About João Leonardo Corte Baptistella

Sou Engenheiro Agrônomo pela ESALQ/USP em Piracicaba-SP. Mestre em Fitotecnia na mesma instituição com pesquisa voltada ao consórcio café-braquiária. Atualmente estou no doutorado.

Como evitar a fitotoxicidade por herbicidas no café e o que fazer caso ela ocorra

Fitotoxicidade por herbicidas no café: entenda os principais pontos para evitar os danos da deriva de herbicidas e como atuar em lavouras afetadas por isso

Como evitar a fitotoxicidade por herbicidas no café e o que fazer caso ela ocorra

As plantas daninhas do café dão a maior dor de cabeça na lavoura, não é mesmo? Principalmente nas fases iniciais de implantação do café, estamos sempre de olho nas invasoras.

Para controlá-las podemos recorrer ao uso de consórcios na entrelinha, ao controle mecânico com trincha ou roçadora e, mais comumente, aos herbicidas.

Embora os herbicidas tenham facilitado o manejo de diversas daninhas no café, quando erramos o alvo, o tiro pode sair pela culatra. Com isso, essa ferramenta pode se tornar um problema, atrapalhando o crescimento e desenvolvimento da lavoura. 

Separei algumas dicas de como evitar a fitotoxicidade por herbicidas no café e como proceder caso ela ocorra. Confira!

Entenda a fitotoxicidade por herbicidas no café

Quando aplicamos herbicidas no café, nosso alvo são as plantas daninhas. Portanto, as aplicações devem atingi-las para que o controle seja efetivo.

Quando erramos o alvo, temos uma eficácia de controle reduzida, gastos desnecessários – pois estamos “jogando produto fora” – mas também podemos causar danos ao cafeeiro. É isso que chamamos de fitotoxicidade por herbicidas, aquela história de “deu uma fito na lavoura”. 

A fitotoxicidade por herbicidas no café é fruto de aplicações feitas em condições ambientais impróprias, com má regulagem do equipamento e/ou sem as devidas precauções durante o processo, causando deriva do herbicida. 

Isso é relativamente comum no caso de aplicações de glifosato, herbicida bastante utilizado e não seletivo. Mas esse problema ocorre para outros herbicidas também.

Mas, então, como evitar que a aplicação de herbicidas cause fitotoxicidade no cafeeiro? Veremos isso a seguir!

3 passos para evitar a fitotoxicidade por herbicidas no café

O alvo das aplicações de herbicida são as plantas daninhas, não o café. Mas, por mais que estejamos “mirando” o alvo, alguns pontos devem ser levados em conta para garantir o sucesso da aplicação e evitar a fitotoxicidade no café.

Fatores do ambiente, da regulagem do equipamento e da experiência do operador podem afetar a aplicação.

1 – Aplique nas melhores condições possíveis

O ambiente influencia o sucesso das aplicações de herbicida. 

Condições de umidade relativa abaixo dos 50%, temperaturas acima de 30℃ e velocidade dos ventos acima de 10 km/h inviabilizam a operação!

Os dois primeiros fatores (temperatura e umidade) podem favorecer a volatilização dos compostos, os quais podem atingir o café. Os ventos podem, por si só, causarem a deriva da aplicação até o cafeeiro

Isoladamente, cada um desses fatores afeta negativamente a operação, mas a combinação deles é pior

Por isso, prefira horas mais amenas do dia, com pouco vento e dias com umidade do ar maior. 

É claro que, na prática, dificilmente esse cenário ideal é alcançado para todos os fatores, mas é sempre necessário buscar as melhores condições.

2 – Regule bem os implementos

O ambiente é importantíssimo, mas a maior responsável pela fitotoxicidade por herbicidas no café é a má regulagem dos equipamentos ou uso de equipamentos errados. 

Seja na aplicação manual ou mecanizada, regule a vazão correta de acordo com a recomendação de aplicação. A regulagem também deve levar em conta as condições ambientais, como mostra a figura abaixo.

tabela com informações de regulagem do tamanho de gota de acordo com as condições ambientais

Regulagem do tamanho de gota de acordo com as condições ambientais
(Fonte: Jacto)

Prefira bicos antideriva com indução de ar para evitar problemas e mantenha a barra de aplicação mais baixa e próxima ao dossel das invasoras, para evitar deriva ao café.

Não comece a aplicação sem antes ter tudo bem regulado e pare a aplicação se verificar algum problema!

Proteja o cafezal

Uma maneira de evitar deriva e fitotoxicidade por herbicidas no café é o uso de protetores. Eles são utilizados principalmente em aplicações manuais e evitam que o produto se espalhe fora do local de aplicação desejado. 

imagem de Chapéu protetor para evitar a deriva da aplicação de herbicidas

Chapéu protetor para evitar a deriva da aplicação de herbicidas
(Fonte: Jacto)

3 – Utilize outros métodos de controle

É importante ressaltar que existem opções para reduzir os efeitos negativos de herbicidas que não estão diretamente relacionadas à sua aplicação. O uso de métodos de controle alternativos, reduz o uso de herbicidas e, consequentemente, as possibilidades de deriva.

O controle de plantas daninhas (assim como o de pragas e doenças) deve ser feito dentro de um programa de manejo integrado. 

Assim, o uso de herbicidas não é (ou não deveria ser…) o único método de controle de daninhas no cafezal. Podemos e devemos lançar mão, sempre que possível, de controle mecânico e cultural.

O controle mecânico está relacionado ao uso de trincha e/ou roçadora na entrelinha do cafezal. 

Já o controle cultural está relacionado ao espaçamento da lavoura e uso de culturas intercalares. 

Menor espaçamento reduz a incidência de luz e, consequentemente, de daninhas. Já as culturas intercalares “abafam” as daninhas e tornam-se as espécies dominantes. 

Existem várias opções de espécies, mas as braquiárias têm se mostrado eficientes nesse quesito, pois são perenes e tem grande produção de biomassa, reduzindo as infestações. 

Manejo pós-fitotoxicidade na lavoura

Ainda é incerto qual é o melhor manejo após a ocorrência da fitotoxicidade de herbicidas. Afinal, existem vários herbicidas que podem causar esse problema e vários graus de fitoxicidade que o cafeeiro pode ter sofrido. 

Além disso, cultivares de café têm diferentes tolerâncias aos danos por herbicidas.

Em sua dissertação de mestrado, Alecrim (2016) estudou os efeitos da aplicação de sacarose na recuperação e desintoxicação de mudas de café atingidas por deriva de glifosato

O autor conclui que a aplicação de sacarose na concentração de 2% em até uma hora após a ocorrência da deriva pode ajudar na recuperação do cafeeiro.

Outros estudos devem ser feitos para verificar outras alternativas e efeitos sobre outros herbicidas.

banner-adubacao-cafe

Conclusão

Como pudemos acompanhar ao longo do texto, existem alguns herbicidas disponíveis para serem utilizados no manejo de daninhas na cultura do cafeeiro. Todos ele têm potencial para causar fitotoxicidade no café.  

De qualquer maneira, existem boas práticas que podem ser empregadas para evitar a deriva e a fitotoxicidade por herbicidas no café. O importante é acertar o alvo, ou seja, as daninhas!

Condições ambientais ideais devem ser preferidas para a aplicação dos herbicidas. Além disso, a vazão de aplicação deve ser ajustada e os bicos devem estar bem regulados! 

Vimos que, caso ocorra danos ao cafeeiro, uma alternativa pode ser a aplicação foliar de sacarose. Mas ainda são necessários novos estudos sobre esse tema. 

De qualquer forma, por algum tempo o café irá sentir a fitotoxicidade por herbicidas até que se recupere.

>>Leia mais:

10 dicas para melhorar a gestão da sua lavoura de café

Tudo o que você precisa saber sobre a produção de cafés especiais

Você já teve problemas de fitotoxicidade por herbicidas no café? Como você faz para evitar ou remediar essa situação? Conte para gente nos comentário!

Como prevenir a perda de grãos por geada

Perda de grãos por geada: saiba como se planejar, como obter o histórico climático da sua área e acertar a janela de plantio.

Todo ano, as geadas tiram o sono de muitos produtores. Embora esse fenômeno seja mais comum na região Sul, São Paulo, sul de Minas Gerais e Mato Grosso do Sul também sofrem com geadas.

Existe mais de um tipo de geada e seus danos dependem da região, relevo e cultura em questão. 

Mas existem medidas que podem ser tomar e, quando usadas em conjunto, ajudam na prevenção e redução de danos nas lavouras.

Reuni alguns pontos que devemos considerar quando o assunto é prevenção das perdas de grãos por geada. Confira!

O que é a geada?

A geada é um fenômeno meteorológico que ocorre quando a temperatura atinge 0℃ e há umidade no ar. Os danos podem ser causados por ventos frios soprando por várias horas ou mesmo pelo acúmulo de ar frio. 

Por esse motivo, conforme se caminha para o inverno, maiores são as chances de ocorrência de geada. 

Do ponto de vista da produção vegetal, considera-se que ocorreu geada quando a temperatura no abrigo meteorológico fica abaixo de 2℃ e representa morte da planta ou de suas partes devido ao congelamento. 

Tipos de geada

As geadas podem ser classificadas quanto à sua formação:

  • advecção;
  • radiação;
  • mista; 
  • de canela. 

ou por seu aspecto visual: 

  • geada branca; 
  • geada negra. 

No Brasil, o mais comum é que ocorram geadas brancas de radiação, em geral, menos severas. 

duas fotos ilustrativas de geada negra e geada branca em lavouras

Geada negra e geada branca
(Fonte: adaptado de Marco Hisatomi e Gaúcha Zh)

3 passos para prevenir a perda de grãos por geada

Os danos causados pela geada podem ser minimizados ou prevenidos com um bom planejamento, escolha de variedades e manejo adequado:

1- Observe o histórico de geadas da região

Para um bom planejamento visando minimizar a perda de grão por geada é necessário conhecer o histórico de ocorrência desse fenômeno no seu local. Existe mais de uma base de dados que fornece essas informações.

Veja abaixo três exemplos de onde você pode acessar informações sobre geadas e se planejar.

Na primeira imagem, há o mapa de previsão de geadas do Sisdagro, do Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia). Note que ele informa um maior risco de geada no Rio Grande do Sul e parte de Santa Catarina, enquanto o Paraná tem menos riscos.

Ilustração com exemplo de mapa de risco de geada no Brasil

Exemplo de mapa de risco de geada no Brasil
(Inmet)

O Cptec/Inpe também tem um sistema de previsão de geadas que gera um mapa mostrando as condições de ocorrência. Os pontos vermelhos indicam maior probabilidade de ocorrência de geada.

Mapa de ocorrência de geada, no exemplo para a madrugada do dia 30 de julho de 2020 com pontos vermelhos na região Sul e azul na região Sudeste.

Mapa de ocorrência de geada 
(Cptec/Inpe)

Mais especificamente para o estado do Paraná, o Iapar disponibiliza um histórico de geadas e gera mapas como o abaixo:

Mapa de geada no estado do Paraná, no exemplo temperatura mínima no abrigo em 08 de julho de 2019.

Mapa de geada no estado do Paraná
(Fonte: Iapar)

Independentemente da base de dados utilizada, essas informações são úteis para o planejamento do plantio de culturas de inverno. Outro fator a se levar em conta, são as espécies de planta.

2- Escolha cultivares adequadamente

As perdas nas lavouras por geada dependem da espécie e cultivar, estádio de desenvolvimento, fitossanidade e estado nutricional da plantação. 

A tabela abaixo mostra a temperatura letal para diferentes culturas. Observe:

Tabela com a temperatura letal de culturas anuais sendo trigo, aveia, feijão, soja, milho, sorgo e arroz.

Temperatura letal de culturas graníferas 
(Fonte: adaptado de Sentelhas e Angelocci)

Veja que trigo e aveia têm mais tolerância à geada. Mas isso não quer dizer que uma lavoura de trigo não sofra perdas por geada! Elas só “aguentam mais o tranco”.

Mas isso também depende da cultivar, pois dentro de uma mesma espécie existem cultivares mais ou menos resistentes ao frio. 

Milho e soja, culturas tipicamente de verão, são menos tolerantes às baixas temperaturas e não dispõem de cultivares que sejam resistentes à geada. 

Para o trigo, existem opções de cultivares mais resistentes ao frio. 

Em locais onde o risco de geada é maior, opte por variedades mais resistentes.

Note também, que mesmo para trigo e aveia, a fase de floração e enchimento de grãos é crítica, pois as plantas são menos tolerantes ao frio. Por isso, para evitar dor de cabeça, outro fator é importante de se levar em conta: a data de semeadura.

3- Não erre na data (nem no local) de semeadura

Data de semeadura

Baseado no histórico de ocorrência de geadas, mês a mês, e no ciclo da cultivar, é possível escalonar o plantio para que a fase reprodutiva não caia na época de maior ocorrência de geadas do local. 

O governo disponibiliza o Zoneamento agrícola de risco climático (Zarc), onde é possível encontrar a janela de plantio ideal para minimizar os riscos da cultura e região em que se deseja plantar. O aplicativo desenvolvido pela Embrapa facilita a visualização dessas informações do Zarc.

Plantar na janela ideal é primordial para obtenção de crédito rural e seguro agrícola também. Fique atento!

Topoclima e relevo

A intensidade e frequência de geadas também está relacionada às condições do topoclima ou relevo. As geadas são mais intensas e frequentes em locais onde há pouca circulação da massa de ar frio, como nas baixadas

Ilustração sobre problema do acúmulo de ar frio de acordo com relevo e vegetação

O problema do acúmulo de ar frio de acordo com relevo e vegetação 
(Fonte: Sentelhas e Angelocci)

Além disso, quando a face Sul/Sudoeste dos terrenos está menos exposta à luz do sol no inverno, os riscos são maiores!

Considerando a combinação de fatores – relevo, data de semeadura e cultivar – o ideal é que se deixe as cultivares menos resistentes para o fim da  janela de plantio e para as partes mais altas do relevo, reduzindo, assim, a perda de grãos por geada. 

Como alternativa de manejo na lavoura já instalada, a irrigação por aspersão durante a noite da geada ajudar a minimizar os danos.

banner e-book guia de planejamento para milho e soja

Conclusão

Como acompanhamos no texto, a geada é um fenômeno meteorológico como qualquer outro e, como tal, sua ocorrência está fora do alcance do produtor. 

Mas existem “cartas na manga” que, quando utilizadas em conjunto, podem facilitar o convívio com esse fenômeno

Dentre as possibilidades, o maior impacto na redução da perda de grãos por geada vem do bom planejamento na instalação da lavoura. É preciso evitar áreas de baixada – onde o ar frio se acumula –  e plantar na época correta do zoneamento de risco climático

Além disso, recomenda-se escolher cultivares que tenham maior tolerância nas áreas onde o histórico de ocorrência de geada for maior. A cultura do trigo dispõe de várias alternativas. Já milho e soja, não. Fique atento! 

>>Leia mais:

Qual a relação entre clima e agricultura?

“Como combater o estresse térmico nas plantas?”

“Como minimizar os impactos e prejuízos da geada no milho”

Como você se previne da perda de grãos por geada na sua propriedade? Deixe suas dúvidas ou comentários no espaço abaixo. Grande abraço, se cuide e até a próxima!

Tudo que você precisa saber sobre a produção de cafés especiais

Produção de cafés especiais: entenda melhor esse mercado e veja as dicas de como implantar ou adaptar sua lavoura para esse tipo de bebida

O consumo de cafés especiais no Brasil cresce 15% ao ano, ritmo quatro vezes maior que o dos cafés tradicionais! No mundo, a tendência também é de aumento.

O mercado de cafés especiais, portanto, é um nicho a ser explorado. Os preços pagos são maiores e a qualidade final do produto também. 

Mas para focar na produção de cafés especiais é preciso mudar o modo como se pensa a cafeicultura. Alterações são necessárias desde à lavoura até a comercialização do produto.

Separei algumas dicas sobre como produzir cafés especiais e como não errar na transição de uma produção de cafés convencionais para os especiais. Confira!

O que são cafés especiais

O Brasil é o maior produtor de café do mundo e só perde para os Estados Unidos em consumo. Mas apenas 10% do consumo de cafés no nosso país fica por conta dos especiais. Isso por enquanto, pois esse mercado vem mudando rapidamente e o crescimento é inevitável.

Mas, afinal, o que são esses café especiais?

A SCA (Specialty Coffee Association – Associação de Cafés Especiais) padroniza a metodologia para classificação de cafés em nível mundial.

Segundo a SCA, os cafés especiais em grão verde são 100% arábica e não podem apresentar nenhum defeito primário (grãos pretos, ardidos, fungados, material estranho, etc) e, no máximo, dois defeitos secundários (defeitos parciais). 

Defeitos dos cafés em grão verde

Defeitos dos cafés em grão verde
(Fonte: Mexido de ideias.com)

Ela também considera como especiais aqueles cafés com 80 pontos ou mais em sua avaliação de bebida (que vai de 0 a 100) e analisa diversos parâmetros como mostra o vídeo explicativo abaixo.

No Brasil, a BSCA (Cafés especiais do Brasil) se baseia nessas diretrizes também. 

A seguir, veremos como produzir cafés especiais que atendam a esses parâmetros. 

Como produzir cafés especiais

É importante lembrar que a produção de cafés especiais deve visar, acima de tudo, atender à demanda do mercado consumidor desses cafés. É ele que vai direcionar as ações do produtor.

Portanto, vamos começar de trás para frente, mostrando primeiramente o que o consumidor quer e, depois, abordando como produzir café para atendê-lo.

Entenda o mercado

Segundo levantamento do Sebrae, os consumidores de cafés especiais no Brasil querem saber a origem do café e se a produção é sustentável, além de exigir qualidade, é claro

Do ponto de vista do consumo em si – do café na xícara – o mercado busca toda uma experiência de consumo, com ampla variedade de cafés e métodos de preparo, um ambiente agradável e maior proximidade com a origem do café, com o produtor.

Formas de atender à demanda

Partindo desse princípio, o produtor tem alguns caminhos a tomar, por exemplo:

  1. Produzir cafés de qualidade e se associar a cooperativas para venda.
  2. Criar a própria marca de café e vender o produto final diretamente ao varejo/consumidor final.
  3. Fornecer a experiência de se tomar um café especial, com um espaço para receber os clientes, servir, vender e contar como foi produzido aquele café.
Exemplo de cafés especiais com produção artesanal e, consequentemente, maior valor agregado

Exemplo de cafés especiais com produção artesanal e, consequentemente, maior valor agregado
(Fonte: Cafezal em Flor)

Não é o intuito deste texto entrar em detalhes sobre cada um desses modelos, pois a prosa seria longa e são apenas modelos gerais para ilustrar. Mas algumas considerações cabem aqui.

Transição de lavouras convencionais para produção de cafés especiais

Perceba que cada um desses três exemplos acima representam níveis de complexidade e detalhamento do negócio diferentes.

No primeiro caso, a transição para a produção de cafés especiais é mais fácil e necessita apenas de algumas modificações no sistema produtivo convencional.

Nos outros dois, o produtor tem que dominar as técnicas de cultivo e processamento, e entender a fundo o mercado, os canais para acessar o cliente e, mais importante, como lidar diretamente com esse público. 

O desafio é ainda maior caso se deseje explorar o competitivo mercado internacional de cafés. De qualquer maneira, todo bom café parte de boas práticas em sua produção!

Plantio, escolha de variedades e manejo da lavoura

Como os consumidores se preocupam com as origens dos cafés especiais, é importante haver a rastreabilidade da semente à xícara. 

Portanto, no plantio ou renovação da lavoura é fundamental comprar mudas de viveiristas certificados e que sigam boas práticas na produção.

Teoricamente, qualquer variedade pode produzir cafés especiais, por isso, não é necessário que se troque a variedade já existente no local. 

No caso de lavouras novas ou em reforma, opte por escalonar a produção, com variedades precoces, médias e tardias. 

Dessa maneira a sua colheita será gradual, permitindo dedicar mais tempo à ela e colher somente os frutos realmente maduros, reduzindo a porcentagem dos verdes. 

A partir daí, o manejo pode ser convencional ou até orgânico. De qualquer maneira, o manejo sempre deve seguir boas práticas de manejo nutricional, de pragas e doenças, para uma produção sustentável de café.

Colheita e pós-colheita de cafés especiais

Talvez essa seja a parte mais importante de toda essa conversa!

Quando se fala em cafés especiais, todo capricho é pouco na hora da colheita e do processamento. É necessário padronização, uniformidade.

Primeiramente, deve-se evitar a colheita de grãos verdes, selecionando só os cerejas. No caso de colheita mecanizada, é indicado manter os verdes abaixo de 20% e separá-los após a colheita.

Cafés no ponto ideal para colheita

Cafés no ponto ideal para colheita
(Fonte: World Coffee Research)

Também é ideal dividir os cafés colhidos em lotes menores, de acordo com a variedade, expectativa de produção do talhão e também histórico da área, por exemplo. Isso facilita o controle dos cafés e a obtenção de lote mais homogêneos e melhores. 

Separação de cafés em microlotes para secagem

Separação de cafés em microlotes para secagem
(Fonte: agenciaminas.mg.gov.br)

Após a colheita, existem inúmeras possibilidades de processamento e pós-colheita para a obtenção de diversos tipos cafés especiais. Tudo é bem controlado e detalhado.  

Já falamos especificamente sobre esse processo aqui no Blog do Aegro! Confira aqui as tendências e perspectivas na pós-colheita para um café de qualidade.

Vale lembrar que nem toda a produção da lavoura será especial, mesmo que tudo seja controlado. Por isso, é tão importante a separação de lotes e um controle rígido sobre os cafés.

Custo de produção de cafés especiais

Quando o assunto é custo de produção, cada caso é um caso. Para cada situação podem existir diferentes questões que reduzem ou aumentam os custos.

No caso dos cafés especiais, a transição de uma produção focada no convencional para o especial pode ser mais custosa, dependendo do nível de detalhamento já empregado no manejo e gerenciamento da propriedade. 

Mas, de modo geral, os custos da produção de cafés especiais são mais elevados, pois demandam maior investimento tanto na lavoura como no pós-colheita. 

É preciso investir mais em análises de solo, foliar, no monitoramento de pragas/doenças (que precisa ser mais frequente) e no gerenciamento de talhões. Na colheita/pós-colheita, paga-se o preço de uma colheita mais seletiva, separação de lotes distintos e secagem diferenciada, por exemplo.

Contudo, devido ao maior preço pago pelo café especial, as receitas também são maiores, o que pode aumentar a lucratividade da produtividade.  

Dependendo do nicho de mercado que se quer explorar, sabemos que cafés especiais podem atingir preços elevadíssimos, onde micro-lotes equivalem a muitas e muitas sacas do convencional. Duvida que isso seja possível? Vamos lá!

Concursos de qualidade

Anualmente, a BSCA realiza o “Cup of Excellence – Brazil”, o principal concurso de qualidade de café do mundo. Uma forma de premiar os melhores cafés, melhorar a imagem do café do Brasil internacionalmente e incentivar a produção de café especiais.

Na edição do ano passado, 2019, o ganhador era da região Sul de Minas Gerais e vendeu seu café por “míseros” US$ 7.900 a saca! Isso mesmo! E, na média dos competidores do concurso, nenhum café saiu por menos de US$ 1.500 a saca.

Regiões brasileiras produtoras de café arábica e robusta

Regiões brasileiras produtoras de café arábica e robusta
(Fonte: BSCA)

Esse exemplo ilustra muito bem como a produção de cafés especiais pode ser uma solução, especialmente em tempos de baixo preço do café na bolsa de Nova York.

Logicamente, essa qualidade não se fez da noite para o dia. Houve muita dedicação e trabalho por parte desses produtores para chegar a isso. Mas se eles conseguiram, por que você também não pode conseguir? E aí, o que me diz?

banner-adubacao-cafe

Conclusão

O mercado de cafés especiais é um nicho a ser explorado pelo cafeicultor brasileiro. São várias opções a seguir, mas, para fazê-lo, é necessário tomar cuidados adicionais, desde o campo até a xícara. 

Nesse quesito, o produtor brasileiro está com a “faca e o queijo na mão” ou melhor “com o “coador e a xícara na mão”! Já sabemos produzir café muito bem, basta alguns ajustes para obter maior qualidade no produto. 

A produção de cafés especiais deve ser voltada para as exigências do mercado. Assim, embora tenha um maior custo associado, a produção pode ser vantajosa, pois os preços pagos pelo produto também são maiores.

Não existe uma receita pronta sobre como produzir cafés especiais. Para cada realidade, o mercado desses cafés pode ser explorado de forma distinta e igualmente válida!

>> Leia mais:

10 dicas para melhorar a gestão da sua lavoura de café

Adubação para café: simples e prática (+ planilha)

Você já pensou em adaptar sua lavoura para a produção de cafés especiais? Quais as maiores dificuldades para isso? Conte para gente nos comentários. Grande abraço e até a próxima!

Principais pragas do café: prevenção, identificação e controle

Pragas do café: entenda como as principais pragas são favorecidas, como prevenir, identificar e controlá-las corretamente.

O brasileiro adora café e o Brasil é o maior produtor do mundo. Mas, para um café de qualidade chegar até a xícara, é preciso muito esforço!

Você faz tudo certinho, torce para o clima colaborar e, mesmo quando isso “caseia” certinho, vem “uns bichin” encher o saco: as pragas! ? 

São muitas as pragas do café e todas elas causam danos diretos e indiretos à produção e qualidade. A broca sempre foi “a” praga do cafeeiro, título que agora é ocupado pelo bicho mineiro.

Separei alguma dicas sobre as principais pragas do café, como prevenir e minimizar seus danos. Confira comigo a seguir!

O manejo integrado de pragas do café

Antes de falar sobre as características das principais pragas do café, quero que você tenha em mente quando vale a pena controlá-las.

O controle das pragas do café deve ser feito seguindo os preceitos do Manejo Integrado de Pragas (MIP), que é baseado em critérios econômicos, ecológicos e sociais. Isso evita inúmeros problemas e mantém a produção sustentável.

Esquema que mostra a estrutura do manejo de pragas do café
Estrutura do MIP
(Fonte: ABCBio)


Com o MIP, levamos em consideração o custo/benefício da ação de controle e quais os impactos sobre o ambiente, o produtor e a população de demais organismos presentes na lavoura. 

A ideia é manter a população de pragas abaixo do nível que causa dano econômico, sendo controladas somente quando atingem o nível de controle. Veja a figura abaixo:

Gráfico que mostra níveis de dano para mip
(Fonte: ABCBio)

São várias técnicas de manejo empregadas no MIP, algumas preventivas, como controle cultural, uso de armadilhas e variedades resistentes; e outras para controle imediato, como o controle biológico, além do controle químico.

Como veremos a seguir, isso é específico para cada praga do cafeeiro e é baseado em muitas amostragens.

Principais pragas do café

A broca-do-café (Hypothenemus hampei)

Características, comportamento e danos 

Temos relatos dos danos causados pela broca-do-café no Brasil desde 1920.  Elas são besouros que atacam os frutos de café e vivem e se reproduzem dentro dele. 

Foto da broca do café

A broca-do-café 
(Fonte: Koppert)

Além de danificar os grãos e reduzir sua qualidade, seus danos podem favorecer queda e também a entrada de patógenos.

pragas-do-café
Danos causados pela broca-do-café 
(Fonte: Epamig)

Após o acasalamento, os machos permanecem dentro dos frutos e são as fêmeas que saem para colonizar novos frutos, no chamado “período de trânsito”. 

A saída é estimulada pelas condições ambientais e elas são atraídas por compostos voláteis produzidos pelo próprio fruto. 

Condições favoráveis

As infestações de broca são favorecidas por lavouras mais adensadas e locais com maior umidade. Por isso, lavouras nas baixadas ou em anos com invernos chuvosos podem ser mais atacadas.

O principal fator para infestação de broca é deixar frutos caídos na lavoura. A broca usa esses frutos para se multiplicar e aumentar sua população. 

Métodos de prevenção e controle

O controle da broca deve seguir o MIP e com isso temos algumas alternativas. A melhor maneira de prevenir e reduzir a infestação de broca é fazer uma colheita bem feita, repassando para não “deixar grãos para trás” e varrer aqueles caídos.  

Como métodos controle podemos realizar o controle biológico com parasitóides ou com o fungo Beauveria bassiana. 

Controle biológico da broca

Controle biológico da broca com predadores/fungos
(Fonte: Epamig)

Temos também a opção de utilizar armadilhas com atraentes para capturar a broca. Já o controle químico pode ser feito com clorpirifós, de 1 a 1.5L/ha.

Vale lembrar que os métodos de controle devem ser aplicados no período de trânsito da broca, que geralmente vai de outubro a dezembro. As aplicações são embasadas por amostragem previamente feitas e quando houver danos econômicos.

MIP: amostragem e nível de controle

As amostragens para broca devem ser feitas já na primeira florada do cafezal e seguindo as recomendações abaixo. O controle químico, pode ser aplicado conforme os níveis críticos são atingidos.

pragas do café

Recomendações de monitoramento e amostragem para broca-do-café

Pragas do café: Bicho Mineiro (Leucoptera coffeella)

Características, comportamento e danos 

Devido às mudanças sofridas no sistema produtivo do cafeeiro, o bicho mineiro passou a ser a praga mais importante da cultura desde a década de 70. 

Foto do ciclo do bicho-mineiro
(Fonte: Elevagro)

O bicho mineiro ataca exclusivamente o cafeeiro, causando perda de área foliar por cavar galerias nas folhas do cafeeiro. Os danos são causados, em sua maioria, nos terços médio e superior da planta.

Foto da crisálida do bicho mineiro
Crisálida e danos causados pelo bicho mineiro
(Autor: Giovani Belutti Voltolini, 2016)

O adulto é uma mariposa que põe seus ovos no terço superior do cafeeiro, na face superior das folhas. Após eclodir, as lagartinhas penetram na folha e começam a consumi-la.

Atualmente, temos dois picos populacionais de bicho mineiro, como você pode ver na figura abaixo. As medidas de controle devem ser direcionadas para esses dois períodos.

Foto dos picos do bicho mineiro
Picos populacionais do bicho mineiro 
(Fonte: AgroBayer)

Condições favoráveis

O bicho mineiro é favorecido por condições mais secas e temperaturas elevadas. Portanto, podem ser mais problemáticos em lavouras mais espaçadas e nas faces mais ensolaradas do cafezal. Desequilíbrio nutricional do cafeeiro também favorece o bicho mineiro. 

O uso indiscriminado de inseticidas não seletivos e de cúpricos têm grande impacto sobre os inimigos naturais do bicho mineiro, portanto, altas infestações são favorecidas. 

MIP: amostragem e nível de controle do bicho mineiro

A amostragem deve começar já em outubro nas regiões mais quentes, ou com a chegada do período seco em locais mais amenos, conforme a tabela abaixo. 

Vale lembrar que se for observado predação nas minas, acima de 40%, a intervenção com inseticidas pode esperar. Deve ser dada atenção especial às lavouras novas, pois as plantas têm pouca área foliar e os danos podem ser grandes.

Recomendações de monitoramento e amostragem para bicho mineiro
Recomendações de monitoramento e amostragem para bicho mineiro

Métodos de controle

O controle cultural do bicho mineiro pode ser feito com plantios mais adensados e adubações feitas corretamente. Como controle biológico temos parasitóides (Eulophidae e Braconidae) e predadores (Vespidae), estes últimos com maior eficiência de controle. 

O controle químico deve ser realizado quando os níveis de dano forem atingidos, sempre prestando atenção nas amostragens e no histórico de infestação da área.

Pragas do café: Ácaros

O manejo inadequado do bicho mineiro propiciou desequilíbrios no sistema, fazendo com que outras pragas, especialmente os ácaros, se tornassem problemáticas. Eles geralmente são favorecidos por condições mais secas. São três espécies mais problemáticas:

1. Ácaro vermelho (Oligonychus ilicis)

O ácaro vermelho ataca os ponteiros do café, na face superior da folha, dando um aspecto de bronzeamento e pode levar à desfolha.

sintomas do ácaro vermelho no café
Sintomas causados pelo ácaro vermelho
(Fonte: Antonio de Souza)

2. Ácaro branco (Polyphagotarsonemus latus)

Ataca os ponteiros do café, mas a face inferior da folha. É um ácaro que pode causar danos mais significativos em lavouras jovens, pois causa redução, enrolamento e deformação das folhas jovens. 

3. Ácaro da mancha anular (Brevipalpus phoenicis)

Causa manchas cloróticas nas folhas e nos frutos. Isso pode levar à severa desfolha e perda de qualidade do café.

Foto dos danos causados no café
Sintomas causados pelo ácaro da mancha anular
(Fonte: Café Point)

É o mesmo ácaro responsável por transmitir a leprose do citros, portanto, cafezais próximos à áreas com citros podem ter maiores infestações. 

O melhor manejo para os ácaros é o uso de produtos seletivos que não controlem seus inimigos naturais, principalmente os ácaros predadores, responsáveis por grande parte do controle. 

No caso do ácaro vermelho e da mancha anular, os mais problemáticos, os acaricidas mais indicados são avermectinas.

Pragas do café: Cigarras

Há muito tempo, as cigarras causam danos ao cafeeiro. Sua ninfas atacam as raízes e sugam seiva, causando depauperamento progressivo da planta. 

São várias espécies, sendo Quesada spp., Fidicina spp. e Carineta spp., as que causam mais danos.

Foto de lavoura do café
Lavoura depauperada pelo ataque de cigarras
(Fonte: CNA)

Para seu controle, indicam-se inseticidas sistêmicos, mas existem armadilhas sonoras que são eficazes contra Quesada spp.

Outras pragas do café

Existem outras pragas que atacam a cultura do café, algumas delas são secundárias ou podem ser problemas em determinadas situações ou regiões. Como exemplo podemos citar as lagartas, cigarrinhas, cochonilhas da raiz e parte aérea, além das moscas da raiz.

Muitas dessas pragas passaram a ter importância devido ao manejo inadequado do bicho mineiro, por exemplo. Isso ilustra a importância de seguir as diretrizes do MIP para manejo, sempre com monitoramento e amostragem. 

Mais informações sobre o controle das pragas de menor importância  pragas você pode encontrar aqui: Manual do café.

Confira também nossa palestra online e gratuita sobre MIP:  

Conclusão

Ao longo do texto mostramos as principais pragas do café, como prevenir sua ocorrência e controlá-la da maneira correta. Logicamente, existem outras pragas de menor importância, mas o raciocínio utilizado deve ser o mesmo.

O Manejo Integrado de Pragas (MIP) é imprescindível para que o controle seja sustentável e efetivo. O MIP deve ser seguido, sempre com auxílio de um engenheiro agrônomo de sua confiança.  

Com o manejo correto das pragas do café, seu cafezal será mais produtivo e a qualidade dos frutos poderá ser melhor também!

>> Leia mais:

Guia de controle das principais plantas daninhas do café”

“Como grupo cafeeiro realiza o monitoramento de pragas em 5 fazendas com apoio da tecnologia”

Restou alguma dúvida sobre as pragas do café? Deixe os comentários abaixo. Continue nos acompanhando, se cuide e até a próxima! Grande abraço!

Variedades de café mais produtivas: como escolher a melhor para sua propriedade

Variedades de café mais produtivas: entenda como seu sistema produtivo influencia  e o que considerar para eleger a cultivar adequada

Quais variedades de café são mais produtivas? Qual eu devo plantar aqui na minha propriedade? Qual você recomenda?

Se você já fez ou ouviu essa pergunta, sabe que não é tão fácil respondê-la. E, na maioria das vezes, é um grande “depende”. Mas, e aí, será que existe a tal da variedade de café mais produtiva

Olha, são mais de 130 variedades de café arábica disponíveis! Algumas velhas conhecidas do produtor, como Mundo Novo e os Catuaís, mas temos também as mais recentes. Quais produzem mais?

Separei alguns pontos a se considerar quando o assunto é variedade de café e produtividade. Mas, já adianto… depende! Confira comigo a seguir!

Variedades de café mais produtivas 

Ao longo dos anos, inúmeras cultivares de café foram lançadas pelas instituições de pesquisa brasileira. Hoje, são mais de 130 variedades no RNC (Registro Nacional de Cultivares) do Mapa.

Essas variedades proporcionaram grande evolução da cafeicultura brasileira em produtividade e em outros aspectos como tolerância a estresses e resistência a doenças. 

Com tantas opções, quais as variedades de café mais produtivas? Não é uma resposta simples!

E o que complica ainda mais é o seguinte: 90% da cafeicultura brasileira é feita sobre as variedades do IAC, Mundo Novo e Catuaí, que já estão conosco desde os anos 50 e 70.

Mas, se a produtividade nacional ainda vêm crescendo nos últimos anos, como explicar esse fato se os materiais genéticos mais usados ainda são os mesmos?

Gráfico que mostra variedades produtivas de café
Série histórica da produtividade média da cafeicultura nacional; Catuaí e Novo Mundo têm sido as principais variedades há décadas

É o que vamos abordar ao longo desse texto para dar “uma luz” quanto à pergunta: “quais as variedades de café mais produtivas?”

Como veremos a seguir, a produtividade é relativa ao sistema de produção (ambiente), não somente à genética da planta; e outros fatores devem ser levados em conta na hora da escolha da variedade.

Potencial produtivo e sistema de produção

O desenvolvimento e a produtividade de uma lavoura de café é função da interação de dois fatores: o material genético (variedade) e o ambiente (clima/solo/sistema de produção).

Cada variedade tem um potencial produtivo – umas maiores que as outras. Mas, para esse potencial ser expresso, precisamos de um ambiente favorável, afinal, as variedade têm adaptabilidade diferentes às condições ambientais. 

Desse modo, o resultado final “produtividade” pode ser visto como a  expressão do potencial produtivo da variedade regulado/limitado pelo ambiente. 

Baseado nisso é possível fazer colocações importantes:

1 – A mesma variedade em ambientes distintos pode ter produtividades diferentes.

2 – Uma variedade pode ser mais produtiva em determinado ambiente e menos produtiva em outro.

Portanto, na prática, não existe “A” variedade de café mais produtiva, mas variedades que se adaptam melhor e produzem mais em determinado ambiente/sistema de produção.

Assim, ambiente e genética devem andar de mãos dadas para se obter os melhores resultados!

Critérios para escolha de variedades de café mais produtivas

A escolha de uma variedade é como um “cabo de guerra” entre as exigências dela para expressar seu potencial e o que o seu sistema produtivo pode oferecer.

Ou você escolhe a variedade que melhor se adapta às suas condições ou terá de mudar seu sistema de produção. 

Foto de grãos de café bourbon, com grãos vermelhos
Café Bourbon Vermelho
(Fonte: World Coffee Research.com)

Variedades de café: genética 

Além do potencial produtivo, alguns aspectos devem ser observados. São eles: 

  • porte (baixo, médio ou alto);
  • vigor;
  • diâmetro da copa;
  • ciclo de maturação;
  • resistência a pragas e doenças;
  • aspectos relativos à qualidade da bebida e tamanho do grão.

A tabela abaixo mostra informações relativas a algumas variedade de café em aspectos como capacidade produtiva. Como já dissemos, são muitas! 

Se você quiser informações mais detalhadas e específicas de cada cultivar, recomendo acessar o site do Consórcio Pesquisa Café.

Tabela com variedades produtivas de café
Características de algumas variedade de café arábica

Vigor, porte e diâmetro 

São importantes, considerando se o seu sistema de cultivo é adensado, se a colheita e os tratos culturais são mecanizados. 

Plantas de menor porte são preferíveis, pois muito grandes dificultam todas as operações e aumentam a necessidade de podas.

Pragas e doenças 

As variedades que dominam o parque cafeeiro nacional são suscetíveis à ferrugem e nematoides. 

A escolha de cultivares resistentes reduzem os gastos com essas enfermidades e são de vital importância em sistemas limitados, como os cultivos orgânicos.  

Novos materiais, como os Siriemas, têm múltipla resistência: são resistentes ao ataque do bicho mineiro, ferrugem, phoma e também tolerantes à seca; segundo os dados da Fundação Procafé.

>> Leia mais: “Como reduzir os impactos da seca no plantio de café”

Ciclo de maturação 

O ciclo de maturação é de extrema importância, pois define a época da colheita, bem como as operações que a precedem e sucedem. 

Por isso, a relação desse ciclo com altitude/temperatura é fundamental, pois regiões mais altas e amenas tendem a alongar o ciclo, deixando-o mais tardio.

E isso pode ser um grande problema!

Em propriedades onde predominam temperaturas frias ou em regiões mais altas, opte por variedades mais precoces.

variedades de café mais produtivas

Comparação entre a maturação de três variedades distintas de café. A maior presença de grãos verdes em relação ao Catuaí vermelho mostra o ciclo de maturação muito tardio dos Obatãs
(Fonte: Consórcio Pesquisa Café)

Qualidade de bebida

Em teoria, todas as cultivares têm potencial para gerar boas bebidas se colhidas no ponto certo. 

Algumas delas, como o Bourbon, ganharam fama de bons bebedores, mas produzem menos. Além disso, a qualidade do café depende também do pós-colheita.

O ambiente: sistemas de produção

Devemos nos perguntar: o que o meu sistema pode oferecer para que o cafeeiro se desenvolva bem?

A comparação que eu faço é a de um Fusca e uma Ferrari. Será que uma Ferrari vai andar bem naquela estrada de terra esburacada que o fuscão tira de letra? Não! Mas, ao mesmo tempo, se colocarmos os dois numa rodovia, a Ferrari sai “voando baixo”…

De nada adianta colocar um excelente material genético (a nossa Ferrari),  exigente e produtivo, se você não der as condições necessárias. Talvez seja melhor um material mais rústico, que tolere mais adversidades (o nosso Fusca).

Ambos são bons materiais, mas cada um dentro da sua realidade, em seu ambiente!

Esse entendimento do sistema possibilitou os aumentos ainda crescentes da produtividade nacional. Estamos cuidando melhor dos nosso cafeeiros e isso explica por que as antigas cultivares ainda são competitivas: o ambiente melhorou!

Fotos de folhas de café sadias
Folhas sadias do cafeeiro
(Fonte: World Coffee Research.com)

Como alteramos o nosso ambiente para melhor produção de café?

Ora, clima e tipo de solo não podemos mudar. Mas, a fertilidade do solo, o manejo e a irrigação (onde disponível) podem ser alteradas para melhor atender o cafeeiro. É nisso que devemos focar!

Uma variedade mais exigente em nutrição deve ter sempre nutrientes disponíveis, assim como as variedades suscetíveis à ferrugem devem ser sempre pulverizadas para controle. 

Da mesma forma, uma variedade que é considerada vigorosa irá necessitar de mais podas para se adequar à colheita mecanizada. E por aí vai…

Conhecendo nosso sistema e as características da variedade que pretendemos adotar, conseguiremos os melhores resultados. Ambiente e genética de mãos dadas!

banner-adubacao-cafe

Conclusão

Existem inúmeras variedades de café à disposição do produtor, mas não existe uma “receita de bolo”, apenas recomendações gerais que devem ser adaptadas a cada situação. 

A variedade que irá desempenhar melhor na minha fazenda, pode ser diferente da sua. 

Como vimos, fatores como porte, diâmetro de copa, ciclo de maturação e resistência a pragas/doenças da variedade devem ser levados em conta para que ela se encaixe no seu sistema de produção. A não ser que você esteja disposto a mudar para atender às necessidades da variedade…

Por isso, as variedade de café mais produtivas são aquelas que atendem à demanda do seus sistema e expressam seu potencial produtivo nesse ambiente.

>> Leia mais:

Florada do café: Cuide bem das flores e colha bons frutos

“Tudo o que você precisa saber sobre a produção de cafés especiais”

“Qual é a previsão do preço do café para 2023/2024?”

Ficou com alguma dúvida sobre as variedades de café mais produtivas? Qual tipo você tem em sua propriedade hoje? Conte para gente nos comentários! Grande abraço e até a próxima!

Colheita do milho safrinha: mercado e dicas para não errar

Atualizado em 23 de abril de 2021.
Colheita do milho safrinha: entenda como obter melhores resultados na colheita para grãos e silagem; e como anda o mercado para a segunda safra. 

O milho safrinha já foi sinônimo de inferioridade… “safrinha” se referia à baixa produção e à importância que se dava para a segunda safra da cultura do milho no Brasil. Mas parece que o jogo virou, não é mesmo?

Segundo a última estimativa da Conab, a safrinha 2020/2021 apresentará 75,8% da produção total de milho. São 82,6 milhões de toneladas! Um aumento de 10,1% em relação à safrinha passada. 

Isso só é possível por conta de muita competência no manejo da produção e da colheita.

Além disso, com tanto milho sendo produzido, como será que está o mercado?

Preparei este texto com alguns pontos importantes da colheita do milho safrinha para grãos e silagem, além da expectativa de mercado nesse cenário de COVID-19. Confira a seguir!

O milho safrinha

Não é de hoje que a safrinha corresponde à maior produção de milho e área plantada da cultura. Isso porque ela está associada à dobradinha soja-milho, ocupando a maior parte da área liberada após a colheita da soja. 

Com tanto milho sendo produzido, a colheita do milho safrinha deve ser bem feita para colhermos os frutos de tanto trabalho na condução da lavoura. Mas alguns cuidados devem ser tomados. 

Essa época de cultivo do milho já têm maiores riscos devido a piores condições de luminosidade e de chuvas. Porém, neste ano estamos passando por algo inédito: o tal do coronavírus.

Como veremos a seguir, embora o agro não pare e a pandemia não afete o ciclo do milho safrinha, esse novo cenário afeta o mercado.

Expectativa do mercado para a colheita do milho safrinha 2020/21

O mercado do milho está voltado para o que está acontecendo nas lavouras de milho safrinha, principalmente a aspectos relacionados ao clima, já que uma área considerável foi semeada fora da janela de zoneamento para a segunda safra do milho.

O atraso nas colheitas da soja fez com que muitos produtores se arriscassem fora do Zarc (Zoneamento Agrícola de Risco Climático) do milho safrinha. 

Em alguns estados produtores, como no Mato Grosso, 45% da área total de milho safrinha foi semeada fora do período recomendado pelo Zarc.

O clima e os riscos do milho safrinha 2020/21

As incertezas quanto à produtividade da safrinha em 2021 começaram quando estados como Mato Grosso, Paraná e Rio Grande do Sul atrasaram a semeadura da soja, à espera de chuvas em 2020.

Isso acarretou a semeadura do milho safrinha fora do período recomendado pelo zoneamento agrícola de risco climático, em grande parte das regiões produtoras do país. 

Quando semeado fora da janela ideal, os riscos climáticos aumentam, já que o cultivo do milho na safrinha é uma atividade de alto risco.

Contudo, como a área semeada fora da janela do zoneamento é significativa, chuvas que ainda estão por vir podem ser benéficas e garantir menor perda de sacas por hectare nessas áreas.

Histórico das condições hídricas e possíveis impactos sobre as diferentes fases das lavouras de milho segunda safra
Histórico das condições hídricas e possíveis impactos sobre as diferentes fases das lavouras de milho segunda safra

Nota: (PS)=pré-semeadura; (S)=semeadura; (E)=emergência.

Histórico das condições hídricas e possíveis impactos sobre as diferentes fases das lavouras de milho segunda safra
(Fonte: Conab)

Mercado do milho safrinha 2020/21

O mês de março de 2021 foi marcado por recordes nos preços do milho em muitas regiões do país. O aumento ocorreu devido à alta do dólar, a baixa oferta do cereal no mercado spot e de incertezas quanto à produtividade das lavouras de milho safrinha.

Essa incerteza quanto a produtividade da cultura ocorreu devido ao estado do Mato Grosso, maior produtor do cereal no Brasil, ter encerrado a semeadura do milho safrinha com 45% da área total, fora da janela ideal de semeadura

Devido a esse atraso, a cultura vem sofrendo muito com a falta de chuvas e isso pode prejudicar a produtividade das lavouras. Porém, os produtores ainda contam com as chuvas de abril e maio para garantir uma boa safrinha.

No dia 14 de abril, o indicador Esalq/BM&Bovespa (Campinas – SP) alcançou patamares recordes, fechando em R$ 96,92/ sc de 60 kg de milho.

Tendo em vista as incertezas sobre a produção do milho safrinha no Brasil e, principalmente, as previsões climáticas de baixa ocorrência de chuvas, os preços devem se manter altos.

No gráfico abaixo é possível verificar o constante aumento nos preços da saca de milho nos últimos 12 meses:

gráfico com variação do indicador do preço do milho ESALQ/BM&FBOVESPA nos últimos 12 meses - colheita do milho safrinha

Variação do indicador do preço do milho ESALQ/BM&FBOVESPA nos últimos 12 meses
(Fonte: Cepea/Esalq)

Devido ao crescimento exponencial da demanda mundial por grãos, é esperado que os preços do milho permaneçam em alta na safra 2021/2022.

Dicas para uma melhor colheita do milho safrinha 

Planejamento é essencial

Mesmo antes do início da safra, é importante ter um planejamento já preparado.  Qual será o destino da safrinha? Silagem ou venda de grãos? Utilize o tempo ocioso da entressafra para se organizar.

Esse ano está atípico por conta da semeadura fora do período ideal, mas mesmo assim, com um cronograma bem feito, as chances de erro podem ser reduzidas.

Como já vimos, os atrasos na safra de verão podem afetar diretamente a segunda safra do milho.  

Logicamente que tudo depende de São Pedro colaborar com as chuvas, mas um bom plano evita surpresas – inclusive no preço. Veja mais em nosso guia de manejo do milho.

Colha no ponto certo: grãos ou silagem

O ponto correto para a colheita do milho safrinha depende da finalidade de uso e da existência de infraestrutura para secagem dos grãos na propriedade.

Para grãos, a colheita deve ser feita na fase de desenvolvimento R6, na maturidade fisiológica. Esperar demais pode favorecer a infestação de plantas daninhas no final do ciclo e prejudicar a colheita.

Como a umidade de armazenamento é de 13%, devemos colher valores próximos a esse.  Se houver disponibilidade de secadores na fazenda, a janela é maior, podendo realizar a colheita com maior umidade. 

Se o objetivo é a produção de silagem, a colheita deve ser realizada quando a matéria seca estiver entre 30% e 35%. Valores fora desse limite dificultam o processo e prejudicam a qualidade da silagem.

Dica extra: a tal da linha do leite não correlaciona muito bem com a matéria seca da planta, um dos principais parâmetros para a ensilagem. Por isso, não é o melhor critério para se usar – pode dar certo, mas pode dar errado. Com a matéria seca não tem erro!

Regule bem as máquinas 

Para o milho em grão, a velocidade de rotação do cilindro e o espaçamento entre cilindro e côncavo devem ser ajustados de acordo com a lavoura e a umidade dos grãos no momento da colheita.

Os danos e as perdas são geralmente menores em rotações mais baixas e com umidade dos grãos inferior a 16%.

Para silagem, um aspecto importante é o tamanho da partícula. Isso depende do maquinário utilizado para colheita e também da categoria animal que vai alimentar. 

Em geral, recomenda-se um tamanho médio próximo a 10 mm para máquinas acopladas ao trator e de até 17 mm para automotrizes.

Conclusão

Durante o texto, pudemos acompanhar os aspectos mais marcantes do mercado e para uma boa colheita do milho safrinha.

Vimos a importância do planejamento do ano-safra como um todo, pois atrasos na semeadura impactam diretamente nos riscos e produtividade da safrinha.

A semeadura da safrinha fora do período recomendado pelo zoneamento e as condições climáticas desfavoráveis podem afetar a produção de milho este ano.

Desse modo, há muitas incertezas no que há por vir e, por isso, o mercado está receoso e os preços altos. 

Fertilidade do solo e adubação: dicas de como melhorar seu manejo

Fertilidade do solo e adubação: confira como se relacionam e entenda por que nem sempre há resposta da adubação.

A maioria dos solos brasileiros tem baixa fertilidade natural. Então, como foi possível ganharmos o cerrado e produzirmos tanto?

Bem, graças a muito estudo sobre fertilidade do solo, correção e adubação, além é claro, da coragem do produtor em meter o peito e desbravar o Brasil, hoje sabemos o resultado! 

Mas se engana aquele que acha que está tudo resolvido neste assunto. 

Ainda existe muito para ser feito quanto à eficiência do uso de nutrientes e nunca é demais falar sobre boas práticas que às vezes são esquecidas.

Confira neste artigo dicas sobre fertilidade do solo e adubação e entenda como podem influenciar na sua produção. Vem comigo!

O que determina a fertilidade do solo?

A fertilidade do solo se refere à capacidade do mesmo em fornecer os nutrientes para que as plantas se desenvolvam e cumpram seu ciclo. 

Dessa forma, não se pode esquecer dos elementos tóxicos que devem estar em níveis que não comprometam o desenvolvimento vegetal.

Dessa definição conseguimos extrair três informações importantes sobre a fertilidade do solo:

  1. A fertilidade do solo depende da sua disponibilidade de nutrientes;
  2. A fertilidade do solo é relativa às exigências nutricionais das plantas;
  3. Ao analisar quimicamente um solo, pode-se inferir sobre sua fertilidade.

Isso quer dizer que um solo considerado fértil para uma espécie menos exigente pode não ser capaz de fornecer os nutrientes necessários para uma espécie mais exigente.

Se as exigências de uma espécie vegetal para cumprir seu ciclo são menores, teoricamente ela necessita de menor fertilidade. 

Logo, se a espécie for mais exigente, mais nutrientes serão necessários. 

É importante ressaltar que um solo fértil não, necessariamente, é sinônimo de solo produtivo. Outros fatores além da química como o clima, a física e a biologia de solo influenciam nisso.

Qual a relação entre fertilidade do solo e adubação?

Bem, a adubação é (ou pelo menos deveria ser) feita com base no balanço entre as exigências nutricionais da planta e a disponibilidade de nutrientes no solo (fertilidade). 

Veja de maneira simplificada na fórmula abaixo:

Adubação = (exigência da planta – disponibilidade no solo)

fertilidade do solo e adubação

(Fonte: Blog Unicamp)

Assim, fica claro que existe uma relação íntima entre três disciplinas:

  • Nutrição de plantas
  • Fertilidade de solo
  • Adubos e adubação

Quanto maior a disponibilidade de nutrientes ou a fertilidade do solo, menor será, proporcionalmente, a necessidade de adubação. E isso é relativo às exigências da cultura em questão como já abordamos no tópico anterior.

3 dicas para melhorar a fertilidade do solo com adubação

1. Pergunte ao solo

Não podemos falar de fertilidade sem antes fazer uma análise de solo

O padrão de comparação é a camada de 0 a 20 cm do solo, na qual se baseiam as recomendações de adubação.

Com base em ensaios que correlacionam a produção relativa das plantas aos teores dos elementos do solo, diversas instituições de pesquisas definiram classes de teores de nutrientes no solo.

As classificações podem mudar de acordo com a instituição de pesquisa, mas em linhas gerais, se o teor de determinado nutriente no solo é considerado baixo, este será limitante à produção. 

Por isso é fundamental elevar esses teores até níveis adequados (adubação de correção), além de fornecer a quantidade exportada pela planta (adubação de manutenção)

Por outro lado, se o nutriente está na faixa adequada, teoricamente não há resposta à adubação. Sendo necessária apenas a adubação de manutenção para manter esses níveis.

interpretação de teores de potássio e de fósforo em solos

Limites de interpretação de teores de potássio e de fósforo em solos
(Fonte: adaptado IAC)

Toda essa conversa de teores no solo é válida para P, K, Ca, Mg, S (fósforo, potássio, cálcio, magnésio, enxofre) e os micronutrientes. Mas e o N (nitrogênio)?

Não existe ainda um teste padrão para inferir quanto de N há disponível no solo, por isso: pergunte às plantas!

2. Pergunte às plantas

As plantas não mentem. O excesso ou falta de nutrientes aparece na forma de sintomas característicos nas folhas e no crescimento da planta, isso seria a diagnose visual da fertilidade do solo.

Essa avaliação requer conhecimento e treino, o que muitas vezes gera problemas e a torna subjetiva. Por isso, um método mais certeiro de inferir sobre a fertilidade via planta é pela análise foliar.

Para cada espécie existe uma época correta de coleta, folhas específicas e um número de amostras mínimos. Você pode encontrar essas informações aqui, disponibilizadas pelo Departamento de Ciência do Solo – Esalq/USP. 

A partir disso, podemos comparar os resultados com uma base de dados de plantas da mesma espécie e verificar se está tudo bem. 

A diagnose foliar  pode servir como um complemento à análise de solo, revelando se o que está no solo realmente está suprindo a exigência da planta ou se devemos intervir com adubações, por exemplo.  

Além disso, a produtividade esperada e a exportação de nutrientes pela planta ajudam a definir a demanda de nutrientes e a adubação de manutenção da cultura. 

Isso é importante, principalmente, no caso do N que não sai na análise de solo.

Concentração de nutrientes nas partes exportadas das culturas

Concentração de nutrientes nas partes exportadas das culturas
(Fonte: Informações Agronômicas Nº130 – IPNI)

3. A adubação

Como já dissemos, existem basicamente dois tipos de adubação.

A adubação de correção deve ser feita com base na análise de solo, a fim de elevar os teores de nutrientes que podem não estar adequados para a cultura. Esses nutrientes devem estar disponíveis desde antes do plantio.

Adubação = (Exigência da planta – disponibilidade no solo) x f

É importante lembrar que a eficiência de uma adubação de correção não é 100%. 

Portanto, devemos sempre utilizar um fator (f) para corrigir o cálculo que geralmente é maior para solos argilosos devido à reatividade maior desses solos.

Já a adubação de manutenção é feita visando repor os nutrientes exportados pela cultura. 

Deve ser ressaltado que a demanda da planta não é uniforme durante seu ciclo. Cada cultura tem estádios de maior demanda e nesses estádios o nutriente já deve estar disponível para absorção.

fertilidade do solo e adubação

Porcentagem do N total na planta, absorvido antes e após o florescimento; e porcentagem do N no grão absorvido pós-florescimento (VT-R1) e remobilizado de outras partes da planta
(Fonte: Pioneer)

Assim, de modo simplificado, fornecemos uma pequena quantidade de nutrientes no plantio e o restante em cobertura, sempre pensando na marcha de absorção de nutrientes. 

Dessa maneira, consegue-se aumentar a eficiência da adubação.

Conclusão

Observamos que existe uma relação íntima entre fertilidade do solo, adubação e nutrição de plantas.

Ressaltamos também que a fertilidade do solo depende da disponibilidade de nutrientes, baixos teores de elementos tóxicos e da planta utilizada como referência, a sua cultura.

Além da importância de adubações feitas corretamente para garantir a eficiência do uso de fertilizantes.

>> Leia mais:

Como fazer o manejo e a correção do solo alcalino

“Conheça os 9 indicadores de fertilidade do solo e saiba usá-los ao favor da sua lavoura”

Restou alguma dúvida sobre fertilidade do solo e adubação? Conte pra gente nos comentários abaixo. Grande abraço!

Safra e safrinha: veja as diferenças, dicas e cuidados para o produtor

Safra e safrinha: entenda as principais diferenças, os riscos e como fazer a programação da sua lavoura.

Se você tem contato com a agricultura, com certeza já ouviu muito os termos “safra” e “safrinha”. Mas você sabe o que significam ou qual a implicação sobre as culturas?

Geralmente, esses termos são associados às culturas anuais e se referem tanto à época de plantio quanto à expectativa de produção em si.

Confira neste artigo, o que muda entre essas duas épocas de cultivo e como extrair o máximo potencial de sua lavoura. Vem comigo!

Qual a diferença entre safra e safrinha (e entressafra)?

Safra, safrinha e entressafra. Confuso, né? Bem, esses termos estão associados às culturas anuais, principalmente à dobradinha soja-milho em plantio direto, como você já deve saber. 

Assim, eles se referem à época do ano agrícola em que será feito o plantio das culturas e, ainda, refere-se à produtividade esperada. 

Na safra, o plantio é feito quando as chuvas voltam e vai de outubro a dezembro, como no caso do milho. Nessa época, as condições climáticas –  temperatura, luminosidade e umidade – são as melhores para o desenvolvimento das culturas. 

Por isso, em geral o produtor investe mais na safra, pois há um potencial produtivo e de retorno financeiro maior.

A safrinha vem logo após a safra e foi assim apelidada, no diminutivo, porque a produtividade era geralmente menor, devido a condições sub-ótimas de luminosidade, além dos riscos de veranico, por exemplo.

Hoje, devido ao aumento de área e produtividade do milho safrinha, por exemplo – o qual se tornou maior que a safra –  já podemos chamar a safrinha de 2ª safra.  Pois esse termo dá a ideia da importância dessa época de plantio para o agro. Mas, e a entressafra?

A entressafra é o período entre o fim da colheita da(s) principal(is) e o início da próxima colheita. Esse período pode e deve ser aproveitado para colocar a fazenda em ordem e se preparar para a próxima safra.

Para resumir: a safra é a primeira safra; safrinha, a segunda. A entressafra fica entre o fim do último cultivo (da segunda safra, por exemplo) e o início da próxima safra.

Ciclo do milho safrinha

Devido à força e participação no agronegócio nacional, geralmente associamos safra e safrinha à soja e milho. Por essa razão, será o foco deste texto também.

Mas para outras culturas, as nomenclaturas podem ser diferentes. Por exemplo, no feijão, temos até uma terceira safra; e nas culturas adaptadas a condições mais frias, temos o chamado cultivo de inverno.

Mas vamos à cultura do milho… O milho safrinha deixou de ser coadjuvante no cenário nacional porque a produtividade média hoje é semelhante à da safra, mas a produção e a área plantada são bem maiores.

Pra você ter noção, tanto a produção de milho safrinha quanto a área plantada são o dobro do que se tem na safra, como podemos ver na figura abaixo.

(Fonte: IBGE – Levantamento Sistemático da Produção Agrícola)

Isso é fruto da preferência pela soja na safra principal devido às condições de mercado, por exemplo. E onde é possível o cultivo, faz-se milho na safrinha.  Além disso, os estádios fenológicos são os mesmos do milho plantado na safra. 

Mas, em geral, os estádios podem durar mais tempo, pois devido à luminosidade que não é a mais adequada e ao menor acúmulo de graus dia, o ciclo do milho é maior na safrinha.

Quando se planta o milho safrinha?

O plantio do milho safrinha ocorre entre janeiro e abril para as maiores regiões produtoras, mas isso pode variar um pouquinho nos vários cantos desse Brasilzão. Como mostra o calendário de plantio da Conab que eu trouxe pra você observar abaixo:

milho safrinha

(Fonte: adaptado de Conab)

O que é safrinha de soja?

Este é um assunto que gera polêmica!  Pode parecer interessante cultivar a soja na safrinha, principalmente quando o preço do milho está baixo e o mercado da soja está aquecido. Mas calma, “pisa no freio Zé”… pois existem mais contras que prós nesse caso.

Primeiro, as condições de fotoperíodo, pluviosidade e temperatura não são as melhores e poucas cultivares seriam adaptadas – o que por si só já é um problema. 

Ainda mais se o cultivo for feito após a safra da própria soja.

Desta maneira, pragas, plantas daninhas, doenças e até questões de conservação e cobertura do solo seriam problemáticos.

Outro argumento que coloca a soja safrinha como uma atividade de alto risco é o fato de não termos informações sólidas sobre população de plantas, pragas e adubação da cultura nessa época.

Portanto, soja safrinha é ainda um cultivo arriscado e que necessita de mais informações e análises para se mostrar uma boa opção.

Planejamento de safra e safrinha

Um bom planejamento conta muito no sucesso das atividades que você realiza em sua fazenda. 

Nem seria preciso dizer que como cada cultura tem um ciclo e em determinados casos você pode plantá-las na safra e na safrinha, é preciso organização.

Como estamos falando em sistemas de produção, a escolha da cultura para a safra determina ou limita as opções para safrinha, principalmente por questões fitossanitárias, do cronograma e da janela de cultivo. 

Veja na figura abaixo os exemplos dos ciclos das culturas e das épocas de plantio e colheita

safra e safrinha

(Fonte: adaptado de Heringer)

Uma ideia é utilizar o período de entressafra para realizar esse planejamento.

Geralmente é o período “mais tranquilo” da fazenda e, portanto, podemos usá-lo de maneira proveitosa para planejamento e manutenção do maquinário, por exemplo.

Se precisar de uma mãozinha para se programar e colocar a casa em ordem, o Aegro pode te ajudar. 

Assim, suas informações ficam organizadas e de fácil visualização, para você não se perder no planejamento.

Banner de chamada para o download da planilha de controle de custos de safra

Conclusão

Como acompanhamos, os termos safra e safrinha são relacionados a épocas de cultivo de culturas anuais dentro do ano agrícola. 

De modo geral e em anos normais, a safra significa melhores condições para a cultura e maiores produtividades. 

Por sua vez, a safrinha apresenta condições marginais de cultivo e, portanto, limitações que se traduzem em menores produtividades ou produção total.

Mas vimos que nem sempre é assim. No caso da cultura mais associada à safrinha, o milho, é clara a importância dessa época de plantio para a agricultura nacional, já para a soja precisamos tomar cuidado.

Por isso, o produtor deve estar atento a esses detalhes na hora de planejar seu plantio, pois assim terá pensado nos riscos de cultivar determinada cultura na safra ou na safrinha. 

Além de que, um bom planejamento pode ajudar bastante em um plantio e condução de lavoura bem-feitos.

>>Leia mais:

“Por que o crambe pode ser uma ótima opção para a safrinha”

Manejos pré-plantio: o que você precisa para começar bem a próxima safra

E você? Já sabia das diferenças entre safra e safrinha? Restou alguma dúvida? Conte pra gente nos comentários abaixo. Grande abraço!