About Evelise Martins da Silva

Sou Engenheira Agrônoma formada pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), pós-graduada em Biotecnologia e Bioprocessos pelas Universidade Estadual de Maringá (UEM) e apaixonada pelos desafios de uma agricultura sustentável.

Inoculante para feijão caupi: por que e como utilizar

Inoculante para feijão caupi: Entenda a importância da prática e confira as recomendações de como fazê-la em sua lavoura

O Brasil é o maior produtor mundial de feijão. Segundo a Conab, a safra 2019/20 está estimada em 687,4 mil toneladas.

O feijão, por seu elevado teor de proteína na semente, exige uma alta quantidade de nitrogênio para se desenvolver. A prática de inoculação auxilia no processo de fixação biológica de nitrogênio.

Vamos entender um pouco mais sobre o uso de inoculante para feijão caupi (Vigna unguiculata), também conhecido como feijão de corda, macassa, fradinho ou miúdo. Confira a seguir!

O feijão caupi e a inoculação

A melhor opção para um bom estabelecimento da lavoura ainda é o tratamento bem feito da semente. Isso resulta em produtividade.

O inoculante é um produto que conta com microrganismos de ação benéfica ao crescimento das plantas.

Os microrganismos mais utilizados são os fixadores biológicos de nitrogênio, que realizam a fixação do nitrogênio atmosférico. Essa reação é catalisada pela enzima nitrogenase, através de estruturas formadas nas raízes do feijoeiro, os nódulos, onde o corre a fixação biológica de nitrogênio.

Os 78% dos gases da atmosfera são formados por N. É simples perceber que tem muita fonte livre de N por aí. O objetivo desses microrganismos é disponibilizar o nitrogênio à planta em troca do carbono gerado na fotossíntese das plantas.

O inoculante intensifica o processo natural da fixação biológica de nitrogênio, promovendo a associação de outras bactérias com a planta. Elas captam o nitrogênio do ar e o disponibilizam para o feijoeiro.

inoculante para feijão caupi

(Fonte: Embrapa)

Um dos principais microrganismos utilizados para a inoculação do feijão é o Rhizobium spp., especialmente o Rhizobium tropici.

Algumas outras bactérias também fixam nitrogênio sem a necessidade de formação de nódulos nas raízes. Essas são as bactérias diazotróficas. 

A mais conhecida delas é o Azospirillum brasilense, que também pode ser utilizado na cultura como inoculante.

A utilização conjunta de mais de um microrganismo no processo de inoculação tem se mostrado com ótimos resultados produtivos.

Quais os benefícios do inoculante para feijão caupi?

O uso de um inoculante para feijão caupi está relacionado ao aumento do rendimento de grãos do feijão.

Sua utilização também reduz o uso de adubo nitrogenado e diminui significativamente o custo da lavoura.

Segundo a Embrapa, com uso de inoculante, o ganho médio no rendimento do feijão pode chegar a 25%.

A necessidade de nitrogênio na lavoura de feijão para obter altas produtividades fica em torno de 80 kg a 150 kg de N/ha. 

Em lavouras de larga escala, pode-se chegar à redução de 50% ou total do adubo nitrogenado aplicado após a inserção da prática de inoculação, com os mesmo índices de produtividade.  

A prática da inoculação é uma alternativa para a substituição, total ou parcial, dos adubos nitrogenados.

Passo a passo de como utilizar inoculante para feijão caupi

Como em qualquer tratamento de semente, são necessários alguns cuidados para uso do inoculante para feijão caupi:

Para garantir a qualidade, é preciso verificar o registro do Mapa na embalagem do produto, bem como se ele é específico para a cultura do feijão.

Recomendações específicas para a inoculação do feijão são:

  • utilize produtos de qualidade e dentro da validade;
  • siga a dosagem recomendada do inoculante para o procedimento;
  • a distribuição do produto precisa ser completa, pegando toda a superfície da semente.
  • garanta que o produto seja conservado, até seu uso, em local fresco e arejado;
  • identifique uma ou duas das quatro estirpes de bactérias que são recomendadas para o Brasil;
  • realize a operação de inoculação sempre à sombra;
  • proteja as sementes inoculadas do sol e calor;
  • não faça a inoculação dentro das caixas da semeadora;
  • não utilize menos de 100 ml de inoculante líquido por saca de 50 kg de sementes;
  • ao usar inoculante turfoso, você pode utilizar uma solução açucarada a 10% para aumentar a aderência;
  • após o procedimento de inoculação, as sementes devem ser semeadas o mais breve possível. 

Para garantir que o máximo de inoculante viável chegue ao solo na semeadura, a uniformidade da distribuição dele na superfície da semente fará toda a diferença.

inoculação para feijão caupi

(Fonte: Embrapa)

O que é importante considerar no uso de inoculante para feijão caupi

O feijão caupi é plantado em grande parte da região nordeste do Brasil, que possui condições climáticas favoráveis como altas temperaturas, alta salinidade e baixa umidade.

A recomendação do tipo de inoculante para o feijão caupi é diferente da recomendação para o feijão comum (Phaseolus). Por isso, é importante verificar essa questão no momento da compra do produto.

A Embrapa Agrobiologia vem, há anos, desenvolvendo pesquisas utilizando estirpes locais que já são adaptadas às condições ambientais como inoculantes. 

É uma alternativa mais barata para os produtores familiares, que são responsáveis por cerca de 70% da produção de feijão caupi. 

Nesse material você encontra mais informações sobre a recomendação da Embrapa. 

Durante meu estágio da graduação tive a oportunidade de acompanhar o trabalho da Dra. Norma Gouvêa Rumijanek, da Embrapa Agrobiologia. O procedimento é simples e traz resultados bem significativos na fixação biológica de nitrogênio na cultura.

Embrapa Agrobiologia
Embrapa Agrobiologia

(Fonte: Arquivo pessoal)

Custo do inoculante para feijão caupi

O custo das doses disponíveis no mercado fica em torno de R$ 5. Comparado ao custo do fertilizante nitrogenado para suprir a necessidade de 80 a 150 kg/ha, a prática é bem acessível.

Faça a sua escolha pelo custo, qualidade e dose de microrganismos presente no produto. 

Os produtos disponíveis no mercado são do tipo turfoso ou líquido.

O inoculante turfoso necessita da preparação de uma solução açucarada a 10% para promover a aderência à semente. Já o inoculante líquido vem na quantidade correta para ser colocado no tratamento de semente.

Lembre-se que utilizar sementes de boa qualidade faz toda diferença!

A Embrapa Meio-Norte alerta que implantar lavouras com grãos salvos promove uma baixo rendimento por hectare, enfraquece a genética da cultura, trazendo sérios riscos de introduzir pragas.

Ao utilizar a prática de adubação nitrogenada em conjunto com a inoculação, é importante ter cuidado com a dosagem. Segundo Cardoso e Andreote (2016), a disponibilização do N-mineral em altas doses pode prejudicar a fixação biológica.

Conclusão

A inoculação é um investimento barato para a sua produção e mais sustentável para sua lavoura. 

O investimento nesse manejo vale para garantir o suprimento de nitrogênio à cultura do feijão caupi. Ele pode garantir a qualidade da produção e redução dos custos, além de ser uma prática simples e eficaz. 

Você deve planejar bem, escolher um bom produto e fazer a inoculação para o feijão de forma correta. Aproveite as dicas e boa inoculação!

>> Leia mais:

Melhore seu plantio de feijão (Phaseolus vulgaris L.)

Como fazer o preparo do solo para plantio de feijão

Restou alguma dúvida sobre o uso do inoculante para feijão caupi? Adoraria ver seu comentário abaixo!

Broca-do-café: veja as principais alternativas de controle

Broca-do-café: como identificar em sua lavoura, métodos de controle e de realização do manejo integrado de pragas

Por ter a característica de sobreviver de uma safra para a outra, a broca-do-café é um inseto importante a ser combatido na cultura.

Isso porque o impacto de seus danos podem chegar a perda de 20% do peso dos grãos na colheita. 

Por isso, nesse artigo vamos entender melhor o ciclo dessa praga e as principais formas de controles sustentáveis/biológicos. Veja a seguir!

Importância da broca-do-café – Hypothenemus hampei

A broca é um dos principais insetos causadores de perdas significativas de grãos, sendo o responsável direto pela diminuição de qualidade do café.

Existem diferenças entre os tipos de espécies de cafés e sua suscetibilidade à broca. 

O café arábica, por exemplo, é um dos mais prejudicados enquanto o café conilon é mais afetado por outros insetos como a cochonilha e a lagarta dos cafezais (Eacles imperialis magnifica).

Entretanto, os prejuízos são grandes quando ocorre o ataque pela broca-do-café, pois a perda de qualidade dos grãos causa diversos danos, até mesmo para a exportação em que a tolerância é de 10% de grãos brocados. 

Ou seja, quanto mais café brocado, menos rentável a produtividade será.

Danos da broca-do-café

A broca causa danos diretos e indiretos na cultura do café.

De maneira direta ocorrem pelo ataque da praga ao grão e a redução do peso de grãos de café pode chegar a 20%, além de causar queda prematura dos frutos e depreciação dos grãos nas classificações. 

Com isso, apresenta grande quantidade de brocados/quebrados e pode promover a diminuição da qualidade do produto e, consequentemente, do valor comercial.

Já os danos causados de forma indireta ocorrem pela abertura de orifícios que torna a planta mais suscetível ao ataque de microrganismos.

Identificação da broca-do-café 

A broca-do-café (Hypothenemus Hampei) é um pequeno besouro e são as fêmeas adultas que atacam a coroa do fruto, os perfuram e ali depositam seus ovos. 

Elas possuem cerca de 1,7 mm de comprimento e 0,7 mm de largura e seu ciclo de vida tem duração de 22 a 35 dias, seguindo a metamorfose de: ovo>larva>pupa>adulto.

Assim que nascem, as larvas começam a se alimentar dos grãos de café, danificam ou destroem completamente os grãos. E a melhor forma de evitar que o ciclo da praga se complete é durante a colheita.

Com aspectos bioecológicos e comportamentais particulares, o primeiro ataque da broca-do-café ocorre na época entre os 80 a 90 dias após a floração, no qual realiza somente um furo de marcação no fruto. Após 50 dias, o inseto retorna para a oviposição.

Como a broca passa quase todo o seu ciclo de vida no interior do fruto, ela é classificada como de natureza críptica

Isso porque a cópula ocorre também dentro do fruto e a razão sexual na faixa de fêmeas para machos se encontra em 10:1. Sendo que somente fêmeas acasaladas e adultas saem do fruto para realizar a colonização de novos frutos.

(Fonte: Embrapa)

Condições ambientais

As condições ambientais têm papel fundamental no desenvolvimento do inseto na cultura.

Altas precipitações, acima de 100 mm, promovem o controle da broca-do-café e o clima mais seco também auxilia no ressecamento do fruto, o que inibe a oviposição. 

Já os cultivos adensados, a pouca ventilação na lavoura e a baixa incidência de luz promovem um ambiente adequado para a proliferação do inseto.  

Como o produtor rural não tem como prever a maior parte das condições ambientais como o clima, por exemplo, o ideal é sempre realizar a monitoramento da cultura.

Monitoramento ideal 

O controle bem sucedido da broca-do-café só será possível com o monitoramento correto da lavoura e uma verificação bem realizada. 

A orientação dada pela Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig) é que essa verificação se inicie na época de trânsito, ou seja, nos 80 a 90 dias após a florada

Sendo assim, a forma correta de trabalho é a divisão da área, talhão ou hectare, em pontos amostrais, quantidade representativa de aproximadamente 20 a 30 plantas, em forma de “ziguezague” – para ser mais homogêneo possível da área.

O ideal é realizar a primeira avaliação somente em uma amostra representativa da área e, nas plantas amostradas, realizar a divisão no terço inferior, terço médio e terço superior. 

Após isso, escolha um ramo em cada terço para análise – a sugestão é que sejam seis ramos por planta. 

O objetivo é visualizar em cada ramo cerca de 10 frutos nas diferentes rosetas e fazer a contagem dos que estão perfurados, anotando em uma planilha ou aplicativo de monitoramento.

Para calcular a intensidade de infestação (IF), some os subtotais e divida por 18 (fator fixo), se o resultado for maior ou igual a 3%, o controle já deve ser iniciado. 

Caso tenha realizado o controle, é muito importante dar continuidade no monitoramento após a primeira pulverização, repetindo de 25 a 30 dias. 

Na segunda avaliação, colete os frutos para análise por contagem e identificação da presença da broca-do-café. 

A porcentagem deve ser pela quantidade de adultos vivos x 100/frutos perfurados abertos.

(Fonte: Agro Bayer Brasil)

Se o IF estiver em nível igual ou maior do que 3%, é imprescindível entrar com controle.

Broca-do-café: formas de controle

Controle cultural 

Os frutos remanescentes nas plantas ou no solo são os principais meios de sobrevivência e de multiplicação da broca-do-café de uma safra para outra.

Por isso, durante a colheita é importante ser feito a retirada de todos os frutos da planta e recolher os frutos que caem no chão.

Em áreas nas quais a colheita é mecanizada, a prática do repasse manual continua sendo muito importante, porque somente assim se reduz a possibilidade de sobrevivência da broca até a próxima safra.

Controle biológico

Um bom controle biológico da broca-da-café pode ser feito por meio da vespa de uganda e do parasitóide Prorops nasuta.

Mas o grande destaque é da Beauveria bassiana, fungo que parasita mais de 200 espécies de artrópodes. 

Através do contato direto com o alvo, esse fungo germina na superfície do inseto penetrando no tegumento e colonizando-o internamente, liberando toxinas e levando o inseto à morte. 

Além do controle da broca-do-café, a aplicação da Beauveria b. controla também as cochonilhas e o ácaro vermelho na cultura. 

Essa aplicação é recomendada em momentos mais frescos, como no fim do dia e com umidade acima de 65%, sendo condições que favorecem o estabelecimento da Beauveria b. na lavoura. 

A- Broca-do-café com orifício de entrada, B – Danos ao fruto, C- Beauveria bassiana infectando a broca-do-café
(Fonte: Esalq/USP – Visão Agrícola)

É importante lembrar que a aplicação de qualquer microrganismo na lavoura deve estar fora do período de carência de qualquer aplicação química na mesma.

Controle com armadilhas

Uma das armadilhas que já apresentou redução de 80% do nível de infestação é uma isca de atração à broca-do-café que utiliza garrafa pet com coloração avermelhada.

É isso mesmo e o material é muito simples! Para construir essa armadilha, os materiais que você precisa são:

  • Garrafa pet de dois litros;
  • Tinta vermelha;
  • Álcool etílico;
  • Álcool metílico;
  • Pó de café;
  • Detergente e água;
  • Pequeno frasco de vidro de 20 a 30 ml.

Siga o passo a passo:

Corte uma abertura lateral na garrafa pet – ela será utilizada de cabeça para baixo com a tampa de plástico fechada.

Faça uma mistura da substância atrativa na proporção para cada litro da mistura de: 250 ml de etanol, 750 ml de metanol e 10 gramas de pó de café. 

Na parte inferior da garrafa, coloque uma mistura de água com detergente sendo 1 ml de detergente para cada 200 ml de  água.

Assim, distribua as armadilhas em uma proporção de 25 armadilhas por hectares e fixadas a cerca de 1,5 m de altura na planta.

Confira neste vídeo, do canal Agro Mais Unaí, a orientação mais detalhada de como realizar a construção da armadilha. 

Controle químico 

O Endossulfan era o principal produto utilizado nas lavouras para o combate à broca-do-café, mas por ser um produto extremamente tóxico foi banido em 2013.

Atualmente, segundo o manual de prevenção e combate à broca do café existem outros princípios ativos que são utilizados como:

  • Azadiractina (tetranortriterpenóide);
  • Cyantraniliprole (antranilamida);
  • Abamectina (avermectina) + Clorantraniliprole (antranilamida);
  • Clorpirifós (organofosforado);
  • Espinosade (espinosinas);
  • Etofenproxi (éter difenílico).

Lembrando que na escolha de um manejo você deve solicitar uma recomendação técnica para a rotação de princípios ativos e aplicação racional do defensivo agrícola. 

Além disso, respeite a dose recomendada e o período de carência que são pontos importantes para o sucesso de sua produção.

Manejo Integrado de Pragas 

O Manejo Integrado de Pragas (MIP) é o método racional e preventivo em que você se baseia na identificação correta das espécies, monitoramento constante e avaliação dos níveis de necessidade de controle.

Na broca-do-café, o monitoramento deve continuar até próximo da colheita em avaliações de 30 em 30 dias, caso necessário um novo controle deve ser realizado.

Portanto, o MIP permite a prevenção e diagnóstico, orientado na tomada de decisão do controle efetivo em sua lavoura.

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Conclusão

Vimos que a broca-do-café é sinônimo de prejuízo direto por causar os frutos broqueados e diminuir a qualidade do café e perda de peso dos grãos.

Agora você já conhece mais sobre como é a biologia desse inseto e como você pode controlá-lo: fazendo o monitoramento e realizando os controles necessários.

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Fique de olho na cantoria da cigarra-do-cafeeiro e faça o manejo certeiro

“Como o uso de drones na pulverização do cafeeiro pode trazer economia e eficiência nas aplicações”

Como você realiza o manejo da broca-do-café em seu cafezal? Restou dúvidas? Conta pra gente nos comentários abaixo. 

Qual a melhor época para plantar feijão?

Confira qual a melhor época para plantar feijão em cada região do país, além dos componentes, ciclo da cultura e estratégia de produtividade. 

O feijão é um dos principais alimentos da mesa do brasileiro e por conta do período de quarentena devido ao Covid-19, as vendas no mercado interno e externo cresceram.

Segundo o Instituto Brasileiro do Feijão e Pulses (Ibrafe), em 2019 a exportação de feijão já era de  US$ 57,1 milhões nos sete primeiros meses do ano, um avanço de 34% em relação aos US$ 42,7 milhões do mesmo período de 2018.

O mercado que já vinha aquecido, nesse momento só tende a crescer. 

Sendo uma vantagem para você produtor planejar bem a sua safra, pois a compra é garantida. 

Por isso, vamos falar justamente sobre qual a melhor época para plantar feijão e seu ciclo em cada parte do Brasil. Acompanhe a seguir!

A produção de feijão no país

Por ser um alimento rico pela sua fonte nutricional e também pela sua alta durabilidade, atualmente o feijão vem sendo ainda mais consumido. 

A espera é que a segunda safra de 2020 seja boa para que o mercado interno fique abastecido e a demanda de exportação se mantenha. 

Desta forma, são três os principais tipos de feijões produzidos: 

  • Feijão comum-preto; 
  • Comum-cores; 
  • Feijão caupi. 

Vamos entender melhor sobre esta cultura e a melhor época de plantio.

Os componentes da planta

Para compreender o ciclo da feijão, precisa-se antes conhecer as partes que compõem sua planta.

O feijão (Phaseolus spp.) é uma planta herbácea pertencente à família Fabaceae, a mesma da soja.

São muitos os tipos de feijão, mas o nome científico do comum em que o mercado mais consome é Phaseolus vulgaris, principalmente o feijão-carioca, o feijão-preto  e o feijão-branco. 

Também temos suas variáveis como o feijão caupi, conhecido como feijão de corda – Vigna unguiculata.

As sementes do feijão apresentam germinação epígea, e seu sistema radicular é pivotante, com uma raiz principal e muitas ramificações (raízes secundárias).

A profundidade das raízes do feijoeiro podem chegar a alcançar cerca de 1,1 metro de profundidade, mas grande parte da densidade radicular se concentra nos 0,63 cm/cm³ do solo.

Outra característica é que o feijoeiro possui dois tipos de folhas: as folhas simples são as primárias, já presentes no embrião, e as demais folhas são trifolioladas.

A disposição das flores favorece a autofecundação e essas possuem diferentes colorações como brancas, branco-amareladas, róseas, purpúreas e ainda violetas. 

Além disso, o hábito de crescimento do feijoeiro pode ser determinado ou indeterminado. 

Crescimento determinado: o caule principal termina numa inflorescência, ou seja, quando inicia-se o florescimento o crescimento vegetativo finaliza. 

Crescimento indeterminado: na extremidade do caule existe gema vegetativa ou floral e vegetativa, ou seja, quando inicia o florescimento, o crescimento vegetativo pode continuar.
 

Qual a melhor época para plantar feijão: ciclo

Existe uma certa variabilidade no ciclo do feijão e a média geral se completa em 70 a 110 dias, dependendo da cultivar e das condições climáticas.

Diferente da soja que atualmente mudou suas nomenclaturas do ciclo de duração para grupos de maturação, o feijão mantém a mesma.  

A divisão entre a duração do ciclo pelas cultivares se dá entre superprecoces, precoces, médias e tardias.

Uma das recentes cultivares precoces do mercado tem a duração do ciclo abaixo dos 65 dias – a BRS FC 104 lançada pela Embrapa.

E falando em ciclo, as características morfológicas utilizadas na identificação de cultivares do feijoeiro, envolvendo as fases vegetativa e reprodutiva são muito importantes de serem conhecidas, pois interferem nos períodos em que se realiza o plantio (considerando o momento ideal das condições climáticas).

qual a melhor época para plantar feijão


Estádios de desenvolvimento da planta de feijoeiro
(Fonte: Embrapa)

Melhor época de plantio em cada região 

No Brasil, durante todo o ano ocorre a produção de feijão. Mas existem três safras mais pré-definidas no país. 

Na região Sul, o plantio é iniciado na segunda quinzena de agosto, quando se considera que não terá problemas com geadas. Essa é a conhecida “safra das águas”, que em geral vai de dezembro a fevereiro para realização da colheita. 

Na região Nordeste e Norte o plantio acontece de outubro em diante, indo até as colheitas de janeiro a abril. 

Na região Sudeste o plantio também se inicia em outubro, seguindo a colheita de janeiro a abril. 

Já na região Centro-Oeste ocorre em um período um pouco diferente, na conhecida “safra de inverno” que inicia com o plantio de maio a agosto.

Abaixo segue as recomendações do calendário agrícola para se plantar feijão em cada uma  das três safras que ocorrem no país: 

1º Safra

Região Norte

  • Tocantins:
    Primavera – plantio: novembro
    Verão – plantio/colheita: fevereiro

Região Nordeste

  • Piauí:
    Primavera – plantio: dezembro
    Verão – plantio/colheita: janeiro a fevereiro
  • Bahia:
    Primavera – plantio: outubro a dezembro 
  • Maranhão:
    Primavera – plantio: dezembro
    Verão – plantio: janeiro

Região Centro-Oeste 

  • Mato Grosso:
    Primavera – plantio: outubro a novembro
  • Mato Grosso do Sul:
    Primavera – plantio: outubro a novembro
  • Goiás – Distrito Federal:
    Primavera – plantio: outubro a dezembro

Região Sudeste

  • Minas Gerais:
    Primavera – plantio: outubro a dezembro
  • Espírito Santo:
    Primavera – plantio: novembro a dezembro
  • Rio de Janeiro:
    Primavera – plantio: outubro a novembro
  • São Paulo:
    Inverno – plantio: agosto a setembro
    Primavera – plantio: outubro

Região Sul

  • Paraná:
    Inverno – plantio: agosto a setembro
  • Santa Catarina:
    Inverno – plantio: setembro
    Primavera – plantio: outubro a dezembro
  • Rio Grande do Sul:
    Inverno – plantio: agosto a setembro
    Primavera – plantio: outubro
qual a melhor época para plantar feijão

Mapa da produção agrícola – Feijão primeira safra
(Fonte: Conab)

2º Safra

Região Norte

  • Roraima:
    Inverno – plantio: setembro
    Primavera – plantio: outubro a novembro
  • Rondônia:
    Verão – plantio: fevereiro a março
  • Acre:
    Verão – plantio: fevereiro a março
  • Amazônia:
    Inverno – plantio: julho a setembro
    Primavera – plantio: outubro a dezembro
  • Amapá:
    Outono – plantio: maio a junho
  • Tocantins:
    Verão – plantio: fevereiro a março
    Outono – plantio: abril a maio 

Região Nordeste

  • Piauí:
    Verão – plantio: março
    Outono – plantio: abril a maio 
  • Ceará:
    Verão – plantio: janeiro a março
    Outono – plantio: abril
  • Rio Grande do Norte: 
    Verão – plantio: fevereiro a março
    Outono – plantio: abril
  • Paraíba:
    Verão – plantio: janeiro a março
  • Pernambuco:
    Verão – plantio: fevereiro a março
    Outono – plantio: abril 
  • Maranhão:
    Verão – plantio: março
    Outono – plantio: abril a maio

Região Centro-Oeste 

  • Mato Grosso:
    Verão – plantio: fevereiro a março 
  • Mato Grosso do Sul:
    Verão – plantio: fevereiro a março
    Outono – plantio: abril
  • Goiás:
    Verão – plantio: janeiro a março 
  • Distrito Federal:
    Verão – plantio: janeiro a fevereiro

Região Sudeste

  • Minas Gerais:
    Verão – plantio: janeiro a março
    Outono – plantio: abril
  • Espírito Santo: 
    Verão – plantio: fevereiro a março
    Outono – plantio: abril
  • Rio de Janeiro:
    Verão – plantio: fevereiro a março
    Outono – plantio: abril
  • São Paulo:
    Verão – plantio: janeiro a março

Região Sul

  • Paraná:
    Inverno – plantio: dezembro
    Verão – plantio: janeiro a março
  • Santa Catarina:
    Verão – plantio: janeiro a março
  • Rio Grande do Sul:
    Verão – plantio: janeiro a fevereiro 

3º Safra

Região Norte

  • Pará:
    Outono – plantio: abril a junho
  • Tocantins:
    Outono – plantio: maio a junho
    Inverno – plantio: julho

Região Nordeste

  • Ceará:
    Outono- plantio: junho
    Inverno – plantio: julho
  • Paraíba:
    Outono- plantio: abril a junho 
  • Pernambuco:
    Outono- plantio: maio a junho
    Inverno – plantio: julho
  • Maranhão:
    Verão – plantio:
    Outono- plantio: abril a junho

Região Centro-Oeste 

  • Mato Grosso:
    Outono- plantio: maio a junho
    Inverno – plantio: julho
  • Mato Grosso do Sul:
    Inverno – plantio: julho a setembro 
  • Goiás:
    Outono – plantio: abril a junho
  • Distrito Federal:
    Outono- plantio: maio a junho

Região Sudeste

  • Minas Gerais:
    Outono – plantio: abril a junho
    Inverno – plantio: julho a setembro
  • São Paulo:
    Outono- plantio: maio a junho
    Inverno – plantio: julho

Região Sul

  • Paraná:
    Verão – plantio: março
    Outono – plantio: abril e maio.

Mesmo com essas safras determinadas, sabemos que o clima tem se modificado e que nem sempre as estações estão pré-definidas. 

Por isso, é recomendada a semeadura em condições climáticas com menor probabilidade de ocorrência de estresse hídrico possível, principalmente na fase vegetativa da cultura.

Considerando que essa condição interfere diretamente na quantidade de plantas por área, tanto a escassez quanto o excesso podem contribuir para baixa produtividade da cultura.

E a tecnologia sempre pode auxiliar, como essa ferramenta desenvolvida pela Embrapa que orienta os períodos ideais de semeadura com menor risco climático e as cultivares de acordo com o ciclo.

>>Leia mais: “Irrigação de feijão: quando vale a pena investir

Como aumentar a produtividade no plantio de feijão

Os rendimentos acompanhados nas três safras são variados. E um dos fatores que contribui diretamente nesse resultado é a umidade do solo

Essa variação de produtividade pode ser resumida em dois fatores: 

  1. O plantio em épocas com bom volume de chuvas;
  2. Evitar que a colheita seja feita em períodos com maior probabilidade de ocorrência de chuvas.

Além disso, seguir o vazio sanitário estabelecido na sua região é extremamente importante. Sendo que na cultura do feijão, um dos principais motivos do vazio é em função da mosca branca – vetor do mosaico dourado e também do carlavírus, que atinge o feijão e a soja. 

Veja mais no artigo: Prepare-se na pré-safra: Como combater as principais doenças de milho, feijão e sorgo. 

E claro, temperatura ideal, condição do solo rico em matéria orgânica e adubação bem feita são muito importantes para os resultados da sua safra. 

Assim como a inoculação da cultura de feijão também é uma das práticas para desenvolvimento e crescimento das plantas. Já falamos sobre o assunto, confira aqui.

Conclusão 

Acertar na época do plantio garante maior probabilidade de redução das perdas na lavoura por intempéries. É a escolha certa para a rentabilidade dos produtores rurais!

O mercado do feijão tem apresentado muitas vantagens econômicas e o investimento no plantio da cultura tem se mostrado bem vantajoso. 

Mas vimos que para garantir boas safras, a gestão dos manejos durante o ciclo é fundamental.

>> Leia Mais:
Feijão Guandu: Como ele pode melhorar seu sistema de produção

Veja como identificar as principais pragas do feijão

Inoculante para feijão caupi: por que e como utilizar

Restou alguma dúvida sobre qual a melhor época para plantar feijão? Tem alguma dica? Deixe nos comentários abaixo!

Soja convencional: Uma opção para aumentar sua rentabilidade

Soja convencional: veja características, vantagens, diferenças de outras cultivares, mercado e resultado produtivo para sua lavoura. 

A estimativa do Imea (Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária) indica que 8% do total de soja produzida no Mato Grosso é convencional, do total de 33 milhões de toneladas produzidos no estado.

Isso porque utilizar cultivares convencionais contribui na rotação de produtos para o controle de plantas daninhas, além de ter um custo de produção mais baixo.

E sobre o portfólio de cultivares, as convencionais apresentam bons resultados produtivos e um mercado cada vez mais em ascensão para bonificações diferenciadas.

Neste artigo vou compartilhar as vantagens da soja convencional e os diferenciais dessas cultivares disponíveis no mercado. Confira a seguir!

Características da soja convencional

Uma das decisões mais importantes no planejamento da safra com certeza é a cultivar. 

E para essa escolha, a proporção continental do Brasil interfere bastante nessa decisão. Sendo que as regiões com condições climáticas tão distintas do país necessitam de cultivares diferentes, que possam apresentar bons resultados produtivos. 

São dois os tipos principais de cultivares disponíveis, as convencionais e as transgênicas

A soja convencional conta com uma tecnologia intrínseca, ou seja, sem modificação por melhoramento genético, possui tecnologia natural como ferramenta de manejo de alta resistência a doenças e alto potencial produtivo, além de também ter produtividade competitiva.

Já a soja transgênica possui alto potencial produtivo e as principais são a RR, resistente ao glifosato, e a IPRO que também possui tolerância ao glifosato e a alguns insetos como as lagartas. 

Entre os benefícios, as cultivares convencionais contribuem na manutenção da biodiversidade e, se em conjunto com a aplicação de manejo integrado, para uma maior conservação do meio ambiente. 

Além disso, atua na rotação de cultivares evitando o desenvolvimento de resistências a doenças e plantas daninhas.

Mas para isso, a qualidade da semente é importante. 

Então, lembre-se: uma semente certificada é sua melhor garantia de qualidade em atributos fisiológicos, físicos, sanitários e genéticos. 

Saiba um pouco mais no artigo Semente de soja: Principais cuidados e novas tecnologias para fazer a melhor escolha

soja convencional

(Fonte: Página Rural)

Vantagens da Soja Convencional

A cultivar deve atuar como uma ferramenta que auxilia no manejo da lavoura e, no caso das cultivares convencionais, você pode rotacionar os produtos fitossanitários de controle de plantas daninhas e pragas agrícolas. 

Além da vantagem de diminuir os custos da lavoura com o pagamento de royalties, existe a possibilidade de bonificação para esse tipo de produto, que vamos falar mais adiante. 

Mesmo não passando por um processo de melhoramento biotecnológico, como uma transgenia, os resultados de desempenho agronômico das cultivares convencionais também são competitivos.

Como exemplo, trabalhei com o teste de 13 cultivares e muitos pontos importantes foram considerados e revelados no resultado produtivo da cultivar. 

Os principais que são válidos considerar em características agronômicas:

  • Projeção de produtividade e estabilidade;
  • Grupo de maturação; 
  • Tolerância e resistência a doenças;
  • População;
  • Época de semeadura;
  • População recomendada. 

Para comparar essas cultivares e verificar as vantagens e desvantagens, foram utilizadas parcelas com o objetivo de avaliar o desempenho de cada uma, lado a lado.

Assim, foi possível verificar os dados dos vendedores de características agronômicas, descrição da semente, pacote sanitário, populações e data de semeadura de cada variedade. 

A partir daí, selecionamos as cultivares com alta adaptabilidade, média adaptabilidade e não recomendadas.

Entre os principais critérios foram considerados produtividade e estabilidade, tolerância a doenças, grupo de maturação, composição e altura do grão – que são as principais características varietais que devem ser ponderadas, engalhamento, acamamento, ciclo e nós viáveis. 

Com os resultados de desempenho agronômico deste teste foi decidido qual das cultivares seria colocada no próximo ano em uma parcela de hectares e, caso os resultados na próxima safra fossem mantidos, seria plantada em um grande talhão. 

Esse procedimento garantiu confiabilidade da adaptação e do desempenho da cultivar em nossas condições.

Diferenças entre soja convencional, Intacta e soja RR

Somente a partir de 2005 que a produção de soja transgênica foi liberada no Brasil. 

Nas cultivares transgênicas como RR ou IPRO (soja Intacta) são utilizados produtos do grupo dos glifosatos no manejo fitossanitário. 

Agora nas cultivares convencionais, você terá que utilizar produtos para folhas largas e produtos para folhas estreitas, sendo que isso pode ser uma grande vantagem.

Se considerarmos que 25% das perdas nas lavouras são por conta das plantas daninhas que estão apresentando mais resistência, a utilização de outros tipos de produtos fitossanitários vão auxiliar no manejo integrado. 

A mudança do manejo fitossanitário pode contribuir e muito com os resultados da sua área.

Como essas cultivares interferem nos resultados

Os resultados produtivos são iguais aos das cultivares transgênicas no quesito produtividade. As cultivares convencionais também são resistentes a nematoides como os cistos – que são mais comuns em áreas arenosas.

Veja esta lista de cultivares disponíveis no mercado que você pode verificar as recomendações agronômicas para a sua região:

  • BRS 7980 da Embrapa;
  • Cultivar BRS 8381 da Embrapa;
  • BRS 8581 da Embrapa;
  • BR 284 da Embrapa;
  • Brs 6680 da Embrapa;
  • 4182 da Amaggi/TMG;
  • ANsc83 022 da Agronorte; 
  • BRS pintado da Amaggi;
  • TMG 4185 da TMG;
  • W870 (Bayer) do Agrobom;
  • Msoy 8757 da Monsoy;
  • M 8866 da Monsoy;
  • FTS 4188 CV da FT.

Você também pode verificar as opções de cultivares de soja convencional no site da Embrapa, de acordo com sua localização. 

soja convencional

Cultivares por Região Edafoclimática (REC)
(Fonte: Embrapa Soja) 

Mercado da soja convencional

O mercado tem aumentado a demanda por soja convencional. Existem tendências que os animais na União Européia sejam alimentados exclusivamente com grãos não geneticamente modificados, segundo o relatório do Global Protein Ingredients.

Também há iniciativas como o Programa Soja Livre, uma parceria da Aprosoja Mato Grosso e da Embrapa para o fortalecimento e o desenvolvimento do mercado para a soja. O objetivo é que os produtores tenham poder de escolha por meio de conteúdos e dias de campo para repassar informações sobre as tecnologias das cultivares convencionais. 

Assim como o Centro de Difusão e Aprendizagem (CAD) – Parecis que tem promovido mostras dos campos experimentais com as sojas convencionais.  

A venda como soja convencional e sua bonificação é condicionada a todo o cuidado realizado durante o manejo, pois não é permitido a contaminação por soja transgênica.

Por isso, as práticas de limpeza do maquinário desde a plantadeira, colheitadeira e caminhões é muito importante.  

Vale lembrar que boas práticas tecnológicas como a inoculação e o manejo integrado de pragas fazem toda a diferença nos seus resultados produtivos.

planilha de produtividade da soja

Conclusão

As cultivares convencionais podem proporcionar um maior valor agregado ao produto e também contribuir em um manejo mais integrado da sua lavoura pela rotação de produtos.

Os custos de produção são altos e, por isso, vimos que realizar a escolha de uma cultivar que tenha alta produção e estabilidade é fundamental. 

O grande diferencial sempre é a compatibilidade de diferentes táticas para o sucesso da lavoura. 

E você, qual cultivar de soja convencional utiliza na sua lavoura? Ficou com dúvidas? Deixe o seu comentário abaixo. 

Adubo orgânico e seu uso na agricultura de larga escala

Adubo orgânico: benefícios para a lavoura, produtos mais utilizados e recomendações de cálculo para alcançar o melhor resultado.

A agricultura do futuro deve ser produtiva e consciente para suprir a demanda de alimentos no mundo. E esse duplo desafio significa que temos muito que evoluir em nossas práticas de campo. 

Por isso, atividades como a adubação orgânica, por exemplo, podem fazer muita diferença nos plantios.

Saiba como incluir essa prática em larga escala na sua lavoura para melhorar a fertilidade do solo. Confira!

O que é adubo orgânico?

O adubo orgânico consiste no uso de resíduo de diferentes origens sobre o solo. Podem ser de fonte animal (esterco de bovino, aves, suínos, etc.), vegetal (adubos verdes e coberturas mortas) ou outras origens como resíduos urbanos (lixo sólidos e outros resíduos como lodo); resíduos industriais (cinzas e outros); compostos orgânicos (vermicomposto); biofertilizantes (enriquecidos ou não); e adubos orgânicos comerciais.  

O objetivo de sua utilização é melhorar as propriedades físicas, químicas e biológicas dos solos, indo além de ser somente um suprimento de nutrientes.

Entre seus componentes estão grandes quantidades de carbono, mas também N, P, K, Ca, Mg e micronutrientes.

Qual a diferença entre adubos e fertilizantes orgânicos?

Diferente dos adubos ou insumos de síntese química, que já estão disponíveis às plantas logo após a aplicação sobre o solo, os adubos orgânicos podem ser disponibilizados de forma mais gradual.

Os adubos orgânicos passam pelo processo de digestão ou mineralização por bactérias, fungo, actinomicetos, protozoários, algas, além de insetos e suas larvas. 

Essa intensa digestão libera N, P, K, Ca e Mg, deixando a forma orgânica imobilizada para a forma de nutrientes mineralizados, ou seja, disponíveis.

Os adubos orgânicos passam por um importante processo que é a mineralização. Esse processo ocorre através da transformação enzimática microbiológica, que promove a liberação de nutrientes e sua disponibilidade às plantas. 

E isso é a chave para que você escolha o momento da aplicação, pois a disponibilidade é mais gradual e deve ser planejada previamente.

As origens dos materiais influencia nesse processo pois, por exemplo, materiais mais ricos em nitrogênio possuem mais rápida decomposição, com liberação como amônia. 

Já materiais menos ricos em nitrogênio decompõem-se mais lentamente, liberando pouco nitrogênio e, ao final, gerando maior porção de húmus. 

Mineralização dos adubos orgânicos

Basicamente, esse é o processo da transformação de uma matéria orgânica em uma substância inorgânica. 

E ele é muito influenciado pelo suprimento de oxigênio, pelas próprias características do material orgânico e condições ambientais as quais são submetidos. 

fertilizantes organicos

(Fonte: Embrapa)

Esse processo também é influenciado pela relação carbono-nitrogênio. 

Relação C/N

O carbono e o nitrogênio são extremamente importantes para a decomposição dos fertilizantes orgânicos. Dependendo do valor da relação entre carbono e nitrogênio (C/N) a eficiência desse processo muda.

Considerando que a relação C/N da microbiota decompositora é de cerca de 10:1, e que sejam liberadas duas moléculas de CO² para cada carbono incorporado à biomassa microbiana, a mineralização de N pode ocorrer com a adição de resíduos com relação C/N menor que 30. 

Isso porque, uma relação C/N alta diminui a velocidade do crescimento da microbiota do solo, já que não será possível degradar todo o carbono presente no resíduo pela falta de N.

fertilizantes orgânicos

(Fonte: Agraer)

A palha de cana tem relação C/N (carbono por nitrogênio) de 80, enquanto que o lodo doméstico tem essa relação com valor 10. 

Benefícios da adubação orgânica

O adubo orgânico traz diversos benefícios ao ser utilizado em campo, tais como o aumento da capacidade de retenção de água por parte das plantas e melhoria da agregação do solo, da estrutura. Além disso, contribui também para:

  • Redução da plasticidade e coesão;
  • Amenizar a variação da temperatura do solo;
  • Aumentar a capacidade de troca catiônica;
  • Aumentar o poder tampão;
  • Compostos orgânicos atuam como quelato, maior capacidade de complexação;
  • Matéria orgânica em decomposição é fonte de nutriente;

5 tipos de adubos orgânicos para usar na lavoura

1. Vinhaça

Resíduo da indústria sucroalcooleira, a vinhaça é produzida na proporção de 10 a 13 litros para cada litro de álcool. 

Esse material é rico em potássio, possuindo diferentes concentrações de acordo com o material de origem (mosto).

Além disso, existem estudos sobre os efeitos alelopáticos em espécies de plantas daninhas, através do ácido aconítico (AA) liberado. 

A Embrapa tem feito estudos em relação a esse potencial do AA e sua atuação no período de sobrevivência das sementes de espécies daninhas, maiores até mesmo que aqueles obtidos com o uso de herbicidas.

2. Torta de filtro

A torta de filtro também é um resíduo da indústria sucroalcooleira. É constituída de 1,2% a 1,8% de fósforo e cerca de 70% de umidade,  alto teor de cálcio e consideráveis quantidades de micronutrientes.

A torta pode, em condições específicas, substituir as aplicações de fertilizante fosfatado, pois cerca de 50% do fósforo da torta pode ser considerado prontamente disponível.

Para cada tonelada de cana processada são gerados, em média, 30 kg de torta, que é resultado da clarificação do caldo obtido em moenda. 

Quando o caldo recebe a solução de hidróxido de cálcio e enxofre, favorece a elevação do pH e promove a floculação das substâncias orgânicas.

Ela também é um material muito rico para o processo de compostagem. 

3. Bokashi 

O bokashi (do japonês, matéria orgânica fermentada) é um adubo fermentado composto de diversas fontes. Além de ser rico em nutrientes, contribui no aumento da diversidade de microrganismos que vivem no solo. 

4. Dejetos

Os resíduos da produção animal são muito grandes e podem ser reaproveitados nas lavouras. Na produção de suínos, por exemplo, são produzidos em torno de 35 a 40 litros/dia por matriz e, em terminados, de 13 a 15 litros/suíno/dia. 

Nos bovinos de leite, a produção de esterco e urina é de 45 a 48 kg/vaca/dia, o que representa 10% de seu peso corporal. 

Nos bovinos de corte, esse número fica em torno de 30 a 35 kg/cabeça/dia.

5. Compostos

Esse é o adubo orgânico mais disponível no mercado. Pode ter diferentes fontes tanto vegetal como animal que passaram pelo processo também fermentativo.   

Recomendação dos adubos orgânicos

Os adubos orgânicos seguem recomendações gerais a partir do tipo de cultura, conforme as exigências delas e composição do adubo. 

Veja abaixo uma tabela genérica de composição de algumas fontes de adubos: 

fertilizantes organicos

(Fonte: Manual Internacional de Fertilidade do solo)

É importante que os adubos orgânicos não sejam provenientes de resíduos contaminados por metais pesados e componentes químicos tóxicos.

Eles precisam ser homologados pela legislação e regulamentados por entidades certificadoras de agricultura orgânica, tanto em nível nacional, quanto internacional.

Por isso, o processo de maturação dos adubos orgânicos é muito importante.

Cálculo para recomendação correta do adubo orgânico

As recomendações de doses podem seguir a lógica de cálculo:

Taxa de aplicação: N recomendado para a cultura (kg/ha) / N disponível do fertilizante orgânico (Kg/ t). 

Saiba mais sobre esse cálculo neste vídeo:

Como calcular adubação orgânica? COMPLETO
Banner para baixar o kit comparativo de custos de safra

Conclusão

O uso de fertilizantes orgânicos nas lavouras faz muita diferença na produção, pois contribui sobremaneira na qualidade do solo.  

Neste artigo, falamos um pouco sobre os benefícios desses adubos e como eles podem contribuir para o aumento da produtividade.

Mostramos as opções mais utilizadas e disponibilizamos um cálculo para as recomendações de dose de forma generalista.

Espero que você encontre uma fonte mais viável financeiramente, desde que seja um produto de qualidade, e insira os adubos orgânicos na sua lavoura!

>> Leia mais:

Fertilizantes para plantas: Tudo que você precisa saber para aumentar a eficiência
Fertilizantes NPK: Como obter alta eficiência das fórmulas comerciais

“Por que fertilizantes organominerais são uma alternativa interessante para sua lavoura”

Você já tentou utilizar adubo orgânico na sua propriedade? Compartilhe suas experiências nos comentários!


Solo argiloso: o que muda no seu manejo

Solo argiloso e suas especificidades: características, diferentes tipos e recomendações para o melhor manejo.

Um bom planejamento agrícola começa com a identificação das necessidades de seu solo. 

É a análise dele que nos ajudará no caminho para uma boa safra e manejo.

Mas não são só as necessidades e qualidades químicas de um solo que decidem sua produção. As características físicas desse solo fazem muita diferença.

Neste artigo, falamos sobre o solo argiloso e as orientações de como manejá-lo da melhor maneira. Confira a seguir! 

Diferentes tipos de solo

Solo é formado basicamente de silício, hidrogênio, oxigênio, alumínio e magnésio. Do Oiapoque ao Chuí, os solos são extraordinariamente variados e heterogêneos.

A espessura, a cor e a diferenciação em horizontes, por vezes, mudam em alguns metros de distância em função da natureza do substrato rochoso; do declive; da vegetação; e de seu uso pelo homem. 

Os solos brasileiros são altamente intemperizados, com mineralogia da fração argila composta de caulinita e óxidos de ferro e de alumínio.

O tipo de solo interfere nos componentes físicos, químicos e biológicos, sendo eles:

Físicos Agregação 

  • Densidade do solo; 
  • Infiltração de água; 
  • Retenção de água; 
  • Umidade do solo; 
  • Temperatura do solo; 
  • Profundidade do sistema radicular;
  • Textura do solo. 

Químicos 

  • C e N orgânicos; 
  • pH; 
  • Condutividade elétrica; 
  • N inorgânico (NH4 e NO3); 
  • P e K; 
  • Mineralogia. 

Biológicos

  • Biológica biomassa microbiana (C e N); 
  • N e C mineralizável; 
  • Respiração do solo, simbiose (rizóbio, micorriza); 
  • Relação de fungo bactéria; 
  • Dinâmica da água. 

O estado da superfície do solo indica o grau de estabilidade da estrutura e conservação do solo. 

É com um diagnóstico da superfície e subsuperfície (0-20 cm e 20-40 cm) que você poderá avaliar se ele suportará o impacto das chuvas, aquecimento e ressecamento pelo sol, pressão das máquinas ou pisoteio dos animais. 

O que é um solo argiloso?

Também conhecido como “solo pesado”, o solo argiloso é composto por mais de 30% de argila. 

Primeiro, é importante entendermos melhor o que é a argila: uma partícula de rocha com tamanho inferior a 2 µm (micrômetros). Ou seja, um cristal de rocha, bem menor que um grão de areia. 

E, dependendo da quantidade desse tipo de material, ele interfere em características do solo. A argila promove estabilização química e proteção física do solo.

Esses solos são bastante utilizados na agricultura por reterem mais nutrientes, devido à menor lixiviação, e maior quantidade de água em relação aos solos arenosos.

Ele também é utilizado para fabricação de objetos feitos de cerâmica, como tijolos e telhas.

Características do solo argiloso

  • Teores de argila acima de 30%;
  • Solos profundos; 
  • Transição difusa entre camadas A e B, com formação de grãos pequenos e compactos; 
  • Quantidades de óxidos de ferro e alumínio;
  • Maior capacidade de retenção de água, mas não necessariamente essa água está mais disponível para as plantas em crescimento;
  • Mais resistente à erosão;
  • Maior possibilidade de compactação

Outra característica importante desses solos é que, quando o teor de argila é muito alto, e após a chuva intensa, o solo pode ficar encharcado rapidamente. 

Tal situação compromete a circulação do ar entre os poros, prejudicando o desenvolvimento da planta.

Diferentes tipos de argila

Existem dois tipos principais de argilas que é importante que você conheça: a argila 1:1 e 2:1. Elas fazem diferença no tipo aptidão do solo e nos manejos que você pode conferir a eles.

Os principais argilominerais 1:1 são: caulinita, gibbsita, goethita e a hematita. Elas são compostas por argilominerais organizados estruturalmente em uma camada de tetraedros de silício, seguida de uma camada de octaedros de alumínio.

Os principais argilominerais 2:1 são: esmectita e vermiculita. Elas são compostas por argilominerais estruturalmente formadas por uma camada de octaedros de alumínio entre duas camadas de tetraedros de silício.

Solos com argila 2:1 possuem maior CTC pelo arranjo estrutural que permite maior entrada de água e nutrientes nas entrecamadas, promovendo uma alta saturação por bases e ótima fertilidade natural.

E ele interfere de forma geral na fertilidade do solo. No blog, nós mostramos como realizar a gessagem de acordo com o teor de argila do solo. Confira: “Gesso agrícola: como utilizar da melhor forma e elevar a produção

Coloides em solo argiloso

Coloides são os principais responsáveis pela atividade química do solo. 

Em geral, os coloides argilosos excedem o número de coloides orgânicos do solo. Todos os coloides apresentam uma carga negativa, ou seja, eles podem reter ou atrair cargas positivas. 

Potássio, sódio, hidrogênio, cálcio e magnésio possuem carga positiva. Desse modo, nesse tipo de solo, menor é a lixiviação de nutrientes em comparação com solo arenoso.

solo argiloso

Atração dos cátions pelos colóides do solo; ânions são repelidos 
(Fonte: Nutrição de safras)

3 dicas para melhorar seu manejo em solo argiloso

Avaliação da umidade

O solo argiloso faz bem o serviço de acumular água. Por isso, é importante avaliar o grau de umidade para as operações mecânicas que serão realizadas neste solo.

Poucas culturas gostam de solos inundados, exceto o próprio arroz irrigado. 

É importante avaliar questões como a necessidade de criação de drenagem ou até mesmo terraceamento dependendo da área. 

Conheça sua CTC

Os teores de argila interferem nos diferentes tipos de solos. 

Em geral, um solo argiloso possui alta capacidade de troca catiônica (CTC), além de baixo potencial de lixiviação.

A CTC das argilas atuam também muito positivamente em:

  • Adsorção de metabólicos tóxicos;
  • Adsorção de antibióticos;
  • Imobilizam cátions orgânicos;
  • Catalisam síntese não biológicos;
  • Protegem os micróbios fisicamente.
CTC

(Fonte: Manual Internacional de Fertilidade do solo)

solo argiloso

(Fonte: Blog do Aegro adaptado de Reinert e Reichert)

Dinâmica dos elementos no solo argiloso

Algo importante de se lembrar é que a quantidade de nutrientes presentes no solo não indica necessariamente que eles estejam ou não disponíveis.

O fósforo, por exemplo, se movimenta menos em solos argilosos, sendo que somente se movimenta nesse cenário por intemperização dos minerais ou por adubação.

A classe de fertilidade é determinada pela porcentagem de argila ou pelo P-remanescente (capacidade de adsorção de P do solo, isto é, o quanto do P aplicado é retido pelas argilas do solo).

A lixiviação de sulfato é menor no solo argiloso. Há menos problema de deficiência de cobre. Em geral, também possuem maior quantidade de zinco.

O solo argiloso, em comparação com solos arenosos, sem adição de matéria orgânica, tende a reter mais os nutrientes; mas, se mal manejado, os nutrientes não ficam disponíveis para as plantas, principalmente se o solo estiver compactado. 

Problemas do solo arenoso para agricultura   

Todos os solos apresentam problemas para a agricultura, caso não sejam manejados adequadamente.

Para os arenosos um dos principais problemas encontrados é a maior possibilidade de compactação.

A compactação em solo argiloso é maior em comparação com solos arenosos, pois apresenta microporosidade maior e, quando um maquinário passa, expulsa o ar dos poros e rearranja as partículas, causando a compactação.

Por esse motivo, o solo argiloso não é a preferência do produtor rural para a produção de tubérculos, raízes e rizomas, devido à danificação que pode ocorrer caso o solo esteja muito seco.

Outra característica importante desse tipo de solo é que, quando o teor de argila é muito alto, o solo pode ficar encharcado rapidamente após chuva intensa.

Essa situação é problemática, pois compromete a circulação do ar entre os poros, prejudicando o desenvolvimento das raízes e da planta.

Como o solo argiloso apresenta alto teor de ferro e alumínio, a toxidez por alumínio ocorre com maior frequência, necessitando de correção.

>> Leia mais: “Resistência do solo à penetração: entenda as causas e como evitar sua ocorrência”

Principais solos argilosos encontrados no Brasil 

Argissolo

O solo mais argiloso encontrado no território brasileiro é o argissolo.

Solo com maior teor de argila nos horizontes superiores, com presença predominante de  argilas de atividade baixa (caulinita) e/ou óxidos. Aproximadamente em 25% da superfície do território brasileiro se encontra esse tipo de solo. 

argissolo

(Fonte: Embrapa)

Chernossolo

É um solo rico em argila e matéria orgânica no horizonte superficial, com predominância de argila 2:1. São férteis e ocupam 0,5% do território nacional. 

chernossolo

(Fonte Embrapa)

Nitossolo 

É um solo com boa presença de argila em todo o perfil em profundidade. Esse tipo de solo, conhecido pelo nome terra roxa. É mais comum nos estados do Sul do país, mas também pode ser encontrado em São Paulo.

São considerados ótimos solos para a atividade agrícola. Mesmo argilosos, são profundos, bem drenados, estruturados e moderadamente ácidos.

nitossolo

(Fonte: Embrapa)

Vertissolo

São os solos formados de, aproximadamente, um terço de argila. Possuem uma boa fertilidade química, relacionados aos calcários e sedimentos argilosos ricos em cálcio, magnésio e rochas básicas, mas apresentam problemas de natureza física, como baixa permeabilidade. 

vertissolo

Solos que recebem mais calagem produzem mais resíduos das culturas
(Fonte: Embrapa)

Conclusão 

O solo argiloso possui grandes vantagens pelo armazenamento de água e nutrientes que proporcionam.  

Neste artigo, abordamos os tipos de solo existentes no Brasil, suas características e as principais orientações para manejá-los.

Sabendo considerar fatores como a umidade e fertilidade, o solo argiloso se torna facilmente organizável e manejável.

>> Leia mais:

Solo humífero: vantagens e desvantagens de utilizar para plantio

Fatores que tornam seu solo mais fértil
Rochagem: Como essa prática pode beneficiar sua lavoura
Estratégias para plantar em solo arenoso

“Por que a mucuna-preta pode ser uma opção vantajosa para adubação verde”

Você tem experiências com solo argiloso e seu manejo? Compartilhe conosco nos comentários!

Carina Oliveira Redatora


Atualizado em 28 de agosto de 2023 por Carina Oliveira

Sou engenheira-agrônoma formada pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), mestre em Sistemas de Produção (Unesp), e doutora em Fitotecnia pela Esalq-USP.

Milheto: como cultivar e suas vantagens para a agropecuária

Milheto: melhores épocas para plantio e semeadura para seu uso como cobertura ou pastejo, além de outras dicas para melhorar a produtividade do cereal!

Seja como planta de cobertura no plantio direto, adubação verde ou pastejo, o milheto vem sendo cada vez mais requerido no Brasil.

Entre suas características estão a baixa necessidade de fertilidade e resistência à seca. Tem boa produção de matéria seca e alto potencial como planta descompactadora de solo.

Mas você sabe quais são as melhores condições para cultivo desse cereal?

Neste artigo vamos falar sobre as características de plantio, diferentes cultivares e outras dicas para melhor produtividade. Confira a seguir!

Milheto: para que serve?

O milheto Pennisetum glaucum tem origem do deserto do Saara, na África, e foi levado para a Índia em torno de 2.000 a.C. 

Ainda é nessa região da África ocidental em que ocorre o cultivo de 50% do total mundial de milheto, sendo muito utilizado para alimentação humana. 

O milheto é uma planta da família das gramíneas, que pode ser utilizado com finalidade de:

  • produção de grãos para alimentação humana;
  • produção de forrageamento para os animais;
  • produção de palhada em sistemas integrados e plantio direto.

Comparado ao milho e sorgo, o milheto requer mais calor para germinar, se estabelecendo de maneira uniforme e proveitosa.

No sistema de plantio direto, contribui devido a seu desenvolvimento em condições de baixo nível de fertilidade, tendo ainda alta resistência à seca. 

Além disto, os nutrientes extraídos pela planta permanecem na palhada, favorecendo a cultura subsequente.

E ela tem, em especial, a característica de ter uma raiz profunda, o que promove uma elevada capacidade de extração de nutrientes.

Seu cultivo demanda pouca aplicação de insumos, o que reduz o custo de produção. 

milheto

(Fonte: Tecnoshow Comigo)

Épocas de plantio do milheto com diferentes finalidades 

O milheto como cobertura de solo para o sistema plantio direto, se recomenda a semeadura na safrinha, após a colheita do milho ou da soja, no período que vai do final de janeiro até meados de abril. 

Quanto mais precoce o plantio na safrinha , maior  é a produção de massa verde e grãos. 

Não se esqueça também que as sementes exigem boas condições de umidade e temperatura de solo, variando entre 18℃ e 24℃, necessárias para uma boa germinação.

Em setembro é a época de dissecá-lo do sistema, antes da semeadura do milho ou da soja em novembro.

Se a finalidade for para a produção animal, o ideal é que o plantio ocorra na primavera, até outubro. Isso porque é neste momento em que ocorrem as primeiras chuvas e o ambiente está ideal, com temperatura de 20℃, além de haver umidade suficiente para a emergência. O pastejo pode ser iniciado de 80 a 150 dias depois. 

Caso o plantio seja realizado em outra época, como início do verão, o período do pastejo varia de 50-100 dias. Caso ocorra no início de outubro, isso varia de 40 a 60 dias.

A semeadura pode ocorrer em linha ou a lanço. 

Na semeadura a lanço da planta, usada neste caso como forrageira para pastejo, são recomendados de 18 kg a 20 kg de semente/ha, com espaçamento de 20 cm a 30 cm entre linhas. 

Na semeadura a lanço para a produção de grãos de milheto, sementes ou silagem, o recomendado é de 12 kg a 15 kg/ha, com espaçamento entre linhas de 40 cm a 60 cm.

Caso a semeadura seja a lanço, recomenda-se 20% a mais de sementes/ha

Cultivar de milheto 

A cultivar BRS 1503, da Embrapa, é boa opção para produção de grãos, forragem e  palhada de alta qualidade. 

Ela tem crescimento rápido e alta capacidade de rebrota, além de tolerância ao acamamento 

Milheto como silagem para a alimentação animal

Na América, especialmente no Brasil, o milheto começou a ser usado como forrageamento, tanto para pecuária de corte como de leite.

É uma cultura altamente produtiva, com potencial de produção de até 50 toneladas por hectare de massa verde e aproximadamente 15 toneladas de hectare de matéria seca, quando cultivado nos meses de setembro e outubro. 

O milheto tem sido cada vez mais requerido para formulação de rações de aves e suínos. Nestes casos, além de ampliar as fontes de componentes para a ração, tem como característica não apresentar efeitos antinutricionais como taninos e cianogênicos. 

Seu teor de energia metabolizável é similar ao dos demais grãos energéticos utilizados na alimentação animal. Sua fonte de proteína bruta é maior que a do milho e semelhante a do sorgo. Veja na tabela abaixo:

milheto

(Fonte: Embrapa)

Estudos indicam que, em condições de pastejo em animais de recria, proporciona ganhos de até 600 gramas de peso vivo/dia. Isso equivale a 20 arrobas por hectare em cinco meses. 

Assim, para a produção de silagem, o milheto pode substituir o milho ou o sorgo, com vantagens em produtividade e qualidade, quando cultivado em safrinha ou tardiamente.

milheto para pastejo

Milheto forrageiro tem alto teor de proteína e nutrientes

(Fonte: Milkpoint)

Outras características do milheto

O milheto possui um sistema radicular vigoroso, que pode chegar a até 3 metros de profundidade. 

Isso contribui muito na ciclagem de nutrientes e acúmulo na camada superior do solo de substâncias como cálcio, potássio e nitrogênio. 

Por isso, estudos estão sendo feitos sobre o seu uso no controle de nematoides

Além disto, a rebrota após o corte ou pastejo é bem vigorosa. 

milheto

(Fonte: Instituto Federal Goiano)

O milheto é excelente para produção de palhada, chegando a produzir, dentro de 30-40 dias, 50 toneladas de massa verde.

Uma de suas vantagens é a baixa exigência hídrica: 300 gramas de água para cada grama de matéria seca. Para se ter ideia, o milho necessita de 370 gramas e o sorgo de 321 gramas de água.  

A produção de matéria verde do milheto sem adubação pode variar de 20t a 70t/ha. 

Já em relação à produção de milheto para alimentação humana, uma curiosidade: a farinha feita a partir dos grãos do milheto é base alimentar na Índia e África – é usada de forma bem semelhante à farinha de trigo no ocidente. Devido a seu alto valor nutritivo, é considerado um alimento funcional.

Também tem sido utilizado na produção de biomassa para biocombustíveis, através de bioenzimas especiais.

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Conclusão 

O milheto é uma cultura de multifuncionalidades, desde a produção de grãos ao sistema de plantio direto.

Neste artigo, discutimos as melhores épocas para plantio conforme sua finalidade e também como fazer a semeadura.

Abordamos ainda as características dessa cultura em comparação ao milho e ao sorgo.

A utilização do milheto pode ser uma grande vantagem, principalmente no avanço do plantio direto. Mas, lembre-se que o fator determinante será o planejamento

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Você já teve alguma experiência com plantio de milheto? Restou alguma dúvida? Adoraria ver seu comentário!

Nematoide de cisto: Como afeta sua lavoura e o que fazer para se livrar dele

Nematoide de cisto: Como identificar esse micro-organismo na sua área e fazer o controle de forma adequada para evitar prejuízos.

Nematoides não são um tema fácil quando se fala de lavouras. Sua presença pode causar perdas significativas na produção de soja e e, além do prejuízo direto, eles também contribuem de diferentes modos para outras doenças.

O nematoide de cisto, por exemplo, é uma das maiores dores de cabeça na lavoura de soja. E como identificar sua presença na área? Qual a forma de controle ideal?

Nesse artigo, vou mostrar como você pode se livrar desse fitonematoide em sua lavoura. Confira a seguir! 

Nematoide de cisto: Heterodera glycine 

O nematoide de cisto (Heterodera glycine) é um endoparasita com ciclo de vida que dura em torno de 21 a 23 dias, com 4 fases ou ecdises. Na segunda fase do ciclo juvenil, ele realiza infestação nas raízes. 

São as fêmeas que completam o ciclo e permanecem dentro da raiz, após fertilizadas, produzindo e armazenando ovos no interior de seu corpo que, após a sua morte, se altera, se tornando rígido e quimicamente adquirindo coloração marrom. 

Essa estrutura possui cerca de 500 ovos que, mesmo sem a presença de hospedeiro, podem permanecer viáveis por até 7 anos.

nematoide de cisto

(Fonte: Nematoide Brasil)

O nematoide Heterodera glycine ou nematoide de cisto (NCS) possui de três a seis gerações por ano.

As fêmeas têm de 0,4 mm a 0,8 mm de comprimento, com formato de limão, ligeiramente alongado. Já os machos possuem de 0,6 mm a 1,6 mm de comprimento, vermiformes com cauda arredondada.

As condições ótimas para seu desenvolvimento são temperaturas entre 23℃ e 28℃, cessando com temperaturas inferiores a 14℃ ou superiores a 34℃. Condições nada difíceis em nosso país tropical, não é mesmo? 

Ocorrência e sintomas do nematoide de cisto

O nematoide de cisto foi identificado pela primeira vez na região do Cerrado, nas lavouras de soja, na safra de 1991/92. Hoje, estima-se que esteja presente em milhões de hectares no Brasil.

É característico desse nematoide que os sintomas apareçam em reboleiras, com plantas de baixo crescimento, com clorose, nanismo, raquíticas e com amarelamento.

O amarelecimento causado por NCS ocorre na época de florescimento da cultura da soja.

Ele se diferencia do ocorrido por deficiências nutricionais, como de ferro, pois essas aparecem mais cedo no ciclo da cultura. 

Mas o diagnóstico definitivo sempre exige observação do sistema radicular, que fica reduzido e infestado, apresentando minúsculas fêmeas brancas do nematoide.

nematoide de cisto

Sistema de raízes fica reduzido e infestado por minúsculas fêmeas do nematoide de cisto da soja (A); fêmeas maduras e cistos (B); cisto rompido com ovos (C); 

(Fonte: Luiz Ferraz e Derek Brown)

Identificação do nematoide de cisto

Se tem uma coisa que não se pode deixar passar para identificar nematoides é a análise de solo. Ela é a base para identificar qual espécie está atacando a lavoura.

O período da entressafra é um bom momento para realizar essa análise. Você também pode fazer a análise das raízes de plantas daninhas que, na maioria das vezes, são hospedeiras dos nematoides.

A amostra habitual da análise de solo da sua lavoura pode ser utilizada para a análise de nematoides. Aqui no blog nós já falamos sobre isso na matéria: “Tudo o que você precisa saber para acertar na escolha do laboratório de análise de solo.”

Disseminação

A movimentação de nematoides no solo é bastante limitada. Com o manejo de muitas áreas, somos responsáveis por boa parte da disseminação dos nematoides entre elas.

Um cuidado muito importante para evitar a disseminação é a limpeza do maquinário

Assim, evitamos a disseminação de nematoides. Além de que, iniciar pelas áreas limpas ou mais sadias, sempre é a melhor opção.

Manejo do nematoide de cisto

Uma vez presente na região, é muito difícil a eliminação da população de nematoides. Por isso, o  foco aqui é quebrar o ciclo dele. 

Cultural

Rotação de culturas é vantajosa em vários aspectos para a sua lavoura, desde que sejam espécies não hospedeiras do nematoide.  

Nesse sentido, as crotalárias são uma das melhores opções no controle dos nematoides. 

Suas raízes exercem a função de armadilha, permitindo a penetração de nematoides jovens que não conseguirão se desenvolver até a fase adulta na planta hospedada. 

Aqui no blog falamos recentemente sobre “Como a crotalária controla nematoides em sua lavoura”.

Além disso, elas contribuem como massa verde e também na fixação biológica de nitrogênio atmosférico. Isso ajuda no aumento do fornecimento de carbono fotossintetizado para fungos e bactérias.

Outras plantas que podem ser utilizadas são a braquiária e o milheto, com foco na produção de matéria orgânica, favorecendo outros micro-organismos com hábitos alimentares diferentes, diminuindo, assim, os fitonematoides.

nematoide de cisto

Sintomas do nematoide de cisto aparecem em reboleiras, com amarelamento. Em muitos casos, plantas acabam morrendo

(Fonte: Revista Globo Rural)

Nematicidas biológicos e químicos

Os produtos biológicos têm apresentado ótimos resultados a campo, atuando por competição ou predação dos nematoides.

Eles ainda permanecem por mais tempo no ambiente e contribuem para toda a vida biológica do agrossistema.

Essa modificação da rizosfera favorece a alteração da suscetibilidade do hospedeiro. 

Os principais agentes biológicos utilizados são: 

  • Pochonia chlamydosporia
  • Pausteria nishizawae
  • Paecilomyces lilacinus

O tratamento pode se dar de forma direta ao solo e também na forma de tratamento de sementes para combate e controle preventivo.

No tratamento de sementes, o uso de produtos biológicos e até mesmo químicos para controle de nematoides tem intuito de promover o desenvolvimento radicular inicial, permitindo que a planta se estabeleça. 

Cultivares resistentes 

Existem no mercado algumas opções de cultivares de com resistência ao NCS. A maioria é resistente às raças 1 e 3. Além disso, é muito importante você avaliar se essa cultivar é precoce ou tardia para que se encaixe no seu planejamento

A Embrapa, que tem o maior banco de germoplasma de soja tropical do mundo, lançou recentemente a cultivar BRS 7581RR. Ela é resistente a quatro raças: 1, 3, 5 e 14 do nematoide do cisto da soja (NCS). É uma cultivar RR precoce de ciclo médio de 85 a 117 dias.

Os silicatos também têm se apresentando como uma alternativa, atuando como indutor químico de resistência. 

Conclusão

Muitas das estratégias de controle de nematoides podem servir como prevenção e contribuir muito na qualidade da lavoura como um todo. 

Desde o uso de mais rotação de culturas e plantio direto ao uso de microrganismos..

Desse modo, você vai aos poucos se livrando dos fitonematoides e estabelecendo uma lavoura mais sã e produtiva. 

>> Leia mais:

Como controlar nematoide das galhas de uma vez por todas

Nematoides na cana-de-açúcar: Como reconhecer e manejar

“Como identificar e fazer o manejo adequado da podridão vermelha da raiz da soja”

Você já teve problemas com o nematoide de cisto na sua área? Como fez o manejo? Compartilhe suas experiências nos comentários!