Tripes em soja: o que é, danos causados, transmissão de viroses e quais cuidados você deve ter durante o cultivo para evitar perdas
As tripes são pragas secundárias da cultura da soja, o que significa que, apesar de causarem danos, os prejuízos econômicos não são tão expressivos. Porém, esses insetos podem ser responsáveis por uma grande redução de produtividade, especialmente em longos períodos de estiagem e em solos de baixa fertilidade.
Essa praga pode transmitir viroses e deixar lesões que servem de porta de entrada para outros patógenos, como fungos e bactérias.
Neste artigo, você lerá sobre as características das tripes e sobre aspectos importantes na tomada de decisão do controle a ser utilizado.
Índice do Conteúdo
- 1 O que são tripes: características biológicas da praga
- 2 Caliothrips brasiliensis e Caliothrips phaseoli
- 3 Frankliniella schultzei
- 4 Identificação e danos causados pelas tripes em soja
- 5 Controle de tripes em soja: quando e de que forma fazer
- 6 8 pontos importantes sobre o controle de tripes em soja
- 7 Controle químico: melhores inseticidas para tripes
- 8 Conclusão
O que são tripes: características biológicas da praga
As tripes são pequenos insetos da família Thripidae, que possui mais de 290 gêneros e duas mil espécies. Podem ser de colorações variadas – marrons, brancas, bege-claras, amareladas ou pretas. Diversas espécies de tripes podem ser encontradas nas plantas de soja, com destaque para Caliothrips brasiliensis, C. phaseoli e Frankliniella schultzei.
As ninfas, que eclodem dos ovos, têm aparência semelhante aos insetos adultos e parte de seu ciclo de vida ocorre no solo.
Costumam se abrigar em folíolos novos e interiores e na face inferior das folhas. Atingem a fase adulta entre oito e nove dias após a fase de ninfa.
Se alimentam dos tecidos vegetais e possuem um estilete em seu aparelho bucal raspador. Esse aparelho raspa a epiderme, suga a seiva e causa posterior morte do tecido.
Possuem corpo alongado e asas franjadas, ligeiramente transparentes, medindo entre 1 mm a 3 mm de comprimento.

Corpo característico das tripes: alongado e um par de antenas
(Fonte: SOSA-GOMEZ et al., 2013)
Caliothrips brasiliensis e Caliothrips phaseoli
Ambas as espécies são encontradas de forma mais abundante na cultura da soja no Sul do Brasil.
Caliothrips phaseoli é uma espécie polífaga, capaz de causar danos em diversas culturas de interesse agrícola, como feijão, soja e outras fabáceas.
Caliothrips brasiliensis causa danos em algodão, feijão, soja, amendoim e ervilha.
Os adultos medem cerca de 1 mm de comprimento, e possuem coloração amarelada. Ninfas e adultos se alimentam da seiva das plantas, que se tornam amareladas e deformadas e sofrem queda prematura.
Quando associados a outras pragas, como ácaros, foram relatadas reduções significativas de 50% na taxa de fotossíntese.
Localizados no extrato superior no estádio R5 da cultura (início do enchimento dos grãos) 73 tripes/folíolo ocasionam perdas de 17% no rendimento da cultura.

Caliothrips brasiliensis causando lesões características prateadas em soja. Adulto (a), ninfa (b) e sintomas de raspagem das folhas (c)
(Fonte: SALVADORI et al., 2007)
Frankliniella schultzei
Vem sendo relatada com frequência em infestações elevadas em regiões da Bahia, especialmente no oeste.
Ovos de Frankliniella schultzei são introduzidos no interior do tecido epidérmico das folhas, com eclosão em média quatro dias após.
As fêmeas ovipositam de 20 a 139 ovos durante o seu ciclo de vida, com duração de 9 a 18 dias, a depender da temperatura e umidade relativa do ar. Em temperaturas mais elevadas, o ciclo é acelerado.
Ambas as fases, adulta e ninfa, provocam danos por raspagem na superfície foliar. Podem causar ainda, danos nas flores, causando sua esterilidade e aspecto de coloração avermelhada.
Na fase reprodutiva, atingem seu maior nível populacional, sendo indispensável o monitoramento prévio.

Vista dorsal de Frankliniella schultzei
(Fonte: KAKKAR et al., 2010)
Identificação e danos causados pelas tripes em soja
Reduções entre 10% a 25% na produtividade da cultura foram registradas quando o controle adequado das tripes não foi feito.
De forma geral, elas provocam lesões em faixas ou estrias, de coloração escura ao longo do caule das vagens, curvamento dos ponteiros e bronzeamento das folhas, além das manchas características prateadas.
São disseminadas pelo vento, e embora possuam asas na fase adulta, sua capacidade de voo é considerada baixa.

Tripes em soja
(Fonte: Manual de Pragas da Soja)
Danos diretos
As tripes causam manchas esbranquiçadas no feixe, com áreas de coloração prateada, que evoluem para manchas bronzeadas, marrons e posteriormente necrosadas.
Danos e infestações de níveis populacionais diferentes podem ser observados para cultivares distintas.
Danos indiretos
Um dano indireto é a transmissão do vírus TSV (tobacco streak vírus), responsável pela “queima-do-broto” apical da planta, que pode acarretar até 100% de perdas na lavoura.
O TSV afeta o desenvolvimento das plantas, deixando-as com porte reduzido, atrofiado, reduzindo consideravelmente a produtividade. No entanto, apenas as fases adultas são capazes de transmitir o vírus ao longo da área de produção.

Infestação de cravorana em lavoura de soja
(Fonte: KLENJI, C. A., 2020)
A maior ocorrência do TSV é relatada nas regiões do Paraná e São Paulo, devido principalmente à presença de plantas daninhas hospedeiras perenes e semiperenes.
Essas plantas favorecem a reprodução nas demais épocas do ano, como a cravorana (Ambrosia polystachya).

Sintomas do vírus TSV, transmitido por tripes, em vagens de soja (esquerda), com lesões necróticas características em formato de estrias e em grãos (direita)
(Fonte: MUELLER, D., 2013)
Controle de tripes em soja: quando e de que forma fazer
As tripes em soja reduzem a área fotossinteticamente ativa das plantas, especialmente no terço inferior (baixeiro), nos estádios vegetativo e reprodutivo.
Causam lesões em vagens e prejudicam triplamente o enchimento dos grãos, pela diminuição da área foliar, perda de água pelas lesões, aceleração do ciclo da cultura e redução do peso.
Esses danos diminuem a qualidade dos grãos e aceleram a sua deterioração.
A decisão de controle de tripes através de inseticidas deve considerar alguns pontos importantes, como população da praga, estádio de desenvolvimento da cultura e ingredientes ativos.
Além disso, é necessário considerar que a reinfestação pela praga é rápida, uma vez que seu ciclo é completo em aproximadamente 15 dias.
Acompanhar as previsões meteorológicas de precipitações torna-se importante. Condições de baixa umidade e estresse hídrico, favorecem a reprodução da praga. Porém, ela também pode ocorrer em temperaturas amenas em períodos de estiagem.
Para o controle do vírus da queima-do-broto, é imprescindível a remoção de plantas hospedeiras, realização da rotação de culturas, além do controle das tripes (vetor).
A época de semeadura também deve ser programada para evitar que as fases críticas da cultura coincidam com menor disponibilidade hídrica (final do vegetativo e até o final do enchimento dos grãos).
8 pontos importantes sobre o controle de tripes em soja
- controle com populações altas (superior a 50 tripes/folha) – utilizando o método de pano de batida para contagem dos indivíduos;
- controle com inseticidas devem atingir as partes inferiores das folhas trifoliadas, onde as tripes normalmente estão localizadas;
- em estádios reprodutivos, a população deve se manter abaixo de 25 tripes por folíolo;
- controle dificultado pelas características da praga: alto potencial reprodutivo, pequeno intervalo entre gerações e altas populações, especialmente em plantas submetidas a estresses hídricos prolongados;
- parte do ciclo de vida ocorre no solo, dificultando o controle efetivo da praga;
- monitoramento da população da praga em estádios vegetativos: para evitar perdas de área foliar, que são importantes no período de enchimento de grãos;
- monitoramento da população da praga em estádios reprodutivos: para evitar a senescência e maturação precoce, o que diminui a fase de enchimento de grãos;
- planejar adequadamente as plantas utilizadas em bordaduras e plantios subsequentes. O milho é uma espécie hospedeira, e não é recomendada como barreira.
Controle químico: melhores inseticidas para tripes
Além das recomendações de manejo anteriormente citadas, o controle químico, aliado a detecção precoce da praga antes do estádio reprodutivo são consideradas as estratégias de maior efetividade.
Produtos de ação translaminar são os mais indicados. São aplicados na superfície das folhas e capazes de translocar ao lado oposto, onde ninfas e adultos estão localizados em maiores populações.
Para as três espécies principais, ingredientes ativos como o acefato, cipermetrina, metomil e clorfenapir podem ser empregados e podem ser consultados no Sistema de Agrotóxicos Fitossanitários (Agrofit).
Estudos destacam que o MIP (Manejo Integrado de Pragas) pode ser eficiente, utilizando de uma mesma molécula para controle de diversas pragas alvo.
O imidacloprido pode ser utilizado para o controle de tripes, porque apresenta alta eficiência econômica e controle de percevejo-verde, vaquinha-verde-amarela, mosca-branca, percevejo-marrom e percevejo-verde-pequeno.
Observe o momento, dose, intervalo adequado e número máximo de aplicações recomendadas na bula pelo fabricante.
Conclusão
Neste artigo, você viu quais são as características biológicas das tripes e quais danos diretos e indiretos elas podem causar na lavoura de soja.
Realize o monitoramento e planejamento das culturas implantadas na área e a rotação ao longo do ano agrícola.
Além disso, realize o controle de plantas daninhas, para que espécies hospedeiras não estejam presentes entre os cultivos de soja.
O MIP (manejo integrado de pragas) pode ser utilizado com sucesso. Além de controlar diversas pragas, o manejo integrado reduz o número de aplicações e aumenta a eficiência econômica dos produtos.
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Boa Tarde,
Fantástico…seu artigo abordou o tema de maneira esclarecedora e resumida. parabéns pela publicação que muito me ajudou!