Interpretação de análise de solo: O que fazer para garantir uma adubação mais efetiva nas lavouras de soja, café e cana-de-açúcar.

 

Cada lavoura precisa de uma quantidade de nutrientes para ter o melhor rendimento. E você sabe que a adubação de um ano não serve para a safra seguinte.

Para determinar tudo isso, é preciso mais que uma boa análise de solo. Precisamos interpretar essa análise.

Mas como fazer isso? Quais macro e micronutrientes mais importantes para sua cultura? E balanço deles?

Neste artigo, vamos explicar a interpretação de análise de solo, considerando as culturas da soja, café e cana-de-açúcar. Confira a seguir.


 

Análise de solo: Importância e tipos de análise

No Brasil, a maior parte dos solos não apresenta condições químicas naturais para o desenvolvimento das culturas.

E mesmo que o solo possua grande quantidade de nutrientes, com o tempo e com sucessivos plantios, isso diminui.

Para determinar a quantidade de nutrientes no solo da sua propriedade, você precisa realizar a análise de solo.

Ela é de extrema importância para identificar a fertilidade do solo.

E, com os resultados dessa análise, você consegue repor o que falta de nutriente para a produção da cultura pretendida.

Desta forma, você sabe quais nutrientes estão em nível adequado e quais estão em baixo nível para a cultura, aumentando as chances de sucesso e lucro com sua lavoura.

Existem 3 análises de solo que são mais utilizadas:

Na análise química do solo é determinada a fertilidade, ou seja, a acidez e a disponibilidade de nutrientes para as plantas.

Já a análise física (granulométrica) determina os teores de areia, silte e argila no solo. Para caracterizar a textura do solo da sua propriedade, a análise física deve ser realizada apenas uma vez na área.

A análise química das plantas identifica possíveis deficiências, toxicidades e ainda distingue sintomas provocados por doenças devido a problemas nutricionais. Assim, com esta análise é possível verificar a interação solo-planta-clima.

As análises foliares são realizadas durante o ciclo da cultura para verificar a nutrição e ajudar a diagnosticar se há algum problema com a sua lavoura.

Essa análise é utilizada para complementar as análises de solo.

interpretação de análise de solo
(Fonte: Base)

Neste artigo vamos focar na análise química do solo. Mas, antes de realizar a análise do seu solo, veja alguns pontos importantes.

 

Pontos importantes para uma boa análise química de solo

A análise de solo é super importante para a sua lavoura, mas precisa ser bem feita. Veja algumas dicas para uma boa análise química de solo:

Época de análise

A análise química do solo deve ser realizada antes da implantação da lavoura. Assim há tempo de planejar e executar as operações de preparo do solo como: calagem, gessagem e adubação, conforme os dados obtidos na análise.

Um período ideal para realizar a análise de solo é na entressafra, cerca de 3 meses antes de iniciar o plantio da cultura.

 

Amostragem

Sua propriedade não é homogênea: há diferenças no solo, nas plantas cultivadas, no manejo e outros.

Por isso, é muito importante você definir as áreas que irá amostrar.

Existem vários métodos para isso e você deve escolher o que melhor se enquadra na sua propriedade.

Após determinar as áreas de amostragem, realize a coleta das subamostras dentro da área estabelecida.

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Divisão da propriedade em áreas homogêneas e caminhamento para a coleta das subamostras
(Fonte: Embracal)

 

Após a coleta dessas subamostras (amostras simples), elas devem ser misturadas para a obtenção da amostra composta e retirada de uma porção para a amostra final que será enviada para o laboratório.

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(Fonte: Calcário solo fértil)

 

Escolha do laboratório

Envie as amostras para um laboratório de confiança. Aqui no blog nós falamos “Tudo o que você precisa saber para acertar na escolha do laboratório de análise de solo”.

 

Análise física

Quando você não conhece a textura do solo da sua propriedade, realize a análise física do solo.

 

Profundidade da amostragem do solo

Culturas anuais e pastagens: Amostragem na camada de 0-20 cm;

Pastagens já estabelecidas: 0-10 cm;

Culturas perenes: 0-20, de 20-40 e de 40-60 cm;

Áreas com suspeita de acidez em subsuperfície: amostre o perfil do solo até 60 cm de profundidade.

Essa profundidade pode variar de acordo com o tipo de cultivo e solo da sua propriedade.

 

Frequência de análise

Recomenda-se realizar a análise química do solo anualmente, se for em um solo com exploração de culturas anuais.

Em solos arenosos e que recebem maiores aplicações de fertilizantes e corretivos, recomenda-se realizar com maior frequência.

Você pode realizar um análise completa do solo (com a avaliação de macro e micronutrientes) ou uma análise básica de rotina (quando você tem alguma informação da área).

É interessante que pelo menos a análise básica seja feita anualmente, como já comentamos, sendo que a completa você pode fazer a cada, pelo menos, 3 anos.

 

Análise química de solo nas culturas agrícolas

Cada espécie de planta precisa de uma quantidade de nutriente. Umas precisam de mais nitrogênio, outras de menos fósforo, e assim por diante.

Mas além de saber o que a planta precisa, também é necessário saber quanto desses nutrientes estão sendo disponibilizados no solo.

Além disso, é preciso conhecer o solo da sua lavoura, pois cada região tem diferentes características.

Então, realizar a adubação é importante para suprir os nutrientes que faltam no solo para o desenvolvimento da planta. Além disso, não esqueça que calagem e gessagem são procedimentos importantes para o solo.

Mas, você sabe que a adubação é um item caro no ciclo da sua lavoura. Por isso, é importante realizar de forma correta.

E não pense que a adubação é igual de um ano para outro ou que é só seguir como se fosse uma receita de bolo. Ela depende da análise de solo e de outros fatores.

Veja os fatores que devem ser levados em consideração para a interpretação de análise de solo:

    • Estado ou região da área amostrada na análise de solo: há tabelas que variam de estado ou região do país para uma determinada cultura;
    • Quantidade de produção que pretende produzir com a cultura;
    • Histórico da área (adubação);
    • Tipo de cultivo;
    • Custo do adubo;
    • Tipo de método utilizado no laboratório de análise de solo;
    • Profundidade da amostragem do solo;
    • Granulometria do solo (análise física) e outros.

Por isso, é importante você consultar um(a) Eng. Agrônomo(a) para te auxiliar na interpretação da sua análise de solo.

interpretação de análise de solo
(Fonte: Fertilidade do solo)

 

Interpretação de análise de solo: Principais itens

  • Macronutrientes primário: N; P; K
  • Macronutrientes secundário: Ca, S, Mg
  • Micronutrientes: B, Cl, Cu, Mn, Mo, Zn
  • Valores de pH (acidez ativa): é a concentração de hidrogênio em solução do solo. Dependendo do laboratório realiza a análise em água ou em CaCl2.

interpretação de análise de solo
(Fonte: Incaper)

É importante lembrar também que, dependendo do pH do solo, ocorre alteração na disponibilidade de nutrientes.

interpretação de análise de solo(Fonte: Malavolta, 1979, em Agronomia com Gismonti)

 

  • Al3+ (Alumínio): indica acidez trocável
  • H + Al (acidez potencial ou total): é a acidez trocável e não trocável
  • SB (soma de bases) = K + Ca + Mg + Na
  • V % (saturação por bases): é a proporção da troca catiônica ocupada por bases  V%= [Soma de bases (K + Ca + Mg + Na) x 100 ]/CTC
  • CTC total (capacidade de troca catiônica): medida em ph 7 = SB + (H+Al)
  • t (CTC efetiva) = SB + Al
  • mt (Saturação por Al3+)= 100xAl3+/t
  • M. O. (matéria orgânica)

 

Várias instituições realizam pesquisas sobre a quantidade de nutrientes para cada planta, adubação das culturas para cada região ou estado.

Com essas pesquisas são desenvolvidas tabelas de adubações que apresentam teor e disponibilidade de nutrientes, granulometria do solo e outras informações.

Essas tabelas podem te auxiliar na interpretação de análise de solo para realizar a adubação.

Identifique o resultado da análise do solo da sua propriedade e verifique na tabela de adubação qual o nível do nutriente.

Olhe se está baixo, médio ou alto em teores de nutrientes e qual a recomendação de adubação.

Uma importante observação é identificar se as unidades dos elementos expressos no resultado da sua análise de solo estão em unidades iguais às das tabelas de adubação. Isso vale também para realizar os cálculos.

A tabela abaixo pode te auxiliar na conversão de unidades para a interpretação da análise de solo:

interpretação de análise de solo
(Fonte: IAC)

 

Interpretação de análise de solo e adubação para soja

Para a cultura da soja é importante relembrar que um importante nutriente é o Nitrogênio.

Mas, este nutriente tem como principal fonte a fixação biológica, que são bactérias nos nódulos das raízes que fixam o N do ar e disponibilizam para a planta. Por este motivo, normalmente, não se utiliza adubação nitrogenada para soja.

A interpretação da análise de solo para os outros macronutrientes, Fósforo (P) e Potássio (K), depende da região.

Lembrando que, dependendo da região do laboratório da análise do solo, é utilizado um tipo de extrator (Mehlich-1 ou P resina). Por isso, é importante ficar atento a esse fator.

Veja um exemplo para o estado de São Paulo, que utiliza a produtividade esperada para determinar a recomendação da adubação de P e K e o extrator é o P resina.

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Adubação mineral de semeadura para o Estado de São Paulo
(Fonte: Mascarenhas e Takana em Embrapa)

 

Já para o Paraná, utiliza-se a quantidade de argila para indicação da adubação com P e K. O extrator é o Mehlich-1.

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Indicação de adubação com teores de potássio e fósforo para a soja no Estado do Paraná em solos com teor de argila >40%1
(Fonte: Sfredo et al. (1999) em Embrapa)

 

Você pode observar que para cada Estado há um tipo de extrator e um método utilizado para determinar a adubação. Em São Paulo, foi a produtividade esperada e, no Paraná, a quantidade de argila no solo.

Por isso, lembre-se que: a análise de solo não é uma receita! Para cada área e região há uma interpretação.

Além da análise de K e P, também é frequente a adubação de soja com S e micronutrientes, o que depende dos resultados na análise de solo.

 

Interpretação de análise de solo e adubação para café

Para a cultura do café, um exemplo de interpretação da análise de solo é para o nutriente P. Na primeira tabela é definida a classe de fertilidade de solo de acordo com a sua análise de solo. E, na segunda tabela, com essa classe de fertilidade de solo e com a produtividade esperada, você determina a quantidade de adubação desse nutriente na sua área.

A classe de fertilidade é determinada pela porcentagem de argila ou pelo P-remanescente (capacidade de adsorção de P do solo, isto é, o quanto do P aplicado é retido pelas argilas do solo). Veja o exemplo da tabela abaixo para a região de Minas Gerais.

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Classes de fertilidade para fósforo, em função do teor de argila ou do valor de fósforo remanescente (P-rem)
(Fonte: Emater – MG)

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Quantidade requerida de fósforo para o cafeeiro em produção, de acordo com a faixa de produtividade e em função de seu teor no solo
(Fontes: Emater – MG)

 

Não se esqueça que outros macro e micronutrientes também devem ser observados para a interpretação de análise de solo e a para a adubação na cultura do café.

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Padrões referenciais médios para avaliação de resultados de análise de solos e análise foliar na cultura do café
(Fonte: Fundação Procafé)

 

Interpretação de análise de solo e adubação para cana-de-açúcar

Para a cultura da cana-de-açúcar há vários nutrientes importantes. Um nutriente essencial é o P, que é imprescindível para a produtividade da cultura, principalmente para a brotação da planta.

Para definir a adubação fosfatada para essa cultura, veja a tabela abaixo. No exemplo, a adubação é determinada de acordo com a produtividade esperada e com extrator em P-resina.

Lembre-se que há outras tabelas para a recomendação da adubação, essa é somente um exemplo.

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Valores acima são de recomendação de adubação fosfatada para cana-planta
(Fonte: Boletim 100 IAC)

A aplicação de fósforo na cana-soca depende muito da análise do solo da soqueira.

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Recomendação de adubação fosfatada para cana-soca
(Fonte: Boletim 100 IAC)

Lembre-se de verificar a análise para outros nutrientes essenciais para a plantação de cana-de-açúcar.

Veja na tabela abaixo as faixas de macro e micronutrientes para a cana-de-açúcar:

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(Fonte: Tabela adaptada do livro Adubação da cana-de-açúcar: 30 anos de experiência, Penatti, 2013)

Interpretação de análise de solo para cálculo de calagem e Gessagem

A calagem e a gessagem são técnicas importantes para a agricultura.

A calagem é importante para a correção do solo, principalmente ácidos.

E a gessagem é utilizada como condicionador de solo, promovendo melhoria das propriedades físicas, físico-químicas ou da atividade biológica do solo, principalmente nas camadas subsuperficiais.

Vamos relembrar como você pode interpretar e calcular a necessidade de calagem na sua lavoura.

Veja o cálculo da calagem para o Método de Saturação por Bases:

 

NC = [CTC x (V2 – V1) x (100/PRNT)] / 100

 

NC = Necessidade de calcário, em t/ha;

CTC = CTCpH7 (capacidade de troca de cátions) em cmolc/dm3;

V2 = Porcentagem de saturação por bases desejada;

V2 pode variar de 50 a 70%, sendo em geral:

50% para cereais e tubérculos;

60% para leguminosas e cana-de-açúcar e utilizado no Cerrado;

70% para hortaliças, café e frutas.

V1 (V%) = Porcentagem de saturação por bases atual do solo (encontrada na análise do solo);

PRNT = Poder Relativo de Neutralização Total (encontrado na embalagem do calcário).

 

Supondo os valores abaixo para calcular um exemplo de necessidade de calagem:

interpretação de análise de solo

Considerando que a cultura seja soja, uma leguminosa, V2=60% e que meu calcário tem PRNT = 90%:

NC = [CTC x (V2 – V1)] x (100/PRNT) / 100

NC = [15 x (60 – 25) x (100/90)] / 100 = 5,8 t/ha

Assim, você deve aplicar 5,8 toneladas de calcário por hectare.

 

Para a necessidade de gessagem vou apresentar um método de cálculo de gesso baseado na Saturação por bases (V) e CTC nas camadas subsuperficiais (Demattê, 1986; Vitti et al., 2008):

NG = [(V2-V1) x CTC] / 500

 

NC = necessidade de gesso kg/ha;

V2 = Saturação por bases esperada (%);

V1 = Saturação por bases atual na camada 20-40 cm (%);

CTC = capacidade de troca catiônica na camada de 20-40 cm.

 

Essas recomendações e tabelas te auxiliam no planejamento e na tomada de decisão na sua lavoura, mas tenha em mente que cada caso é um caso!

Ou seja, em cada área é utilizado um tipo de adubação, calagem e gessagem de acordo com a análise de solo e dos fatores que interferem na interpretação de análise de solo.

 

Conclusão

Fazer uma correta interpretação de análise de solo é fundamental para o bom desenvolvimento da atividade agrícola.

Neste artigo, discutimos o que considerar na análise do solo de sua lavoura nos casos de soja, café e cana-de-açúcar.

Também mostramos os cálculos para calagem e gessagem, se necessárias para sua propriedade.

Com essas informações e com sua análise de solo em mãos, faça uma boa interpretação e aumente as chances de lucro com a sua lavoura!

 

Você tem dificuldade com a interpretação de análise de solo? De quanto em quanto tempo você refaz a análise? Deixe seu comentário!