About Marcelo Santoro

Sou Engenheiro Agrônomo e mestre pela ESALQ/USP. Atualmente sou aluno de doutorado do Programa de Fitotecnia da mesma instituição.

Manejos pré-plantio: o que você precisa para começar bem a próxima safra

Pré-plantio: confira as dicas de planejamento, adubação, correção e preparo do solo para as principais culturas agrícolas.

A safra atual está quase no fim e as expectativas para a próxima (2020/21) são grandes. As áreas para cultivo de soja e milho têm previsão de aumento de 2,5% e 1,8%, respectivamente.

Para muitos especialistas, o cenário é favorável e o Brasil poderá inclusive superar a produção da atual temporada.

Mas, antes de chegar à produção final, muito tem de ser feito! E tudo isso começa no pré-plantio!

Você conhece os principais manejos e cuidados que devem ser tomados nessa fase de preparação para a próxima safra? Confira a seguir! 

Principais atividades do pré-plantio

Os manejos pré-plantio diferem de cultura para cultura. Cada uma delas apresenta particularidades.

Nem todos os manejos feitos no pré-plantio da soja ou feijão serão realizados para o pré-plantio do milho ou algodão.

Entretanto, muitas das atividades que devem ser realizadas no pré-plantio são comuns a diversas culturas agrícolas.

Algumas delas são feitas diretamente no campo enquanto outras são feitas ainda no escritório, durante o planejamento agrícola.

Planejamento da safra

O planejamento da safra é o momento para fazer um bom levantamento da capacidade operacional e de ativos da propriedade.

Com base no levantamento, pode-se identificar se há necessidade de alterações ou ajustes nos planos.

Caracterização das condições químicas, físicas e biológicas do solo devem estar em mãos ou já em análise, para que possam ser planejadas as correções necessárias.

Essa caracterização será necessária para a correção do pH do solo e como base para os cálculos de necessidade e parcelamento da adubação.

Feito isso, é possível traçar um plano de ação e, dessa forma, executar todas as operações desejadas sem grandes problemas.

Adubos verdes e culturas de cobertura

Os adubos verdes têm como função principal ciclar e fornecer nutrientes para o solo ao mesmo tempo que atuam trazendo benefícios às características físicas do solo.

Muitas das espécies utilizadas como adubos verdes podem também ser utilizadas como culturas de cobertura, ou seja, para produção de palhada.

foto de exemplo de área com adubo verde e outra sem - pré-plantio

Exemplo de área com adubo verde e outra sem

Além da biomassa que produzem, muitos adubos verdes, principalmente as leguminosas, podem auxiliar na redução do uso de fertilizantes nitrogenados.

Existem diversos outros benefícios do uso de adubos verdes. Algumas espécies, como a crotalária, atua no controle de nematoides no pré-plantio da cultura agrícola.

O uso e a escolha do adubo verde dependerá do sistema de produção trabalhado e das atividades que você verá a seguir.

Adubação, correção e preparo do solo no pré-plantio

Essas três atividades, adubação, correção e preparo do solo estão intimamente relacionadas e dependem muito uma das outras. Portanto, requerem atenção redobrada!

Preparo do solo

O preparo do solo é um manejo que deve vir alinhado às demais atividades que se planeja realizar.

Os diferentes sistemas de produção, convencional, reduzido ou o plantio direto, demandam mais ou menos operações e interferem na forma como devem ser realizadas as demais atividades.

Isso deve ser levado em consideração para não perder o cronograma de atividades no pré-plantio nem errar na realização delas. 

Atenção para as boas práticas agrícolas de modo a evitar a compactação dos solos ou ainda uso excessivo de corretivos e fertilizantes.

Correção e adubação

A correção dos solos no pré-plantio depende muito dos solos que será trabalhado e, muitas vezes, pode exigir parcelamento. Isso deve ser levado em consideração no cronograma.

A adubação no pré-plantio é a primeira etapa do cronograma de adubação elaborado com base nos resultados da análise de solo.

Diferentes culturas apresentam diferentes necessidades: esse ponto é o que mais diverge nos manejos.

Aqui no Blog do Aegro nós já falamos sobre adubação específicas para citros, café, feijão, milho e soja

Dessecação pré-plantio

A dessecação pré-plantio, ou dessecação antecipada, é uma prática recomendada para eliminar toda a vegetação existente em uma área antes da semeadura da cultura.

Isso inclui plantas daninhas e restos de culturas antecessoras.

foto de Dessecação da área pelo menos 30 dias antes do plantio do cultivo agrícola - pré-plantio

Dessecação da área pelo menos 30 dias antes do plantio do cultivo agrícola
(Fonte: Dekalb)

A dessecação pode vir associada com o período de vazio sanitário, quando necessário, e deve ser realizada pelo menos 30 dias antes do plantio.

Seus objetivos são facilitar o plantio, permitir o desenvolvimento inicial das plantas, facilitar o controle de plantas daninhas e, é claro, aumentar a produtividade!

Vazio sanitário

O vazio sanitário é um período de ausência de plantas nas áreas, sejam ela cultivadas ou voluntárias (daninhas).

Portanto, nesse período pré-plantio, principalmente da soja, feijão e algodão, todas as espécies vegetais devem ser retiradas das áreas que serão cultivadas.

A duração desse período de vazio sanitário pré-plantio pode variar de 30 até 90 dias, de acordo com a localização dos plantios.

Tabela com Período de vazio sanitário nos diferentes estado e regiões brasileiras

Período de vazio sanitário nos diferentes estado e regiões brasileiras
(Fonte: Embrapa)

E você pode se perguntar: “Mas pra que eu preciso seguir o vazio sanitário?”

A aplicação desta técnica no pré-plantio visa minimizar a disseminação de pragas e doenças em restos culturais de uma safra para a outra.

Além disso, por ser regulamentado pelo Estado, produtores que descumprirem essa norma estão sujeitos a punições e multas.

De olho no clima

O clima é sempre o fator que mais preocupa, afinal, é muito difícil de prevê-lo, mesmo com os excelentes centros de pesquisa.

O excesso de chuva, ou ainda a falta dela, pode prejudicar e muito as lavouras, sendo fator determinante para o início das atividades, principalmente no pré-plantio.

Por esse motivo, é essencial acompanhar de perto as previsões meteorológicas.

El Niño, La Niña ou neutralidade

Tão importante quanto as previsões de curto prazo é o acompanhamento do fenômeno conhecido como ENOS, que pode se configurar como El Niño, La Niña ou neutralidade.

As perspectivas mais recentes para a primavera/verão de 2020 é de prevalecimento de La Niña seguido de neutralidade.

Projeções de probabilidade de ocorrência de El Niño, La Niña ou neutralidade

Projeções de probabilidade de ocorrência de El Niño, La Niña ou neutralidade
(Fonte: Notícias Agrícolas)

Isso significa que, para a região Sul, há maior possibilidade de escassez de chuvas, enquanto para o Nordeste, as chuvas devem vir em volume pouco acima do esperado.

As regiões Sudeste e Centro-Oeste entram na chamada “zona de transição” que é pouco afetada pelas mudanças trazidas por esse fenômeno.

Previsões do tempo

Você deve estar sempre atento também a mudanças abruptas e pode acompanhar tudo isso pelo Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia).

É preciso estar de olho nas variações climáticas que podem ser adversas, como possibilidade de seca prolongada, tempestades, geadas, etc. 

Você pode planejar corretamente seus manejos no pré-plantio acompanhando as previsões para a sua região aqui.

checklist planejamento agrícola Aegro

Conclusão

Os cultivo agrícolas apresentam particularidades e semelhanças e, muitas vezes, parte das atividades realizadas no pré-plantio destas são similares.

Entretanto, os períodos de realização das atividades podem variar para cada região, como no caso do vazio sanitário da soja.

Estar atento às condições climáticas da região para a próxima safra é essencial para um melhor planejamento das atividades do pré-plantio.

Para todas as atividades propostas é bom estar sempre atento às boas práticas agrícolas, evitando o desperdício de recursos, protegendo o ambiente e as pessoas!

Quais dessas ou outras atividades você realiza no pré-plantio em sua região? Conta pra gente nos comentários!

Como evitar e corrigir a compactação do solo na sua propriedade

Compactação do solo: o que é, como ocorre e o que fazer para contornar esse problema

O solo é a base da produção agrícola e a maior riqueza das propriedades rurais. É ele que fornece sustento e os nutrientes necessários para o desenvolvimento das plantas.

Mas a realização de práticas agronômicas excessivas com maquinário pesado pode causar o desequilíbrio da estrutura do solo, levando-o à compactação.

Você certamente já ouviu falar sobre isso, mas você sabe o que realmente é e como acontece a compactação do solo? Confira a resposta para essa e outras perguntas a seguir!

Qualidade física do solo

Quando se pensa em solos de boa qualidade, normalmente a primeira coisa que vem à mente é a fertilidade do solo, ou seja, um solo bom é um solo rico em nutrientes.

Entretanto, nos últimos anos, temos percebido que, além dos atributos químicos, associados à fertilidade, os atributos físicos também são extremamente importantes.

Existem diversos atributos que podem ser utilizados para mensurar a qualidade física do solo (QFS), como:

  • a porosidade total; 
  • a distribuição e tamanho de poros;
  • a distribuição e tamanho de partículas;
  • a densidade do solo;
  • a resistência do solo à penetração, dentre outros.

É importante lembrar que os solos são compostos de dois componentes: o sólido (minerais e matéria orgânica) e o poroso (ar e água).

E as proporções desses componentes variam de acordo com o tipo de solo que se está trabalhando.

Esquema dos diferentes componentes do solo: sólidos e poroso

Esquema dos diferentes componentes do solo: sólidos e poroso
(Fonte: Imagem da internet)

A avaliação desses atributos é um pouco complexa e muitas vezes demanda análises laboratoriais.

Antes de partir para a análise laboratorial, para facilitar a identificação da QFS, pode-se trabalhar com alguns indicadores: 

  • curva de retenção de água;
  • condutividade hidráulica;
  • porosidade; e 
  • ponto de inflexão.
Esquema de uma curva de retenção de água e seu ponto de inflexão (A); à direita (B), exemplos de curvas de um solo degradado e um solo não degradado.

Esquema de uma curva de retenção de água e seu ponto de inflexão (A); à direita (B), exemplos de curvas de um solo degradado e um solo não degradado.
(Fonte: Stefanoski et al., 2013)

Esses indicadores serão os primeiros indícios para verificação da compactação do solo. 

Já falei sobre os indicadores, mas afinal, o que é a compactação do solo?

O que é e como ocorre a compactação do solo?

A compactação do solo nada mais é do que um rearranjo das frações sólidas e porosas do solo.

Nesse rearranjo, os espaços porosos, com água e/ou ar, são reduzidos e gradualmente substituídos por partículas sólidas. Consequentemente, há uma redução da porosidade do solo e um aumento das partículas sólidas por unidade de volume e, portanto, aumento da densidade do solo.

Esquema do solo e suas frações sob diferentes condições de compactação, desde sem compactação (esquerda) a estágios mais avançados (direita).

Esquema do solo e suas frações sob diferentes condições de compactação, desde sem compactação (esquerda) a estágios mais avançados (direita).
(Fonte: Horn, 2003)

A compactação do solo é frequentemente associada à pressão excessiva exercida pelo maquinário e implementos agrícolas utilizados no manejo das lavouras.

As fontes de pressão no solo variam desde as bordas cortantes dos discos de arados e grades até os sulcadores de semeadoras e os próprios pneus dos tratores.

As mudanças ocasionadas nos atributos físicos do solo por conta dessa pressão excessiva levam à formação de uma faixa compactada, popularmente conhecida como “pé-de-grade” ou “pé-de-arado”.

Tendências e problemas da compactação

Alguns solos são mais suscetíveis à compactação do que outros. Isso se dá principalmente aos teores de matéria orgânica, textura e granulometria do solo.

Solos franco-argilosos a argilosos normalmente têm maior tendência à compactação do que solos arenosos.

Esquema de um solo sem impedimentos no qual repetidas operações de revolvimento levaram à compactação pé-de-grade

Esquema de um solo sem impedimentos no qual repetidas operações de revolvimento levaram à compactação
(Fonte: Embrapa, 2005)

Os problemas decorrentes da compactação do solo variam de acordo com a época do ano e as espécies cultivadas.

Plantas de ciclo anual, como milho e soja, principalmente, tendem a sofrer mais com solos compactados do que plantas perenes.

Na estação seca, a compactação do solo limita o crescimento do sistema radicular e interfere no acesso das plantas à água de camadas mais profundas.

Já na estação chuvosa, a faixa de compactação limita a drenagem de água, podendo ocasionar encharcamentos nas lavouras.

Se não manejada, a compactação do solo pode e irá afetar o desenvolvimento das lavouras, desde o plantio até a colheita. 

Tabela com diferentes sintomas visuais em plantas e no solo do efeito da compactação do solo

Diferentes sintomas visuais em plantas e no solo do efeito da compactação do solo
(Fonte: adaptado de Mantovani, 1987)

Como saber se meu solo está compactado?

Como expliquei anteriormente, solos apresentam alguns sinais clássicos quando estão compactados.

Além disso, existem diversos indicadores que devem ser acompanhados para auxiliar na identificação da compactação.

Porém, para aumentar a certeza sobre o diagnóstico de compactação, a melhor forma é através da análise da densidade global do solo, o que requer análise laboratorial.

Manter um histórico das medidas das análises de diferentes áreas é essencial para o monitoramento da saúde do solo.

Lembre-se, quando se trata de compactação do solo, o melhor é evitá-la. Caso não seja possível, diagnósticos precoces podem evitar enormes prejuízos!

Foto de um Penetrômetro, utilizado para mensurar a resistência do solo à penetração

Penetrômetro utilizado para mensurar a resistência do solo à penetração
(Fonte: Douglas Jandrey)

Manejo de solos compactados

A melhor forma de manejar solos compactados é evitando que a compactação do solo ocorra. Para isso, é importante ter planejado a rotação de culturas, o controle de tráfego das máquinas nas áreas e manter um histórico das características físicas do solo.

Não é uma tarefa fácil, mas é melhor prevenir do que remediar!

Nos últimos anos, o uso de escarificadores e subsoladores tem sido a principal forma de remediação para áreas com compactação do solo. 

Esses equipamentos são utilizados para romper essas faixas de compactação formadas nos solos, buscando aumentar a porosidade, permitir a drenagem e evitar encharcamento.

foto de subsolador (esquerda) e escarificador (direita) de solo

Subsolador (esquerda) e escarificador (direita) de solo
(Fonte: IF Pernambuco)

Trabalhar a fertilidade do solo buscando aumentar os níveis de matéria orgânica dele é outra estratégia importante para se ter em mente.

A matéria orgânica aumenta a porosidade do solo, a distribuição do tamanho dos poros e facilita a infiltração da água.

O uso de culturas de cobertura e também adubos verdes na entressafra pode trazer resultados positivos! 

cálculo de calagem Aegro

Conclusão

Os solos, além de essenciais para a produção agrícola, são um recurso limitado e seus componentes requerem longos períodos de tempo para serem restaurados.

A compactação do solo é um dos muitos problemas que podem ser enfrentados em suas lavouras. 

Felizmente, é possível reverter processos de compactação, entretanto, o melhor caminho é a prevenção.

Fazer o monitoramento dos atributos de qualidade física do solo também é essencial para o bom desenvolvimento das lavouras.

>> Leia mais:

“Entenda as causas da degradação do solo e como evitar sua ocorrência”

“Entenda a importância da construção do perfil do solo e como ela impacta sua produtividade”

“Como tornar o cultivo em terras baixas mais eficiente e lucrativo”

E você, já enfrentou problemas de compactação do solo em sua lavoura? Conta pra gente nos comentários!

Tudo sobre a produção de laranja Pêra

Produção de laranja Pêra: plantio, adubação, doenças e outros manejos da cultivar mais querida da citricultura brasileira.

A laranja Pêra é uma das laranjas mais importantes na citricultura brasileira. Dos quase 400 mil hectares de laranjas plantadas, ela sozinha representa 35% do total de árvores.

A produção de laranja Pêra estimada na safra 2020/21 equivale a um total de 87 milhões de caixas (40,8 kg cada).

Segundo dados do Fundo de Defesa da Citricultura (Fundecitrus), nos últimos 10 anos, a participação da laranja Pêra em plantios novos foi, em média, de 45%.

A busca elevada pela produção ocorre principalmente por sua dupla aptidão: atende tanto à indústria de processamento para suco quanto o mercado de consumo in natura.

Quer saber um pouco mais sobre a laranja Pêra? Confira a seguir!

Laranja Pêra, a cultivar da meia estação

A laranja Pêra Rio – ou simplesmente laranja Pêra – (Citrus sinensis L. Osbeck), assim como a Valência e a Hamlin, pertence ao grupo das laranjas doces comuns.

Isso significa que o nível de acidez dos seus frutos está em torno de 1%.

Seus frutos têm um formato elíptico, por serem um pouco mais alongados do que os de outras cultivares.

A casca dessa laranja é lisa, fina e de coloração laranja a amarelada, com polpa suculenta e de coloração alaranjada.

Apesar de pertencerem ao mesmo grupo das laranjas doces comuns, a laranja Pêra se diferencia da Hamlin e da Valência pela época de maturação de seus frutos.

Quando falamos em maturação dos frutos de laranjas, podemos separar as cultivares em quatro grupos diferentes:

  • maturação precoce;
  • precoce a meia-estação;
  • meia-estação; e
  • tardia.

Enquanto a Hamlin é uma cultivar precoce e a Valência tardia, a laranja Pêra tem maturação típica de meia-estação.

A produção da laranja Pêra fica concentrada nos meses de julho a outubro. E, além disso, representa cerca de 22% da produção de laranjas do estado de São Paulo.

Confira no gráfico a seguir:

Tempo de colheita da laranja pêra

Período de colheita por grupo de maturação e porcentagem da produção em São Paulo
(Fonte: Markstrat – CitrusBR)

A origem da cultivar

Por ser produzida em grande escala apenas no Brasil, ela é considerada uma cultivar brasileira por excelência, mas pouco se sabe de suas origens.

Apesar de sua grande importância para a citricultura, a origem da laranja Pêra permanece desconhecida.

Diferente de outras cultivares comerciais importantes, como a laranja Valência, e tangerinas Ponkan e Murcott, não foram encontrados possíveis progenitores da laranja Pêra na região de origem desta espécie (no Sudeste Asiático).

Sabe-se que o cultivo e a produção de laranja Pêra se concentravam na Baixada Fluminense e que, no início do século 20, foi trazida para o estado de São Paulo.

A partir daí, seu cultivo se popularizou por todo o cinturão citrícola brasileiro, com os nomes de Pêra Rio, Pêra Coroa ou somente Pêra.

Apesar de não se ter completa certeza, existem suspeitas de que a laranja Pêra está diretamente relacionada a cultivares da Espanha e Portugal. Isso, graças às similaridades existentes entre essas cultivares.

Clones de laranja Pêra

Quando comparada com outras cultivares, a laranja Pêra apresenta uma grande quantidade de clones selecionados e cultivados.

O fato da produção de laranja Pêra ser bem consolidado e espalhado pelo país explica o aparecimento dessa elevada quantidade de novos clones e seleções.

Esses novos clones surgem, em sua maioria, por variações que ocorrem nas gemas das plantas matrizes (borbulheiras).

A ‘Pêra IAC 2000’, ‘Pêra Bianchi’, ‘Pêra Olímpia’, ‘Pêra Mel’ e ‘Pêra Rio’ são algumas cujas borbulhas podem ser encontradas no Centro de Citricultura Sylvio Moreira (IAC).

Plantio e tratos culturais da laranja Pêra 

Plantio

A implantação do pomar de citros não varia muito de uma cultivar para outra, apresentando muitos pontos em comum.

Por exemplo, toda implantação começa bem antes do plantio propriamente dito, que deve ser antecedido da análise e correção do solo.

O planejamento do plantio e a diversificação das cultivares no pomar é essencial para garantir a produção durante o ano todo.

Recomenda-se que cerca de 30% da área de plantio dos pomares de citros esteja destinada à produção de laranja Pêra (meia-estação). 

Em seguida, a correta escolha do porta-enxerto e aquisição de mudas de qualidade são pontos essenciais para a longevidade do pomar.

Para o plantio em si, é importante nos atentarmos ao espaçamento utilizado.

Como o porte da laranjeira Pêra é médio, um espaçamento interessante para essa cultivar é de 6,0 m x 4,0 m.

Mas tudo isso pode variar de acordo com o porta-enxerto e região de cultivo. Portanto, devemos estar sempre atentos e planejar com cautela.

Adubação

Via de regra, a adubação dos pomares cítricos pode ser feita de duas principais formas: via solo ou foliar

A escolha de uma técnica em detrimento da outra depende do nutriente que se deseja fornecer às plantas e do estágio fenológico da planta.

Vale ressaltar que os nutrientes apresentam particularidades, fazendo com que sejam melhor aproveitados pelas plantas por uma via ou outra.

Os nutrientes devem ser fornecidos às plantas nas épocas de maiores exigências da planta (fases críticas).

No estado de São Paulo, isso ocorre de setembro a março e coincide com a estação das chuvas, outro fator essencial para o sucesso da adubação.

Confira aqui 3 dicas para ser ainda mais eficiente na adubação em citros!

Particularidades da produção de laranja Pêra

A produção de laranja Pêra apresenta algumas restrições, principalmente relacionadas ao uso de alguns porta-enxertos e também ao vírus da tristeza dos citros.

Incompatibilidade de enxertia

Apesar de muito desejada e cultivada, a laranja Pêra apresenta incompatibilidade com uma série de porta-enxertos existentes, dentre eles podemos citar:

  • o limão ‘Rugoso da Flórida’ e ‘Volkameriano’;
  • as tangerinas ‘Sunki tropical’ e ‘Sunki maravilha’;
  • o Poncirus trifoliata;
  • alguns citrumelos e citrangeiros.

Atualmente, para que seja possível trabalharmos com esses porta-enxertos, é necessária a utilização de um interenxerto como a laranja Hamlin ou limoeiro cravo, por exemplo.

Além disso, a diversificação dos porta-enxertos tem sido amplamente estudada, buscando novos porta-enxertos para a citricultura.

Suscetibilidade ao vírus da tristeza

São diversas as doenças que acometem os citros. A laranja Pêra, em especial, apresenta elevada suscetibilidade ao vírus da tristeza dos citros.

Esse vírus se desenvolve nos tecidos da planta prejudicando seu metabolismo, reduzindo o vigor, crescimento, tamanho de folhas e frutos.

O principal sintoma que ocorre nas plantas doentes é chamado canelura ou ‘pitting’, como na figura a seguir:

Foto de pé de laranja com tristeza do citrus

Sintoma clássico do vírus da tristeza dos citros em cultivares suscetíveis
(Fonte: M. Manners,FSC)

Para reduzir sua incidência, o ideal é manter o Pulgão preto (Toxoptera citricidus), inseto transmissor, controlado.

Além disso, a obtenção e plantio de mudas pré-imunizadas, ou seja, que foram inoculadas com estirpes fracas do vírus, pode ajudar.

Conclusão

A produção de laranja Pêra tem papel fundamental na citricultura brasileira graças à versatilidade dessa cultivar.

Apesar de não sabermos ao certo sua origem, hoje é a cultivar mais plantada no Brasil.

Alguns cuidados têm de ser tomados na implantação do pomar, especialmente na busca por mudas de qualidade.

É preciso estarmos sempre atentos à ocorrência do vírus da tristeza do citros e de seu vetor em nossos pomares de laranja Pêra.

>> Leia mais:

Florada do citros: 3 manejos essenciais para garantir uma boa produção

E você, como vai a sua produção de laranja Pêra? Conte pra gente nos comentários mais detalhes sobre seus pomares!

Como ter uma produção de mudas cítricas de boa qualidade

Produção de mudas cítricas: Saiba mais sobre as etapas de produção, instalação do viveiro, normas e legislações envolvidas.

A muda cítrica se tornou o principal insumo da citricultura atual. Sua qualidade pode garantir o sucesso da implantação e a longevidade dos pomares comerciais.

Mas o processo de produção envolve várias etapas, além de precisar seguir legislações específicas.

Neste artigo vou explicar melhor o que envolve a produção de mudas cítricas e outras informações que você precisa saber antes de implantar seu pomar. Confira a seguir!

Produção de mudas cítricas

A história da citricultura brasileira iniciou nos tempos em que o país ainda era colônia portuguesa. Os primeiros pomares cítricos em São Paulo e Bahia remontam ao século 16, nos anos de 1540 e 1567.

Nessa época, a produção das mudas cítricas era baseada apenas no uso de sementes, o que dava origem aos chamados pés-francos – plantas grandes, muitas vezes repletas de espinhos e que demoravam anos para produzir.

O cenário começou a mudar no início do século 20, quando foram percebidas vantagens do uso da propagação vegetativa através da técnica de enxertia. Isso possibilitou a formação de pomares mais homogêneos, com produção precoce, plantas menores e menos espinhos. 

A seleção e o uso de diferentes copas e porta-enxertos no decorrer dos anos seguintes possibilitou aos citricultores perceber as diferentes características e adaptabilidade de cada um deles.

produção de mudas cítricas

Uniformidade dos pomares de citros graças ao uso da propagação vegetativa
(Fonte: Fundecitrus)

Assim, a técnica de enxertia de borbulhas de variedades comerciais em porta-enxertos selecionados se consolidou como o principal método para a multiplicação de citros.

Mas, as borbulhas e porta-enxertos podem atuar como fonte de disseminação de patógenos como fungos, vírus, bactérias e nematóides causadores de doenças nos citros.

Para evitar que isso aconteça, algumas medidas de prevenção precisaram ser tomadas. Uso de substrato no lugar da terra e a produção das matrizes e mudas em ambiente protegido foram algumas delas.

Para garantir a fidelidade sanitária e genética, além de padronizar a produção de mudas cítricas, leis e normas foram implantadas no país e nos estados produtores. Vou explicar melhor sobre isso a seguir:

Leis e normas na produção de mudas cítricas

Como sabemos, a legislação pode ser algo complicado e burocrático, mas serve de norte para elaborar o projeto técnico do viveiro.

Devemos estar atentos às exigências para que, nas auditorias, os viveiros de produção de mudas cítricas sejam aprovados.

Dessa forma, todo viveiro deve ser inscrito junto ao Registro Nacional de Sementes e Mudas (RENASEM) do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa).

RENASEM

(Fonte: RENASEM)

As cultivares utilizadas devem ser habilitadas no Registro Nacional de Cultivares (RNC).

Outro ponto importante diz respeito à Instrução Normativa 48 do Mapa, que estabelece normas de produção e comercialização de material propagativo de citros.

Tudo isso é válido nacionalmente. Além disso, outras normas podem existir de acordo com o estado onde o viveiro será instalado.

Em São Paulo, por exemplo, além da inscrição no Mapa, produtor, viveiro e borbulheiras (matrizes) precisam ser cadastrados na Coordenadoria de Defesa Agropecuária da Secretaria de Agricultura e Abastecimento (CDA).

Esse cadastro garante informações de fiscalização, infraestrutura e a emissão da Guia de Permissão de Trânsito Vegetal (PTV), que permite a comercialização das mudas.

Isso precisa ser realizado por um Engenheiro Agrônomo vinculado ao CREA e credenciado no Mapa.

Durante o processo de produção de mudas cítricas, três laudos precisam ser emitidos: após a semeadura, após a enxertia e antes da liberação das mudas.

Os lotes de mudas produzidas devem ser testados em laboratórios especializados, reconhecidos pelo Mapa e CDA, para diversas doenças como CVC, Phytophthora, HLB e nematóides.

Isso tudo para garantir a origem e qualidade do material vegetal.

Sei que é muito para entender de uma vez. Mas, aos que pretendem iniciar um viveiro de produção de mudas cítricas, todas as informações podem ser encontradas nos sites oficiais.

Leis, decretos, instruções e portarias referentes à produção de mudas cítricas

Leis, decretos, instruções e portarias referentes à produção de mudas cítricas
(Fonte: RENASEM, Mapa, RNC e CDA)

Instalação do viveiro

Para a instalação do viveiro de mudas cítricas precisamos nos atentar a dois principais aspectos: o local e a infraestrutura necessária.

Local

Quanto ao local de instalação do viveiro, alguns cuidados básicos devem ser tomados com relação ao relevo e solo, que devem favorecer a drenagem da água das chuvas.

É importante conhecer os aspectos climáticos da região como a temperatura e precipitação média e sua distribuição no ano. Isso influenciará no dimensionamento do projeto quanto à necessidade de instalação de telas termorefletoras, ventiladores ou ainda cortinas laterais.

Por último, mas não menos importante, a portaria Nº 5 da CDA (SP) recomenda a instalação de viveiros no mínimo a 20 m de distância de pomares cítricas ou até a 1.200 m caso existam relatos de cancro cítrico.

Existem também regulamentações quanto ao uso da murta (Murraya paniculata) como quebra-vento, que pode servir como hospedeiro alternativo a doenças dos citros.

Infraestrutura

A mesma portaria define os requisitos mínimos que as estufas devem apresentar para serem utilizadas nos viveiros.

Podemos destacar alguns deles:

  • uso obrigatório de tela antiafídica (malha 0,87 mm x 0,30 mm);
  • cobertura plástica impermeável;
  • antecâmara com mínimo de 4 m² contendo pedilúvio e recipientes para desinfecção das mãos;
  • uso preferencialmente de pavimentos de concreto;
  • bancadas elevadas a no mínimo 40 cm;
  • ambiente cercado por muretas para contenção de água externa.

Algumas diferenças podem ser encontradas entre a legislação das estufas de mudas e das borbulheiras – e tudo isso está descrito nos sites oficiais.

Etapas da produção de mudas cítricas

Produção dos porta-enxertos

A produção de porta-enxertos de citros é realizada através da sementes dos porta-enxertos em tubetes com substrato.

Vale lembrar que as sementes de citros apresentam algumas peculiaridades importantíssimas.

Além de serem poliembriônicas, ou seja, apresentarem mais de um embrião por semente, alguns desses embriões são apomíticos.

Embriões apomíticos são formados a partir do tecido nucelar da planta-mãe e, portanto, são clones da planta matriz.

Por isso as matrizes de porta-enxertos que fornecem os frutos para esse processo precisam ser registradas.

Nos tubetes, os embriões apomíticos são mantidos e os demais são retirados e, ao atingir o porte adequado, são transplantado para as sacolas plásticas convencionais.

porta-enxertos

Porta-enxertos semeados em tubetes no início de seu desenvolvimento
(Fonte: Marcelo B. Santoro)

Produção, coleta e processamento dos enxertos

Em citros, o enxerto é formado por uma única gema e, por isso, recebe o nome de borbulha. As plantas matrizes registradas que produzem as borbulhas são chamadas borbulheiras.

Para obtenção da borbulha, o viveirista pode optar por manter em sua propriedade borbulheiras destinadas exclusivamente para a produção de enxertos ou pode comprá-las de outros viveiristas.

As borbulheiras devem ser mantidas em estufas separadas das demais mudas, sendo de uso exclusivo para essa finalidade.

As borbulhas, após colhidas, devem ser utilizadas imediatamente, porém, suportam o armazenamento por até 2 meses, desde que mantidas em sacos plásticos e refrigeradas (5℃ – 10℃).

produção de mudas cítricas

Banco de matrizes de cultivares copa de citros para formação de borbulheiras
(Fonte: O Agronômico)

Produção da muda cítrica: enxertia

A época apropriada para a realização da enxertia é definida pelo porta-enxerto.

O “ponto de enxertia” ocorre cerca de 3 a 5 meses do transplantio dos porta-enxertos, quando estes estão com 0,5 mm a 0,8 mm de diâmetro de caule.

Para a produção de mudas cítricas, a técnica de enxertia mais adequada, e utilizada, é a borbulhia do tipo “T” invertido.

Esse nome diz respeito ao tipo de corte, ou incisão, feito no porta-enxerto para inserção da borbulha, como no esquema a seguir:

Esquema representativo da borbulhia do tipo “T” invertido

Esquema representativo da borbulhia do tipo “T” invertido. Abertura do ‘T’ invertido, retirada da borbulha, inserção e amarração
(Fonte: Fachinello et al., 2005)

Uma vez inserida, a borbulha deve ser amarrada com um fitilho plástico que poderá ser retirado 15 dias após a enxertia ou após a fixação do enxerto.

A parte aérea do porta-enxerto acima da borbulha deve ser “enrolada”, como nas fotos a seguir, para estimular a brotação da borbulha.

E poderá ser cortada 50 dias após a enxertia ou quando o enxerto atingir de 20 cm a 30 cm, o que ocorrer primeiro.

produção de mudas cítricas

Mudas recém-enxertadas (esq.) e mudas com brotação da borbulha (dir.) após a enxertia
(Fonte: Marcelo B. Santoro)

Muda pronta para a comercialização

Muda pronta para a comercialização
(Fonte: Teófilo Citros)

Conclusão

A muda cítrica é considerada o insumo mais importante da citricultura hoje. Portanto, garantir mudas de qualidade é garantir o sucesso da implantação dos pomares.

A produção de mudas cítricas no Brasil e principalmente no Estado de São Paulo é cercada de regras e legislações que garantem a qualidade delas.

O processo de produção de mudas cítricas não é simples, porém, quando feito corretamente, vemos o bom resultado no campo!

Você já sabia tudo sobre a produção de mudas cítricas? Quais as principais combinações que você tem em sua lavoura? Conta pra gente nos comentários!

Importância dos porta-enxertos na citricultura

Porta-enxertos na citricultura: as mudas cítricas, a importância dos porta-enxertos e como eles influenciam no manejo do pomar.

Segundos dados recentes do Fundo de Defesa da Citricultura, a estimativa da safra de laranjas (2020/21) para o cinturão citrícola de São Paulo, Sudeste e Triângulo Mineiro é de 287,76 milhões de caixas de 40,8 kg.

O sucesso da citricultura brasileira se deve ao excelente trabalho realizado na produção de mudas, manejo e condução dos pomares cítricos.

Dentre as características mais importantes para acertar na produção de citros, a escolha e uso correto dos porta-enxertos com certeza merecem destaque.

Quer entender um pouco mais sobre os porta-enxertos na citricultura? Confira comigo a seguir!

As mudas cítricas

A implantação dos pomares cítricos é uma das fases mais críticas da cultura, fazendo das mudas o insumo mais importante.

Por ser um cultivo perene, as plantas podem permanecer em campo por longos períodos de tempo, entre 15 e 20 anos.

Assim, as mudas cítricas são produzidas graças à técnica de enxertia, mais especificamente a borbulhia do tipo “T invertido” que permite a apresentação de duas partes: o enxerto e o porta-enxerto.

O enxerto é a parte que formará a copa da planta, ou seja, a parte que nós vemos: as folhas e os ramos que formarão os frutos.

Já o porta-enxerto formará o sistema radicular da planta que nós não vemos e fica sob o solo.

Graças a essa técnica da enxertia, essas duas partes de plantas se unem e se desenvolvem como uma.

porta-enxertos na citricultura

Diferentes partes de uma muda cítrica
(Fonte: Imagem de Teófilo Citrus)

Com isso, as plantas cítricas conseguem atender as exigências do mercado consumidor, ao mesmo tempo em que o porta-enxerto proporciona melhoras nesse desempenho.

Como as mudas são a base da citricultura, é necessário que haja garantia genética e que estejam livres de pragas e doenças.

Por isso, estados como São Paulo e o Rio Grande do Sul estabeleceram normas e procedimentos para produção de mudas cítricas.

Aliado ao acompanhamento de um(a) engenheiro(a) agrônomo(a), isso garante a certificação das mudas quanto à origem e qualidade e o não cumprimento dessa legislação inviabiliza a comercialização deste material.

Importância e características dos porta-enxertos

Os porta-enxertos na citricultura são uma ferramenta essencial para o manejo dos pomares.

Existe uma quantidade considerável de diferentes variedades e cultivares de porta-enxertos que podem ser utilizados na citricultura.

Cada uma deles apresentam diferentes características, as quais podem influenciar e alterar positivamente as características da copa.

Mudanças no vigor, na produtividade, na precocidade de produção, na absorção de nutrientes, na água e nos aspectos pós-colheita, podem, principalmente, conferir tolerância ou resistência a fatores bióticos e abióticos.

Porta-enxertos na citricultura: fatores bióticos e abióticos

Quando pensamos em fatores abióticos estamos falando a respeito da tolerância à salinidade do solo, à resistência à seca ou até mesmo a geadas.

São fatores importantes para serem pensados principalmente em regiões mais frias ou de cultivos no seco (sem irrigação).

porta-enxertos na citricultura

Porta-enxertos usados na citricultura e suas características perante à geada, seca e encharcamento do solo
(Fonte: Embrapa, 2009)

Já os fatores bióticos estão relacionados à susceptibilidade dos porta-enxertos a doenças dos citros – que são muitas!

Características de resistência

Características de resistência dos porta-enxertos de citros quanto a algumas das principais doenças
(Fonte: Embrapa, 2009)

Vigor e precocidade de produção

Quando pensamos em vigor estamos pensando na velocidade de crescimento da copa e desenvolvimento vegetativo das plantas.

Porta-enxertos vigorosos são aqueles cuja planta se desenvolve e estabiliza mais rapidamente no campo.

E isso é importante, pois quando jovens, as mudas cítricas são mais sensíveis às intempéries do campo: como as pragas, as doenças e a seca.

Além disso, alguns porta-enxertos cítricos apresentam característica ananicante, isso significa que plantas enxertadas sobre eles terão um tamanho menor que o normal.

Um exemplo clássico de porta-enxerto ananicante na citricultura é o ‘Trifoliata Flying Dragon’.

Contar com plantas menores em nossos pomares favorece os manejos fitossanitários e a colheita, além de aumentar a produtividade.

Produtividade (t/ha) de lima ácida Tahiti em diferentes níveis de adensamento

Produtividade (t/ha) de lima ácida Tahiti em diferentes níveis de adensamento
(Fonte: Donadio & Stuchi, 2001)

O aumento da produtividade se dá graças à possibilidade do adensamento dos plantios, ou seja, de ter mais plantas por área.

Efeito dos porta-enxertos na qualidade dos frutos

O tamanho e peso dos frutos, cor e espessura da casca, conteúdo de suco, teor de sólidos solúveis, etc., são aspectos intimamente relacionados às variedades.

Entretanto, apesar de ainda não sabermos ao certo como isso ocorre nas plantas, sabemos que os porta-enxertos alteram as características dos frutos.

Por isso, é importante pensar também no destino de nossa produção na escolha dos porta-enxertos.

O Poncirus trifoliata, por exemplo, garante a produção de frutos mais doces e com acidez moderada, porém, sua produção total por planta é inferior.

Ao passo que os limoeiros ‘cravo’ e ‘rugoso’ são excelentes extratores de água do solo e formam frutos de casca grossa e com menor concentração de açúcares.

Essas características conferem aos frutos melhor aptidão para diferentes mercados: o processamento (indústria) ou a venda in natura (varejo).

Dessa forma, citricultores que produzem para indústria preferem limoeiros como porta-enxertos e os que produzem para o varejo preferem o Trifoliata.

Porta-enxertos na citricultura: incompatibilidade

Apesar de ser uma excelente ferramenta, a técnica da enxertia apresenta algumas limitações.

O sucesso dessa técnica depende, sobretudo, da proximidade genética entre os materiais e outros fatores fisiológicos.

A principal delas está relacionada às diferentes combinações de porta-enxerto e copa, em outras palavras, algumas combinações não são viáveis.

Quando as características do porta-enxerto e do enxerto não permitem que se desenvolvam como um, dizemos que são incompatíveis.

porta-enxertos na citricultura

Principais incompatibilidades relatadas na citricultura
(Fonte: Embrapa, 2008)

Uma alternativa para contornar a incompatibilidade é a realização da técnica da interenxertia.

Essa técnica permite que cultivares incompatíveis sejam utilizadas juntas com auxílio de um intermediário (o interenxerto) que atua como um filtro.

Interenxertia

Interenxertia de laranja pêra, limoeiro cravo e citrumelo swingle
(Fonte: Denilson de Oliveira Guilherme, 2013)

Na imagem, temos o citrumelo ‘swingle’, sendo utilizado como porta-enxerto para a laranjeira ‘pêra’, mas para que isso aconteça, repare que o limão ‘cravo’ atua como uma espécie de filtro entre os dois.

Portanto, temos uma muda cujo enxerto é laranja pêra, o porta-enxerto é citrumelo swingle e o limoeiro cravo é o interenxerto.

Tenha em mente que é uma alternativa que aumenta o preço da muda e necessita de mão de obra especializada.

Tendo visto tudo isso, é importante lembrar que não existe um porta-enxerto perfeito, todos apresentam alguns pontos positivos e negativos.

Veja o limoeiro cravo (Citrus limonia Osbeck.), por exemplo: é um dos porta-enxertos mais utilizados na citricultura brasileira, isso graças à sua grande resistência a secas e pelo vigor de crescimento que promove na copa.

Porém, é suscetível ao exocorte e à morte súbita dos citros (MSC).

Portanto, cabe ao produtor com auxílio de um(a) engenheiro(a) agrônomo(a) escolher aquele que melhor se enquadra às suas necessidades.

Conclusão

Os porta-enxertos na citricultura são pontos-chave na produção de mudas cítricas e fator determinante para o sucesso da lavoura.

Além disso, é uma das principais ferramentas que o citricultor tem para facilitar e otimizar o seu manejo.

Também traz benefícios para as plantas enxertadas sobre eles, como mudanças no vigor e resistência a fatores bióticos e abióticos.

Lembre-se: o melhor porta-enxerto é aquele que melhor satisfaz suas necessidades, por isso é importante um bom planejamento e estudo na hora de sua escolha.

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Florada do citros: 3 manejos essenciais para garantir uma boa produção

Adubação em citros: 3 dicas para ser ainda mais eficiente

E você, quais porta-enxertos usa em seus pomares e por que optou por eles? Conta pra gente nos comentários!

Agricultura irrigada: o que é, principais métodos e vantagens

A irrigação é o ato de fornecer água às plantas, para que elas possam se desenvolver e produzir.  Sua aplicação no campo demanda precisão e técnica para ser financeira e agronomicamente eficiente. 

A agricultura irrigada é uma atividade complexa que requer elevados níveis de tecnificação, planejamento e investimento. Conhecer todos os detalhes é fundamental.

Nesse texto, você verá os principais métodos de irrigação e suas recomendações, os principais benefícios e possíveis problemas. Confira a seguir!

O que é agricultura irrigada?

Agricultura irrigada é a prática de aplicar água diretamente na raiz das plantas, ou seja, empregar a irrigação, com o objetivo de melhorar a aplicação de água e fertilizantes, mantendo baixo consumo energético.

A irrigação é capaz de suprir a deficiência total ou parcial de água para as plantas. Para isso, são usados equipamentos e técnicas específicas para fornecer água de forma artificial, garantindo a produção da lavoura mesmo quando não há uma oferta natural de água. 

Porém, apenas o fornecimento de água às plantas não é garantia de uma lavoura de sucesso! Uma boa agricultura irrigada é feita com planejamento, monitoramento e gestão da irrigação. 

Esse planejamento está relacionado a uma série de fatores como cultura, solo e clima. As necessidades de quem produz e as particularidades dos diferentes métodos de irrigação também precisam ser considerados.

Por que irrigar a lavoura?

A irrigação consiste na técnica de se fornecer água às lavouras quando há limitação desse recurso de forma natural.

O ciclo de pluviosidade depende da região do país e de outros efeitos naturais como o El Niño e La Niña, por exemplo.

Além disso, as práticas de manejo e conservação do solo são importantes na manutenção da água no solo e sua disponibilidade para a planta.

Por vezes, a quantidade acumulada de chuva é insuficiente para as plantas, ou sua distribuição é irregular durante a safra

Para isso, é preciso lançar mão de técnicas como a irrigação para evitar que a limitação hídrica cause perdas de produtividade.

banner kit colheita de sucesso

Vantagens da irrigação para a agricultura

A agricultura irrigada se adapta a vários tipos de solo, além de ser muito eficiente. Por ser um processo que pode ser automatizado, garante facilidade ao seu trabalho. 

Entre as principais vantagens, está a redução dos impactos da seca, garantindo maior crescimento e desenvolvimento das culturas. 

Além disso, a irrigação aumenta a produtividade, reduz riscos climáticos e melhora o vigor e a uniformidade das plantas, proporcionando uma floração homogênea.

Outro grande benefício é a flexibilidade no plantio e na colheita, permitindo o cultivo em períodos estratégicos e a expansão para áreas que antes não eram aptas à agricultura de sequeiro. 

Com maior estabilidade hídrica, você pode diversificar culturas, aproveitar o solo por mais tempo e aumentar sua renda, tornando a atividade mais rentável e sustentável. 

A adoção da técnica ainda pode ser utilizada para proteção contra geadas, aumentando a segurança da produção. 

Desafios na agricultura irrigada

Atualmente, o Brasil está entre os 10 países do mundo com as maiores áreas equipadas para irrigação, com quase sete milhões de hectares.

Destes, cerca de 50% está destinado ao cultivo de arroz irrigado e cana-de-açúcar.

Por isso, as projeções futuras para a agricultura irrigada no Brasil são as melhores. É esperado um crescimento de 47% até 2030, passando para 10 milhões de hectares.

Porém, a agricultura irrigada apresenta também alguns aspectos negativos preocupantes. Com o aumento da agricultura irrigada, a demanda por água também aumentará.

Portanto, é importante a busca constante por métodos eficientes no uso racional da água para evitar desperdícios.

Além disso, a associação da aplicação de fertilizantes com a irrigação ou fertirrigação pode, com o passar do tempo, levar à salinização e deterioração dos solos.

Esquema do território do Brasil e áreas de agricultura irrigada

Detalhe das áreas irrigadas por municípios (em hectares) no Brasil

(Fonte: Agência Nacional das Águas, 2015)

Como escolher métodos de irrigação? 

A escolha dos métodos de irrigação deve levar em conta alguns fatores importantes em termos de condições climáticas, de solo, da propriedade e da capacidade técnica, e de investimento do produtor.

  • Cultura agrícola: As culturas a serem utilizadas são determinantes para o tipo de irrigação, principalmente no que diz respeito a seu porte e profundidade de raiz, espaçamento, demanda hídrica e ciclo anual ou perene;
  • Tipo de solo e declividade: O tipo de solo, sua estrutura e capacidade de retenção de água, a altura do lençol freático e a declividade podem ser limitantes para alguns tipos de sistemas de irrigação;
  • Disponibilidade hídrica na região: Conhecer o ciclo de chuvas na região, bem como a capacidade de armazenamento de água é importante para se definir o potencial de irrigação;
  • Capacidade técnica e financeira: Alguns sistemas de irrigação necessitam de maior investimento e de maior nível técnico de funcionários da propriedade, podendo influenciar no método a ser usado.

Métodos como gotejamento e microaspersão, por exemplo, oferecem maior economia de água e precisão na distribuição, mas exigem maior investimento inicial. 

Já a irrigação por aspersão ou sulcos pode ser mais acessível, porém com eficiência menor em determinadas condições.

Por isso, antes de definir o sistema ideal, é recomendável realizar um planejamento detalhado, levando em conta o custo-benefício e a viabilidade técnica para sua lavoura. 

Qual a diferença entre método e sistema de irrigação?

Método é o modo de agir ou fazer a irrigação na lavoura. Os sistemas se relacionam com a disposição e funcionamento das partes dos métodos.  São um conjunto de equipamentos que funcionam juntos para fazer a irrigação acontecer.

Um método de irrigação pode estar relacionado a um ou mais sistemas de irrigação. 

É importante lembrar que não existe um método ou um tipo de sistema perfeito. Cada um apresenta vantagens e desvantagens.

Sem dúvidas, o melhor será sempre aquele que sem desperdícios e exageros apresenta os melhores resultados a um custo acessível.

plantação de soja sendo irrigada. Imagem mostra em primeiro plano um sistema de irrigação.

Principais tipos de irrigação

Existem vários tipos e sistemas de irrigação diferentes: por superfície, por aspersão, localizada, por subsuperfície, por gotejamento, microaspersão, pivôs e autopropelidos. Veja um pouco mais sobre cada um deles.

1. Irrigação por superfície

Na irrigação por superfície, a água é aplicada diretamente sobre a superfície do solo da área que precisa ser irrigada. Nesse método, a água é distribuída através da gravidade pela superfície. 

Seus principais sistemas de execução são por sulcos ou inundação. As principais vantagens são a simplicidade de aplicação, a necessidade de  poucos equipamentos e o baixo custo de instalação quando comparado aos demais.

Entretanto, a irrigação por superfície utiliza muita água e depende muito da declividade e textura do solo. Por isso, é um método que não pode ser implementado em qualquer região. 

2. Irrigação da lavoura subterrânea

Consiste na aplicação de água para as raízes de maneira subterrânea. Isso se dá por meio da instalação de tubulações abaixo do nível do solo que permitem o controle do nível do lençol freático.

Esse tipo de irritação tem instalação de maior custo, maiores problemas com entupimentos e necessidade de manutenção e troca de filtros mais frequente.

Porém, a distribuição de água é bastante homogênea e o sistema pode se adequar a diversas culturas e tipos de solos. 

3. Irrigação por aspersão

A irrigação por aspersão simula a chuva através de um aspersor que joga água para o ar, e consequentemente, para as plantas e para o solo. É um método que se adapta bem a diferentes relevos

Porém, seu custo aumenta conforme o nível de mecanização e de tecnologia aplicada. Dois dos principais sistemas de irrigação por aspersão são os pivôs centrais e os canhões autopropelidos

4. Irrigação da lavoura localizada

As formas de irrigação localizada são bastante utilizadas, sendo os mais comuns os métodos de gotejamento ou microaspersão, baseados na entrega de água à planta em baixos volumes e alta frequência.

Ambos são de maior custo e necessitam de mão de obra mais qualificada e tem alta manutenção para evitar problemas de entupimento de tubos de distribuição.

Porém, tem bastante precisão e que podem entregar água diretamente nas raízes ou na superfície do solo sem molhamento da parte aérea, diminuindo o risco de doenças.

5. Fertirrigação

A fertirrigação é um método bastante utilizado na cultura da cana e hortaliças, que consiste na adição de fertilizantes à água de irrigação.  

Pode ser adequada para diversos métodos, principalmente na irrigação por gotejamento, sendo vantajoso em culturas como a cana-de-açúcar e hortaliças, que demandam altos níveis de nutrientes em períodos específicos. 

A fertirrigação não só melhora o aproveitamento de fertilizantes, mas também pode contribuir para uma redução no custo de insumos e um melhor gerenciamento da água

Foto de sistema de irrigação por gotejamento e microaspersão

Exemplo de sistema de irrigação por gotejamento (esquerda) e microaspersão (direita)

(Fonte: Embrapa)

6. Irrigação por subsuperfície

A irrigação por subsuperfície acontece através da aplicação da água abaixo ou direto no sistema radicular das plantas. 

É uma técnica um pouco menos comum e pode ser aplicada para produção de algumas hortaliças em ambiente protegido.

Quando em condições adequadas, seu custo é reduzido, porém, em regiões mais planas são necessárias para a irrigação acontecer.

Ao contrário do gotejamento convencional, a manutenção é difícil pelo fato da irrigação estar abaixo do solo.

7. Irrigação por gotejamento

A irrigação por gotejamento é um dos métodos mais eficientes de irrigação, usado, principalmente, em diversas culturas que exigem um fornecimento preciso e controlado de água, como hortaliças e frutas.

No gotejamento, a água é fornecida diretamente nas raízes das plantas por meio de emissores ou gotejadores, localizados ao longo de tubos ou mangueiras, com vazão muito baixa.

Com isso, é possível que a água seja liberada em pequenas quantidades, de forma contínua e controlada, sendo uma solução cada vez mais popular em práticas agrícolas sustentáveis e de precisão.

8. Irrigação pivô

A irrigação pivô central é um dos sistemas mais comuns e eficazes para irrigação de grandes áreas agrícolas.

A técnica consiste em uma estrutura circular, geralmente composta por tubos metálicos que formam um braço articulado e são suportados por rodas, permitindo que se mova ao redor de um ponto central, que é a fonte de água.

O pivô gira ao redor desse ponto, cobrindo uma área de formato circular e aplicando água de forma uniforme sobre a cultura.

planilha custos de pivô Aegro

Tendências na agricultura irrigada

Dentro do contexto de Agricultura 4.0, os sistemas automatizados estão cada vez mais presentes na propriedade agrícola. Isso não é diferente com os métodos e sistemas de manejo de água, através da irrigação de precisão.

A irrigação de precisão usa tecnologias modernas para mapear as diferenças de umidade do solo e do estado hídrico das plantas. O objetivo é aumentar a eficiência da irrigação. Para isso, o uso de sistemas de irrigação mais localizados e que possam ser controlados com certa individualidade é essencial.

Isso permite a irrigação diferencial em áreas dentro de uma mesma gleba que estejam com diferentes requerimentos de água. 

Fatores como declividade, incidência de sol, face de exposição, temperatura e correntes de vento causam essas diferenças. A irrigação de precisão também utiliza tecnologias como: 

  • Sensores sem fio ou de funcionamento remoto;
  • Sistema de localização;
  • Informações atuais de estações meteorológicas, etc. 

A irrigação de precisão facilita a tomada de decisões mais informadas, contribuindo para um manejo mais eficiente dos recursos hídricos, especialmente em regiões com limitações de água.

Ao integrar esses dados e tecnologias, a agricultura irrigada se tornam mais inteligentes, oferecendo uma resposta rápida às mudanças nas condições do campo e garantindo que cada planta receba a quantidade exata de água necessária para seu desenvolvimento ideal.

Principais doenças dos citros e como tratá-las

Doenças dos citros: prevenção e correto diagnóstico são as chaves para um pomar saudável. Confira e saiba mais!

A citricultura é um setor de grande importância para o agronegócio brasileiro e principalmente para o cinturão citrícola de São Paulo, Triângulo/Sudoeste Mineiro.

Dados do Fundo de Defesa da Citricultura (Fundecitrus) mostram o fechamento da safra de laranja 2019/20 da região em 386,79 milhões de caixas de 40,8 kg.

Essa safra foi 35% maior que a anterior (2018/19) e com uma produtividade recorde, de 1.045 caixas por hectare.

Apesar de ser uma cultura altamente produtiva, baixas produtividades podem ser observadas quando o manejo nutricional e/ou fitossanitário não estão adequados.

Assim, as doenças dos citros afetam não somente na produção das plantas, mas também na qualidade dos frutos.

Ficou interessado? Confira a seguir sobre as principais doenças dos citros e como tratá-las!

Quais são as principais doenças dos citros?

As doenças de plantas, não só as doenças dos citros, são atividades fisiológicas anormais e injuriosas resultantes da interação dos agentes patogênicos com as plantas e o ambiente.

Portanto, é essencial saber identificá-las para que as medidas necessárias de controle sejam tomadas corretamente.

Como existem muitos agentes patogênicos que atacam as plantas cítricas, abordarei as principais, dividindo-as em quatro grupos de acordo com seus agentes patogênicos.

1. Doenças causadas por fungos

Gomose 

A gomose, ou gomose de Phytophthora, é causada pelos fungos Phytophthora parasitica e P. citrophthora.

Estes são microorganismos que habitam naturalmente o solo e penetram nas plantas através das raízes ou pela base do tronco (colo).

Em campo os principais sintomas são lesões na base do tronco com exsudação de goma. 

Desta forma, a copa apresenta um amarelecimento (clorose) intenso nas folhas podendo levar à seca completa das plantas. 

doenças dos citros

Lesão de gomose na base do tronco (A) e seca completa da parte aérea (B)
(Fonte: Citrus Diseases)

O controle da gomose deve ser preventivo, para isso é recomendado o uso de porta-enxertos resistentes como a tangerina Cleópatra, o Poncirus trifoliata e o Citrumelo swingle.

Além disso, evitar o plantio em áreas com drenagem deficitária e o acúmulo de solo ou esterco no colo das plantas são alguns cuidados que devem ser tomados.

Melanose

A melanose em citros é uma doença de grande importância para pomares em que a produção é destinada para mesa, ou seja, consumo in natura.

Causada pelo fungo Phomopsis citri leva ao aparecimento de pequenas lesões escuras na superfície dos frutos que podem evoluir formando pústulas.

As folhas também podem ser afetadas com pequenos pontos marrons, formando pústulas com halo amarelado ao redor.

melanose

Sintomas de melanose em folhas (A) e em frutos de laranjas (B)
(Fonte: Citrus Diseases)

O controle pode ser realizado com hidróxido de cobre associado com a poda e retirada de ramos secos do pomar, que podem atuar como fonte de inóculo.

Pinta preta dos citros

Causada pelo fungo Guignardia citricarpa, gerando problemas em folhas e principalmente nos frutos.

Esse patógeno pode causar manchas de diferentes tipos e isso varia de acordo com a cultivar plantada, as condições ambientais e a época de infecção.

Para o controle da pinta preta são recomendados fungicidas do grupo das estrobilurinas e cúpricos pertencentes à lista PIC (Produção Integrada de Citros).

A poda de limpeza e realização da roçagem ecológica são manejos que também podem auxiliar na redução da quantidade de inóculo nos pomares.

doenças dos citros

Diferentes sintomas de pinta preta: mancha preta (ou dura) (A), mancha sardenta (B), mancha virulenta (C), falsa melanose (D), mancha trincada (E) e mancha rendilhada (F)
(Fonte: Fundecitrus)

Podridão floral dos citros (“estrelinha”)

A podridão floral, popularmente conhecida por estrelinha, é causada pelo fungo Colletotrichum acutatum que afeta os tecidos das flores e de frutos jovens.

Assim, ao atingir esses tecidos provoca a queda dos frutos deixando apenas os cálices que tem aparência de estrelas.

Os sintomas aparecem de forma alaranjada nas pétalas das flores e dos frutos jovens, enquanto no estigma e estilete são formadas manchas enegrecidas.

Podridão floral dos citros

Podridão floral dos citros, lesões alaranjadas (A), lesões enegrecidas (B) e cálices após queda dos frutos (C)
(Fonte: Fundecitrus)

O período mais crítico para ocorrência deste patógeno é o florescimento, principalmente quando coincide com o período chuvoso que pode levar a surtos de infecção.

Como solução, o controle pode ser realizado com base em fungicidas do grupo dos triazóis e estrobilurinas, associado à manutenção da adubação e retirada de plantas debilitadas.

2. Doenças causadas por bactérias

Cancro cítrico

Causador de grandes prejuízos nos pomares cítricos por levar a desfolha das plantas, queda prematura e depreciação dos frutos.

Causado pela bactéria Xanthomonas citri subsp. citri, seus sintomas podem ser encontrados em folhas, ramos e frutos.

doenças dos citros

Sintomas de cancro cítrico em ramos (A), folhas e frutos (B e C)
(Fonte: Citrus Diseases & Fundecitrus)

As lesões salientes e marrons de cancro cítrico são características nas diferentes partes da planta e normalmente são acompanhadas de um halo amarelado.

Além de fácil disseminada em maquinário, vestuário e materiais de colheita, existe uma relação do cancro cítrico com a lagarta minadora.

Entretanto, a lagarta minadora não é vetor do cancro cítrico, mas ao se alimentar – abrindo galerias nas folhas das plantas, torna-se um agente facilitador à contaminação pela bactéria.

A principal estratégia para o controle do cancro cítrico é a erradicação.

Quando não eliminadas, as principais recomendações são quebra-ventos, pulverizações com cobre, cultivares mais resistentes e, principalmente, o controle da lagarta minadora.

danos lagarta minadora

Galerias abertas pela lagarta minadora dos citros (Phyllocnistis citrella)
(Fonte: acervo pessoal do autor)

Clorose variegada dos citros (CVC)

A CVC, ou “amarelinho”, é causada pela bactéria Xylella fastidiosa e pode afetar todas as cultivares comerciais de citros.

A bactéria causadora da CVC é transmitida por cigarrinhas e se aloja no tecido xilemático das plantas causando interrupção do fluxo de água e nutrientes.

Essa interrupção causa uma clorose foliar, similar à deficiência de Zn, mas cuja parte de trás tem pontuações marrons.

clorose variegada dos citros (CVC)

Sintomas de clorose variegada dos citros (CVC) causada pela bactéria Xylella fastidiosa
(Fonte: Citrus Diseases)

Com o avanço da clorose, os frutos passam a apresentar um desenvolvimento irregular, tamanho reduzido e alguns casos rachaduras.

Não existe controle para este patógeno, mas são recomendadas três práticas de manejo que reduzem os danos e evitam a disseminação:

  • Obtenção de mudas sadias
  • Poda dos ramos afetados;
  • Controle das cigarrinhas (vetores).

Greening ou Huanglongbing (HLB)

O greening é hoje a doença de maior importância para a citricultura, com incidência e severidade acompanhada de perto por todos os produtores e órgãos reguladores.

A doença é causada pela bactéria Candidatus liberibacter que é transmitida através do inseto psilídeo (Diaphorina citri).

Uma vez na planta não há cura, a bactéria se aloja no floema e rapidamente se espalha.

Desta forma, as folhas apresentam um amarelecimento mosqueado, ou seja, irregular e sem simetria.

Os frutos ficam com o amadurecimento irregular e apresentam deformações e assimetria em relação à columela.

O manejo do greening é realizado por meio do controle do psilídeo, inspeção e monitoramento constante além da erradicação de plantas contaminadas.

doenças dos citros

Clorose assimétrica em folhas de citros (A) e formação de frutos assimétricos (B) decorrentes do greening
(Fonte: Citrus Diseases)

3. Doenças causadas por vírus

Morte súbita dos citros (MSC)

Apesar de não ser totalmente confirmada, suspeita-se que variantes do vírus da tristeza dos citros (CTV) sejam o agente causador dessa doença.

Este vírus é transmitido para, e entre, as plantas através de insetos vetores: os pulgões, especificamente o Toxoptera citricidus.

A MSC é especialmente importante para os pomares em que plantas são enxertadas sobre porta-enxertos intolerantes: os limoeiros Cravo e Volkameriano e Rugoso.

Como o próprio nome diz, a morte ocorre de maneira súbita. Mas em alguns casos causa definhamento, reduzindo porte da planta e dos frutos produzidos.

Para controlar a incidência da doença é essencial o controle do vetor, ou ainda, a técnica da subenxertia para substituição dos porta-enxertos.

Planta atingida pela morte súbita dos citros

Planta atingida pela morte súbita dos citros
(Fonte: Fundecitrus)

Leprose dos citros

É uma doença causada pelo vírus da leprose dos citros (CiLV), transmitida pelo ácaro da leprose (Brevipalpus phoenicis).

O vírus não se espalha pela planta, ficando restrito apenas às regiões atacadas pelo ácaro. 

Os sintomas são similares aos do cancro cítrico e as lesões conforme se desenvolvem podem ocasionar a queda dos frutos e das folhas e, até mesmo, a morte de ramos.

Mas as lesões podem ser diferenciadas, pois as da leprose são deprimidas enquanto as do cancro são salientes.

doenças dos citros

Lesões deprimidas em frutos (A) e nos ramos (B) decorrentes da leprose
(Fonte: Citrus Diseases)

4. Doenças de causas desconhecidas

Declínio dos citros

É uma anormalidade observada nas plantas cítricas, em que as plantas afetadas cessam o crescimento e apresentam um definhamento seguido de murcha e morte.

Acredita-se que isto acontece devido à interrupção do fluxo de seiva das plantas, mas ainda não se sabe qual a causa.

Planta atingida pelo declínio dos citros

Planta atingida pelo declínio dos citros
(Fonte: Bossanezi e Jesus Júnior)

A principal recomendação é o arranquio e destruição das plantas afetadas. Outra alternativa é o uso de variedades mais resistentes (laranja Caipira e as tangerinas Sunki e Cleópatra).

Conclusão

Conhecer, monitorar e fazer a correta identificação são os pontos-chave do controle das doenças dos citros.

Lembre-se que muitas delas dependem do manejo regional! Converse com seus vizinhos para programar e alinhar suas pulverizações.

As doenças dos citros são muitas e podem levar a prejuízos muito significativos, por isso a prevenção é a melhor solução!

E você, qual destas doenças tem maior incidência em seus pomares? Como faz o controle? Conte pra gente nos comentários!

Tudo que você precisa saber sobre o ciclo da soja

Ciclo da soja: confira como e quanto dura o ciclo da soja em dias, quais as principais etapas do desenvolvimento desse cultivo e muito mais.

A safra de soja 2022 deve chegar a 144,7 milhões de toneladas, mantendo o Brasil como um dos maiores produtores de soja do mundo. Mas como conseguimos atingir esse patamar tão privilegiado?

Esse sucesso se deve aos anos de pesquisa e dedicação do ciclo da soja, das técnicas de manejo eficiente e da gestão agrícola de sucesso.

E você, sabe tudo sobre o ciclo da soja e seus principais estágios? Veja mais a seguir!

Como se desenvolve uma planta de soja?

Os componentes da planta

Para compreender o ciclo da soja, precisamos antes conhecer as partes que compõem uma planta de soja.

A soja (Glycine max) é uma planta herbácea pertencente à família Fabaceae, a mesma do feijão.

Suas sementes apresentam uma germinação epígea e o sistema radicular pivotante, com uma raíz principal e muitas ramificações (raízes secundárias).

Apesar das raízes alcançarem até 1,8 m de profundidade e 50 cm em crescimento lateral, a maior parte delas permanece concentrada nos primeiros 30 cm de profundidade.

ciclo da soja

Detalhe dos componentes de uma plântula de soja (Glycine max)
(Fonte: International Plant Nutrition Institute – IPNI)

O caule é híspido e em haste única, mas durante o ciclo pode emitir ramos laterais. Sua altura varia de acordo com as cultivares e as regiões de cultivo.

Durante o ciclo da soja, podemos observar diferentes tipos de folhas na planta:

  • Cotiledonares
  • Unifolioladas (simples) 
  • Trifolioladas (compostas)

Cada uma em uma etapa diferente do ciclo de desenvolvimento da planta.

As flores apresentam fecundação autógama (autofecundação) e podem apresentar diferentes colorações, desde brancas, roxas até cores intermediárias.

Delas se desenvolvem as vagens que passam de verdes para amarelo-pálido, conforme os grãos aumentam de tamanho e amadurecem.

De modo geral, existem dois tipos de plantas de soja: aquelas cujo crescimento é determinado e as de crescimento indeterminado.

ciclo da soja

Detalhe de racemo terminal em soja BRS Sambaíba RR
(Fonte: Embrapa)

Quando o crescimento é determinado, a planta apresenta um racemo terminal e quando inicia-se o florescimento, o crescimento vegetativo cessa.

Já as de crescimento indeterminado, não tem racemo terminal e o crescimento vegetativo continua após o florescimento.

Ciclo da soja: Estágios de desenvolvimento

Agora que já sabemos sobre as características da planta, vamos nos aprofundar nos estágios de desenvolvimento do ciclo da soja.

O modelo mais utilizado nos dias de hoje, salvo algumas modificações, foi idealizado pelos pesquisadores Fehr e Caviness em 1977.

Esse sistema propõe a divisão do ciclo da soja nos estágios vegetativos (V), reprodutivos (R) e suas subdivisões.

Destas, apenas nos dois primeiros estágios as letras não são seguidas de números, todas as demais são designadas por números após as letras.

estágios vegetativos e reprodutivos

Descrição dos estágios vegetativos e reprodutivos da soja (Glycine max)
(Fonte: Adaptado de IPNI)

É importante ressaltar que uma lavoura de soja é classificada nesses estágios quando pelo menos 50% ou mais das plantas do campo estão nele.

Isso é feito pois pode ocorrer variação na velocidade de crescimento das plantas dentro das áreas.

fenologia da soja. Fonte: Coopertradição

Esquema das plantas de soja nos diferentes estágios de desenvolvimento
(Fonte: Coopertradição)

A divisão e padronização do ciclo da soja e sua nomenclatura facilita e muito a comunicação entre os produtores rurais, engenheiros agrônomos e outros profissionais da área.

Agora que temos isso em mente, vamos abordar as principais dúvidas que surgem em relação ao ciclo da soja.

Quanto tempo dura o ciclo da soja em dias?

O ciclo da soja em dias vai variar de 100 a 160 dias, dependendo da cultivar. Porém, os ciclos comerciais mais comuns costumam ter de 115 a 125 dias, característico da época de semeadura de cultivares precoces a médias.

Antes, as cultivares costumavam ser chamadas de superprecoces, precoces, semiprecoces, médias e tardias com base na duração do ciclo.

Nos últimos anos, as nomenclaturas relacionadas à duração do ciclo da soja passou por algumas reestruturações, que explicarei a seguir.

Muitas vezes, a mesma cultivar plantada em diferentes regiões apresentava variações na duração do seu ciclo.

Isso acabava por confundir os produtores e os consultores, causando dores de cabeça desnecessárias.

Para contornar essa situação surgiram os chamados grupos de maturação ou grupos de maturidade relativa.

grupo de maturidade relativa

Distribuição dos grupos de maturação (maturidade relativa) das cultivares no Brasil
(Fonte: Alliprandini et al. (2009))

Esses grupos de maturação levam em consideração cada região de cultivo e classificam as cultivares com valores que variam de 0 a 10.

Ainda separam as cultivares de acordo com a melhor adaptação para cada região, onde poderão atingir o máximo de seu potencial produtivo.

Assim, classificados em grupos, sabemos quais cultivares são mais aptas nas regiões do país.

Quais são as etapas do cultivo de soja?

Agora com tudo padronizado, alinhar as etapas do cultivo ao ciclo da soja será bem mais fácil.

Certamente a primeira etapa é o plantio, assim como a última será a colheita.

Como conhecemos os grupos de maturação, a escolha da cultivar ideal para nossas lavouras não será um problema.

Outros cuidados como a amostragem para correção e adubação do solo têm de ser realizados muito antes do plantio, não podemos deixar para última hora.

O controle de plantas daninhas também tem que ser bem planejado, lembre-se que alguns pré-emergentes podem afetar a emergência da soja.

Durante o desenvolvimento da lavoura, precisamos de atenção com as pragas e doenças ocorrendo na lavoura.

Por sua vez, o monitoramento de pragas bem como das doenças deve ser realizado em cada estágio de desenvolvimento da cultura.

Dessa forma podemos elaborar estratégias de manejo integrado, o que nos garante ações rápidas e certeiras para reduzir as perdas!

Todas essas etapas podem ser alocadas num único local: os softwares de gestão agrícola.

Esses aplicativos podem auxiliar na organização de calendários, entradas e saídas de insumos, controle de estoques e muito mais.

planejamento de safra de soja Aegro

Conclusão

Conhecer a nomenclatura do ciclo da soja facilita a vida de todos, desde os produtores aos profissionais da área.

Por isso é importante estar antenado para as mudanças e novidades, assim como o surgimento dos grupos de maturação.

No mundo globalizado que vivemos, a tecnologia vem ao nosso encontro e no campo não deve ser diferente.

A correta gestão dos manejos durante o ciclo da soja fará com que a cada ano possamos garantir novas safras recordes.

>> Leia mais:

Como controlar a lagarta enroladeira das folhas na sua lavoura

“Como livrar sua lavoura dos ataques do bicudo-da-soja”

“Tudo sobre tombamento da soja e como fazer o melhor manejo”

E você, já conhecia tudo sobre o ciclo da soja? Utiliza algum software de gestão agrícola para te auxiliar no campo? Conta pra gente nos comentários!