ou em parte da área

Como implementar o refúgio: A) Plantio realizado em faixas ou no perímetro da lavoura; B) Em áreas irrigadas com pivô, o plantio pode ser realizado em faixas ou em parte da área
(Fonte: adaptado de Embrapa Milho e Sorgo)

Assim, as áreas de refúgio servem como reservatório de insetos suscetíveis à tecnologia Bt.

Qual o tamanho da área de refúgio?

Para determinar o tamanho da área de refúgio em sua propriedade, o primeiro passo é consultar qual evento foi utilizado.

A empresa detentora da tecnologia Bt irá indicar qual a porcentagem da área deve ser de refúgio, conforme indica a legislação.

Normalmente, a indicação é de 20% para soja, cana-de-açúcar e algodão, em média, e de 5% a 10% para milho.

Fique atento à recomendação no momento da compra de suas sementes.

Refúgio e resistência na lavoura de milho

A utilização de áreas de refúgio em milho é fundamental para a manutenção da tecnologia Bt e para evitar possíveis casos de resistência.

Inúmeros estudos comprovam a eficiência da utilização de áreas de refúgio no milho em áreas que utilizam a tecnologia Bt.

Contudo, já observamos a quebra de resistência à proteína Cry1F.

Essa possível perda da tecnologia pode ser oriunda de lavouras que desrespeitaram a lei e não utilizaram corretamente as áreas de refúgio. Ou pode ter havido negligência no momento da instalação da área.

Um exemplo, é a lagarta-do-cartucho do milho resistente à proteína Cry1F.

Para evitar possíveis outros casos de resistência no milho, pesquisadores alertam produtores a realizar o MIP (Manejo Integrado de Pragas), a instalação da área de refúgio corretamente e realizar constantemente o monitoramento de sua lavoura.

Dicas para o manejo em áreas de refúgio para plantas Bt

As áreas de refúgio para plantas com tecnologia Bt devem ser conduzidas como toda a lavoura convencional, com o uso de fertilizantes, pulverizações de herbicidas, fungicidas e inseticidas.

O controle de pragas na área de refúgio pode ser feito por vários métodos, exceto com a utilização de bioinseticidas à base de Bt.

Separei algumas dicas que podem lhe auxiliar no manejo de sua área de refúgio:

  • elimine plantas daninhas, pois elas podem ser hospedeiras de pragas resistentes;
  • realize o monitoramento de pragas constantemente, isso irá facilitar o manejo;
  • evite a aplicação constante de inseticida. Quanto maior o número de aplicações, menor sua efetividade para evitar o desenvolvimento de resistência dos insetos;
  • realize a rotação de culturas;
  • realize o Manejo Integrado de Pragas, evitando fazer apenas um tipo de controle.

Conclusão

A utilização da área de refúgio é fundamental para manutenção da tecnologia Bt e para evitar possíveis casos de resistência em sua fazenda.

Nesse artigo, falamos sobre a tecnologia Bt e as pragas controladas por ela. Mostramos ainda a importância da área de refúgio e como implantá-la em sua propriedade.

Lembre-se que, apesar do processo de seleção de populações resistentes ocorrer dentro de cada propriedade, os insetos se dispersam por toda a região, fazendo com que os prejuízos sejam para todos.

Assim, mesmo que na sua fazenda você tenha implantado áreas de refúgio e realizado o MIP, se os seus vizinhos ainda não estão fazendo isso, você também poderá ter problemas.

Por isso, é preciso da compreensão de todos e a ação conjunta!

Você utiliza sementes com a tecnologia Bt? Restou alguma dúvida sobre área de refúgio? Deixe seu comentário!

Atualizado em 07 de outubro de 2020 por Rayssa Fernanda dos Santos
Agrônoma pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), mestra em fitotecnia pela Esalq/USP, doutoranda em agronomia pela Universidade Estadual de Maringá (UEM), ênfase em produção vegetal, e com MBA em Marketing.

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