Agricultura de baixo carbono: o que é e como fazer? 

Agricultura de baixo carbono: o que é, por que é importante ter tecnologias que reduzem o carbono, como aplicar ao campo, seus benefícios ao produtor e ao meio ambiente e mais! 

A agricultura brasileira é uma das principais fontes de alimento para o mundo. A variedade de culturas produzidas no Brasil, assim como sua quantidade, são alguns dos fatores para esse destaque mundial.

Entretanto, há alguns anos, a atenção do mundo tem se voltado para o clima — mais precisamente, para o aquecimento global.

Nesse sentido, a agricultura vem sendo pressionada e também tem pressionado medidas para minimizar os efeitos que os gases do efeito estufa (GEE) vem causando no planeta.

Para entender melhor esse cenário, confira neste artigo o que a agricultura tem a ver com a redução do carbono e por que, apesar de ser alvo de críticas, tem sido um dos principais setores a adotar técnicas para reduzir os impactos do aquecimento global.

Por que existem e quais são as tecnologias de baixo carbono na agricultura?

A agricultura tem recebido uma série de demandas da população mundial por causa dos moldes de sua produção. Com isso, alguns países têm incentivado formas de produção mais sustentável.

Isso ocorre por causa das mudanças climáticas, principalmente nos últimos anos, com chuvas acima da média, secas, geadas, granizos e outras intempéries que pressionam a agricultura, pois algumas atividades rurais emitem gases causadores do efeito estufa.

Entretanto, ao contrário do que muitos pensam, a agricultura quer e precisa pressionar o desenvolvimento de tecnologias acessíveis aos produtores, para que eles adotem ações de mitigação dos GEE, pois as mudanças climáticas afetam diretamente a produção de alimentos.

Desse modo, políticas mundiais estão buscando a adoção de tecnologias agropecuárias sustentáveis para que este problema seja reduzido.

No Brasil, foi criado o Plano Setorial de Mitigação e de Adaptação às Mudanças Climáticas para a Consolidação de uma Economia de Baixa Emissão de Carbono na Agricultura, resumidamente denominado Plano ABC.

“Este plano tem por finalidade a organização e o planejamento das ações a ser realizadas para a adoção das tecnologias de produção sustentáveis, selecionadas com o objetivo de responder aos compromissos de redução de emissão de GEE no setor agropecuário assumidos pelo país”, segundo o governo brasileiro.

Para atender à sua finalidade, esse plano criou seis programas de tecnologia focados em mitigar os efeitos climáticos; e um último programa voltado à adaptação, visto que a mudança climática vem ocorrendo em maior escala.

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Plano ABC criado com a finalidade criar uma agricultura de baixo carbono no Brasil
(Fonte: MAPA)

Como as tecnologias agrícolas contribuem para a redução do carbono? 

O primeiro ponto a ser entendido é responder a seguinte pergunta: o que é carbono na agricultura? 

Para dar essa resposta, precisamos lembrar que o carbono tem sido um vilão, pois os principais gases responsáveis pelo efeito estufa são dióxido de carbono (CO2), metano (CH4) e óxido nitroso (N2O), e a agricultura e pecuária são grandes responsáveis pela emissão destes três gases.

Agora, voltando à pergunta, o carbono na agricultura é fundamental. Ele está presente no solo e na planta. E, por estar presente no sistema de produção, o carbono pode ser “resgatado” ou liberado para o ambiente.

Na agricultura, o carbono é liberado pelo processo de revolvimento do solo, como aração e gradagem, pelo uso de adubos nitrogenados, pelo desmatamento, por pastagens degradadas, pela exposição do solo e pelo diesel utilizado nos maquinários

Devido a esses fatores, foram desenvolvidas aquelas seis tecnologias presentes no Plano ABC, para que ocorra o “resgate” deste carbono atmosférico ou ao menos a sua redução.

A palavra “resgatado” se refere ao fato de as plantas utilizarem gás carbônico (CO2) no processo de fotossíntese, retirando esse carbono da atmosfera.

Esse carbono passa a ser parte constituinte das plantas, raízes, ramos e folhas, que, no momento da sua decomposição, passam a ser componentes do solo, pois se ligam aos minerais de argila, onde são utilizados pelos microrganismos do solo.

Para entender melhor como fazer uma agricultura de baixo carbono, vamos nos basear em quatro dos programas de tecnologias dispostas no Plano ABC, abordando onde e como cada um contribui para a redução do carbono.

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Programa 1: Recuperação de Pastagens Degradadas

Neste programa, a redução do carbono ocorre por meio da conservação do solo, pois, em áreas degradadas, o solo fica exposto, tem pouca matéria orgânica e é geralmente compactado, o que reduz a vida de seus microrganismos e prejudica o desenvolvimento das plantas.

Assim, em solos nestas condições, a retenção de carbono é reduzida drasticamente, favorecendo mais a sua liberação do que a sua retenção.

A consequência da recuperação de pastagens é maior quantidade de plantas saudáveis e matéria orgânica, maior quantidade e diversidade de microrganismos no solo e menor compactação.

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Pastagem degradada à esquerda e recuperada à direita
(Fonte: Embrapa)

Programa 2: Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (iLPF) e Sistemas Agroflorestais (SAFs)

Os sistemas de integração têm como finalidade a ocupação de terra com diferentes formas de produção agrícola e pecuária.

Em uma mesma área, há presença de árvores, culturas agrícolas (soja, milho, frutíferas e hortaliças) e também pode haver criação de gado, ovinos ou caprinos, o que confere diversidade ao meio ambiente.

Com isso, o solo tem sempre uma cultura ou restos de culturas; e, consequentemente, menor risco de erosão, maior ciclagem de nutrientes, pela presença de matéria orgânica proveniente das árvores e das culturas, e maior fixação de carbono e nitrogênio, tanto devido à presença de microrganismos do solo quanto pela respiração das plantas.

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Exemplo de Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (iLPF) (Fonte: Embrapa)

Programa 3: Sistema Plantio Direto (SPD)

Para adotar um sistema de plantio direto, o principal é o não revolvimento do solo, fator este que já contribui bastante para a redução de carbono.

Além disso, para que o sistema tenha funcionalidade, fazer adubação de cobertura é praticamente fundamental, pois as plantas conseguem ajudar a reciclar os nutrientes do solo, gerando matéria orgânica e contribuindo para a retenção de carbono.

Com solo mais equilibrado nutricionalmente, há redução da adubação, o que também é um fator que favorece a liberação do carbono. A boa condução deste sistema, com o passar dos anos, reduz a adubação das culturas.

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Sistema de plantio direto – não revolvimento do solo (Fonte: Embrapa)

Programa 4: Fixação Biológica de Nitrogênio (FBN)

A fixação biológica de nitrogênio é amplamente conhecida pelos agricultores — principalmente pelos que produzem soja.

O nitrogênio fornecido para as plantas por meio da simbiose com as bactérias é o que faz a cultura da soja rentável, pois economiza cerca de 588 kg uréia/ha.

Além da soja, outras culturas podem se beneficiar dessa simbiose, como feijão, milho, alfafa, cana-de-açúcar, entre outras.

A fixação contribui para a redução dos gases do efeito estufa devido à economia gerada pela menor utilização de adubos nitrogenados.

Os adubos nitrogenados, principalmente a ureia, podem gerar liberação do N para a atmosfera por meio da volatilização da amônia e de óxido nitroso (N2O) — este último, um dos principais gases causadores do efeito estufa.

exemplo de perda de nitrogênio na agricultura de baixo carbono
Exemplo da perda de nitrogênio para a atmosfera (Fonte: A Granja)

Benefícios da adoção de práticas para redução de carbono

Como foi discutido ao longo do texto, as práticas da agricultura de baixo carbono são importantes para a redução da emissão dos gases causadores do efeito estufa.

Sua importância é tanto social quanto climática, pois seus efeitos afetam diretamente a produção agrícola mundial.

Entretanto, as práticas que minimizam a emissão dos GEE trazem outros benefícios para os produtores rurais, como, principalmente, o aumento da produção.

Com a recuperação de pastagens degradadas, a quantidade de animais por hectare pode duplicar.

O uso de bactérias capazes de fixar nitrogênio nas plantas reduzem a quantidade de adubos nitrogenados e, devido à menor quantidade de adubo, geram economia para o produtor, além de ter um melhor aproveitamento do N advindo das bactérias.   

Não revolver o solo no SPD, além dos benefícios na agricultura de baixo carbono, também aumenta a palhada deixada no solo, que favorece a manutenção da umidade, a vida dos microrganismos e outros benefícios que aumentam a produtividade de diversas culturas. 

Outro benefício da agricultura de baixo carbono é o incentivo do governo por meio do Programa ABC, que é uma linha de crédito para que esses programas tecnológicos sejam implantados nas áreas agrícolas.

Essas linhas de crédito são fornecidas com taxas de juros menores para os produtores que buscam fazer atividades que reduzam a emissão dos GEE.

Outras práticas que podem gerar renda para o produtor brasileiro são os créditos de carbono. Essa remuneração pela redução dos GEE já é uma realidade em alguns países.

Para saber mais sobre esse crédito, leia o seguinte texto aqui no blog: Saiba o que é o sequestro de carbono na agricultura e como se beneficiar dele.

Conclusão

Neste texto, abordamos as principais tecnologias para a realização de uma agricultura de baixo carbono

Também falamos do impacto da agricultura na emissão dos gases causadores do efeito estufa, contribuindo negativamente e positivamente nesse cenário.

Exemplificamos algumas práticas agrícolas que contribuem para a redução de carbono e como ocorre essa redução.  

Por fim, mostramos outros benefícios que o produtor obtém ao realizar uma agricultura de baixo carbono em suas áreas.

>> Leia mais:

“Sequestro de carbono na agricultura e como se beneficiar dele”

“Consequências das queimadas no solo e os impactos para a agricultura”

“Agrometeorologia: saiba como ela é importante para a produtividade da lavoura”

Você já conhecia a agricultura de baixo carbono? Aproveite para compartilhar este artigo com a equipe que te ajuda a cuidar da lavoura.

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